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POR EM 08/08/2009 ÀS 01:52 PM

Três comentários sobre livros recentes

publicado em

Philip Roth admite que se inspirou em estilo machadiano

O professor Dau Bastos, da UFRJ, lança ótima, embora sintética, biografia do Bruxo do Cosme Velho (denominação dada por Carlos Drummond de Andrade): “Machado de Assis — Num Recanto, um Mundo Inteiro” (Editora Garamond, 301 páginas). Bastos mostra que o Machado romântico e realista (poeta, cronista, contista e romancista) não continha personas distintas. Era um só. O biógrafo vê mais continuidade, com aperfeiçoamento, do que ruptura. Nunca foi romântico aos moldes de José Alencar ou realista como Eça de Queiroz e Émile Zola. Leitor de Laurence Sterne, Xavier de Maistre, Voltaire, Renan, Poe, Jonathan Swift, Schopenhauer e Shakespeare, Machado estava sempre um passo adiante. As influências eram assimiladas mas sem subordinação. Machado, revolucionário com seu “Brás Cubas”, foi imitado recentemente por Philip Roth. O escritor americano admite que inspirou-se na história do morto que, do túmulo, conta sua história. Machado devolve aos autores de língua inglesa, renovado e sem pasteurizar, o que bebeu em Shakespeare, Sterne, Swift e Poe.



Biografia de Ataulfo Alves é insuficiente

“Ataulfo Alves — Vida e Obra” (Lazuli-Companhia Editora Nacional, 175 páginas), de Sérgio Cabral, é, a um só tempo, ótima e insuficiente.

Ótima porque não se tem praticamente nada sobre Ataulfo Alves. Trata-se da primeira biografia mais ampla de um dos mais importantes compositores, músicos e cantores brasileiros.

Insuficiente porque não se trata de um trabalho exaustivo, não se compara, por exemplo, com a biografia que Ruy Castro fez de Carmen Miranda.

Sérgio Cabral não descobriu o que Louis Armstrong, Juscelino Kubitschek e Ataulfo Alves conversaram no Palácio do Catete, em 1960. A biografia também é excessivamente pudica — não tem sexo. Ataulfo dormiu na casa de uma condessa, na Europa, mas o que aconteceu? O leitor não fica sabendo.

A Bossa Nova é um avanço, não há dúvida, mas sua hegemonia praticamente trava a recepção de compositores e cantores anteriores, como Noel Rosa, Cartola e Ataulfo Alves. Funciona com uma ditadura, um muro de Berlim que, ao contrário do outro, não cai.



Sem novidade

A “Veja” fez um carnaval a respeito do novo livro de Andrew Roberts, “The Storm of War”. A resenha “Uma guerra sem fim” apresenta o inglês como o mais extraordinário historiador da Segunda Guerra Mundial da atualidade, uma opinião discutível, sobretudo porque a revista não cita outros nomes, tão ou mais importantes, como Laurence Rees, Norman Davies, Gerhard Weinberg, Max Hasting, Richard Evans, Richard Overy, Michael Burleigh, Catherine Merridale, Ian Kershaw e Antony Beevor. “Veja” não diz, mas sugere que Roberts é inédito em português. Um de seus melhores livros, “Hitler & Churchill — Segredos da Liderança” (Jorge Zahar, 236 páginas), saiu no Brasil há cinco anos. “A Batalha de Waterloo” (Ediouro, 168 páginas) foi publicado em 2006. “Napoleão e Wellington” saiu em Portugal, pela Verbo, em 2002 (pode ser encomendado no site da Livraria Cultura). Outros livros (em inglês) de Roberts podem ser pedidos nos sites das livrarias brasileiras e estrangeiras. Entre as grandes novidades de “The Storm of War” ressaltadas por “Veja” está a informação de que “os alemães entraram triunfalmente em Paris em 14 de junho de 1940”. O que há de novidade na informação? Nada.

O comentário da “Veja” não é assinado e sugere, por isso, uma “recortagem” do que saiu na imprensa européia ou americana. Os comentários históricos da revista são, no geral, muito ruins. Recentemente, a crítica de cinema Isabela Boscov errou, e não se corrigiu, ao citar o número de mortos poloneses em Katyn.
 


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POR EM 08/08/2009 ÀS 01:52 PM

Todos os olhares de uma prosa visceral

publicado em

“Nenhum Olhar” inova, e também impacta, não por seguir na direção de uma ruptura de linguagem, ou por radicalizações ou espasmos formais tão em voga na prosa contemporânea. A sensação estética provocada pela obra é desencadeada pelo próprio ritmo da história

José Luís Peixoto

Um dos livros mais instigantes, cuja leitura proporcionou-me verdadeiro prazer estético nos últimos dois anos foi o romance “Nenhum Olhar”, de José Luís Peixoto, escritor português da nova geração, que integra a lista das melhores produções da literatura lusófona contemporânea.

Narrada numa linguagem sofisticada, cuja densidade e tensão não perdem de vista a poesia e a cristalinidade, a história constitui-se num relato que traça um fascinante mosaico de uma comunidade do Alentejo. Esse universo é retrabalhado pelo autor na transcriação de sua realidade social, geográfica, política e cultural. Uma prosa que também exige do leitor plena concentração textual, possibilitando o (re) conhecimento dos diversos níveis narrativos da obra. Nos dois capítulos em que se divide o livro, mapeiam-se trinta anos da vida dos diversos personagens e descortina-se um panorama muito peculiar de uma região e de sua própria história.

Num espaço povoado pelos ícones de um país arcaizado, afetado por sua religiosidade e por um campesinato ancestral, vamos encontrar figuras paradigmáticas, em meio à enigmática voz da arca, como a indicar uma espécie de alter ego de todos os habitantes da aldeia. Entre elas, o mítico e velho Gabriel; José, filho de outro José (aquele que viveu obcecado pela empregada do Dr. Mateus e com quem se casou mais tarde), enfrentando suas pelejas com o diabo; o mestre Rafael; Moisés e a cozinheira viúva; o genro Salomão, além do pastor e suas fiéis cadelas, os gêmeos siameses, os demônios, as cozinheiras, os gigantes, o calor corroendo a vida de todos (subsistindo como uma alegoria para o inferno que permeia essas vidas), enfim uma legião que compõe o imaginário desse lugar perdido no inconsciente coletivo e que forma o núcleo sobre o qual se desenvolve toda a história e se constroem as camadas narrativas de “Nenhum Olhar”.

Não é sem propósito que seus nomes relembram os personagens bíblicos. Transpô-los para o cenário alentejano torna possível mergulhar na problemática existencial e nas tragédias humanas que se reproduzem ao longo dos séculos na vida dos povos. Aqui, também está presente uma analogia sobre o destino de uma geração em meio às transformações sofridas por um País, uma metáfora sobre o Portugal que renasce após a Revolução dos Cravos e busca um caminho. Para tanto o autor não economizou recursos imagéticos para amplificar sua visão de mundo, sobejamente por meio de repetições que funcionam como retumbantes verdades, ou pelo viés alegórico e fantástico, emprestando ao texto uma carga onírica e uma plasticidade singulares.

Ao dar um contorno bem distinto sobre esse mundo enclausurado e rural, ensejando outro olhar, o autor oferece uma mirada e uma interpretação perturbadoras e ao mesmo tempo fantástica de uma subjacente condição. Essa perspectiva estética de Peixoto chama a atenção do leitor para a multiplicidade de situações e personagens. Numa atmosfera em que os acontecimentos se sucedem de forma caótica, revelando uma conturbada e impenetrável relação entre os fatos e seus protagonistas, o silêncio e o olhar falam de forma mais aguda, simbolizam a impossibilidade da interlocução. São as alternativas possíveis para registrar esse ambiente de estranheza e incomunicação, para fundir os planos de uma composição fragmentária da vida de uma localidade em determinado período. E se constitui num painel complexo e misterioso, em que passado e presente se fundem num espectro de solidão, angústia e ambiguidades, atuando como sua moldura existencial.

“Nenhum Olhar” inova, e também impacta, não por seguir na direção de uma ruptura de linguagem, ou por radicalizações ou espasmos formais tão em voga na prosa contemporânea. A sensação estética provocada pela obra é desencadeada pelo próprio ritmo da história, pelo desconforto e desmantelamento de sensações labirínticas e às vezes claustrofóbicas que o discurso de Peixoto desencadeia. Seja por meio dos narradores que não mantêm sintonia ou simbiose entre si, seja por conta dos lampejos de pensamento que vão reverberando ao longo do romance, como instâncias de reflexão, fixando verdades ou multiplicando uma percepção apriorística das próprias situações, ou, ainda, por realizar uma cartografia visual impressionista do Alentejo, que particulariza o espaço físico, os objetos e a própria memória, esse livro de José Luis Peixoto produz um efeito surpreendente.

Peixoto assimilou aquela verdade pessoana que nos remete a falar da própria aldeia para fazermos a ressonância do mundo, numa projeção da verdadeira universalidade, como também defendeu Tolstoi. E vamos encontrar nesse romance toda a verdade e pungência de vidas estioladas, mas resistentes. Retrato de uma gente agonizante, em que a vida é todo o tempo desafiada pelas próprias contingências, pela imobilidade e imutabilidade de seus habitantes.

Vale destacar o viés poético que pontua toda a obra, como nestes trechos de “Nenhum Olhar”:

“Adeus mulher. Adeus filho. Adeus pai. Adeus mãe. Adeus irmã. Estão os vossos rostos diante de mim. Estarão para sempre. Penso: sempre e nunca mais são o mesmo lugar. Mulher, filho, pai, mãe, irmã, não chorem por mim. Ainda há searas para as crianças. Ainda há as crianças. Guardem as lágrimas para um dia de mais alta nomeada. Guardem as lágrimas para o dia em que morrerem as searas nos olhos das crianças, para o dia em que morrerem as crianças. Hoje, morro eu. E eu morrer não é nada na ordem implacável do mundo.”

“O mundo acabou. E não ficou nada. Nem as certezas. Nem as sombras. Nem as cinzas. Nem os gestos. Nem as palavras. Nem o lume. Nem o céu. Nem os caminhos. Nem o passado. Nem as idéias. Nem o fumo. O mundo acabou. E não ficou nada. Nenhum sorriso.Nenhum pensamento. Nenhuma esperança. Nenhum consolo. Nenhum olhar.”

