Desenho de  Wendy MacNaughton
revista bula

compartilhe



últimos comentários

  • Euler Belém, como sempre, afinadíssimo. ...

    1 hora atrás por Carlos Augusto Silva sobre Paulo Francis vive
  • o sentimento não tem explicação e nem utilidade prática, está acima da razão prática do dia-a-dia. Sentir é melhor do que racionalizar ou buscar explicação prática os sentimentos. Eu gosto de jazz, es ...

    1 dia atrás por Linkowski sobre Uma coisa inútil
  • Gosto do cinismo do Vêncio, se der pra ser considerado assim. E como ele, "[...] eu tenho convicção que a humanidade nunca esteve tão boazinha." ...

    1 dia atrás por Chiyoko Gonçalves sobre MMA: bate que eu gosto
  • Respeito o comentário, mas discordo do Rodrigo Molina. Procurar alguém que entenda, é apenas ratificar o "esporte". Penso que o autor entende(embora não seja especialista). E é, justamente aí, que est ...

    1 dia atrás por MAURILHO TEIXEIRA sobre MMA: bate que eu gosto

últimas no twitter

  • @magopaco Haha. Boa.
    59 minutos atrás
  • @bqeg Valeu. Estou treinando para aquele confronto. Rs.
    59 minutos atrás
  • @bqeg Qual id da PSN?
    1 hora atrás
  • @neiduclos DM...
    2 horas atrás
  • Os 80 maiores clássicos do blues para ouvir on-line | Revista Bula http://t.co/Jp77X4Bh
    2 horas atrás

parceiros

  • twitter rank


sugestões de livros

sugestões de filmes

  • O Homem de La Mancha, com Sophia Loren

ensaios

POR EM 03/11/2008 ÀS 09:19 PM

Arte é o que eu digo que é arte

publicado em

Diferente da literatura, para quem basta um leitor, a música precisa de um intermediário entre ela e o ouvinte, o intérprete. Também diferente da literatura, uma partitura não é como um livro. A primeira só é compreendida por 0,00001% de uma população alfabetizada. O livro, por 100% de alfabetizados (naquela língua, evidentemente)


 

De repente, sem perceber, caímos no mesmo buraco de sempre. Minha opinião contra a sua. Mas, antes, lembremos o que nos trouxe aqui. Leiamos novamente esse trecho do interessante artigo de Ademir Luiz, publicado na Bula anterior:          
               
“Arte seria o resultado dos esforços individuais de uma mente criativa, de uma personalidade singular, na produção de um objeto, no sentido lato ou enquanto receptáculo, que prima por sua singularidade, valor espiritual ou intelectual. Segundo esse critério, nem o boxe, por ser uma atividade físico-motora, nem o cinema, por ser obra de uma equipe, seriam arte. Felizmente, o mundo real não é tão simplista assim. No texto “
Woody Allen é o filho pródigo de Dostoiévski”, publicado na coluna Imprensade 27 de agosto de 2008, num trecho no qual compara desfavoravelmente o cinema com o boxe, o jornalista Euler de França Belém, escreveu que “o que me surpreende é a quantidade de gente inteligente, como Flávio (Paranhos), Ademir Luiz, Lisandro Nogueira, Enio Vieira e Lourival Belém, encantada com cinema”. Não posso falar pelos confrades citados, mas, pessoalmente, apesar de ser “encantado” com cinema, não considero cinema como arte. Cinema é indústria. Porém, uma indústria que, em casos raríssimos, permite que alguns indivíduos produzam arte dentro de suas engrenagens, como parte de uma estratégia de busca por legitimidade.” [Grifo meu]   
             
Ademir (traidor!) repete o argumento de que os detratores do cinema mais gostam, que ele é feito por muitos, é uma “indústria”, por isso não é “arte”. Mantenho, teimosamente, que esse argumento é muito frágil. Não é a quantidade de pessoas envolvidas na feitura de uma obra que determina se é arte ou não. Uma sinfonia não existe sem vários músicos e o maestro. Uma ópera, sem vários músicos, o maestro e vários cantores. Ainda que seja uma simples peça para piano, que necessite somente de um bom pianista, ainda assim só será arte quando tocada. Mais do que isso, só existirá quando tocada. Diferente da literatura, para quem basta um leitor, a música precisa de um intermediário entre ela e o ouvinte, o intérprete. Também diferente da literatura, uma partitura não é como um livro. A primeira só é compreendida por 0,00001% de uma população alfabetizada. O livro, por 100% de alfabetizados (naquela língua, evidentemente). Dizer que uma partitura é arte por si só é subestimar a inteligência do interlocutor. Mas tudo bem. Opiniões são assim mesmo.
               
