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Quando esta tal de internet era só mato, cada um de nós carregava a sua própria enxada contra tiriricas, dentes-de-leão e outras ervas que passarinho não fuma. Tateávamos o teclado como quem pisoteia ovos de avestruz — não sabíamos o potencial do estrago, tampouco que de dentro de algumas dessas cascas nasceriam serpentes prontas a nos atacar.

Sempre fomos mais burros do que o normal, enquanto humanidade, mas naquele enorme matagal ponto com ponto be erre julgávamos sagazes, audazes, capazes.

Eram pouquíssimas as regras, muito menos do que o necessário. Uma delas, contudo, costumava ser respeitada em qualquer comunicação escrita, fosse e-mail, fosse chat no defunto mIRC: a regra da caixa alta.

Escrever em CAIXA ALTA era, sabíamos todos, o equivalente digital de berrar. Não era metáfora, era convenção. Um pacto civilizatório mínimo do qual éramos signatários implícitos: podíamos estar errados, mas errávamos resignados às minúsculas. E isto era bom.

Havia um constrangimento digital-social. O cara chegava no chat do Zás escrevendo em caixa alta? Pronto: já ficava parecendo aquele sujeito que entra de chapéu na balada, coçando o saco, palitando os dentes e batendo na mesa. Não era preciso se preocupar. Ele seria deixado de lado, baforando sua cachaça em solilóquios intranquilos.

Só que o mato foi crescendo. Onde era só uma tiririca, logo brotaram algoritmos. Vieram os feeds, as timelines e, fertilizados por um produto chamado redes sociais, uma horda de políticos entendeu que ali havia adubo suficiente para o ecossistema. Se há adubo, há merda — com o perdão do palavrório a esta hora.

Novidade, cumpre-me ressaltar: esses políticos passaram a ter acesso direto ao teclado. Alguns não se fizeram de rogados. Se lhes faltam argumentos racionais, resta o berro tipográfico. A caixa alta virou uma espécie de ponto de exclamação com esteroides, uma exibição egóica de testosteronas carentes de sinapses cerebrais.

Esse anabolizante retórico encontrou lugar privilegiado em um mundo no qual ocupa espaços importantes uma fauna peculiar. São lideranças que, quando terrenos baldios proliferavam no ciberespaço, estavam relegadas aos fundões da quinta-série, com suas piadinhas de gosto duvidoso e sua falta de esmero cultural. Hoje, a despeito de não conseguirem manejar talheres nem manter uma conversa racional com qualquer opositor, dão suas cartas. EM CAIXA ALTA.

O curioso é que quanto mais alta a caixa, mais baixa é a complexidade do argumento. A maiúscula não explica. Ocupa espaço. São as pernas e os braços abertos no metrô lotado.

Outro dia, jornalista que sou na maior parte do tempo, precisei reproduzir um tuíte de uma autoridade mundial, devidamente entre aspas, em um texto. Havia duas frases em CAPS LOCK, ASSIM MESMO, GRITANDO NOS OUVIDOS DA HUMANIDADE. Fiz que não vi, pensei no padrão jornalístico e nos bons modos. Traduzi tudo para caber nos moldes de uma etiqueta cibernética adequada. Ficou melhor.

Aproveito o clima de confessionário para acrescentar que escrevo estas linhas cuidadosamente em caixa baixa porque penso que estou plantando uma mudinha frágil no meio do asfalto que corta dois lotes cheios de ervas daninhas, o da direita e o da esquerda. Não acredito que neste vãozinho incidental, falha ao acaso do betume, ela vá crescer muito. Talvez nem sobreviva à próxima safra de indignações.

MAS CONFESSO QUE DÁ UMA VONTADE DANADA DE TERMINAR ESTE TEXTO GRITANDO.

Edison Veiga

Edison Veiga é escritor e jornalista e vive em Bled, na Eslovênia, desde 2018. Publicou oito livros, entre eles ‘Titereiro’ e ‘O Menino que Sabia Colecionar’.

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