Prometi-me escrever sobre a antologia de poemas de Adalberto de Queiroz, promessa vinda do prazer de sua leitura e não como obrigação autoimposta, dessas que se adiam por fastio ou qualquer outro motivo. Malgrado isso, posterguei a entrega do projeto a mim mesmo.
Sim, sim, confesso, mea culpa, mea maxima culpa. Notem vocês, porém: não sou crítico e, portanto, não tenho engenho e arte ou bússola e compasso para análises refinadas de livros. Sou leitor. Vejo na minha estante, também admito, volumes de Harold Bloom, Alfredo Bosi, George Steiner, Northrop Frye, Erich Auerbach, Susan Sontag, Antonio Cândido, Álvaro Lins, Ezra Pound e outros autores desse quilate, mas eu os li como literatura, rindo com Bloom e querendo ser Steiner, jamais para adquirir alguma base técnica. Em resumo, estou entrando em campo minado.
Sou, ademais, amigo do Beto Queiroz e costumo assaltar sua adega. Aqui não há quaisquer obstáculos maiores: aprecio seus poemas e, como naqueles textos acadêmicos norte-americanos, posso escrever algo do tipo “o autor deste artigo declara não ter conflitos de interesse que lhe prejudiquem a imparcialidade”. Falasse eu mal do livro, o que é impossível, como se verá, creio que ainda assim eu poderia continuar furtando os vinhos e as ideias do Beto. Não é, meu amigo? Beto? Beto? Beto…

Também sou invejoso, como Fernando Pessoa-Álvaro de Campos parecia invejar o Esteves da “Tabacaria”, mas eu sendo o “Esteves sem metafísica”, Adalberto no papel de Álvaro de Campos. Sabiam que ele se formou em Física? Pois é: Hermann Broch era matemático, Primo Levi foi químico, e eu, tristemente levado para os lados do Direito, ainda estou tentando entender as leis da hipoteca, enquanto Betos, Levis e Brochs escrevem, escrevem e escrevem… Sou um Iago da escrita alheia — e que a promessa de bons vinhos não deixe esta minha dor de cotovelo alterar os meus circuitos neuronais, amém.
Há mais, há mais. Tenho prometido textos para mim e os outros oito bilhões de companheiros de jornada aqui na Terra, daí que estou em permanente atraso. Cobram-me um artigo, meu trisavô tem final de campeonato como goleiro; pedem-me uma resenha há muito tempo afiançada, e logo sou avisado de que tenho de levar meu bisavô a três dias de escotismo numa floresta.
Dito isso e com minha tataravó já fora da UTI, aqui estou, livro em mãos, lido e relido. Dele não nos aproximamos com indiferença, eis a primeira impressão: a capa nos guia para as suas páginas como a constelação Cruzeiro do Sul indicava rumos a antigos navegadores. Fosse um vinho subtraí…, digo, partilhado no Solar Queiroz, poderíamos ler a capa como se decifrássemos um rótulo — design diferenciado, Denominação de Origem Controlada, safra excepcional e produtor premiado. Méritos para a Editora Bula Livros: creio que um novo padrão se iniciou, com esse livro, no mercado editorial goiano.
Adiante, adiante. Tirada a rolha, vale dizer, liberado o néctar, meus problemas se avolumam: Carlos Willian Leite, editor e compilador dos poemas, escreveu uma excepcional introdução, explicando-nos por que não os colocou em ordem exatamente cronológica (uma ideia brilhante); Carlos Augusto Silva cometeu um posfácio como poucas vezes se viu, ou se leu, neste Goiás é bão demais. E aí, seu Marcelo, o que me restaria dizer? Pouco, muito pouco; parto, então, para o jogo sujo e, em desespero, falo de mim, ou seja, sobre minha experiência personalíssima de leitura, sem o apoio da técnica que não possuo. Assim, se continuarem a leitura destas mal digitadas a partir daqui, que fiquem desde logo notificados que não os indenizarei.
Contudo, pobre de mim, meus sufocos nunca cessam. Adalberto mostra alguma preferência por temas que se repetem e até um modo de mencionar esses gostos que muito se assemelham a variações do que também estimo, e isso, essa coesão de uma vida dedicada à literatura, é vista com olhos maiores de ver justamente pela forma de organização escolhida pelo editor, o que o próprio autor admitiu, se não estou enganado (sim, costumo me enganar…), numa entrevista a algum jornal: ele se viu com lentes outras, por assim dizer, ou percebeu as pontas juntadas da obra de uma vida toda e que talvez lhe parecesse dispersa. Por que isso seria um problema? Ora, os temas e a forma já começam ganhando de mim como uma Alemanha surrando o Brasil no Mineirão, pois há rios, há passado e memória, existe a literatura entendida como um diálogo com antecessores, temos o catolicismo do poeta (e o meu) — mas… “o autor deste artigo declara não ter conflitos de interesse que lhe prejudiquem a imparcialidade”.