E o teatro? De certa forma, cabe ao teatro o mesmo que cabe ao cinema. O roteiro e a peça são artes independentes? Como diz Ademir, o traidor, o mundo não é tão simplista. Nunca vi uma peça de Strindberg ser encenada, e, no entanto, sempre que as leio, considero-as arte e das boas. Por outro lado, tenho certeza de que se as assistir (admitindo-se que sejam boas interpretações), serão mil vezes melhores (mil vezes “mais arte”). O caso do roteiro é um pouco diferente, até porque praticamente não há disponível para ler (a não ser quando filme faz muito sucesso). Um roteiro pode ser o principal responsável pelo sucesso artístico de um filme, a ponto do roteirista ser considerado seu autor, mas raramente terá vida própria.          
        
O que realmente diferencia o cinema do teatro e da música é que, para aquele, a autoria não é ponto pacífico, para estes, sim. Por melhor, mais apurada, que seja uma encenação de “
As Três Irmãs”, o autor sempre será Tchékhov. Por mais sublime que seja uma interpretação da “Sinfonia Júpiter”, o autor permanecerá sendo Mozart. Os atores da peça e os músicos da sinfonia são artistas sim, por que não? Mas não são seus autores.
               
Quanto ao cinema... Em alguns casos é fácil. Woody Allen é o exemplo clássico. Escreve, dirige, escolhe as músicas e edita todos os seus filmes (note que não cito aqui o fato dele atuar em vários de seus filmes, pois isso não contribui em nada para sua autoria). Tarkovski geralmente terceirizava o roteiro, mas dirigia e editava. Tarantino roteirizou, dirigiu e editou “
Pulp Fuction” (Tarantino é o homem de um filme só, portanto cito só esse). Bergman, Lynch, Buñuel, Godard, Greenaway, etc, etc, são autores de seus filmes.
               
A questão, portanto, diz mais respeito à autoria do que ao fato de ser ou não ser “arte”. Trata-se de analisar a qualidade, e não a quantidade (de gente envolvida na realização). Da mesmíssima forma que um livro pode ser arte ou lixo, assim também um filme. Mas aí termina um problema e começa outro. O que é lixo e o que é arte?
               
Se arte for aquilo que me sensibiliza, me emociona, me faz pensar, então... arte é tudo aquilo que eu digo que é arte.  


 

leia mais...
POR EM 03/11/2008 ÀS 09:17 PM

Crime e castigo

publicado em


A polifonia e a diversidade de vozes estão nos personagens dostoiévskianos, muito mais complexos do que os de Woody Allen, tendo Dostoiévski inspirado o existencialismo, Nietzsche e Freud, entre outros





Flávio Paranhos escreveu na edição anterior desta Revista Bula, taxativo: “Crimes e pecados é filosoficamente superior a Crime e castigo”. A frase pode muito bem ser lida como uma mera “opinião de torcedor”, segundo ele próprio critica a respeito dos comentários ao artigo dele postados no mural da Bula. Portanto não é de se admirar que os comentários tenham sido, naquele momento, no mesmo nível. No texto publicado depois, melhorou um pouco, mas está muito longe de ter convencido.
 
O problema maior talvez esteja já no título, bem geral, “Por que Woody Allen é superior a Dostoiévski”. Pura provocação, e a Bula dá sempre o maior destaque para as polêmicas. (Como critico isso, peço ao editor que não cometa o mesmo erro, colocando meu texto em primeiro plano, mas sim no espaço que ocupo normalmente na minha coluna). Dentro do artigo de Paranhos, isso já fica mais atenuado. É o final do filme de Woody que é superior, filosoficamente, porque “aberto” a várias teorias morais, em relação ao Epílogo, “fechado” de Crime e Castigo. Mas depois, a afirmativa vira de novo generalista -e por isso mesmo empobrecida- de que “o filme é mais rico na medida em que, polifonicamente, dá voz a várias teorias morais sem eleger a ‘correta’” (grifos meus). Algo que é repetido na chamada do artigo da revista.
 