No dorso desses personagens deslocados, mas em busca de um novo espaço psicológico numa vida transformada pela realidade, Peixoto convida o leitor a também a lançar seu olhar crucial sobre um tempo, um lugar e uma geração que sofreram as metamorfoses de um Portugal em transição econômica e política. E com sutileza faz a denúncia desse rito de passagem entre dois tempos antagônicos. “Nenhum Olhar” é um romance visceral, que inscreve, sem dúvida, o nome e José Luis Peixoto entre os melhores ficcionistas da atualidade.

 


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POR EM 01/08/2009 ÀS 11:59 AM

Futebol científico

publicado em

A cultura do futebol está entranhada na cultura nacional. Seu jargão, seus hábitos, seus mitos. Estranhamente, até mesmo sua história. Não é tão raro que indivíduos que não sabem dizer quem foi Tiradentes ou D. Pedro I sejam capazes de dar a escalação completa do Guarani de Campinas, campeão brasileiro de 1978

Capa de A Dança dos Deuses: Futebol, Sociedade, Cultura


“Qualquer assunto, fora o futebol, já nasce morto”.  Nelson Rodrigues 
 
Comecemos com um clichê imperdoável: existem 180 milhões de técnicos de futebol no Brasil. Todo mundo pensa que entende do assunto. É uma reconhecida tradição nacional que praticamente a totalidade desse imenso exército de amadores chame o profissional que comanda a Seleção Brasileira de burro. Muitos, mesmo sem entender totalmente a lógica da regra do impedimento, declaram aos berros que podem fazer melhor. Melhor que os técnicos e melhor que os jogadores. Tudo ou nada é o lema. Um segundo lugar na Copa, medalha de prata ou bronze nas Olimpíadas são consideradas campanhas fracassadas. Erros não são permitidos. Perder um pênalti é imperdoável. Sofrer um frango é motivo de vexame eterno. Fazer gol contra é uma heresia.
 
A cultura do futebol está entranhada na cultura nacional. Seu jargão, seus hábitos, seus mitos. Estranhamente, até mesmo sua história. Não é tão raro que indivíduos que não sabem dizer quem foi Tiradentes ou D. Pedro I sejam capazes de dar a escalação completa do Guarani de Campinas, campeão brasileiro de 1978. O brasileiro médio que, outro clichê, não faz a mínima questão de cultivar a memória nacional, cultiva cuidadosamente sua história futebolística. Diversos programas esportivos de televisão ajudam nessa preservação, passando diariamente cenas de arquivo. Algumas imagens, de tão repetidas, entraram para o imaginário coletivo. Os resultados práticos desse amplo esforço educacional são continuamente comprovados ao final de cada partida de futebol, profissional ou amadora. Os torcedores, por mais simplórios que sejam, destilam orgulhosamente sua erudição esportiva nas rodas de conversa após os jogos. Enfim, todo brasileiro, de modo macunaímico, além de técnico de futebol também é um historiador do futebol.  
 
Apesar do número inflacionado de especialistas, estranhamente, havia pouquíssimas livros no mercado editorial brasileiro que analisassem de modo profundo o futebol. Existem, sim, centenas de livretos introdutórios, biografias de atletas, coletâneas de crônicas, guias de regras, livros de arte e assemelhados. Essa carência foi diagnosticada pelo historiador Hilário Franco Júnior. Até então conhecido, e reconhecido, como um dos maiores medievalistas brasileiros, autor de obras como “Idade Média: Nascimento do Ocidente e Eva Barbada”. Em 2003, Franco Júnior decidiu ministrar, em conjunto com o professor Flávio de Campos, um curso sobre futebol na pós-graduação em História da Universidade de São Paulo. Como resultado direto do curso escreveu o livro “A Dança dos Deuses: Futebol, Sociedade, Cultura”, lançado em 2007 pela Companhia das Letras. Segundo o autor, a proposta essencial da obra é analisar “o futebol como fenômeno cultural total”. Pretensão explicitada já no título. Para alcançá-la lança mão não apenas de metodologias da ciência histórica, mas também de conceitos da antropologia, análises lingüísticas, psicológicas, teológicas, heráldica etc.
 
Numa visão superficial pode parecer inusitado um medievalista dedicar tanto tempo e energia a um projeto de fôlego numa área tão distante de seu usual campo de atuação. Não é. Dois exemplos são notórios. Georges Duby, neófito em pintura moderna, escreveu um livro sobre o artista oitocentista Cézanne, após ministrar um curso sobre sua obra. Umberto Eco, atualmente reconhecido como um polivalente crítico cultural, especializou-se academicamente nos estudos medievais, experiência que o ajudou a escrever best-seller internacional “O Nome da Rosa”. Curiosamente, Eco que afirmou ter abandonado o medievalismo devido aos altos custos das pesquisas, tendo ficado milionário com sua literatura, pôde transformar o antigo ofício em hobby de luxo, inclusive comprando um castelo medieval para casa de veraneio.
 
“A Dança dos Deuses” é dividido em duas partes. Na primeira, “Futebol, micro-história do mundo contemporâneo”, o que temos é, verdadeiramente, a história mundial recente contada por meio do desenvolvimento do futebol, de esporte praticado pelas elites inglesas à diversão de massa.

A chegada à América do Sul, a utilização política pelos regimes fascistas, seu papel na Guerra Fria e durante o Regime Militar brasileiro. O futebol contemporâneo, globalizado e milionário também é contemplado, fechando o circulo num apanhado bastante completo, crítico e erudito. A narrativa dessa primeira parte é, considerando as particularidades da Europa e do Brasil, cronológica. O período enfocado vai do início do século XIX até as vésperas da publicação do livro. Notícias de jornal bastante recentes são citadas.
 
Na segunda parte, “Futebol, metáfora do mundo contemporâneo”, Franco Júnior muda o tom. Após debruçar-se sobre os fatos, o que passa a lhe interessar é a simbologia metafórica dos mesmos. Tendo esgotado a organização cronológica na primeira parte, a segunda estrutura-se em blocos de ensaios curtos que mantêm a organicidade pela proposta central de analisar o fenômeno futebol por todas as perspectivas possíveis. Citando Albert Camus, em sua frase testemunho “a maior parte daquilo que sei da vida aprendi jogando futebol”, Franco Júnior justifica seu projeto de falar do futebol como fenômeno simbólico totalizante da experiência humana. Segundo o autor, o “futebol é metáfora de cada um dos planos essenciais do viver humano nas condições históricas e existenciais das últimas décadas” (p. 166).
 
Proposta audaciosa e escorregadia que, facilmente, poderia resultar em análises artificiais ou artificiosas, como ocorreu com Eduardo Galeano em seu simplista “Futebol ao Sol e à Sombra”, de 2004. Porém, Franco Júnior driblou habilmente todas as armadilhas, sem jamais roçar a superficialidade, e conseguiu trabalhar o futebol em suas inúmeras facetas: metáfora da guerra, metáfora sociológica, como dança sagrada, como festa, como fomentador de rivalidades e solidariedades e até mesmo como metáfora linguística. Um feito considerável que transforma “A Dança dos Deuses” em um clássico de nascença. 
 
A principal característica do livro é não romantizar seu objeto. Para Franco Júnior, um óbvio admirador do esporte, nem o jogo nem os jogadores são sagrados. Logo na introdução desmonta o decantado mito de sua antiguidade. Para ele, “o futebol tal qual conhecemos hoje resultou de um conjunto de fatores presentes apenas na Inglaterra do século XIX” (p. 20). Trata-se de um fenômeno contemporâneo.  Deve-se fugir a tentação de buscar suas origens em práticas esportivas medievais ou do mundo antigo, como o “epyskiros” grego, o “harpastum” romano ou mesmo o “cálcio”, praticado na Itália entre os séculos XV e XVIII. O parentesco, se existe, é muito distante. Relaciona a criação do futebol com o darwinismo social. Foi desenvolvido nas universidades britânicas, como Oxford e Cambridge, como parte do projeto do “cristianismo atlético”. Ou seja, “a concepção pedagógica que pretendia desenvolver a fibra moral da elite britânica destinada a governar regiões longínquas e inóspitas, plena de súditos hostis e pouco civilizados” (p. 26).
 
Diferente, por exemplo, de Nelson Rodrigues, autor de ótimas crônicas de futebol, reunidas em dois volumes, “À Sombra das Chuteiras Imortais” (1993) e “A Pátria em Chuteiras” (1994), onde, por força do estilo mistificador do autor, os jogadores são transformados em deuses que decidiram chutar imperfeitas esferas de couro, Franco Júnior revela-os em suas imperfeições e vaidades. O caso extremo é Pelé. Longe de apenas reverenciar acriticamente seu monstruoso talento, Franco Júnior ironiza sua megalomania ao mesmo tempo em que a coloca em perspectiva. “Pelé, segundo relatam amigos dele, ‘acredita ser um deus tanto dentro como fora dos gramados’” (p. 259). Historiador experimentado, Franco Júnior conhece a fundo os mecanismos de construção dos mitos. Sabe que se Pelé fala da si mesmo na terceira pessoa, como César, e acredita que é uma entidade que encarnou no mortal chamado Edson, é porque a extensão de sua mitologia, de seu culto, permitiu isso. Desumanizou-o, deificou-o em vida. Como acontecia com reis mesopotâmicos, faraós egípcios e imperadores romanos. O título de Rei não é por acaso. No imaginário popular, reis são representantes dos deuses, quando não os próprios deuses.
 
O futebol é, também, metáfora religiosa. Assim, o que poderia parecer o ponto-fraco do livro, seu título, justifica-se. A referida “dança dos deuses”, que era literal em Nelson Rodrigues, é simbólica em Franco Júnior. O torcedor, e às vezes a imprensa, enxerga deuses onde há homens. Os estádios tornam-se templos e os uniformes “mantos sagrados”. “Em torno a cada divindade futebolística desenvolve-se uma seita” (p. 263). Quando torcedores de gerações, nacionalidades ou clubes diferentes discutem se Maradona, Di Stéfano, Cruyff ou Ronaldo foram melhores do que Pelé, na realidade, o que está em conflito são cultos diferentes. A estrutura simbólica do futebol, até por ser um esporte coletivo, permite o politeísmo, mas em todo panteão há um deus maior, seja Zeus, seja Odin, seja Pelé... Ou Maradona, ou Cruyff, ou outro que esteja momentaneamente na moda.
 
