Será?
Se fôssemos inteligentes de fato, investiríamos todo o dinheiro, tempo e trabalho que temos a oferecer à sociedade na educação e na cultura.
Ou exigiríamos isso dos governantes.
Tudo o mais, saúde, segurança, crianças nas ruas, produtividade e riquezas, tudo seria mera conseqüência que um povo educado e culto trataria de produzir naturalmente. Há provas disso em outros países. Educar não é apenas alfabetizar, oferecer comida, disponibilizar salas, etc...é muito mais profundo e depende diretamente da cultura de quem nos governa, nos representa, e é responsável pela área durante certo tempo. Precisaríamos de uma lei ideológica-apartidária sobre a Educação, isto é, que não dependesse dos governos, já que são todos cíclicos, passageiros.
Educar seria um fértil projeto a ser executado como prioridade em longo prazo, elaborado por homens e mulheres de comprovado saber, obrigatoriamente seguido por qualquer governo.
Não é assunto que muda de rumo conforme o partido no poder, retomando tudo do zero, anulando metas traçados pelo anterior. Cada governo leva meses, à vezes anos para “tomar pé da situação”, e a Educação, matéria da sensibilidade e inteligência é quase sempre gerida por pequenos homens e mulheres culturalmente limitados.
Nada do que disse é novidade, era a grande meta de um dos maiores educadores do País: Paulo Freire. Educação e Cultura só podem caminhar e se desenvolver juntas. Educadores deveriam ter acesso a ela, tê-la como matéria importante do seu currículo educacional porque não há cultura sem Educação e vive-versa.
Há um certo aspecto da cultura que nós chamamos folclore, manifestações de festas populares, atividades para-teatrais como as cavalhadas e congadas que, por darem votos, são apoiadas e freqüentadas por políticos. Ninguém mais se ilude, estão pouco interessados na arte que o povo produz, mas nos votos dele. Afinal, cultura popular reúne massa, palavra mágica que atiça a ambição de qualquer político. Claro que devemos preservar a história e as tradições que desenvolvemos espontaneamente ao longo dos anos, são nossa trajetória, mas devem ter cuidados redobrados quando são apoiadas – costumam aliciá-las e pervertê-las.
Como resolver esse teorema?
Educação e Cultura juntas descortinam soluções para muitos problemas – mas os governantes as querem? Todos eles anunciam a Educação como prioridade.
Mas o que é cultura? Ninguém sabe, é matéria etérea e fugaz, variável e diferente em cada recanto. Talvez o melhor seja defini-la pelo que ela não é: aquele intelectual chato e antiorgástico que sabe citar de cor frases de grandes autores; o idiota cheio de títulos e diplomas na parede; os merdalhões amargos que confundem criticar com falar mal; os que têm as maiores bibliotecas enfeitando paredes decoradas com lombadas coloridas mas que nunca abriram os livros; os que sempre encontram desculpas por não terem visto uma obra de arte; os freqüentadores assíduos e festeiros dos lançamentos de livros e vernisages , papa-coquetéis enfeitados de cultos; os freqüentadores eventuais que só vão ao teatro quando tem algum nome que já viu na TV; escritores medíocres que ocupam cargos de direção de entidades culturais; carreiristas políticos que sempre dão um jeito de serem nomeados para áreas culturais; os tiradores de casquinha em fotos com artistas e intelectuais famosos; os limitados homofóbicos que acham que cultura é coisa de veado; os que confundem diversão com riso , nunca com o prazer da beleza e do pensar; os donos-da-verdade que não sabem nem de si mesmos; os vomitadores de regras estabelecidas e velhíssimas...
Felizmente nada disso é cultura.
Cultura é alguma coisa próxima da verdadeira e prazerosa sensação de que você está apto a discernir o que é bom do que é ruim. Não porque algum jornal ou publicidade da TV lhe disse, não porque leu uma regra em algum livro de receitas de como ser culto, mas apto por ser capaz de juntar as pedras de tudo o que foi aprendendo pela vida afora, até o quebra-cabeça fazer sentido espiritual – cultura é coisa de evolução de espírito.
Só boa leitura, bons espetáculos, filmes, músicas, boas conversas e tantos bons etcs...podem criar cultura.
A escola tem papel fundamental nisso – educar é ensinar as crianças a serem leis de si mesmas a desenvolverem e elevarem a personalidade e autoestima e a serem dependentes de si mesmas. Coisas tão vitais como a matemática, o português, a geografia. Educar é fazer com que as especulações da alma sejam cercadas de estímulos geradores da cultura.
Mas como tudo isso são meras especulações, deixo ao leitor a tarefa de pensar sobre o assunto e decidir como terminaria esse artigo.
Posso botar pilha na lanterna com uma informação preciosa que acabo de ler numa publicação da UNESCO: todas as crianças e adolescentes que têm acesso a atividades culturais associadas às educacionais desenvolvem maiores potenciais, mais personalidade própria e, conseqüentemente, menos violência, menos drogas, menos mediocridade – as grandes enfermidades sociais do nosso tempo.
Educação e Cultura é que fazem um País decente que um dia, ainda acredito, faremos.