Sem querer discutir neste momento a validade do argumento enunciado, que elege a variedade de teorias morais como critério para decidir se uma obra é mais rica (ou “filosoficamente superior”) a outra, algo em si bastante discutível, a minha oposição é que: primeiro: o livro não pode ser considerado “fechado”, pois dá expressão a várias vozes. Abstraindo-se o final moralizante, as personagens de Dostoiévski sempre são polifônicas. Algo implícito até mesmo no nome Raskólnikov, personagem principal de Crime e Castigo.Raskol”, em russo, significa “cisão”, “fragmentação”, caracterizando o personagem como cindido e atormentado. Trata-se de uma “consciência fragmentada”.
 
A esse respeito remeto o leitor ao ensaio de Boris Schnaiderman, “Dostoiévski: a ficção como pensamento”, publicado na coletânea Artepensamento, organizada por Adauto Novaes. Schnaiderman cita dois trabalhos russos: “Dostoiévski e Hegel (Sobre o problema da ‘consciência cindida’”), de V. A. Batehínin, e “Sobre a problemática ético-filosófica do romance Crime e Castigo”, de I. F. Kariákin.
 
O tradutor para o português de Dostoiévski, nascido na Ucrânia, afirma que ambos fazem referência ao item “A lei do coração e o delírio da presunção” do capítulo “Certeza e verdade da razão”, da Fenomenologia do espírito de Hegel. O item contém uma análise da revolta do indivíduo, que afirma sua lei em oposição à lei a que todos se submetem e, ao mesmo tempo, apresenta esta sua lei como algo necessário ao bem estar da humanidade. Schnaiderman então se pergunta: “Não se tem aí algo muito próximo às lucubrações de Raskólnikov sobre o ‘direito’ que teria de matar a velha usurária, uma criatura que não faria falta ao mundo e graças a cuja morte ele poderia fazer o bem a tantas pessoas?”.
 
O importante, contudo, de acordo como arremata o próprio Schnaiderman, não é tanto “pesquisar uma possível influência de Hegel sobre Dostoiévski, mas sim mostrar como as mesmas preocupações levaram Hegel àquela reflexão e se corporificaram na personagem Raskólnikov”. Ele ressalta ainda que foi preciso esperar por Mikhail Bakhtin e seu livro Problemas da poética de Dostoiévski, de 1963, para que se tivesse uma abordagem realmente em profundidade do embate de idéias na obra do romancista -que Schnaiderman chama de “o romancista-filósofo por excelência”-, do estudo das vozes que as expressam, e do que este embate representa como princípio estruturador. Cito integralmente a opinião de Schnaiderman sobre o texto de Bakhtin (também tratada por ele em dois outros livros):
 
“Segundo Bakhtin nos mostra com grande riqueza de pormenores, Dostoiévski não constrói seus romances e contos em torno de sua ideologia, mas joga-a em meio às demais, discute com suas personagens, dá maior força de convicção ao oponente, em suma, realiza o tipo mais elevado do romance de idéias, aquele em que as personagens encarnam princípios e concepções de mundo, sem perder nada de sua extraordinária vitalidade”.
 
A polifonia e a diversidade de vozes estão nos personagens dostoiévskianos, muito mais complexos do que os de Woody Allen, tendo Dostoiévski inspirado o existencialismo, Nietzsche e Freud, entre outros. “Dostoiévski, o único psicólogo, seja dito de passagem, do qual tive algo que aprender” (Nietzsche). Nem Woody Allen, que costuma fugir dessas comparações, teria a pretensão de ter “superado filosoficamente” o mestre russo, por mais criativo que seja o seu cinema e apesar dos filmes dele estarem muito acima da média dos atuais. Qual personagem de Woody tem a mesma força marcante do “personagem-ideólogo por excelência” Raskólnikov?
 