Para alguns, tudo isso é apenas absurdo. Contrariando Camus, Jorge Luis Borges abominava o futebol. Achava-o antiestético e tolo. Uma bobagem inglesa. Considerou a Copa do Mundo de 1978, sediada em sua Argentina natal, “uma calamidade”. Em uma entrevista concedida no ano seguinte, declarou que “o futebol é fundamentalmente ignóbil e agressivo, desagradável e comercial”. 
 
Talvez Franco Júnior concorde com a utilização da última palavra: comercial. Longe de alimentar teorias conspiratórias, demonstra como os destinos do futebol estão intimamente relacionados a interesses econômicos, muito maiores do que o esporte em si. As cifras tornaram-se gigantescas, os atletas bens corporativos, os cartolas executivos internacionais. “A mentalidade liberal e mercantil transformou o futebol em negócio mundial” (p. 116). O marketing esportivo dita as regras. Não raramente escala seleções, define horários de transmissão de jogos.
 
O Brasil apresenta dificuldade em adaptar-se ao futebol moderno. O fantasma do “homem cordial”, de Sérgio Buarque de Holanda, está presente também nos gramados. Franco Júnior usa a episódio da eliminação do Brasil pela Argentina na Copa do Mundo de 1990, quando Maradona passeou pela europeizada defesa brasileira, dando passe para o gol fatal de Caniggia, para demonstrar uma situação política: “Muito acostumada ao contato familiar com jogadores estrangeiros e pouco habituada à nova organização tática, a seleção foi retrato fiel de um governo que sem planejamento maior abriu a economia à penetração dos produtos internacionais” (p. 158). Comparações como essa estão presentes em todo o livro. Em alguns momentos parecem forçadas, como a acima citada talvez seja, mas raramente deixam de ser sagazes.
 
Franco Júnior não escreve como um torcedor, talvez o grande erro de Galeano. Escreve como um historiador cioso de sua tarefa. Propôs e realizou uma análise científica do futebol. Tão científica quando possível para uma ciência humana, demasiada humana como a História. Tudo o que é humano, por definição, é falível. Ou por outra, o humano, como se sabe, pode ser miraculoso. Na história do futebol não faltam exemplos.
 
Na Copa de 1958, o Brasil enfrentaria a temida União das Repúblicas Socialistas Soviéticas na primeira fase. Alardeava-se que a URSS praticava o “futebol científico”. Tudo em seu jogo, da preparação dos atletas ao esquema tático era pensada cientificamente. Ironicamente, esse jogo marcou a estreia de Mané Garrincha em copas. Ninguém melhor do que Nelson Rodrigues, em crônica publicada na “Manchete Esportiva” de 21 de junho de 1958, para descrever o que aconteceu: “a desintegração da defesa russa começou exatamente na primeira vez em que Garrincha tocou na bola. Eu imagino o espanto imenso dos russos diante desse garoto de pernas tortas, que vinha subverter todas as concepções do futebol europeu. Como marcar o imarcável? Como apalpar o impalpável?”. Dessa vez o futebol científico perdeu. O estilo clássico e habilidoso do (s) brasileiro (s) foi mais forte.
 
Porém, a partir da inexplicável derrota da seleção brasileira na Copa de 1982, o jogo europeu ganhou espaço na América do Sul. Dificilmente o individualismo irresponsável de Garrincha sobreviveria à marcação serrada de hoje, teria que se adaptar. Somente com técnicos conhecidos pelo pragmatismo a europeia o Brasil conseguiu vencer duas Copas, 1994 e 2002, após os anos de ouro, entre 58 e 70. Parece ser essa a tendência. O futebol científico, das tabelas e pranchetas, triunfa. Sendo assim, por que não dar a César o que é de César? Da mesma forma que o jornalista João Saldanha teve sua chance no final da década de 1960, proponho Hilário Franco Júnior para técnico da Seleção Canarinho. Ninguém duvide que ele seja capaz de fazer História.

 


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POR EM 01/08/2009 ÀS 11:59 AM

Kerouac nunca fez isso

publicado em

“Pornopopéia” é o solilóquio solipsista de Zeca, um cineasta falido que se pendura no rótulo de “maldito”, provavelmente para justificar sua, digamos, ineficácia artística — é o cineasta-de-um-filme-só.  Anti-herói, semi-poeta e bandido inadvertido, Zeca tem o dom de causar consequências e uma sorte inacreditável para escapar das mesmas, sem ilusões de redenção e sem deslumbramentos

Capa de Pornopopéia/Reinaldo Moraes

Aquela velha conversa: existem por aí umas seis ou sete histórias pra se contar, que repetimos através dos tempos e das formas (perguntem ao Carlos Augusto Silva, ao Ademir Luiz ou aos Formalistas Russos, eles sabem disso melhor que eu). Homero, se é que existiu, é a pulga milenar atrás da orelha de todos os muito-originais que aparecem por aí. Porque o resto é tentativa, pastiche. E há pastiches e pastiches. Reinaldo Moraes, autor do cult “Tanto Faz” (Brasiliense, 1981; Azougue Editorial, 2003) cometeu um dos mais descarados pastiches da Odisséia. Descarado e perigoso. “Pornopopéia” (Objetiva, 2009, 475 págs., R$ 54,90) carrega um risco de contágio. Se você, leitor, é dado às mesmas bandalhas do narrador-protagonista, pode acabar terminando o livro em Porangatuba, Jaipur ou Passárgada — ou na delegacia mais próxima.

Trata-se de uma odisséia às avessas, com direito, entre outras coisas, a uma Circe hinduísta com sotaque de telemarketing, transformando pessoas em porcos lúbricos num porão cheirando a chulé e incenso, num “surubrâmane” ao som da cítara psicodélica de um Hermes disfarçado de Alberto Marsicano. Poderia dizer, sem muito erro, que é uma epopéia beatnik. Mas não é tão simples. Reinaldo Moraes atualizou os beats, os trouxe ao século 21. Ou melhor: deixou Kerouac comendo poeira.

“Pornopopéia” é o solilóquio solipsista de Zeca, um cineasta falido que se pendura no rótulo de “maldito”, provavelmente para justificar sua, digamos, ineficácia artística — é o cineasta-de-um-filme-só.  Anti-herói, semi-poeta e bandido inadvertido, Zeca tem o dom de causar consequências (alguém aí se lembra do Sérgio Sampaio?) e uma sorte inacreditável para escapar das mesmas, sem ilusões de redenção e sem deslumbramentos, sem vagabundos iluminados e sem bandidos angelicais. Não há um único personagem de “Pornopopéia” que não seja tanto ou quanto filho-da-puta (os sensíveis me desculpem, mas não há outro termo —malandro é malandro, mané é mané e filho-da-puta é filho-da-puta, e pronto).

Eu poderia dizer que Reinaldo Moraes é um Kerouac desiludido ou um João Antônio sem compaixão (se é que João Antônio se interessaria por algum pingente da baixa classe média além dele mesmo), não fosse o estilo tão próprio, a “assinatura”, como disse Marcelo Mirisola em resenha publicada no “Congresso em Foco”. Além dos trocadilhos, dos neologismos, dos haicais “rasteiros” e das tiradas proto-filosóficas (um caqui metafísico que ameaça a existência objetiva de Zeca, por exemplo) que já marcavam “Tanto Faz”, “Pornopopéia” está recheado de um coloquialismo praticamente naturalista, com achados surpreendentes, num ritmo cocainado (Zeca é adepto da cafungagem), arrastando o leitor consigo. E há ainda uma ironia e uma auto-ironia permanentes — alguns chegaram a chamar “Pornopopéia” de “machadiano”. Zeca, ou Reinaldo Moraes, não perdoa nada, nem a si mesmo ou seus semelhantes; aliás, como em “Animais em Extinção”, do supracitado Mirisola, os coadjuvantes são parte da fauna boêmio-literária paulistana. Moraes disse em entrevista que “gosta de personagens com CEP”, e, aparentemente, tem o bom (ou mau) hábito de dar nome a quase todos os bois, sem afagos e sem se deixar tolher por acordos ortográficos ou patrulhas do politicamente correto.

Mas o principal no novo romance de Reinaldo Moraes é a “aberração” literária que representa. Uma questão de gerações. “Tanto Faz” foi publicado em 1981; época de abertura política e consolidação do desbunde; década (75-85) que fez possível, no Brasil, a tradução de Bukowski, Fante, Pavese, Burroughs, Bataille; que possibilitou a publicação de Márcia Denser, Caio Fernando Abreu, de “O Verde Violentou o Muro”, de Ignácio de Loyola Brandão, de “Um Copo de Cólera”, de Raduan Nassar. É a apologia do ócio e — pourquoi pas? — de uma leveza poética, de um hedonismo tranqüilo contra “a sordidez do conteúdo desses dias maquinais” (Sérgio Sampaio, de novo). Desde então, vieram o isolamento e o tédio dos anos 90 e a paranóia do começo do século, onde ainda estamos imersos. No caminho, surgiram pelo menos mais duas gerações de escritores, muitos dos quais, diga-se de passagem, afirmam ter sido levados à literatura pela “histórica” coleção da geração de Reinaldo Moraes, a Cantadas Literárias, da Brasiliense. Ricardinho, narrador-protagonista de “Tanto Faz”, passou por tudo isso e encontrou-se acossado pela AIDS, pela polícia (só não tem medo de polícia quem nunca tomou um baculejo), pela violência urbana e pela caretice da moral neo-petencostal reinante. Trinta anos depois, duas gerações de escritores depois, como explicar que somente o próprio Reinaldo Moraes, já quase sexagenário, conseguiu atualizar e levar até as últimas conseqüências a experiência de “Tanto Faz”? Aqui do subterrâneo do meu ineditismo, tenho (temos) que encarar aquela verdade do Pedro Juan Gutiérrez: “Estamos com muita fome e emagrecemos a cada dia.” E não estamos fazendo nada a respeito. Duas gerações: Vladmir e Estragon. Felizmente ainda temos um Reinaldo Moraes pra chutar o balde blasé dum “tanto faz” e entornar um bom e sonoro “foda-se!”. Até quando?

Leia o primeiro capítulo de Pornopopéia.

