A tenda está presa à parede da Troll Wall, na Noruega. Sasha e Tommy dormem pendurados na montanha, com a rocha de um lado e o vazio do outro. É ali que “O Jogo do Predador”, de Baltasar Kormákur, começa a empurrar Charlize Theron e Eric Bana para uma escalada que termina em tempestade, avalanche e morte. Depois, Sasha viaja sozinha para uma região selvagem australiana. Ben, vivido por Taron Egerton, aparece primeiro como ajuda. Mais tarde, vem com uma besta.
A abertura não precisa de muito. Corda, parede, tenda, vento. Tommy hesita. A tempestade chega. Sasha toma uma decisão extrema, e a montanha deixa uma culpa que o resto do filme não precisa explicar tantas vezes. A rocha, a altura e a queda já ficaram ali.
Meses depois, Sasha entra na Austrália atrás de outro risco. Um guarda florestal avisa que pessoas desapareceram naquela região. Ela segue. Há caçadores locais, uma loja ou posto no caminho, o parque de Wandarra, um ponto afastado para acampar. Ben conhece o terreno e oferece a indicação com a calma de quem já sabe demais.
Theron trabalha melhor quando Sasha não para para traduzir o que sente. Ela corre, rema, cai, se corta, escala, olha a distância até a próxima saída. A atriz sustenta a personagem no esforço. Quando há água, pedra ou mata diante dela, o roteiro fica menos visível. O cansaço aparece junto da força. Uma coisa não apaga a outra.
O tempo da música
Ben dá a Sasha a duração de uma música para fugir. Enquanto a canção toca, ela corre. Depois vêm a besta, a mata, a vantagem escolhida por ele. O caçador fala muito. Reaparece, provoca, prolonga o jogo. Egerton tem voz e energia para ocupar esse espaço, mas Ben perde ameaça quando explica demais o próprio prazer. Um homem armado no meio da mata já diz bastante.
A besta faz mais pelo perigo do que parte das falas. Ela cria distância, linha de mira, abrigo possível, curva necessária. Sasha precisa escolher onde se esconder antes que Ben avance. Kormákur sabe colocar obstáculos no caminho. Corredeiras, penhascos, cavernas e cachoeiras entram na fuga. A cobra também aparece. O corpo de Sasha vai acumulando cortes, quedas e esforço.
A Austrália, porém, fica limpa demais em muitos momentos. A imagem é bonita, a ameaça é clara, o parque entrega um obstáculo depois do outro. Falta um pouco de atrito no lugar. O rio surge, a mata surge, o penhasco surge, e nem sempre parecem ter existido antes da perseguição. Wandarra é ficcional, mas poderia sujar mais as botas de Sasha.
A regra da caçada é conhecida. Alguém corre. Alguém persegue. A vantagem muda de lado. Isso não seria problema sozinho. A perseguição aceita poucas regras quando cada curva cobra algo diferente. Aqui, Ben reaparece muitas vezes do jeito esperado. Sasha atravessa uma prova, alcança outra, respira pouco, e a besta volta para recolocar tudo no mesmo trilho.
A volta da queda
Tommy continua com Sasha. Faz sentido. A primeira sequência já é dura o bastante para isso. Mas a lembrança da escalada volta como se a culpa precisasse ser marcada de novo. A avalanche já havia deixado a ferida aberta. Quando a montanha reaparece para comentar a mata, a caçada perde secura.
Há um thriller mais direto dentro de “O Jogo do Predador”. Sasha sozinha. Ben armado. Uma música marcando a largada. Um parque onde gente some. Theron carrega bem essa parte. Egerton também melhora quando Ben fala menos e deixa a distância trabalhar. A próxima árvore. A próxima pedra. A água logo abaixo.
Kormákur entrega escala. Há montanha, avalanche, outback, rio, caverna, sangue e uma atriz disposta a parecer envolvida no desgaste. O que pesa é o acabamento entre uma prova e outra. Tudo fica legível demais. A paisagem ameaça, mas raramente surpreende. Ben ameaça, mas insiste em se anunciar.
“O Jogo do Predador” não é frouxo. Também não morde tanto quanto promete. Sua melhor parte está nas tarefas simples e ruins que Theron precisa cumprir sem transformar Sasha em invencível. Sair da água. Não ser vista. Achar apoio na pedra. Respirar antes que Ben apareça de novo com a besta.