Em Crimes e Pecados, o personagem Judah Rosenthal é uma sombra do princípio que rege Raskólnikov, uma mera variação, pálida e superficial, deste. Ele, ao contrário do russo, não se arrepende de ter mandado, por sugestão de outro, mais “malvado” do que ele, matar a sua amante e não se entrega. Ele não aspira a nada mais do que manter a sua estabilidade de homem bem-sucedido e casado. Raskólnikov, afirma Dostoiévski, no epílogo do romance, estava disposto a dar sua vida “por uma idéia, por uma ilusão, até por um sonho. A simples existência sempre tinha significado pouco para ele; sempre aspirara a mais. Talvez só pela força do seu desejo chegara a sentir-se então um homem ao qual era permitido mais do que os outros”.
 
A propósito da influência de Dostoiévski -e mais especificamente do personagem Raskólnikov, “germe do ‘espírito livre’ nietzschiano”, contrário ao sujeito ressentido- sobre o Nietzsche, a professora de filosofia da Universidade Caxias do Sul Jaqueline Stefani assinala, em artigo intitulado “Nietzsche e Dostoiévski: A unidade e o limiar”:
 
“As personagens de Dostoiévski são, como afirma Bakhtin, polifônicas, ou seja, há múltiplas vozes que falam, não havendo uma consciência, mas várias que coexistem num diálogo constante dentro de um mesmo ser numa profunda tensão psicológica. É um esforço demasiado perigoso tentar caracterizar seus protagonistas quanto ao caráter ou à personalidade, de modo unívoco. Neste sentido vejo o primeiro encontro com a teoria de Nietzsche: a crítica à unidade da consciência.”
 
Ainda segundo a professora, mestre em filosofia pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), “Dostoiévski, em suas personagens, brinca com as várias perspectivas, com essas múltiplas vozes, das quais, nenhuma tem a ‘palavra final’, é a dialogicidade e a polifonia, características que, ao que parece, Dostoiévski foi pioneiro. Na obra Memórias do subsolo, percebe-se um constante movimento dialético sem síntese. De uma afirmação segue sua própria negação. É a descrição da própria inconstância de um sujeito que não consegue afirmar seu próprio ser.”
 
É nos personagens, portanto, e na obra inteira, não ancorando-se apenas no epílogo de Crime e Castigo -assim mesmo, muito superior, em filosofia, densidade dramática e poesia ao final do filme de Woody Allen- ou no cristianismo de Dostoiévski, que se deve procurar pela polifonia de vozes, internas aos personagens, que são multidimensionais. Não se deve confundir o autor com a obra. Assim como em Os Irmãos Karamazov, há quem se identifique com o pensamento de Aliocha, outros, o meu caso, com o de Ivã. Podemos perceber no homem “extraordinário”, representado em Crime e Castigo por Raskólnikov, vestígios do “além-homem” de Nietzsche. Por isso, entre outras razões que já citei e outras que não preciso destacar agora, a tese de que Crime e Castigo seria “filosoficamente inferior” a Crimes e Pecados, em razão do seu final “fechado”, é fundamentalmente errada.

 

leia mais...
POR EM 03/11/2008 ÀS 09:16 PM

Transparente/opaco

publicado em

Não é fácil digerir Coetzee, e tampouco ele facilita a vida dos leitores. Quem já leu seus ensaios sabe onde está pisando. São poucos que se atrevem a criticar e apontar as debilidades de Faulkner ou Benjamin

Em Diário de Um Ano Ruim, Coetzee dá um passo ousado na literatura de hoje. Cada página do livro abriga três narrativas simultâneas, uma em cima da outra: os ensaios do narrador, suas observações e as anotações de uma moça que transcreve os escritos desse ensaísta. O leitor dificilmente poderá acompanhar os fragmentos ao mesmo tempo, com uma lida de cabo a rabo, de uma sentada só. É comum associar a qualidade de uma obra à fluidez da leitura. Coetzee nos força a ler o livro uma, duas ou três vezes e buscar diálogos e correlações de múltiplos níveis. Pobre leitor que compra um livro no aeroporto e espera conhecê-lo um pouco durante sua viagem.