 


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POR EM 18/07/2009 ÀS 08:51 AM

Drummond e a política

publicado em

Drummond sempre procurou rebater a acusação de que havia trabalhado a serviço de uma ditadura, alegando que não passara de um burocrata. Não é o que os documentos mostram, embora, no fim da vida, procurasse apagar a nódoa, atribuindo a sua participação na ditadura a vínculos afetivos            

Que o poeta Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) sempre procurou passar à posteridade a imagem de um intelectual modernista, esforçando-se para apagar o seu passado de engajamento na cena política do País, não é novidade. Mas como usava, ainda que não ostensivamente, as boas relações de que desfrutava com os poderosos especialmente nas décadas de 30 e 40, isso não havia sido bem delineado até agora. É o que faz o professor Roberto Said em “A Angústia da Ação: Poesia e Política em Drummond”, ao traçar um retrato muito mais nítido, sem retoques, do homem Carlos Drummond de Andrade do que aquele que se tinha até aqui, completando, de certa maneira, a biografia que José Maria Cançado (1952-2006) escreveu, “Os Sapatos de Orfeu” (São Paulo: Página Aberta, 1993; Editora Globo, 2006), aliás, o único estudo do gênero que temos até hoje.
 
Nesse notável estudo biográfico, Cançado já havia chamado a atenção para o oxímoro “dessemelhante absoluto”, criado pelo próprio poeta, que define a personalidade dúbia e hesitante de Drummond, que parecia não pertencer a nada, mas que, por isso mesmo, mostrava-se “condenado a participar de tudo”. Com base nisso, Said procura desenvolver a ideia borgeana do duplo: assim o poeta e o funcionário público Drummond constituiriam uma dupla personalidade, embora a mão que escrevia um arrojado poema modernista fosse a mesma que preparava discursos para políticos conservadores que de modernos só tinham aquilo mesmo: o discurso. 
 
Para o leitor que desconhece a biografia de Drummond, é preciso que se diga que, mesmo em linhas gerais, o que foi a adesão do poeta ao grupo político que chegou ao poder com o golpe civil-militar de 1930, que, até hoje, alguns historiadores distraídos ainda chamam de Revolução de 30. Antes disso, porém, é preciso dizer que esse golpe nada teve de modernizante no sentido de que tenha representado uma revolução para um Brasil arcaico. Pelo contrário. Não passou de rearrumação entre elites carcomidas, pois não há nenhuma prova de que algumas das conquistas trabalhistas que viriam com a Era Vargas não teriam se dado se a velha política do café-com-leite tivesse permanecido no poder por mais uma ou duas décadas.
 
Quem já leu as crônicas de Lima Barreto (“Toda Crônica”, v. I (1890-1919), v.II (1919-1922. Rio de Janeiro: Agir, 2004) sabe como eram odiados os cafeicultores paulistas que mandaram e desmandaram durante a República Velha (1889-1930). Lá se vê, por exemplo, um cronista indignado com os “assaltos” que as elites paulistas faziam às burras do erário nacional, a pretexto de levantar subsídios e empréstimos a juros maternais, que quase sempre não pagavam, embora o café fosse considerado a grande riqueza nacional. Que riqueza era essa que necessitava de tanta subvenção?, questionava o cronista, revoltado.
 
O pretexto para o golpe foi que as eleições de 1930 teriam sido fraudadas, com a escolha do paulista Júlio Prestes (1882-1946) para suceder a Washington Luís (1869-1957). Mas o governo também fazia a mesma acusação aos oposicionistas da Aliança Liberal. E ambos os lados tinham razão. Quem podia fraudava: a contagem dos votos dependia da vontade política do manda-chuva de cada Estado ou região. Depois, em 1932, os oligarcas de São Paulo tentaram dar o contragolpe, a pretexto de defender a reforma eleitoral e a convocação de uma Assembléia Constituinte. Que 77 anos depois o governo de São Paulo ainda convoque a população para comemorar essa derrota é coisa que causa espanto e que só se explica pela necessidade que as elites têm de fabricar heróis.
 
Mesmo assim, este articulista, particularmente, acredita que, fosse como fosse, o Brasil teria tido um futuro um pouco melhor se a oligarquia paulista tivesse continuado à frente do País. Pelo menos era uma gente, ao menos em público, mais refinada e preocupada em construir um regime democrático, ainda que fosse a democracia dos que vivem no andar de cima.
 
Sem dúvida, a facção que afastou temporariamente a oligarquia paulista do poder político — mas não do poder econômico — era mais atrasada, de concepções arcaicas. Com Getúlio Vargas (1882-1954), um fazendeiro da fronteira sulina que havia sido ministro da Fazenda do governo deposto, acostumado a cometer toda a sorte de arbitrariedades, foi o Brasil profundo que se instalou no Palácio do Catete e nas demais instâncias do poder, com tudo o que isso representava: mandonismo, ditadura, perseguições, tortura dos adversários políticos.
 
Mas que isto não sirva para dourar os brasões das elites paulistas: o que unia as facções oligárquicas em luta era a avidez por propinas, lucros exorbitantes e favores do Estado, sem que se incomodassem com o fato de que essa política levava à mendicância as classes subalternas ou as atirava à aventura de uma guerra civil, se isso fosse necessário para defender seus privilégios. Tal como hoje, para essas elites, o poder sempre representou um butim a ser dividido.
 
E foi a uma dessas facções que Drummond colocou a serviço a sua pena, ajudando-a a alcançar e exercitar o poder, preparando-lhe um discurso modernizante. Estes são os fatos, ainda que os intelectuais procurem explicações mais rebuscadas para o ato. Não foi, portanto, um papel de que alguém, no fim da vida, pudesse se orgulhar. Talvez isso explique por que Drummond sempre procurou escamotear o passado, como se quisesse reescrevê-lo ou torná-lo menos importante. Mas que não foi politicamente discreto esse papel, não foi, ainda que o poeta tivesse uma personalidade tímida.
  
 
Como se sabe, Drummond era amigo de adolescência de Gustavo Capanema (1900-1985), a quem conheceu em 1916 no colégio. Foi Capanema quem o levou para o funcionalismo público em 1930 e para o Ministério da Educação e Saúde em 1934. Durante anos, Drummond foi chefe de gabinete do ministro Capanema, atuando muito mais na sombra como faz todo aquele que ocupa esse cargo.
 
Said lembra que Drummond sempre procurou rebater a acusação de que havia trabalhado a serviço de uma ditadura, alegando que não passara de um burocrata. Não é o que os documentos mostram, embora, no fim da vida, procurasse apagar a nódoa, atribuindo a sua participação na ditadura mais aos vínculos afetivos que o ligavam a Capanema.
 
Um exercício de dialética porque o poeta não seria um homem tão tolo assim que não soubesse o que faziam nos porões do governo a que servia. Até porque ninguém chega a um alto cargo estatal, se não se render às exigências do poder.
 
A importância da obra de Said está em mostrar que as “fissuras vividas” por Drummond não são externas ao seu texto poético, “mas, ao contrário, condições de possibilidade para a sua realização”. De fato, não existia até aqui uma obra que tivesse investigado tão a fundo os envolvimentos do poeta com a política, atividade que começou ainda em Belo Horizonte na década de 1920, quando foi redator-chefe do “Diário de Minas”, órgão conservador, que deixou em 1929 para dirigir a campanha da Aliança Liberal no “Minas Gerais”, jornal oficial do Estado.
 
Vitorioso o movimento golpista, Drummond tornou-se o assessor mais importante do interventor Gustavo Capanema, até que, em 1934, com a ascensão do amigo a ministro, transferiu-se para o Rio de Janeiro. Como observa Said, no centro político e cultural da Nação, o poeta iniciou uma decisiva etapa em sua vida, consolidando sua carreira no funcionalismo, além de ocupar espaço nos principais jornais da capital da República, especialmente nos Diários Associados, de Assis Chateaubriand (1892-1968), que, por influência do todo-poderoso Capanema, pagavam-lhe pela sua colaboração.
 
No Ministério da Educação, Drummond permaneceria até 1945, ano em que assumiu, por influência política, obviamente, a Diretoria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Sphan), órgão pelo qual se aposentou.  É de lembrar que, ao final da Segunda Guerra Mundial, Drummond demitiu-se do cargo, afastando-se do governo Vargas, mas sem romper com o amigo Capanema. Foi por essa época, quando havia fortes pressões em favor da redemocratização do País, que teve uma breve e tumultuada passagem pelo jornal “A Tribuna”, do Rio de Janeiro, órgão do Partido Comunista Brasileiro (PCB). Como provavelmente logo concluiu que aquilo não iria levar a nada, a não ser a complicações em sua vida pessoal, retornou ao funcionalismo público, ao mesmo Sphan.  
 
Resultado de pesquisa desenvolvida junto à correspondência de Drummond no acervo da Fundação Casa de Rui Barbosa, do Rio de Janeiro, este trabalho acadêmico revela também o extenso papel político exercido pelo funcionário público, estabelecendo sua participação em favores do Estado a boa parcela de escritores e críticos do Modernismo, desde pedidos de emprego até interferência direta em projetos ou questões mais complexas, como a construção do edifício do Ministério da Educação, a cargo de Oscar Niemeyer (1907) e Lúcio Costa (1902-1998), ou na feitura dos painéis internos do mesmo prédio, entregues a Candido Portinari (1903-1962).
 
Diz Said que, ao longo dos anos de 1930 e 1940, período das cartas pesquisadas, Drummond aparece não só como o poeta de maior prestígio na literatura brasileira, “mas sobretudo como um intelectual influente, que, ao se valer de seus poderes na máquina pública, traçava em torno de si complexas relações de débitos e créditos simbólicos, revertidos, direta ou indiretamente, para o próprio Estado”. E para si mesmo, acrescente-se.
 
Mesmo assim, o poeta nunca se reconheceu como um intelectual cooptado, como membro de uma “intelligentsia” nem tampouco como mediador de projetos culturais, diz Said, deixando claro que seus argumentos convenceram até um crítico do quilate de Antonio Candido (1918) que, ao lhe conferir uma posição política progressista, defendeu que a inserção nos quadros públicos estatais não implicaria necessariamente uma submissão ideológica ao regime nem tampouco uma posição política conservadora.  Para Candido, como chefe de gabinete do ministro da Educação, Drummond teria vivido a fase mais ativa de sua militância intelectual de poeta comprometido com os ideais de esquerda.
 
