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Mister volta da escola com a oitava série perdida. Em casa, a notícia quase não tem onde cair. Falta comida, falta adulto, sobra um menino menor ocupando espaço. Em “O Destino de Mister e Pete”, George Tillman Jr. acompanha Mister e Pete, vividos por Skylan Brooks e Ethan Dizon, depois que Gloria, a mãe de Mister, interpretada por Jennifer Hudson, é presa numa batida policial. Anthony Mackie cruza esse Brooklyn de adultos instáveis, onde dois garotos atravessam o verão tentando não ser recolhidos pelo serviço social, não se separar e encontrar o que comer.

A cozinha vazia empurra a primeira decisão. Mister não acorda preparado para nada. Ele volta para o apartamento, vê Pete por ali e precisa lidar com mais uma presença antes mesmo de entender o que fará sem Gloria. Pete é menor, pede mais, depende mais. No começo, cuidar dele parece só mais um problema colocado em cima da mesa, embora a mesa mal tenha comida.

Skylan Brooks faz Mister parecer duro antes de parecer ferido. Ele responde mal, se impacienta, tenta mandar. A aspereza ajuda. Um garoto abandonado, com fome e medo de ser encontrado pela polícia, não precisa ser agradável para merecer atenção. Mister tenta agir como adulto, mas não tem dinheiro, comida, proteção nem tempo. Ele manda em Pete, depois precisa dividir com Pete a falta de tudo.

Pete, com Ethan Dizon, anda em outro compasso. Ele segue. Espera. Insiste. Não completa Mister como se fosse peça de lição moral. Atrasa a fuga, aumenta o risco, ocupa o apartamento, obriga o mais velho a pensar por dois. A convivência nasce torta. Um fica porque não tem para onde ir. O outro aceita porque deixá-lo para trás também cobra preço.

A porta do apartamento

O apartamento protege enquanto ninguém bate. Do lado de fora há policiais, conhecidos, traficantes, cafetões, vizinhos que podem ajudar por um instante e adultos que podem piorar tudo. Do lado de dentro, a fome aumenta. Sair chama atenção. Ficar não resolve nada. A porta separa duas formas de perigo.

George Tillman Jr. insiste nessa rotina curta. Procurar comida. Evitar o serviço social. Circular sem chamar atenção. Esperar Gloria. Recomeçar no dia seguinte com menos margem. O verão não tem escola, mas também não tem folga. Há horas demais no apartamento e pouca coisa para mastigar.

O elenco adulto aparece em pedaços. Jennifer Hudson não transforma Gloria numa explicação ambulante. Anthony Mackie, Jeffrey Wright e Jordin Sparks passam pelo caminho dos meninos, às vezes como ameaça, às vezes como apoio que não chega a virar solução. Há um problema quando o rosto conhecido entra antes da pessoa. Em algumas cenas, o reconhecimento do ator corta a urgência de Mister e Pete por um segundo. Depois a fome volta.

Os adultos não tomam a história dos garotos. Eles entram, saem, deixam uma porta aberta ou fechada. A polícia pode separar os dois. O serviço social pode recolhê-los. A falta de comida pode levar Mister a pedir ajuda a quem seria melhor evitar. O roteiro de Michael Starrbury pesa a mão quando soma uma perda a outra. A morte do hamster de Pete, a mãe vista em situação degradante, a sequência de humilhações e riscos às vezes aperta demais uma situação que já estava dura na primeira ausência de Gloria.

A audição de Mister

Mister quer fazer uma audição para televisão. A ideia fica meio deslocada no meio da fome, e por isso não soa limpa demais. Ele ensaia um monólogo de “Fargo” enquanto precisa esconder Pete, evitar adultos e atravessar o bairro sem ser pego. O teste não o salva de nada. Continua marcado, como mais uma coisa a não perder.

Essa audição dá a Mister uma espera diferente. Não é a espera por Gloria, nem a espera pela polícia, nem a espera por comida. É a espera de ser chamado por outro motivo. De entrar numa sala sem ser tratado como problema. O filme não precisa explicar muito isso. Basta ver o menino guardando o monólogo junto com as urgências do dia.

Quando a sucessão de golpes fica organizada demais, os garotos parecem empurrados para produzir compaixão. A situação perde um pouco de atrito. O final também se aproxima de uma arrumação mais limpa do que o bairro parecia disposto a oferecer. Isso incomoda porque “O Destino de Mister e Pete” é mais forte quando deixa as coisas mal resolvidas na escala pequena. A comida não aparece. O adulto certo não chega. Pete continua ao lado de Mister mesmo quando atrapalha.

Brooks e Dizon seguram o excesso perto do chão. Um menino calcula se pode sair. O outro espera a decisão. Gloria não volta. A porta continua perigosa. A audição continua marcada. George Tillman Jr. encontra seus melhores momentos antes que o roteiro sublinhe demais a derrota prometida pelo título original, quando Mister e Pete ainda tentam atravessar mais um dia sem saber quem virá procurá-los.


Filme: O Destino de Mister e Pete
Diretor: George Tillman Jr.
Ano: 2013
Gênero: Drama
Avaliação: 4/5 1 1
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