Não é fácil digerir Coetzee, e tampouco ele facilita a vida dos leitores. Quem já leu seus ensaios sabe onde está pisando. São poucos que se atrevem a criticar e apontar as debilidades de
Faulkner ou Benjamin. (Imagine o que ele diria de autores de literatura brasileira contemporânea.) No ano passado, o escritor sul-africano mostrou o quanto joga contra a escrita mercantilizada, barateada e espetacular. Ele se negou a jogar conversa fora em sua participação da Flip, que virou o Rock in Rio das letras e vitrine dos best-sellers das editoras locais. No lugar de anedotas e papo furado, fez apenas uma leitura concentrada dos originais de Diário de Um Ano Ruim. Leu e foi para o hotel.

O leitor contemporâneo busca livros anti-Coetzee. O romance Desonra é altamente dissimulado ao trazer uma linguagem aparentemente realista. Pode-se assim achar que seu autor facilita o trabalho do leitor. Enganam-se os leitores. Em Elizabeth Costello, Coetzee alertara o público distraído para as aparências do realismo ao analisar um conto de Kafka, no qual o único estranhamento está no fato de um macaco ser um conferencista. Se fosse um homem, o conto seria realista, diz ele. A escrita de Coetzee questiona as facilidades dos textos que têm pretensão de transparência. Aqueles que acreditam na escrita transparente ignoram que o realismo pode estar na mais opaca das narrativas.    


A escrita-mercadoria sonha com a transparência e o entendimento rápido. Nesse esquema, a palavra só pode ter um único significado. Os advogados defendem que os termos jurídicos devem ser como são (impenetráveis) porque possuem a mais absoluta exatidão, quase científica. Também era o desejo de Zola quando formulou sua teoria do real. O estilo naturalista deveria ser um espelho do mundo. Não é preciso rir do positivismo do escritor francês do século XIX ou da pretensão dos cientistas do Direito. Igualmente risível é a crença dos jornalistas de que o jornal reflete o mundo. Em comum, é a devoção ilusória da comunicação objetiva. 


Num surto de megalomania, os jornalistas criaram o subgênero do “jornalismo literário”. Que diabo venha a ser isso, ninguém sabe definir. Dizem se tratar de textos com recursos literários da ficção. Mas pouco se esclarece que ficção é essa. O uso de artefatos textuais não define os conceitos de qualquer tipo de escrita, seja ficcional, historiográfica ou jornalística. Tampouco o literário está ligado à beleza das palavras. Piglia lembra de forma apropriada como Robert Arlt reformulou a literatura argentina com uma escrita feia. Lacan ressaltou a descoberta joycena do trocadilho the letter/the litter. A letra pode ser lixo, a literatura pode ser lixeratura. A letra desliza para a latrina. 


Quanto mais significados tiver, mais rico o texto. A importância de um livro de ficção se mede também pela sua capacidade de possibilitar inúmeras leituras. A palavra perde a transparência e ganha opacidade. O leitor ingressa nos domínios do claro enigma de Drummond. Faz algum tempo, Paul de Man discutiu se toda escrita é uma metáfora. (O texto jornalístico também é metafórico.) Os significados se multiplicam e, para o desespero de muitos, se metamorfoseiam ao longo da história. Cânones são profanados. A letra torna-se instável, o que apavora os filósofos tão ciosos com a exatidão e clareza da linguagem. Uma conjectura: filósofos tradicionalistas são leitores fracos de obras literárias.   

Derrida interroga Paul de Man, de Mark Tansey

Derrida interroga Paul de Man, de Mark Tansey

Na lógica da transparência, Derrida e Deleuze são rotulados de impenetráveis. Ambos devem ser lidos como se fossem escritores de ficção. A cada leitura, muda o significado. O texto tecnificado dos “cientistas duros” é incompreensível por utilizar uma outra linguagem, fora do campo verbal do leitor médio. Não é o caso da desconstrução que exige uma atenção que o moderno leitor distraído de revistas, jornais e internet não tem condições de oferecer. Lacan segue na mesma linha: muitos textos são transcrições de seminários e viram jogos verbais do orador. Quando se imagina que tudo está assimilado, o significado se desdobra em outro. Algo sempre escapa, como na boa ficção. 