Said cita também Sérgio Miceli, autor de “Intelectuais e Classe Dirigente no Brasil: 1920-1945” (São Paulo: Difel, 1979) e “Intelectuais à Brasileira” (São Paulo: Companhia das Letras, 2001), que procurou desconstruir a aura de transgressão absoluta que foi conferida ao Modernismo, defendendo que o campo literário foi cooptado pelo campo político, o que incluiria, obviamente, Drummond, apesar do esforço dialético de Antonio Candido e do próprio poeta em entrevista ao jornal “O Estado de S.Paulo” à época da publicação do primeiro livro.
 
Said, porém, preferiu não se alinhar com nenhuma das duas teses, procurando, isso sim, demonstrar como a trajetória de Drummond assinala os dilemas a que estavam submetidos os escritores de sua geração. O resultado é uma imagem de Drummond um pouco diferente daquela que costuma ter quem apenas se limita ler seus poemas. Nem melhor nem pior, porém, mais humana, ao expor suas fraquezas e contradições.    
 
Graduado em História pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) em 1996, Roberto Said tem mestrado (2002) e doutorado (2006) cursados no Programa de Pós-Gradução em Estudos Literários da Faculdade de Letras dessa instituição. Realizou estágio de doutorado na Universidade de Buenos Aires (2004). Concluiu recentemente pesquisa de pós-doutorado (2008) no Acervo de Escritores Mineiros (UFMG). Tem experiência na área de Letras, Comunicação e Cultura brasileira, com ênfase em Teoria da Literatura, Literatura Brasileira, História e Memória Cultural, atuando principalmente nos seguintes temas: literatura comparada, modernidade, pós-modernidade, filosofia, nação, biografia, memória cultural, arquivos e acervos literários. Organizou recentemente o livro “Margens Teóricas: Memória e Acervos Literários” (Belo Horizonte: Editora UFMG, 2008).
 


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POR EM 18/07/2009 ÀS 08:51 AM

Um relato pessoal sobre a guerrilha

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A guerrilha brasileira ganhou pelo menos uma batalha: a bibliográfica. A esquerda contou sua versão em vários livros e os militares, os vencedores, perderam a guerra do texto. Entretanto, a maioria dos livros dos ex-guerrilheiros não tem qualquer espírito autocrítico

O trabalho histórico mais abrangente sobre a esquerda em armas continua sendo, mesmo depois da publicação de “A Ditadura Escancarada”, de Elio Gaspari, “Combate nas Trevas”, de Jacob Gorender. Mas os livros continuam saindo e pelo menos um deles merece ser lido com atenção, não como um rigoroso estudo histórico — caso da obra de Gorender —, e sim como o que é: memórias. Sinceras, dolorosas e nada heroicas.

“Uma Tempestade Como a Sua Memória — A História de Lia, Maria do Carmo Brito” (Editora Record, 179 páginas), de Martha Vianna, de tão bem escrito lê-se numa tarde (ou numa noite). Conta-se, com delicadeza, a história de Maria do Carmo Brito, a Lia, que comandou a VPR, uma organização de esquerda que lutou contra a ditadura civil-militar. Alguns livros — como “Mulheres Que Foram à Luta Armada”, de Luiz Maklouf Carvalho — apontam Lia com um problema não resolvido. Quer dizer: na prisão, barbaramente torturada, Lia não segurou a barra e falou sobre companheiros e sobre o dinheiro roubado do cofre de Adhemar de Barros. Lia também não cumpriu o pacto de suicídio com o marido, o líder guerrilheiro Juares Guimarães de Brito, o Juvenal. (No livro de Gorender, a grafia é Juarez.) Encurralado, Juares se matou. Lia preferiu ficar viva ou não teve tempo para se matar. Ela foi presa.

Maria do Carmo poderia ter usado o livro para se justificar, para se defender, mas não o faz. Ela admite que, sob tortura, que a fazia ficar menstruada o tempo todo, fez revelações, a maioria sem importância. Conta que, pressionada, foi obrigada a torturar o guerrilheiro Ladislas Dowbor. E revela que, mesmo espancado, Dowbor não aceitou torturá-la. É preciso coragem e seriedade para admitir e dizer isto.

A história do cofre de Adhemar “Rouba Mas Faz” de Barros está documentada, mas merece um livro especial. O político paulista, supostamente corrupto incorrigível, guardava um cofre na casa da amante, Ana Benchimol Capriglioni. A Var-Palmares descobriu, por intermédio de um sobrinho de Ana Capriglioni, e organizou um assalto. A Var esperava 100 mil, mas, quando o cofre foi aberto, havia 2,6 milhões de dólares. “Tinham acabado de dar o maior golpe da história do terrorismo mundial”, diz Elio Gaspari (página 54 de “A Ditadura Escancarada”).

Baseado em outras publicações e fontes, Gaspari explica para onde foi todo esse dinheiro. “Um pedaço, que pode ter variado entre 800 mil e 1 milhão de dólares, foi entregue a um diplomata argelino. Outro, estimado entre 250 mil e meio milhão, foi depositado na Suíça. Assim, algo entre 1 e 1,6 milhão de dólares ficou no Brasil. É certo que um espertalhão francês embolsou parte da poupança externa do grupo. Segundo o CIE (Centro de Informação do Exército), em 1974 restavam na Europa 120 mil dólares.” Maria do Carmo sabe o nome de quem ficou com o dinheiro, mas não o revela em suas memórias. Luís Mir, em “A Revolução Impossível”, revela alguns nomes.

O livro reserva detalhes que vão interessar o leitor goiano. Dois dos principais líderes da esquerda armada, Juares Guimarães e Maria do Carmo, moraram em Goiás, em 1963. Eles eram militantes da Polop (Política Operária). O relato de Martha Vianna: “Os dois tinham uma atividade oficial: ele trabalhava no governo do Estado de Goiás [governo de Mauro Borges] e dava aulas de Sociologia na Universidade Federal de Goiás, enquanto ela trabalhava na Comissão Interestadual do Vale dos Rios Araguaia-Tocantins (Civat). Mas os dois tinham outra função paralela: cuidavam da criação de Sindicatos Rurais”. Eles foram presos quando organizavam um sindicato rural em Nazário.

Há uma referência também ao ex-marinheiro José Duarte, que ocupou cargo de proa no governo de Marconi Perillo. O relato de Maria do Carmo: “José Duarte dos Santos e o brasileiro desconhecido se abraçaram como amigos de longa data”. O encontro ocorreu no Chile e o desconhecido era o Cabo Anselmo, que, ao passar para o lado do delegado Sérgio Paranhos Fleury, devastou a esquerda. José Duarte, que nada tinha a ver com as delações do Cabo Anselmo, ficou desesperado ao saber que o companheiro era um traidor. A versão de Maria do Carmo (que chama José Duarte de “Faca Grande”): “Aí o Duarte entrou em parafuso, porque tinha sido ele, ainda no tempo do PC, quem tinha recrutado o Anselmo. E se sentia diretamente responsável”. O relato de Martha Vianna: “Maria do Carmo e Faca Grande resolveram então que voltariam ao Brasil, no melhor estilo dos comandos suicidas, para acabar com o Cabo Anselmo”. Não voltaram e o Cabo Anselmo fez um estrago definitivo na esquerda armada.

O leitor decerto perceberá que Maria do Carmo mostra o ridículo da guerrilha e debocha de si própria, que, a partir de certo momento, não acreditava mais na luta armada, mas não tinha como sair. Maria do Carmo foi casada com Ângelo Pezutti e, depois, casou-se com Chizuo Osava, o Mário Japa. Seu livro é um portentoso ajuste de contas com o passado, o seu e o do país, ainda que lacunar.
 


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POR EM 11/07/2009 ÀS 09:05 AM

O centenário de Ataulfo Alves

publicado em

Para quem gosta de boa música, a eterna, não a dos jabás de algumas rádios e tevês, 2009 é mesmo o Ano Ataulfo. A cristalização das homenagens é o livro Ataulfo Alves — Vida e Obra, do jornalista e historiador Sérgio Cabral

Ataulfo, Roberto Carlos e Caçulinha

Elegante (e magro) como Barack Obama, refinado como Louis Armstrong e genial como Noel Rosa, Ataulfo (ou Ataulpho) Alves nasceu em 2 de maio de 1909, há 100 anos, e morreu em 20 de abril de 1969, há 40 anos. 2009 bem poderia ser chamado de “Ano Ataulfo”. Para quem gosta de boa música, a eterna, não a dos jabás de algumas rádios e tevês, 2009 é mesmo o Ano Ataulfo. A cristalização das homenagens é o livro “Ataulfo Alves — Vida e Obra” (Companhia Editora Nacional e Lazuli), do jornalista e historiador Sérgio Cabral. Não li o livro, que ainda não aparece nos sites das livrarias. Nas entrevistas, o excelente pesquisador conta uma história que, se parece nova, está documentada em pelo menos dois livros: “Ataulpho Alves — Um Bamba do Samba” (edição do autor, 272 páginas, 2004), de Luizito Pereira, e “A Canção no Tempo — 85 Anos de Músicas Brasileiras, Volume 1: 1901-1957” (Editora 34, 366 páginas, 1997), de Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello.

O samba “Ai Que Saudades da Amélia”, de Mário Lago e Ataulfo, é considerado uma obra-prima por Jairo Severiano, um dos mais categorizados historiadores da música patropi, autor do seminal “Uma História da Música Popular Brasileira — Das Origens à Modernidade” (Editora 34, 501 páginas, 2008). Severiano e Zuza dizem que se trata de “primoroso poema popular, coloquial espontâneo”. “Escrito por Mário Lago, recebeu de Ataulfo Alves uma de suas melhores melodias, que expressa musicalmente o espírito da letra.” A letra de Mário Lago, compositor inspirado (e pouco comunista, apesar de ter pertencido ao Partidão), é baseada numa história real. Aníbal Alves de Almeida, conhecido como Almeidinha, irmão da cantora Araci de Almeida, é o pai não-intelectual de “Amélia”. 

