Discover

Em um Chile ainda marcado por desconfiança nas instituições, “Alguém Tem Que Saber” acompanha, no presente, a tentativa de três figuras distintas de romper o silêncio em torno do desaparecimento de um jovem, um caso que insiste em não se encerrar justamente porque há mais perguntas do que respostas, e porque alguém, em algum lugar, claramente prefere que certas informações não venham à tona.

Dirigido por Fernando Guzzoni e Pepa San Martín, o filme se organiza a partir de três pontos de vista que avançam em ritmos diferentes, mas inevitavelmente se cruzam. De um lado está a mãe interpretada por Paulina García, que se recusa a aceitar o desaparecimento do filho como mais um número em uma estatística esquecida. Ela não faz discursos grandiosos nem busca heroísmo; o que faz é insistir. Liga, volta, pergunta de novo, bate em portas que já foram fechadas. Sua ação é repetitiva, quase exaustiva, mas é justamente essa repetição que mantém o caso vivo, e que incomoda quem gostaria de encerrá-lo de vez.

Outros pontos de vista

No outro eixo está o detetive vivido por Alfredo Castro, um homem que claramente já viu muitos casos se perderem no meio do caminho, mas que aqui decide não desistir. Ele revisita arquivos, cruza dados, tenta reorganizar informações que parecem ter sido deixadas de lado cedo demais. O filme mostra esse trabalho de investigação sem glamour. Não há grandes descobertas repentinas, mas sim um acúmulo de tentativas, erros e pequenos avanços. Cada documento recuperado não resolve o caso, mas abre uma nova dúvida, o que o obriga a continuar, mesmo quando os recursos são limitados e a autoridade para agir parece cada vez menor.

O terceiro vértice é ocupado pelo padre interpretado por Clemente Rodríguez. Ele surge como alguém que sabe mais do que diz, o que imediatamente o coloca em uma posição delicada. Não se trata de um vilão evidente, nem de um aliado confiável. Ele escuta, pondera e responde apenas o necessário, medindo cuidadosamente o peso de cada palavra. Sua relação com a informação é central. Ele não nega sua existência, mas também não a entrega com facilidade. E isso transforma cada encontro com ele em uma espécie de negociação silenciosa, onde o que está em jogo não é apenas o conteúdo, mas o momento em que ele será revelado, se for.

Em busca da resposta

A mãe quer respostas, o detetive precisa de provas, o padre controla um possível atalho. Só que nenhum deles trabalha em um terreno neutro. Há instituições envolvidas, há procedimentos que atrasam mais do que ajudam e há uma sensação constante de que o tempo não joga a favor de quem busca a verdade. Cada tentativa de acesso esbarra em uma negativa, cada pista leva a um novo impasse. E ainda assim, ninguém desiste, o que diz muito sobre o tipo de história que está sendo contada.

O roteiro evita transformar essa busca em algo espetacular. Pelo contrário, aposta no desgaste. Há algo quase irônico na maneira como o filme mostra o esforço necessário para conseguir o básico: uma resposta clara, um documento liberado, uma conversa franca. Nada vem fácil, e quando vem, nunca é suficiente. Isso cria uma tensão que não depende de reviravoltas, mas da persistência dos personagens diante de um cenário que parece sempre um passo à frente.

Narrativa

A personagem de Paulina García não precisa de grandes explosões emocionais para convencer; o cansaço, o olhar atento e a insistência já dizem muito. Alfredo Castro traz ao detetive um equilíbrio interessante entre pragmatismo e teimosia, como alguém que sabe que está lutando contra algo maior, mas ainda assim decide continuar. Já Clemente Rodríguez trabalha com a ambiguidade, mantendo o espectador em dúvida sobre até que ponto seu silêncio protege ou compromete.

“Alguém Tem Que Saber” entende que, em histórias baseadas em fatos reais, o mais importante nem sempre é chegar a uma conclusão definitiva, mas mostrar o caminho, e o custo, de tentar chegar até ela. A narrativa é sobre a certeza de que descobrir exige insistência, paciência e, muitas vezes, enfrentar estruturas que preferem continuar como estão.


Filme: Alguém Tem Que Saber
Diretor: Fernando Guzzoni e Peppa San Martín
Ano: 2026
Gênero: Crime/Drama/Suspense
Avaliação: 3/5 1 1
Leia Também