Marx é outro obscuro para os padrões contemporâneos. Mas, nota Francis Wheen, “O Capital” antecipa a escrita dos surrealistas do século XX e é um romance modernista em tempos de romance realista. Há cortes, colagens e montagens que remetem à figura do bricoler de Benjamin. O fragmento leva à totalidade, e vice-versa. A escrita de Marx vai contra o fetiche da mercadoria e da transparência do capital. Nada é natural. Cada frase de Marx traz em si uma contradição que, por sua vez, vem da estrutura social. A escrita dialética torna-se uma máquina de desvendamento do que aparece como algo concebido naturalmente. Na era da globalização, é proibido ler Brecht.

Houve uma época quando, ao não compreender um texto, o leitor reconhecia sua incapacidade intelectual e se recolhia ao pensamento. Ele buscava se aperfeiçoar para depois enfrentar o desafio daquele universo antes incompreendido. Hoje, se não consegue entender um livro, o leitor sentencia de imediato: chato, ruim e equivocado. Parte-se para a estratégia de desqualificação do autor, com a rotulagem digna de produtos à venda em supermercados. “Não entendo, logo não presta.” Esse é o resultado de anos e anos da mídia com a naturalização do mundo e a escrita-mercadoria, cujo único valor é a transparência e a rapidez de apreensão. Tempo é dinheiro. 




leia mais...
POR EM 03/11/2008 ÀS 09:13 PM

Machado e Rosa

publicado em

Foi-se o tempo em que os jornais eram o local de encontro do pensamento e dos intelectuais. Há estudos e mais estudos que mostram a migração da inteligência para os centros universitários no Brasil e no exterior. No final do século XX, a mídia deixou de ser o centro aglutinador de idéias

 

Os jornais brasileiros provam diariamente por que suas vendas caem ano a ano. A relevância zero da mídia, especialmente na área cultural, foi reafirmada dias atrás com mais uma inacreditável enquete: quem é melhor, Machado de Assis ou Guimarães Rosa? Entre os estudiosos, houve restrições à própria pergunta descabida do jornal Folha de S. Paulo. Os leitores também acharam a pesquisa inócua e malfeita, pois 53% deles disseram que “ambos são grandes escritores” ou “não dá para comparar um ao outro”. O levantamento do jornal escorreu rapidamente pelo ralo das coisas insignificantes.

Foi-se o tempo em que os jornais eram o local de encontro do pensamento e dos intelectuais. Há estudos e mais estudos que mostram a migração da inteligência para os centros universitários no Brasil e no exterior. No final do século XX, a mídia deixou de ser o centro aglutinador de idéias. Os criadores da enquete da Folha de S. Paulo seguem a onda e ignoram os movimentos relevantes nos estudos sobre Machado de Assis e Guimarães. Ao invés de inflacionar os índices, os responsáveis pelo jornal poderiam dar um passeio e conversar com quem vem dedicando a vida a estes dois autores.

Machado de Assis atravessa uma fase de ouro entre os estudiosos das mais diversas áreas, da psicanálise à sociologia. A redescoberta do autor se deve ao impacto dos estudos de Roberto Schwarz a partir dos anos 1970. A nova crítica machadiana começou a apontar em Memórias Póstumas de Brás Cubas e Dom Casmurro uma interpretação da sociedade brasileira que está na forma literária dos romances. A forma narrativa incorpora elementos do processo social. Abriu-se todo um caminho para especialistas que seguiram a trilha da idéias de Schwarz e outros que se desviaram.

O inglês John Gledson foi um dos seguidores de Schwarz ao aprofundar os estudos das relações entre os romances e crônicas machadianos e o período histórico do Segundo Reinado no século XIX. Ele chegou a ler todos os jornais da época para identificar as referências factuais e citações contidas nas crônicas de Machado em jornal. Nos jornais brasileiros, no entanto, Gledson perde espaço para o superstar Harold Bloom, que levou a mídia local às lágrimas ao colocar Machado no rol dos “gênios” e analisar superficialmente ao autor em meia dúzia de páginas. 