“Amélia”, segundo Severiano e Zuza, “nasceu de uma brincadeira de Almeidinha, que sempre que se falava em mulher costumava brincar — ‘Qual nada, Amélia é que era mulher de verdade. Lavava, passava, cozinhava...’. Então, Mário achou que aquilo dava samba e fez a letra inicial de ‘Ai Que Saudades da Amélia’”. Os historiadores sustentam que Amélia realmente “existiu e, possivelmente, ainda vivia à época da canção. Era uma antiga lavadeira que serviu à sua família [de Almeidinha]. Morava no subúrbio do Encantado (Zona Norte do Rio) e trabalhava para sustentar uma prole de nove ou dez crianças”.

A versão de Luizito acrescenta mais molho, mas não é muito diferente da apresentada por Severiano e Zuza. Mário conta que, em 1941, enquanto conversava com Ataulfo, Frazão e Orlando Silva, no Café Nice, “o Almeidinha começou a cantarolar a história de uma mulher que era solidária ao seu homem, que passava fome ao seu lado e achava bonito não ter o que comer. Eu e Ataulfo pensamos: isso dá um samba”.

O baterista Almeidinha admirava o desprendimento de Amélia dos Santos Ferreira, empregada de Araci (ou Aracy) de Almeida. A versão de Ataulfo, transmitida por Luizito: “Tínhamos combinado fazer o samba juntos. Eu já tinha a música e pedi os versos ao Mário. Ele escreveu o poema e me deu. Em casa, meti os peitos no samba. Mudei então alguns versos. Não o sentido. Uma ou outra palavra, trocando de lugar uma frase para melhor adaptar minha música”.  

Louis Armstrong, Juscelino Kubitschek e Ataulfo

O relato de Severiano e Zuza: “Com a letra pronta, Mário pediu a Ataulfo Alves para musicá-la. O compositor executou a tarefa, mas alterou algumas palavras e aumentou o número de versos de doze para quatorze. ‘Isso é natural’ — comentava Ataulfo, em depoimento para o MIS do Rio de Janeiro, em 17 de novembro de 1965 —, ‘as composições dos parceiros que são letristas sofrem influência minha, que sou autor de letra e música. Mas o Mário não gostou. E não adiantou dizer que a música me obrigara a fazer as modificações’. De qualquer maneira, como o samba estava bom, ficaram valendo as alterações”.

Luizito registra que Mário atacou, furibundo: “Esse samba não é meu, não escrevi isso. Pode lançá-lo sozinho”. No final de 1941, serenados os ânimos, Mário decidiu “assinar o contrato para a gravação de ‘Ai Que Saudades da Amélia’, “mas”, comunista de “mercado”, “exigiu pagamento adiantado”. Vicente Vitale, apresentado por Luizito como editor-comerciante esperto, aceitou fazer o adiantamento, mas exigiu “a exclusividade da composição”. Mais tarde, Ataulfo lamentou: “A empresa Vitale só quer me dar 10% daquilo que eu julgo com direito, e por isso não recebo um vintém”.

Resolvido o impasse, com Mário aceitando que o samba e a grana eram dele, Ataulfo sugeriu que um cantor famoso gravasse a música. Ninguém queria gravá-la. Alguns disseram para Ataulfo: “O samba é bonito, mas não é carnavalesco”. Outros ficaram com receio: “A música é boa, mas, não sei, é diferente e acho que o povo não gosta disso”. Nem Orlando Silva, o Sinatra da casa grande e da senzala, ousou gravar “Amélia”.

Na falta de um grande cantor, Ataulfo decidiu gravar o samba, no fim de novembro de 1941, com o grupo Academia do Samba e, tocando cavaquinho, Jacob do Bandolim. Lançada em janeiro de 1942, a música fez sucesso, não desagradando homens e mulheres, que entenderam aquilo que Ataulfo disse numa entrevista: “Amélia é compreensão, é ternura, é vida”. Não é um hino à submissão. “Ela simboliza a companheira ideal, que luta ao lado do marido, vivendo de acordo com suas possibilidades, sem exigir o que ele não pode dar”, acrescentou o compositor-cantor. “Amélia”, pontificou Mário, era o “símbolo da mulher brasileira” (um exagero, pois as troianas, e outras, eram tão solidárias quanto).

A mulher do presidente Getúlio Vargas, Darcy, mandou executar a música no Baile de Gala do Municipal. “O cinematografista americano Orson Welles, encarregado de dirigir a filmagem de aspectos da festa, fez questão de conhecer a letra de ‘Amélia’ em versão para o inglês, cantarolando a música durante todo o carnaval”, garaante Luizito.

Indicada para a disputa do melhor samba do carnaval de 1942, “Amélia” enfrentou “Praça Onze”, sucesso de Herivelto Martins e Grande Otelo. As duas músicas empataram, por decisão do público, e levaram a grana do prêmio.
 


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POR EM 11/07/2009 ÀS 09:05 AM

D.Maria I: louca, piedosa ou uma incógnita?

publicado em

Achincalhada por historiadores republicanos, a rainha sempre foi vista como uma fanática religiosa que teria sido levada à insânia por seus conselheiros e confessores de batina

“D. Maria I a Rainha Louca”, de Luísa Viana de Paiva Boléo

Os quinze anos em que D. Maria I (1734-1816) governou efetivamente sempre foram reduzidos pelos historiadores a um “enclave” entre o reinado de seu pai, D.José I (1750-1777), dominado pela figura marcante do seu valido, o marquês de Pombal (1699-1782), e o de D.João VI (1792-1826). Achincalhada por historiadores republicanos como J.P. de Oliveira Martins (1845-1894) e outros tantos, a rainha sempre foi vista como uma fanática religiosa que teria sido levada à insânia por seus conselheiros e confessores de batina.

A historiadora Luísa Viana de Paiva Boléo em “D. Maria I a Rainha Louca” (Lisboa: A Esfera dos Livros, 2009) não refaz totalmente essa imagem, mas também não a acentua, procurando reconstituí-la com equilíbrio, reconstruindo não só o período de sua reinação como a sua vida singular. O resultado é um retrato não só inédito desta mulher aclamada rainha a 13 de maio de 1777, aos 43 anos de idade, mas fidedigno, mais condizente com o que se sabe do período e de como se comportavam as famílias reais. Sem deixar de reafirmar o seu caráter de mulher caridosa e devota, que lhe valeu também o epíteto de Piedosa, a biógrafa mostra ainda que D.Maria foi uma mulher culta, que se preocupou em promover as artes e as ciências. E que levou a sério suas funções de governante sempre em nome dos interesses de Portugal.

De sugestão fica a hipótese que a historiadora Maria Helena Carvalho dos Santos, professora jubilada da Universidade Nova de Lisboa, avança no esclarecedor prefácio que escreveu para esta obra: a de que seria interessante fazer-se uma investigação mais apurada na documentação em busca das razões que teriam levado ao impedimento de D.Maria I, lembrando que muitas intrigas na corte ocorreram em 1792 ao tempo em que foi declarado o seu afastamento sob a alegação de uma possível insanidade mental.

Talvez tenha sido coincidência, mas é, no mínimo, curioso que a debilidade real tenha se manifestado em 1792, quando o príncipe D. João já tinha 25 anos e andava cercado por uma corte ambiciosa de poder e mudanças, como assinala Luísa Boléo. É possível que a rainha apresentasse sinais de melancolia e depressão, a uma época em que não existiam tratamentos para esse tipo de doença, mas é bastante plausível também a hipótese de que o afastamento da rainha tenha sido apressado por aqueles que viam na ascensão de um príncipe jovem a oportunidade de empolgar o poder por meio de um golpe de estado palaciano, não declarado. É de lembrar que D.João só seria declarado regente em 1799, quando a rainha tinha 65 anos, e que reinou por sete anos em seu nome.

Antes disso, a rainha, desde que assumira em substituição a seu pai em 1777, nunca se mostrara incapaz ou menos disposta aos assuntos da governação, exercendo o poder em sua plenitude. Houve, inclusive, uma tentativa de levá-la a assinar um documento que absolvia os Távoras e ela não se mostrou disposta a ir contra a decisão do próprio pai e rei. Como se sabe, os Távoras estiveram implicados no atentado a d.José I em 1758 e tiveram morte atroz. Ainda influentes na corte, os partidários dos Távoras patrocinaram um processo que visava a reabilitá-los, mas que se arrastou até 1781, sem que nunca tenha tido o desfecho que esperavam.

Por essa época, a rainha teria tido uma crise de fúria, atribuída à excessiva influência religiosa que recebia, mas tudo isso também pode ser visto por outro ângulo: se estava fora de seu juízo, por que a rainha não foi declarada louca a esse tempo? E como se pode entender que o país tenha sido governado por uma pessoa insana por tantos anos? Está claro que, por trás dessa história, haveria muitos interesses subalternos em jogo que documentos pouco analisados ou mesmo desconhecidos poderiam trazer à luz.

Não se pode esquecer que D.Maria Francisca, princesa da Beira, nascida no Paço da Ribeira, filha de D.José de Bragança e de D.Mariana Vitória de Borbón, teve uma vida atribulada: viveu a catástrofe que foi o terremoto de 1755, que destruiu Lisboa e localidades vizinhas, assistiu à execução brutal de alguns nobres acusados de conspiração, sofreu perseguições por parte do marquês de Pombal, homem de confiança de seu pai, mas teve forças para assumir o cetro e, mais importante, para afastar o ministro tão logo assumiu. Em menos de dois anos, viu morrer o marido, D.Pedro III (1717-1786), seu tio, que, segundo o testemunho de estrangeiros contemporâneos, não seria uma inteligência privilegiada, pelo contrário, e seu filho primogênito, D.José (1761-1788), causada por varíola (bexigas), a uma época em que o príncipe já estava casado e pronto para sucedê-la se tivesse herdeiro. Viu ainda a morte de sua filha e de seu genro espanhol, além da de seu confessor, frei Inácio de São Caetano.

No plano externo, acompanhou com apreensão a má sorte da família real francesa depois da Revolução de 1789 e teve de enfrentar a astúcia e a ambição dos ingleses que, a pretexto de garantir a existência do pequeno reino diante do vizinho, a poderosa Espanha, o que mais faziam era saquear o país e suas colônias, especialmente o Brasil. Tantos sobressaltos em tempos tão conturbados são considerados fatores decisivos para que perdesse a paz de espírito e a sanidade mental, mas isso é apenas uma ilação sem maiores comprovações históricas e documentais.

