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Iolaus está preso e conta uma história para continuar vivo. Antes de Dwayne Johnson aparecer com a pele do leão, “Hércules” já mostra o produto que seus homens vendem. Brett Ratner acompanha o semideus depois dos doze trabalhos, agora cercado por mercenários e chamado pelo rei da Trácia para treinar soldados. Ian McShane, Rufus Sewell e John Hurt passam por esse mundo de palácio, campo militar e pagamento em ouro, onde a fama do herói chega antes da clava.

Hércules não entra sozinho. Vem com gente que sustenta sua lenda e também se alimenta dela. Amphiaraus prevê, Autolycus rouba e luta, Atalanta atira, Tydeus mata quase sem palavra, Iolaus escolhe a versão que assusta melhor. O nome do filho de Zeus corre antes do corpo de Johnson. Às vezes basta. Um refém falando, um inimigo ouvindo, um grupo esperando que a história faça parte do serviço.

Ratner deixa os monstros em lugar incerto. A Hidra aparece como grupo mascarado. O centauro pode ser homem a cavalo visto sob medo. Cérbero volta colado a cães e lembranças da família morta. Para um inimigo, Hércules assusta. Para um rei, serve. Para soldados mal treinados, talvez baste vê-lo parado quando a formação ameaça abrir.

No campo trácio

A Trácia dá chão à aventura. Há um exército fraco diante de uma ameaça, homens aprendendo a não correr antes da hora, escudos que só protegem se a linha não se desfaz. Cotys não chama Hércules para matar uma fera. Chama para preparar tropa. O ouro foi prometido, os mercenários aceitam, e a guerra passa por exercício, ordem repetida e suor.

Johnson rende mais nesse ambiente do que na pose solene do mito. O tamanho já está resolvido. O que pesa vem de outro lugar. Pesadelos, família morta, correntes, uma reputação que Iolaus ajuda a manter. O ator não precisa explicar muito. Preso ou cercado por lembranças violentas, deixa a imagem invencível menos limpa.

O grupo suja um pouco esse brilho. McShane traz a Amphiaraus um humor seco, de quem espera a própria morte sem grande pressa. Sewell faz Autolycus ficar perto da esperteza e longe da nobreza. Tydeus parece uma arma andando. Atalanta, com arco e flecha, muda a composição da companhia, mesmo sem receber tanto espaço quanto promete. Cada um deles tira um pedaço da façanha do corpo de Hércules.

As lembranças da família morta têm menos força. Cães, pesadelos, aprisionamento, culpa. Está tudo ali, mas passa rápido. Logo vem outra tarefa, outro deslocamento, outro choque de exércitos. A duração curta evita solenidade falsa. Algumas feridas ficam com cara de obrigação cumprida.

Máscaras e escudos

Nas batalhas, a aventura anda. Soldados avançam, formações seguram o impacto, flechas cortam o espaço, cavalos confundem quem olha de longe. Não há violência gráfica de épico mais cruel, nem entrega completa à fantasia de deuses e criaturas. Ratner fica no meio. A ação carrega a sessão, embora algumas imagens digitais pareçam leves demais para um mundo de couro, metal, poeira e mercenários.

Isso pesa porque os monstros saíram do centro. Se a Hidra é máscara e o centauro é erro de leitura, o perigo humano precisa ocupar o lugar deixado por eles. O palácio de Cotys, o campo de treinamento e a estátua de Hera têm presença. Alguns efeitos não têm. A clava parece mais verdadeira que muita ameaça ao redor.

A intriga da Trácia pisa em terreno conhecido. Cotys compra uma força que pretende usar, Rhesus ocupa o posto de inimigo, Ergenia mexe nas lealdades, e o exército treinado por Hércules começa a produzir efeitos fora do acordo inicial. O homem pago para resolver uma guerra descobre que ajudou a armá-la. A ideia fica alguns minutos na mesa, depois vêm revelações e reparos mais previsíveis.

Mesmo com essas simplificações, “Hércules” não se entrega à fantasia mitológica mais preguiçosa. A pele do leão vira peça de trabalho. A clava é ferramenta. O ouro tem peso direto. Iolaus não decora o grupo, ele cuida da reputação. Sempre que alguém aumenta uma façanha, há outro personagem esperando pagamento, proteção ou ordem.

Ratner deixa entrar cinismo, mas não muito. Johnson precisa continuar sendo o homem enorme que a aventura vende. Então Hércules permanece contratado e salvador, truque e força bruta, homem usado por uma lenda e favorecido por ela. Depois ficam os soldados no campo, o ouro prometido, as correntes arrebentadas e um mito desmontado só até a próxima pancada.


Filme: Hércules
Diretor: Brett Ratner
Ano: 2014
Gênero: Ação/Épico/Fantasia
Avaliação: 3.5/5 1 1
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