Alfredo Bosi e Sergio Paulo Rouanet, por sua vez, desenvolvem trabalhos para desmontar as teses de Schwarz. A maior crítica deles é para um certo determinismo dos críticos que vêem a relação entre a literatura machadiana e a sociedade brasileira. Ambos reconhecem a impossibilidade de negar a presença da História em Machado de Assis, mas dizem que a autor de Memorial de Aires tem uma abordagem universal. Obviamente, um universalismo europeu. Rejeitam, portanto, a concepção de um autor que vive na periferia do capitalismo, conforme assinala Schwarz.

A disputa em torno de Machado de Assis é realmente acentuada. O português Abel Barros Baptista entrou no campo de batalha com uma missão inusitada: salvar o autor de seus críticos brasileiros. Para isso, escolheu Schwarz e Antonio Candido como adversários. Ele pretende desfazer qualquer laço da obra machadiana com a História do Brasil. A intenção é colocar o autor dentro do cânone universal – que, vale lembrar mais uma vez, é um universalismo europeu. Trata-se de um campo (os estudos sobre Machado de Assis) fervilhando de idéias que não aparecem nos jornais brasileiros. 

A exemplo de Machado, o mineiro Guimarães Rosa vem sendo redescoberto como um intérprete do Brasil. Heloísa Starling, Willi Bolle e Luiz Roncari lançaram nos últimos anos obras fundamentais para mostrar o quanto o autor de Grande Sertão: Veredas tratou do Brasil em sua ficção. É um prosseguimento do trabalho pioneiro de Walnice Nogueira Galvão, que analisou o homem e o sertão rosianos em As formas do falso. Pesquisadoras da nova geração como Ana Paula Pacheco e Danielle Corpas têm investindo na trilha de analisar forma literária e processo social em Rosa.

Os novos estudos se distanciam dos trabalhos que focaram as invenções lingüísticas e o esoterismo de Guimarães Rosa. Ressalte-se que foram análises muito importantes para o entendimento do autor mineiro. O que se vê agora, porém, é a superação do encantamento puro das palavras bonitas e a “magia” do autor. A inventiva obra rosiana tem muito a dizer sobre o Brasil e a relação do sertão com o mundo, e isso os especialistas vêm rastreando nos mínimos detalhes. A grande obra literária vai além dos limites estabelecidos em cada disciplina das ciências humanas e permite as mais diversas leituras.

A discussão acima, os leitores não a encontram nos jornais brasileiros. O jornalismo cultural está mais preocupado em divulgar os últimos lançamentos, mostrar os recordes de venda, martelar a vida das celebridades e criar os jornalistas-celebridades com suas colunas e blogs. Ficamos sabendo tudo a respeito do casal Sakozy, dos estranhos hábitos de Paulo Coelho e do último porre de uma tal de Amy Winehouse. Enquanto isso, estudos exploram as várias faces de Machados de Assis e Guimarães Rosa – sem falar de Clarice Lispector e de Graciliano Ramos. E o leitor de jornal fica sem saber de nada.

 

leia mais...
POR EM 03/11/2008 ÀS 09:05 PM

Vida besta

publicado em


Telejornais, filmes e seriados alimentam o terror constante de bombas terroristas ou assaltos ali na esquina, o que resulta no discurso de obsolescência dos direitos humanos. Assim, cria-se um imaginário do indivíduo estranho e perigoso que pode ser um árabe ou um negro
 

No seriado de televisão 24 Horas, o personagem Jack Bauer recorre a todo o momento à tortura para obter informações de suspeitos. É a ficcionalização da Lei Patriota, de 2001, com a qual os Estados Unidos colocaram seus próprios cidadãos num permanente estado de exceção, sob alegação de combate ao o terrorismo. A apologia do brutalismo já estendeu além-mar e apareceu no Brasil do Capitão Nascimento, do filme Tropa de elite, que assume a posição dos civilizados em meio aos bárbaros. Frente a um cenário de medo de atentados e crimes comuns, admite-se a infração das normas que, em outros tempos, receberam o nome de direitos humanos.

A linguagem da mídia piora as coisas e vai surrando as palavras, tornando-as mais e mais vazias. Telejornais, filmes e seriados alimentam o terror constante de bombas terroristas ou assaltos ali na esquina, o que resulta no discurso de obsolescência dos direitos humanos. Assim, cria-se um imaginário do indivíduo estranho e perigoso que pode ser um árabe ou um negro. A reação é a busca da aniquilação de quem carrega essa suposta ameaça. Após os ataques de 11 de setembro de 2001, no entanto, os norte-americanos perceberam que eles mesmos haviam se tornado “estranhos” para alguém. E nessas situações, o ataque preventivo vira a melhor defesa.