Despejemos o vinho na taça. Aberto o livro, “Duro Feito Pedra, Frágil Feito Pólen”, ultrapassada a introdução (que causa inveja e raiva de tão bem alinhavada), fiz o que faço com todos os livros cuja leitura inicio. Sempre leio o índice, passo página por página lendo apenas os títulos dos poemas ou capítulos, percorro a bibliografia e anoto o que nela me interessa, se houver, e até mesmo, antes do livro em si, escrutino todas as notas de rodapé, sem as ligar com o texto principal, além de dar uma bispada nos índices finais, no colofão… (Sim, estou cuidando disso com o meu terapeuta). Esse exercício traz, na seleta do Beto, já um fascínio inicial: como não imaginar tardes lentas e proveitosas com títulos como “Oh, navios à barra atados” ou “Azul de Matisse”? Azul de Matisse contrasta bem com vinhos rosados, penso eu.
Aos poemas. Carlos Willian “rompeu a cronologia não para negá-la, mas para colocá-la em tensão”. Acertou em cheio, eu já afirmei ali acima, pois então percebemos mais interligados os rios (memória?), poetas que surgem como afluentes do próprio Rio Queiroz e a escuta do passado como se a poesia, toda a poesia do mundo, fosse um encadeamento de bases anteriores para projeções futuras (e não seria?). O eu-poético em busca de intertextualidade, dirão os eruditos (se Beto bebe em outras fontes, sua qualificadíssima autonomia poética, contudo, não se perde: são novas fibras que se acrescentam a um encordoamento que vem de dois, três mil anos atrás).
(Digressão. Não consigo fugir de Lagston Hughes, o rio tendo aqui outro sentido, claro:
Eu vi rios:
Eu vi rios antigos como o mundo e mais velhos que
o fluxo de sangue humano em veias humanas.
Meu espírito escavou-se fundo como os rios.
Eu me banhei no Eufrates quando as auroras eram jovens.
Eu construí minha cabana às margens do Congo e ele embalou meu sono.
Eu contemplei o Nilo e ergui as pirâmides a sombreá-lo.
Eu ouvi o canto do Mississippi quando Abraham Lincoln
desceu até Nova Orleans, e eu contemplei seu colo
enlameado dourar-se ao pôr-do-sol.
Eu vi rios:
Rios antigos, poentes.
Meu espírito escavou-se fundo como os rios.)
Logo no primeiro poema, uma conversa-homenagem com o poeta português Helberto Helder; no segundo, surgem os primeiros rios: rios-memória, rios-passado, rios-Adalberto. Rios como os mares de Sophia de Mello Breyner Andresen, mares que são origem e essência na poetisa, também ela portuguesa. Depois se seguem os outros temas que mencionei, feitos e refeitos a cada verso, pois submetida a mesma matéria a um Adalberto de Queiroz que “muda e permanece”, inclusive o catolicismo, mais à Adélia Prado, homenageada num dos poemas, que à maneira por vezes conflituosa de Gabriela Mistral.
Não sou crítico, já o sabem. Pouco ou nada eu poderia acrescentar aqui, a não ser transcrever aquilo que merece ser transcrito, e isso evidentemente tomaria páginas e páginas e roubaria o prazer de quem ainda não se aproximou do universo do nosso físico-poeta. A coesão me fisgou; os temas foram subtraídos de mim — j’accuse! —, e do mesmo modo como se retiram vinhos de uma adega amiga, tanto ao meu gosto são; há momentos sublimes que se elevam um pouco acima de outros já excepcionais (“Desinências”, “Os decapitados”, “Certidão”, “Nascentes”, “Origens”, “Pas de deux no purgatório” — se eu fosse capaz de criar apenas um título como este último, creiam-me que daria por resolvida a vida — e muitos, muitos outros versos). Aqui não há crítica ou resenha, então: há admiração, inveja e, sobretudo, uma forte sugestão de leitura, leitura calma, “slow” ou “close reading”, como agora se diz. Leitura-rio.
Leiam-no: é pedra de órfão do interior feita pólen — leveza do que poderia ter continuado sendo rocha e acabou mudando de rumo, numa transmutação produzida por alquimia quem enxergou o mundo e o seu próprio caminhar nele com mais luminosidade que nós outros.

