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Em “Wormtown”, Sergio Pinheiro não perde tempo vendendo o fim do mundo. Quando o filme começa, a cidadezinha de Ashland, em Ohio, já está arrumada em torno do estrago. Os moradores infectados por vermes que alteram a mente agora vivem na noite, fogem da luz do dia e obedecem ao prefeito Joshua, que segue falando pelo rádio como se ainda governasse alguma normalidade. No meio disso, Jess, Kara e Rose — Caitlin McWethy, Rachel Ryu e Emily Soppe — tentam manter um esconderijo funcionando. Não é uma resistência heroica. É mais modesta e mais crível: limpar, guardar, sair no horário certo, voltar antes do escuro, evitar contato.

O filme acerta porque pisa nessa rotina sem ficar anunciando importância. Em vez de abrir com explicação, abre com um olho. O prefeito está num exame de vista, e a infecção aparece ali, metida na pupila, já como coisa física, invasiva, sem metáfora em volta para aliviar. Pinheiro entende cedo que seu filme depende disso. Não basta dizer que a cidade foi tomada. É preciso mostrar como ela foi tomada: pelos corpos, pelos orifícios, pelo jeito de circular, pelo horário em que cada um pode sair de casa. Os vermes não servem só para o susto ou para a repulsa; eles mudam o expediente da cidade.

A cidade depois

É aí que “Wormtown” fica mais interessante. Ashland não vira cenário de ruína genérica, desses que poderiam estar em qualquer produção barata de streaming. Vira um lugar com regra. De dia, as três mulheres se movem porque os infectados não suportam luz. À noite, a cidade muda de dono. O rádio ajuda muito a firmar isso. A voz do prefeito não entra só para despejar informação; entra para ocupar espaço, impor obediência, dar a medida de uma comunidade que não quer apenas matar ou perseguir quem sobrou, mas puxar mais gente para dentro do grupo. Há um senso de organização ali, e esse detalhe incomoda mais do que o caos puro.

Pinheiro trabalha dentro de limitações evidentes, mas quase sempre em favor delas. Em vez de tentar parecer maior do que pode, o filme se fecha em ruas, casas, abrigo, deslocamentos curtos. A ameaça, então, fica mais próxima. Abrir uma porta já é uma decisão. Cruzar uma rua exige cálculo. Voltar tarde pode ser o fim. É um terror de tarefa, de logística, de corpo tentando atravessar o dia sem chamar atenção. A fotografia áspera ajuda. Há uma sujeira constante na imagem, uma luz por vezes lavada, por vezes dura demais, e isso combina com o que o filme tem de melhor: a sensação de contaminação espalhada nas superfícies. “Wormtown” não faz cerimônia com o body horror. Vermes saem por onde têm de sair, olhos mudam, pele estraga, secreção aparece. A gosma aqui não é detalhe de decoração; é parte do ambiente.

No abrigo, na estrada

Caitlin McWethy segura o centro do filme porque não tenta transformar Jess numa heroína de gênero. A personagem está quase sempre ocupada demais para isso. O que a atuação entrega é atenção: ao risco, à distância, ao tempo, ao que ainda resta de controle. Rachel Ryu e Emily Soppe funcionam bem nesse mesmo registro mais baixo, em que convivência não precisa virar discurso. O trio convence porque parece já ter repetido muitas vezes a mesma rotina de medo e improviso. Quando esse arranjo quebra, o filme anda melhor. Não porque acelere, mas porque cada saída passa a ter custo, e isso aparece nas cenas.

A passagem de Jess pela comunidade amish é um dos movimentos mais fortes do longa. Muda o ar. Depois de uma cidade atravessada por rádio, culto e contágio, esse outro espaço entra com outra luz, outro ritmo, outro silêncio. Não é uma virada ornamental. Os objetos mudam, o modo de viver muda, a circulação dos corpos muda. O filme ganha com esse contraste porque ele não é explicado de fora; ele é sentido materialmente. Também aí aparece a linha mais melancólica da jornada de Jess e da relação com Alice, personagem que encarna uma forma de atração inquietante, como se acolhimento e assimilação passassem a ser quase a mesma coisa.

Nem tudo para em pé do mesmo jeito. Há momentos em que “Wormtown” abre frentes demais para um filme de 13 dias de filmagem e pouco lastro para amarrar tudo. A mistura de infestação, culto, sobrevivência e vínculo afetivo por vezes perde precisão. Algumas viradas pediriam mais firmeza. Ainda assim, o que fica não é frouxidão, mas ambiente. Isso já é bastante. Sergio Pinheiro talvez não controle sempre o que põe em movimento, mas sabe criar uma cidade contaminada com funcionamento próprio. Sabe tirar proveito do rádio, da luz, do abrigo, do olho infectado, do corpo que já não pertence mais a quem o habita. Para um horror indie pequeno, é mais do que muita coisa maior consegue.


Filme: Wormtown
Diretor: Sergio Pinheiro
Ano: 2025
Gênero: horror
Avaliação: 3.5/5 1 1
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