Obviamente, Luísa Boléo não nos responde essas dúvidas — nem esse foi o objetivo de seu trabalho —, mas nos mostra o outro lado de uma história até hoje mal contada, desde o nascimento da rainha a 17/12/1734, passando por manobras que tentaram evitar sua presença no trono — talvez porque fosse mulher, embora em Portugal não vigorasse a lei sálica —, até a sua ascensão ao poder e o exercício de um governo que, mesmo recebendo uma herança maldita, soube como assinar a paz com a Espanha, equilibrar a economia e manter a reforma do ensino laico, embora a tenham acusado de ser uma beata, sem levar em conta que a suposta fanática religiosa nunca escolheu um eclesiástico para o seu governo nem revogou a decisão de seu pai que expulsara os jesuítas do Reino e de suas colônias.

Seja como for, o que se pode concluir é que, ao seu tempo, D.Maria foi uma rainha popular, famosa por suas atitudes de benemerência. Basta ver o que disse dela o potentado santista José Bonifácio de Andrada e Silva (1763-1838) em elogio acadêmico, a uma época em que nem imaginava que, um dia, seria figura decisiva na separação do Brasil de Portugal e passaria para a História como o patriarca da independência: “(...) quanto mais humildes e desvalidos eram os que pediam audiências, com tanto maior gosto a Rainha ouvia as suas petições e respondia aos seus queixumes”.

Ao contrário de outros historiadores, Luísa Boléo preferiu não dar nenhum palpite sobre o número de pessoas que acompanharam o príncipe regente em sua viagem ao Brasil ao final de 1807. Nem repetiu exaustivamente os mais disparatados números exibidos por outros historiadores sem apresentar nenhuma fonte de arquivo que pudesse avalizá-los, mas reconheceu que há um exagero nas estimativas que apontam para 10, 12, 15 e até 20 mil pessoas que teriam atravessado o oceano àquela época.

Como não teve a oportunidade de compulsar os documentos de arquivo, preferiu ficar com os dados de quem realmente tem estado anos a fio em arquivos brasileiros e portugueses, o arquiteto e historiador Nireu Oliveira Cavalcanti, autor de “O Rio de Janeiro Setecentista: a Vida e Construção da Cidade da Invasão Francesa Até a Chegada da Corte” (Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2004), que aponta para cerca de 500 o número de acompanhantes. Por sugestão deste articulista, Luísa Boléo conversou pessoalmente com o historiador em Lisboa, que, mesmo com margem de erro, lhe teria admitido que até 1500 pessoas, “entre fidalgos com familiares, criados de ambos os sexos e pessoal administrativo” (pág.299), poderiam ter acompanhado o príncipe.

É verdade que citou a informação do irlandês Thomas O´Neill, tenente da esquadra inglesa que acompanhou D.João e família ao Brasil, segundo a qual teriam sido 15 mil os acompanhantes, mas para contestá-la e considerá-la um tabu de 200 anos que só recentemente um historiador, de fato, ousou colocar em xeque.

Na história do Brasil, é claro, D.Maria também nunca foi bem vista, embora tenha vivido na terra brasileira nove anos, até a morte em 1816, afastada de qualquer questão de governo ou de facções palacianas, sempre bem assistida pelo filho, o príncipe regente D.João, segundo testemunhos da época. É que em 1792 a rainha assinou a sentença que condenou à forca o alferes Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, e ao desterro outras pessoas comprometidas com a conspiração de 1789 em Minas Gerais.

É de assinalar que Tiradentes só ascendeu a mártir nacional depois da queda da monarquia em 1889, tornando-se um ícone republicano. E que à época não haveria outro desfecho para aqueles que conspiravam contra o trono. Dos papéis, o que se conclui é que havia alguns homens de dinheiro — especialmente, ex-arrematantes de contratos endividados com a Coroa — comprometidos com a conspiração, mas que o peso maior recaiu sobre o alferes que, aliás, se não era um magnata, também não era o pobretão que comumente se imagina.

Além disso, se a conjuração mineira tivesse obtido êxito — e teve todas as possibilidades de dar certo não só em razão das circunstâncias geográficas de Minas como em função da debilidade das forças do Reino para uma reação —, provavelmente, o Brasil não seria o que hoje conhecemos e, sim, um território retalhado por pequenas repúblicas como a América espanhola.

Luísa Viana de Paiva Boléo, nascida em Coimbra, é licenciada em História e tem se destacado por sua colaboração em jornais e revistas de Portugal, como “Máxima”, “Expresso”, “Público” e “Notícias Magazine” do “Diário de Notícias”. É responsável pelo site www.leme.pt que reúne pequenas biografias de muitas mulheres e alguns homens que se notabilizaram na História portuguesa e mundial.

Foi responsável pela revista da Comissão para a Cidadania e Igualdade de Gênero. É sócia da Associação Portuguesa de Estudos sobre as Mulheres (Apem) e da Sociedade Portuguesa de Estudos do Século XVIII, onde colabora nas tertúlias. Dedica-se a vários estudos de história e cultura do Brasil, tendo dado na Universidade de São Paulo uma conferência sobre “Literatura de Cordial: diferenças entre Portugal e Brasil”. Em 2004, publicou “Casa Havaneza, 140 Anos à Esquina do Chiado” (Lisboa: Dom Quixote), livro evocativo dos costumes e vivências de uma casa comercial famosa e procurada por todos os turistas e de uma localidade tradicional da capital lisboeta.
 


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POR EM 04/07/2009 ÀS 10:10 AM

A guerra dos poderosos chefinhos Puzo e Sinatra

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O livro “Confissões de Mario Puzo e Revelações Sobre o Chefão” do próprio Puzo, apesar do título estrambótico, conta os desencontros do escritor e do cantor-ator

Mario Puzo e Frank Sinatra  

Frank Sinatra é o cantor Johnny Fontane de “O Poderoso Chefão”, de Mario Puzo (livro) e de Francis Coppola (filme). Durante anos, a Máfia patrocinou o amigo Sinatra e, quando sua carreira caminhava para a decadência, mafiosos, como Sam Giancana, levantaram-na com elegância e, não menos importante, violência. Ao escrever o “Chefão”, Mario Puzo não hesitou e aproveitou a história de como Sinatra conseguiu um papel importante no filme “A Um Passo da Eternidade” (1953), dirigido por Fred Zinnemann. A Máfia “deu-lhe” o papel do simpático Angelo Maggio, um soldado rebelde. Sinatra ficou “p” da vida e prometeu vingança, a maior delas ignorar Puzo em encontros sociais.

O livro “Confissões de Mario Puzo e Revelações Sobre o Chefão” (Artenova, 271 páginas), do próprio Puzo, apesar do título estrambótico, conta os desencontros do escritor e do cantor-ator. A dona do Elaine’s de Nova York, Elaine, tentou apresentar Puzo para Sinatra. Perguntou se não havia problema, Puzo disse que não, mas Sinatra não quis conversa.

Noutra ocasião, ao participar do aniversário de um milionário, no Chasen’s, em Los Angeles, perguntaram a Puzo se queria ser apresentado a Sinatra. Escaldado, o escritor disse que não. Quando ia embora, o anfitrião e um “assecla” pegaram Puzo pelas mãos e o levaram para conhecer Sinatra.

O relato de Puzo: “O milionário fez a apresentação. Sinatra não ergueu os olhos do prato nem por um instante sequer.

— Gostaria de lhe apresentar o meu amigo Mario Puzo — disse o milionário.

— Pois eu não gostaria — retrucou Sinatra.

Diante disso comecei a me afastar. Aparentemente, contudo, o pobre milionário não havia percebido, continuando a insistir.

— Eu não quero ser apresentado a ele — repetiu Sinatra”.

Como Sinatra parece ter avaliado que Puzo pedira para ser apresentado, o autor de “O Poderoso Chefão” esclareceu: “Escute, a ideia não foi minha”. “Seguiu-se, então, a coisa mais espantosa”, relata Puzo. “Ele não entendeu nada. Imaginou que eu estaria me desculpando por causa de Johnny Fontane, o personagem do meu livro.” Sinatra perguntou: “‘Quem foi que lhe disse para botar aquilo no seu livro? O seu editor?’ — perguntou ele, com a voz quase amável”.

Puzo, que dizia não aceitar interferência de editores em seus livros, corrigiu: “Eu estava me referindo a nossa apresentação”. Ao perceber que a “arte” era mesmo de Puzo, “Sinatra pôs-se a vociferar. O pior termo que usou para me ofender foi cáften, o que de certa forma foi lisonjeiro para mim que jamais conseguira de uma namorada que aos menos espremesse os cravos das minhas costas, quanto mais que trabalhasse para mim. Lembro-me ter ele afirmado que, não fosse pelo fato de eu ser mais velho, me daria uma surra inesquecível. Acontece que eu era um garoto quando ele já cantava na Paramount. O que me magoou de verdade foi ver aquele italiano do Norte ameaçando a mim, um italiano do Sul, com violência física. Tipo da coisa que não se faz. Os italianos do Norte nunca se metem com os do Sul”. Quando Coppola foi escolhido para dirigir o filme, Sinatra disse-lhe: “Sabe, Francis, eu trabalharia em ‘O Chefão’ para você. Não o faria por aqueles caras da Paramount, mas por você, sim”. Muitos cantores foram sondados para fazer Johnny Fontane, mas a maioria não quis. O primeiro a se prontificar foi Al Martino, mas Vic Damone foi consultado primeiro. Aceitou e, depois, recusou, porque era “leal” a Sinatra ou porque a grana era curta. “Al Martino acabou conseguindo o papel e, na minha opinião, saiu-se muito bem”, conta Puzo.
 


