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Peter Farrelly volta ao terreno em que fez fama em “Bola Pra Cima” e mostra isso logo na primeira meia hora. Mark Wahlberg e Paul Walter Hauser vivem Brad e Elijah, funcionários de uma empresa de preservativos que chegam ao Brasil para vender à Copa do Mundo uma ideia que já nasce como piada: um preservativo que cobre não só o pênis, mas também os testículos. Brad é o sujeito que entra falando alto, confiante antes mesmo de entender onde está pisando. Elijah, que desenhou o produto, parece arrependido desde a primeira reunião. Eles conseguem abrir uma porta, perdem tudo depois de um porre desastroso e voltam meses mais tarde para a final entre Brasil e Argentina. Daí em diante, o filme troca sala de reunião por fuga, humilhação pública, polícia, torcida e criminosos. O começo tem energia. O filme é que não sabe muito bem o que fazer com ela.

Farrelly sempre soube explorar duplas desse tipo. Wahlberg tem o impulso certo do vendedor que continua avançando quando já devia ter recuado dois passos. Hauser faz bem o parceiro mais mole, mais hesitante, o sujeito que percebe tarde demais o tamanho do buraco e, quando tenta sair dele, cava mais um pouco. Os dois rendem mais quando estão parados do que quando o roteiro os põe para correr. Numa mesa de negociação, numa conversa atravancada, num momento em que um fala demais e o outro baixa os olhos, “Bola Pra Cima” encontra algum chão. O filme funciona melhor nesse atrito curto: a proposta absurda sobre a mesa, o constrangimento tentando se manter civilizado, a sensação de que tudo pode desandar por causa de um gesto mínimo. Por um tempo, parece que daí ainda pode sair alguma coisa.

Negócio afundado

A cena que derruba a operação é simples e eficiente. Um brinde puxa Santos, dirigente brasileiro sóbrio havia nove anos, de volta à bebida. O estrago vem em linha reta: o acordo vai para o chão, a empresa afunda, os protagonistas perdem o pouco que tinham em mãos. O filme acerta porque não enfeita a estupidez. Uma taça erguida, uma recaída, um prejuízo. Só que, passada essa virada, “Bola Pra Cima” começa a depender demais da própria grosseria. O preservativo “de pacote completo”, que no começo ao menos organiza a situação, volta tantas vezes que deixa de ser motor e vira muleta. Não é questão de exigir sutileza de Peter Farrelly. O problema é outro. O filme insiste no objeto como se a mera reaparição dele bastasse para reativar a graça. Não basta. A piada volta, mas a cena fica no mesmo lugar.

Quando Brad e Elijah retornam ao Brasil com ingressos VIP para a final da Copa, a engrenagem passa do fracasso profissional para a perseguição. Um incidente em campo os transforma em alvo, e o roteiro começa a despejar obstáculos: torcida em fúria, polícia corrupta, dirigentes oportunistas, traficantes, selva, um grupo de hippies de ayahuasca e um chefão do crime vivido por Sacha Baron Cohen. Em tese, é material para uma comédia de fuga com nervo. O que se vê é outra coisa. As situações aparecem em bloco, uma depois da outra, mas quase nunca ganham corpo antes de serem trocadas pela próxima. Falta progressão. Falta a sensação de que o aperto aumentou. Os personagens correm, se escondem, apanham, entram em carros, saem de carros, atravessam ambientes, mas a correria não embala. O filme se move, mas não avança.

Correria sem pulso

Isso fica claro na sequência do preservativo cheio de cocaína, uma gag que resume bem o problema central do filme. A ideia é escancarada, até promissora dentro do registro que Farrelly escolheu, mas se estica além do ponto. A graça dependeria de ritmo, de insistência na medida certa, de saber parar um segundo antes do desgaste. “Bola Pra Cima” não para. A piada entra fazendo barulho e sai murcha. Não porque seja vulgar — a vulgaridade está dada desde o início —, mas porque falta precisão. O mesmo vale para o Brasil filmado pelo longa. O país aparece como estádio, selva, tumulto, corrupção, criminalidade e gritaria em volta dos protagonistas. Serve como dispositivo de caos, não como ambiente de verdade. Está sempre ali, mas quase nunca pesa como espaço concreto. Em uma comédia baseada em deslocamento e pânico, isso faz diferença.

Ainda assim, o filme não desmorona de vez. Wahlberg segura bastante coisa no braço. Há nele um senso claro do personagem: seguir falando, seguir reagindo, seguir em frente mesmo quando já não há mais dignidade para salvar. Benjamin Bratt também ajuda como Santos, sobretudo porque entra com uma energia lateral que o filme aproveita bem mais do que o roteiro merece. Mas é revelador que os melhores momentos venham quase sempre de um ator segurando uma reação, de uma pausa, de uma cara de exasperação, e não da construção da cena em si. Falta direção no sentido mais elementar: onde cortar, quanto insistir, como usar o espaço para que uma humilhação ou uma pancada tenha peso cômico. Farrelly conhece a cartilha, mas aqui parece trabalhar mais por inércia do que por invenção.

No fim, “Bola Pra Cima” não escandaliza. Só vai cansando. O problema não é o mau gosto, nem a obsessão genital, nem a disposição de se rebaixar. Isso tudo faz parte do pacote e poderia render. O que falta é fôlego. Havia uma dupla capaz de sustentar um filme melhor, um objeto cômico idiota o bastante para gerar desastre, um Brasil x Argentina pronto para produzir histeria coletiva e um diretor que já soube arrancar muito de situações mais tolas do que esta. Aqui, quase tudo fica pela metade. Há risadas isoladas, um ou outro bom momento de Wahlberg, a utilidade de Bratt quando entra em cena. É pouco para 1h46. A promessa é de correria desenfreada. O resultado é mais pesado, mais repetitivo, mais sem pulso do que deveria.


Filme: Bola Pra Cima
Diretor: Peter Farrelly
Ano: 2026
Gênero: Ação/Comédia/Crime
Avaliação: 3.5/5 1 1
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