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No Arizona de 1882, Albert Stark acorda cercado por armas, doenças, animais, feiras perigosas e vizinhos prontos para transformar qualquer desentendimento em duelo. Em “Um Milhão de Maneiras de Pegar na Pistola”, Seth MacFarlane dirige, coescreve e protagoniza uma comédia de faroeste em que um criador de ovelhas perde a namorada, aproxima-se de uma forasteira vivida por Charlize Theron e precisa encarar a chegada de um pistoleiro interpretado por Liam Neeson. Amanda Seyfried e Giovanni Ribisi completam esse painel de uma cidade onde vergonha amorosa, bordel, saloon, loja de bigodes e arma em punho ocupam a mesma rua.

Albert não tem vocação para herói, e essa falta de vocação é a melhor piada do filme. Ele foge de um duelo, perde Louise para Foy, assiste ao próprio prestígio desabar em público e passa a circular por Old Stump como alguém que tomou consciência demais do lugar onde vive. O Oeste, para ele, não tem grandeza, apenas maneiras variadas de morrer por descuido, vaidade ou azar. Quando a comédia deixa Albert parado diante da rua principal, da arma que não domina ou da feira onde tudo pode virar acidente, a covardia ganha uma lógica quase prática.

Armas na Rua Principal

O problema começa quando essa lógica vira bordão. MacFarlane repete a reclamação de Albert em cadências muito parecidas, enumerando mortes, doenças, mutilações e absurdos até gastar o espanto que sustentava a ideia. A fala moderna em cenário de 1882 tem graça quando parece brotar do medo imediato, como reação de alguém prestes a ser humilhado diante da cidade. Em outros momentos, ela chega pronta demais, com cheiro de número verbal encaixado sobre figurino, poeira e fachada de saloon.

Anna muda o ritmo porque entra na cidade sabendo fazer aquilo que Albert só comenta. Charlize Theron segura arma, conduz treino, aceita a comicidade sem empurrar cada fala para a piada e encontra uma doçura que o filme desperdiça sempre que corre de volta para o escatológico. A aproximação entre ela e Albert funciona melhor quando passa por instrução, conversa e pequenos testes de coragem, com o corpo dele tentando obedecer a uma bravura que ainda não existe. A ameaça de Clinch Leatherwood, marido de Anna e pistoleiro procurado, dá consequência a esse ensaio, pois o duelo deixa de ser vergonha social e passa a ter peso de bala.

Bigodes e Bordel

Ao redor do casal possível, Old Stump oferece uma coleção desigual de piadas. Louise, vivida por Amanda Seyfried, mede Albert pela coragem pública que ele não tem e se aproxima de Foy, personagem de Neil Patrick Harris definido por aparência, dinheiro e culto ao bigode. O objeto é bom, porque dá à vaidade dele uma forma visível, uma espécie de troféu facial cuidado como propriedade. Já Edward e Ruth, interpretados por Giovanni Ribisi e Sarah Silverman, ficam presos a uma contradição repetida muitas vezes, com ele mantendo inocência religiosa enquanto ela trabalha no bordel e ambos esperam o casamento para fazer sexo.

Há um faroeste de acabamento caprichado tentando sobreviver às pancadas de humor grosseiro. A música orquestral de Joel McNeely, as paisagens largas, os figurinos, os saloons e a presença séria de Liam Neeson sugerem uma familiaridade real com os códigos do gênero. Clinch quase não precisa entrar na paródia para funcionar, porque sua rigidez cria um risco que Albert não consegue dissolver em comentário. O atrito poderia render uma sátira mais precisa, mas muitas cenas preferem o choque fácil entre imagem clássica e piada corporal, como se a simples queda de tom já garantisse surpresa.

Quase duas horas são tempo demais para uma comédia que insiste em voltar às mesmas teclas. A cidade transforma a humilhação de Albert em espetáculo público, Anna tenta ensiná-lo a segurar uma arma, Foy desfila sua vaidade, Ruth e Edward repetem sua castidade improvável, Clinch se aproxima com peso de ameaça, e ainda assim a montagem demora a abandonar piadas que já deram o que tinham. “Um Milhão de Maneiras de Pegar na Pistola” tem elenco, cenário e uma boa ideia central, mas lhe falta corte para deixar o medo de Albert mudar de forma. O filme fica mais vivo quando o criador de ovelhas precisa encarar uma rua, uma mulher armada ou um pistoleiro chegando, e menos quando volta a explicar, com novas palavras, que o Oeste é um lugar péssimo para permanecer vivo.


Filme: Um Milhão de Maneiras de Pegar na Pistola
Diretor: Seth MacFarlane
Ano: 2014
Gênero: Comédia
Avaliação: 4/5 1 1
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