“As Garotas do Prédio” acompanha um momento de transição na vida de Jane (Fairy Kirana Pipityakorn), uma jovem que decide deixar o apartamento funcional onde cresceu, dentro de um complexo ligado à polícia. É nesse espaço, marcado por regras silenciosas, hierarquia e convivência constante, que ela revisita o passado, não por nostalgia, mas porque precisa entender o que está levando consigo antes de sair. O filme, dirigido por Jirassaya Wongsutin, se passa nesse ambiente fechado e observa como relações mal resolvidas podem ganhar peso justamente quando parecem ter ficado para trás.
Enquanto organiza seus pertences, Jane se depara com lembranças que não cabem em caixas. A mais insistente delas envolve Ann (Fatima Dechawaleekul), uma jovem mais velha, ambiciosa e consciente do lugar que ocupa dentro daquele microcosmo. Ann não é apenas alguém por quem Jane nutre sentimentos; ela representa também um tipo de segurança e projeção que Jane nunca conseguiu alcançar. O vínculo entre as duas nunca foi completamente declarado, mas se construiu em gestos, silêncios e aproximações cuidadosas, o tipo de relação que existe mais no espaço entre as palavras do que nelas.
Um novo amigo
Esse equilíbrio frágil muda quando entra em cena um jovem policial (Pakorn Chadborirak), cuja presença reorganiza as dinâmicas do prédio. Ele passa com naturalidade por espaços que antes pareciam neutros e, sem esforço aparente, passa a ocupar o centro das atenções. Ann se aproxima, se adapta, encontra seu lugar. Não há grandes declarações, mas há escolhas muito claras. E Jane percebe.
A partir daí, o filme ganha uma tensão discreta, quase silenciosa. Jane tenta manter algum tipo de proximidade com Ann, mas encontra barreiras que não são explícitas, apenas eficazes. Conversas são interrompidas, encontros são adiados, e o tempo, que antes parecia abundante, começa a funcionar contra ela. É como se o espaço que sustentava aquela relação estivesse sendo gradualmente retirado.
Há um cuidado interessante na forma como o filme mostra esse processo. Nada é dito de forma direta, mas tudo é percebido nas pequenas decisões. Ann evita confrontos, protege sua imagem e, acima de tudo, prioriza o que pode garantir estabilidade naquele ambiente. Jane, por outro lado, ainda opera no campo do afeto, tentando encontrar sentido onde já existe cálculo. Essa diferença de postura é o que sustenta o conflito.
Em um dos momentos mais reveladores, Jane tenta transformar a ambiguidade em clareza. Ela se aproxima, escolhe o momento, tenta abrir espaço para uma conversa mais direta. Mas o que encontra é um limite bem definido, não imposto com dureza, mas com firmeza suficiente para encerrar qualquer expectativa de reciprocidade naquele formato. Não há explosão emocional, apenas um recuo que diz muito.
Escolhas técnicas
O filme acerta ao não transformar essa história em um drama excessivo. Pelo contrário, há até um certo humor discreto na forma como Jane lida com a situação, especialmente na tentativa de manter alguma dignidade enquanto claramente não tem mais controle do cenário. É aquele tipo de constrangimento silencioso que qualquer pessoa reconhece, mesmo que não admita.
Conforme a mudança avança, o apartamento deixa de ser um espaço de memória e passa a ser um lugar de despedida. Cada objeto guardado marca uma escolha, e cada escolha reforça a inevitabilidade da saída. Jane entende, aos poucos, que não vai conseguir resolver tudo antes de ir embora, e talvez nem precise.
O desfecho não aposta em grandes revelações. Em vez disso, o filme se concentra em uma decisão simples, mas significativa. “As Garotas do Prédio” é bom justamente por essa contenção. É um filme sobre sentimentos que não encontram forma, sobre relações que existem em zonas indefinidas e sobre o momento em que é preciso sair, não porque tudo terminou, mas porque ficar deixou de fazer sentido.

