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Rodrigo Valdés não perde tempo tentando vender “Vingança Brutal” como novidade. O filme chega ao ponto com a franqueza de quem conhece a própria linhagem. Omar Chaparro, Alejandro Speitzer, Paola Núñez e Natalia Solián conduzem a história de Carlos Estrada, capitão das forças especiais mexicanas que perde a mulher numa emboscada, é dado como morto e volta ao encalço dos responsáveis quando um prêmio de loteria lhe dá dinheiro suficiente para bancar a própria guerra. É uma premissa de segunda mão, sem dúvida. O que segura o interesse não é a promessa de reinvenção, mas o modo como Valdés faz essa máquina andar: com armas, deslocamentos, preparação e um protagonista que parece pensar sempre com o corpo antes de abrir a boca.

Esse ponto importa porque Carlos não é um sujeito qualquer arrastado pela tragédia. Desde o início, o filme o coloca dentro de uma rotina de operações, captura de criminosos e disciplina militar. Quando a emboscada destrói sua vida doméstica e quase o apaga do mapa, o que se interrompe não é apenas uma vida em comum, mas um modo de funcionar. Escondido por Miguel num povoado remoto, Carlos passa um tempo fora de circulação, sem comando, sem base, sem margem de ação. O filme cresce quando se fixa nessa situação concreta. Miguel não está ali para ouvir grandes confissões nem para organizar o lado sentimental da história. Ele serve de abrigo, de ponte, de garantia material para que o outro volte a se pôr de pé. A relação entre os dois ganha peso justamente por isso: ela se define menos por frases do que por confiança prática, por aquilo que um ainda consegue fazer pelo outro.

Dinheiro e munição

O recurso da loteria é um disparate, e o filme sabe disso. Em resumo de plataforma, chega a soar ridículo. Na tela, no entanto, ele funciona melhor do que seria de esperar, porque “Vingança Brutal” converte esse dinheiro em coisas visíveis e imediatas. A fortuna não vira símbolo de poder, mas ferramenta: compra armas, amplia alcance, reativa aliados, coloca operações em movimento. É nesse momento que o filme encontra uma ideia mais firme de ação. A vingança deixa de ser só um impulso emocional e passa a depender de logística. Há gente para reunir, rotas para abrir, espaços para invadir, etapas para financiar. Quando o enredo toca na corrupção dentro do Exército, a trama até insinua um campo mais amplo, mas não consegue ir muito longe. Falta consistência. O braço mais político da história nunca tem a mesma firmeza das cenas em que tudo se resolve na base do preparo, do cálculo e do confronto.

Omar Chaparro ajuda bastante nesse equilíbrio. Seu Carlos Estrada não tenta impressionar pelo excesso. É um personagem de fala curta, gesto contido, corpo pesado. Chaparro entende que o papel pede menos explosão verbal do que concentração física. Ele entra nos ambientes como quem mede risco, calcula distância, procura saída. Funciona porque evita o atalho do herói que precisa verbalizar a própria dor a cada cena. O luto aqui aparece mais no endurecimento do que no discurso. Isso não torna o personagem especialmente complexo, até porque o roteiro não lhe oferece tantas camadas assim, mas dá ao filme um centro crível. Chaparro convence quando o filme pede que ele carregue equipamento, suporte pancada, organize ataque. Em volta dele, Alejandro Speitzer e os demais cumprem o papel esperado, ainda que personagens como Lola e Aurelio pareçam entrar em cena prometendo mais do que o roteiro de fato entrega.

Briga em espaço apertado

A ação é o que realmente sustenta “Vingança Brutal”. E não apenas porque há tiros, perseguições e lutas, mas porque Valdés entende que esse tipo de filme depende de espaço, peso e fricção. A sequência mais comentada, em que Carlos enfrenta o assassino da esposa usando um saca-rolhas e uma tampa de vaso sanitário, condensa bem o espírito do longa. Em vez de transformar o combate em desenho limpo e abstrato, o filme encosta a violência em objetos ordinários, em superfícies duras, em ambientes que apertam o corpo e limitam o movimento. O banheiro deixa de ser cenário; vira campo de batalha. O mesmo vale para as locações em geral. Bases militares, corredores, edifícios da Cidade do México e áreas de circulação são usados como trajetos e obstáculos, não como decoração. Quando o filme trabalha assim, ele ganha densidade material. A ação parece ter atrito.

Isso não elimina as fragilidades. O parentesco com modelos conhecidos do cinema de vingança continua muito visível, e o filme nunca chega a construir uma identidade plenamente sua. Há momentos em que ele parece ensaiar esse salto, sobretudo na tentativa de acomodar a trama militar e a corrupção interna, mas não sustenta o mesmo controle que demonstra nas cenas físicas. O vilão tampouco ganha corpo suficiente para rivalizar com a eficiência do aparato de ação. Ainda assim, há uma diferença relevante entre repetir uma fórmula no piloto automático e saber fazê-la render. Valdés, ao menos, conhece o básico do ofício: sabe marcar a espera antes do ataque, sabe organizar entradas e saídas, sabe que carro, arma, porta e corredor podem dizer mais sobre um conflito do que muita fala de efeito. Em vários momentos, “Vingança Brutal” parece confiar nisso, e faz bem.

No fim, o filme se sustenta justamente por não tentar parecer maior do que é. Não há ali a profundidade que alguns elementos do enredo insinuam, nem um desenvolvimento mais generoso dos coadjuvantes. Há, sim, uma atenção concreta à mecânica da vingança: o dinheiro que vira arsenal, o esconderijo que vira base, o corpo ferido que volta a operar por disciplina e obstinação. O roteiro falha mais de uma vez, e falha onde costuma ser mais difícil improvisar: na construção dramática e no desenho dos conflitos paralelos. Mas “Vingança Brutal” acerta quando fecha o foco e deixa a ação ocupar o centro. Nessas horas, a promessa do filme se cumpre sem precisar de pose. Basta um homem, um objetivo, um espaço hostil e a sensação de que cada passo tem custo.


Filme: Vingança Brutal
Diretor: Rodrigo Valdés
Ano: 2026
Gênero: Ação/Crime/Thriller
Avaliação: 4/5 1 1
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