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POR EM 27/06/2009 ÀS 09:12 AM

Mencken diz que Ambrose Bierce antecipou Zola

publicado em

Os admiradores de Edgar Allan Poe certamente não vão gostar da heresia, mas Mencken diz que Bierce “escrevia melhor”. “Tinha mais pulso sobre os personagens, era menos literário e melhor observador” 

Ambrose Bierce
 
Na apresentação de sua tradução do conto “A janela vedada” (publicado na coletânea “Contos de Horror do Século XX”, escolhidos por Alberto Manguel, Companhia das Letras), o poeta Nelson Ascher diz que, como escritor, o americano Ambrose Bierce (1842-1914?) “nunca abandonou o gosto pela linguagem precisa, observação aguda, expressão concisa e, sobretudo, pela ironia corrosiva”. Ascher escreve que “o fim do escritor não destoou do restante de sua trajetória. Em 1913, com 71 anos de idade, o gringo viejo (título também de um filme de 1989 sobre seus últimos dias [estranhamente, o tradutor não menciona o romance ‘Gringo Velho’, de Carlos Fuentes, publicado em 1985 e, de algum modo, responsável pela consolidação ou ampliação do mito do aventureiro solitário]) foi ao México, então em plena revolução, para — segundo alguns — unir-se às tropas de Pancho Villa ou — segundo outros — entrevistá-lo. Seja como for, não há, depois disso, notícias confiáveis sobre Bierce. Não se sabe onde e quando morreu”. Pode ter sido em 1913 ou 1914.
 
O escritor Braulio Tavares, na apresentação do conto “Um incidente na ponte de Owl Creek” (publicado na coletânea “Contos Fantásticos no Labirinto de Borges”, Casa da Palavra), diz que a prosa de Bierce é dotada de uma “ofuscante precisão”. Ele cita S. T. Joshi: “Nenhum escritor insistiu tanto quanto Bierce na necessidade de clareza, objetividade e racionalidade, tanto no pensamento quanto na escrita”. Apesar disso, segundo Tavares, “desprezava o Realismo, que ele definia como ‘a Natureza vista através dos olhos de uma rã’”.
 
Jacques Barzun, no seu admirável “Da Alvorada à Decadência — A História da Cultura Ocidental de 1500 aos Nossos Dias” (Editora Campus, 926 páginas), escreve: “... Ambrose Bierce, além de produzir esplêndidas histórias de guerra, escreveu prosa e verso em que os seres humanos e suas instituições são retratados como hipócritas e impostores. O seu ‘Devil’s Dictionary’ (‘Dicionário do Diabo’) fora corretamente intitulado, no começo, ‘The Cynicis Word Book’ (‘O Vocabulário do Cínico’)”.
 
A Companhia das Letras reedita o ótimo “O Livro dos Insultos” (259 páginas, seleção, tradução e posfácio de Ruy Castro), no qual o crítico americano H. L. Mencken esculhamba vacas sagradas da literatura universal. A pena de Mencken não trata Bierce mal, mas há ressalvas... precisas sobre sua prosa.
 
No ensaio, publicado em 1927 (guarda o frescor das obras que não morrem), Mencken diz que “quase todos os seus livros estão fora de circulação, exceto dois que me parecem pérolas: um deles consiste numa série de epigramas, chamado ‘O Dicionário do Diabo’; o outro consiste em algumas das melhores histórias de guerra já escritas, intitulada ‘Tales of Soldiers and Civilians’. O primeiro contém alguns dos mais brilhantes witticisms em língua inglesa; o segundo nada fica a dever a Zola, Kipling ou Ludwig Thomas”.
 
Bierce, avaliza Mencken, “foi o primeiro escritor de ficção a tratar a guerra com realismo. Antecipou-se inclusive a Zola”. Mencken, que conheceu o escritor, assinala que “ele extraiu de sua participação na guerra [Civil Americana, 1861-1865] não foi um horror sentimental a ela, mas uma espécie de cínico deleite. (...) O mundo via a guerra como algo heróico, glorioso, idealista. Pois bem, ele iria mostrar como ela era sórdida e suja, estúpida, selvagem e degradante, embora isso não queira dizer que ele a desaprovasse. Ao contrário, Bierce via na guerra uma oportunidade de ouro para discutir com maligna satisfação sua ideia fixa: a da infinita imbecilidade do homem. Não havia uma gota de leite de gentileza humana no velho Ambrose; ele não ganhou o apelido de ‘Bitter’ (amargo) Bierce por acaso. O que mais o deliciava na vida era o espetáculo da tolice e covardia do homem, o qual ele classificava, intelectualmente, entre uma ovelha e uma vaca e, como herói, ligeiramente inferior aos ratos”.
 
As histórias de guerra de Bierce, nota Mencken, “não descrevem os soldados como heróis; mostram-nos como bobos perdidos, fazendo coisas sem sentido, submetendo-se a violências e torturas sem resistir, e finalmente morrendo como porcos. Até hoje, de fato, nunca vi um cínico tão completo quanto Bierce. Sua descrença no homem era ainda maior que a de Mark Twain. (...) O homem, para ele, podia ser o mais estúpido e ignóbil dos animais, mas era também o mais divertido. Do espetáculo da vida que o cercava, tirava uma alegria implacável e gargantuesca. A farsa obscena da política o deleitava. (...) Rolava de rir só ao pensar em professores, médicos ou maridos”.
 
O escritor tinha um gosto especial pelo macabro. “Todos os seus contos o demonstram. Adorava assistir a enforcamentos, autópsias e dissecações. A morte, para Bierce, não era algo repulsivo, mas uma espécie de comédia vulgar — o último ato de uma bufonaria esquálida e barata”. Ao sugerir que as cinzas do filho de Bierce estavam guardadas numa bela urna, Mencken recebeu uma resposta ácida: “Urna o cacete! Guardo as cinzas numa caixa de charutos”.
 
Os admiradores de Edgar Allan Poe certamente não vão gostar da heresia, mas Mencken diz que Bierce “escrevia melhor”. “Tinha mais pulso sobre os personagens, era menos literário e melhor observador.”
 
Entre os epigramas de Bierce, que Mencken julga como dos melhores já escritos, figuram: “Ah, se pudéssemos cair nos braços das mulheres sem cair em suas mãos” e “A gíria é a fala de quem assalta as latas de lixo literárias, a caminho do esgoto”.
 
Depois dos elogios, as pancadas. Mencken diz que, como crítico literário, Bierce não era “consistente”. Faltavam-lhe leituras amplas e atentas. “Pôs Longfellow acima de Whitman. (...) Seu próprio estilo era extraordinariamente tenso e pouco elástico, e seu pavor à retórica parecia tirar a vida de suas ideias. Seus contos, apesar da eficiência melodramática, começaram a parecer antigos porque pertenciam a uma época em que eram escritos como exercício de estilo, e não como uma transcrição da vida. As pessoas neles não vivem nem respiram. (...) Os contos de Bierce são lidos hoje não como literatura, mas para provocar sustos. Alguns deles merecem uma espécie de melhor de imortalidade."
 
Como crítico social, Bierce, apesar de divertido, não era profundo, mas, ressalta Mencken, “ele foi o primeiro a disparar, com o maior prazer, contra os blefes que infestavam o país. (...) Nenhuma cabeça era coroada o suficiente para escapar de suas bordoadas”.
 
 
O Mencken do aforismo
 
No romance "O Velho Gringo" ("Gringo Velho", na tradução brasileira), o escritor mexicano Carlos Fuentes diz que Bierce "entrou no México em novembro [de 1913] e nunca mais se soube nada dele. O resto é ficção". O coronel Frutos García, personagem do romance de Fuentes, diz: "O velho gringo veio ao México para morrer". Havia trabalhado como jornalista nos Estados Unidos e na Inglaterra, escreveu prosa, poesia, ensaios e aforismos.
 
Obras de Bierce traduzidas no Brasil: "O Dicionário do Diabo" (publicado por duas editoras: Mercado Aberto e Tinta da China), "Visões da Noite — Histórias de Terror Sarcástico" (Record, 222 páginas, tradução de Heloisa Seixas), “No Coração da Guerra” (Artenova, tradução de Jurema Finamour. É uma coletânea de contos sobre a Guerra Civil americana). Outras traduções podem ser encontradas no site Estante Virtual (www.estantevirtual.com.br).
 
A obra mais conhecida de Bierce é "O Dicionário do Diabo" (Mercado Aberto, páginas). São aforismos endiabrados, na linha de Karl Kraus e Nelson Rodrigues. Pode-se dizer que Bierce era o Mencken do aforismo.
 
 
O sexto sentido do prosador americano
 
No conto "A Janela Vedada", que tem um quê de conto de fada, sem fada, Ambrose Bierce relata a história de Murlock, um homem solitário que mora numa região erma. Quando sua mulher morre, Murlock prepara o corpo para enterrá-lo no dia seguinte. De repente, na escuridão da noite, aparece um vulto. O homem assusta-se mas recupera o controle ("há um ponto no qual o pavor se converte em loucura e a loucura instiga a ação") e atira. Mata a pantera que tentava carregar o corpo da mulher aparentemente morta. O narrador conta que "havia entre os dentes um pedaço da orelha do animal", como se tivesse mordido a pantera. Bierce não esclarece, ou esclarece ao seu modo, o que de fato ocorre. Como diz Nelson Ascher, a descrição é precisa. A imaginação talvez nem tanto, acrescento.
 
Outro conto célebre de Bierce, "Um incidente na ponte de Owl Creek" (publicado na coletânea "Contos Fantásticos no Labirinto de Borges", seleção e apresentação de Braulio Tavares, Editora Casa da Palavra), ganhou tradução esmerada de Heloisa Seixas (a tradução de Lourival Gomes Machado, publicada na coletânea "Contos Americanos - Os Clássicos", Ediouro, saiu com o título de "Uma ocorrência na ponte de Owl Creek").
 
Na época da Guerra Civil Americana, o fazendeiro sulista Peyton Farquhar descumpre determinação do Exército e é condenado à forca na ponte de Owl Creek. Bierce mantém a história em suspense, contada a partir do ponto de vista de Farquhar, que imagina ter caído na água e, assim, escapado de seus captores. Ocorre que o senhor de escravos do Alabama estava morto. Lembra o Machado de Assis de "Memórias Póstumas de Brás Cubas", sem o talento do brasileiro.
 
Ao contar as duas histórias, espero não ter atrapalhado o prazer dos possíveis leitores. Porque, se resumi os contos, inclusive os arremates, não dei seus detalhes. Carlos Fuentes, no romance “Gringo Velho” (página 149, edição da Dom Quixote, publicado com o título de “O Velho Gringo”), escreve: “Porque um homem pode estar ao mesmo tempo pendendo de uma ponte com uma corda ao pescoço, a morrer e a observar a sua morte do outro lado de um rio”. É uma referência ao conto citado aqui.
 

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