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Mike Binder dirige “Reine Sobre Mim” com Adam Sandler, Don Cheadle, Jada Pinkett Smith e Liv Tyler em torno de um reencontro que acontece anos depois do 11 de setembro. Charlie Fineman perdeu a mulher e as três filhas nos atentados, abandonou a odontologia e passou a ocupar Manhattan em deslocamentos solitários, quase sempre de scooter e com fones cobrindo as orelhas. Alan Johnson seguiu na profissão, atende pacientes, volta para a mulher e para as filhas, mas reencontra esse antigo colega da faculdade quando o vê cruzar a rua como alguém já desligado da cidade. A amizade recomeça ali, no meio do trânsito e do ruído que Charlie tenta apagar com música alta.

Binder não pede que Charlie explique a própria dor antes de mostrá-la em procedimento. O personagem passa horas em videogames, remodela a cozinha do apartamento repetidas vezes e usa cada rotina como barreira contra a memória da casa que perdeu. Sandler trabalha esse bloqueio em movimentos bruscos, frases cortadas e recusas que empurram Alan para fora sempre que a conversa ameaça tocar a mulher e as filhas mortas. Quando Charlie volta para o apartamento e recomeça mais uma obra, a reforma pesa menos como progresso do que como modo de manter o dia ocupado por entulho, ferramentas e repetição.

Rotina e fuga

Alan entra nessa relação trazendo outro tipo de desgaste, preso entre o consultório, a mesa de jantar e uma casa cheia de demandas que já não o acomodam. Ele sai do trabalho, volta para a mulher, escuta cobranças, circula entre as filhas e ainda assim encontra na companhia de Charlie um intervalo que não aparece em nenhum outro lugar da sua rotina. Don Cheadle segura esse movimento em recuos pequenos, no modo como prolonga encontros sem motivo prático e demora a voltar para casa depois de sair com o amigo. O filme acerta quando liga esse cansaço não a uma confissão extensa, mas ao deslocamento físico de Alan entre pacientes, carro, apartamento de Charlie e o próprio lar.

Essa aproximação cresce em atividades laterais, e Mike Binder entende que o vínculo entre os dois precisa de tempo gasto junto antes de pedir qualquer revelação. Charlie e Alan vão ao cinema para ver filmes de Mel Brooks, dividem videogames e preenchem horas em Manhattan com conversas que andam aos solavancos, quase sempre interrompidas por uma recusa, um sumiço ou uma mudança brusca de assunto. O que une os dois não é uma eloquência súbita, mas a repetição dessas saídas, o hábito de ocupar o mesmo espaço e a possibilidade de adiar por algumas horas aquilo que espera cada um do lado de fora. Quando Alan estica essas escapadas, o casamento passa a sentir a ausência no nível mais concreto, o tempo que falta dentro de casa.

Consulta e resistência

O limite dessa convivência aparece quando Alan tenta levar Charlie para uma consulta psiquiátrica. Até ali, a amizade tinha funcionado na rua, no cinema, no apartamento e no videogame, sempre em lugares onde Charlie podia controlar o barulho, interromper a fala e fugir do assunto principal. A entrada numa instituição de cuidado mexe nesse arranjo porque exige nomear a família morta, sustentar a própria presença diante de outra pessoa e admitir que os procedimentos de defesa já não bastam para tocar a vida. Charlie chega a esse ponto ainda armado pelos mesmos gestos de antes, preso aos fones, ao corpo em alerta e ao impulso de cortar qualquer aproximação que ultrapasse o que ele tolera.

“Reine Sobre Mim” encontra seu melhor peso quando mantém juntos o trauma extremo de Charlie e a aridez menor, mas persistente, da vida de Alan. Um perdeu a família num ataque que reorganizou tudo ao redor, o outro conserva mulher, filhas e trabalho, mas anda por esses espaços como quem já não sabe direito o que fazer com eles. Binder não transforma essa diferença num duelo de sofrimentos nem usa Alan apenas como instrumento para explicar Charlie, porque a amizade também expõe o quanto o dentista usa o amigo para escapar do consultório e da casa. Quando um estaciona a scooter, sobe para o apartamento e volta à cozinha em obra, o outro ainda precisa atravessar a porta de casa e sentar de novo à mesa.


Filme: Reine Sobre Mim
Diretor: Mike Binder
Ano: 2007
Gênero: Drama
Avaliação: 4.5/5 1 1
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