Giorgio Agamben vem analisando o moderno estado de exceção que suspende a validade dos direitos humanos para garantir a segurança. É uma contradição em cima de outra contradição. Segundo ele, o modelo político contemporâneo (o do biopoder) é o campo de concentração da Segunda Guerra Mundial. A situação do ser humano que vive sob o biopoder é a do homo sacer, cuja vida se resume aos aspectos biológicos e não políticos. Agamben resgatou essa figura na Grécia antiga. O Estado pode fazer o que bem entender dos corpos. Se um prisioneiro judeu não tinha condições de trabalhar num campo, deveria ser eliminado porque se trata apenas de um corpo.  

Esse estado de exceção, Agamben chamou-o de “vida nua”, corpo sem serventia que pode se descartado a qualquer instante. São os mortos-vivos que vagam pelo campo de concentração – onde eram denominados de muslims. Quem seriam os homo sacer da globalização e guerras preventivas? Palestinos são bons candidatos, pois os israelenses os submetem aos mais variados de tipos de aniquilamento: confinamento em territórios, massacres de crianças e bombardeios. Com menos recursos de artilharia, eles palestinos reagem freqüentemente e daí são acusados de terrorismo. Sem mais nem menos, árabe vira sinônimo de fundamentalista e terrorista.    

Candidatos também fortes a homo sacer são os asiáticos que vivem nas zonas de processamento de exportação. Eles trabalham 16 horas diárias, sem direitos trabalhistas e previdenciários, em fábricas que possuem todas as isenções fiscais possíveis e operam em puro regime de exceção econômica. Os iPods e tênis Nike são desenhados nos Estados Unidos e produzidos de maneira quase servil na China e Taiwan. É o sonho daqueles que criticam o Custo Brasil. Quem quiser maiores detalhes de como é o homo sacer oriental e hiper-produtivo pode ler
Sem Logo — A Tirania das Marcas em um Planeta Vendido, da canadense Naomi Klein.

Sobre o modelo capitalista asiático, Slavoj Zizek fez uma pergunta intrigante: a China é o passado ou o futuro da economia de mercado?  Caminhamos para um trabalho no estado de exceção, sem qualquer proteção, ou para a prosperidade? O universo do trabalho fornece uma infinidade de exemplos de como o humano é muslim (seria um muçulmano?). Há um reality show nos Estados Unidos (devidamente tropicalizado por aqui) cujo prêmio é um emprego ao vencedor. Ao longo dos capítulos, os participantes são demitidos um a um, e o apresentador aponta o dedo para dizer “você está demitido”. O homo sacer vai assumindo características assustadoras.


O Brasil sempre foi muito bom para operar o biopoder. Basta lembrar que fomos uma das últimas nações a abolir a escravidão no século XIX. Mas não somos racistas, gritam os intransigentes. O
homo sacer brasileiro de hoje é negro, jovem, homem e pobre. Segundo as estatísticas, ele tem bem mais chances de morrer do que os brancos. Qual a explicação? Predisposição genética? Desigualdade de renda? Louvado em prosa medíocre na mídia e premiado no Festival de Berlim, o Capitão Nascimento tem uma resposta baseada na teoria dos jogos e já nos mostrou o que é a vida nua nessas bandas. Certo mesmo é que, para ele, a vida é mesmo besta. 
 
 

leia mais...
POR EM 31/10/2008 ÀS 09:43 AM

Vida danificada

publicado em

Tudo é uma questão de ponto de vista, diz o senso comum. Ou de paralaxe, como assinala Slavoj Zizek

Em Novecento (1976), de Bernardo Bertolucci, o personagem Attila é o capataz de uma fazenda italiana na primeira metade do século XX. Diante dos camponeses locais que se organizam, ele expõe todo o ressentimento daqueles que aderiram ao fascismo. Uma das cenas mostra Attila, de camisa preta, explicando aos amigos fascistas as semelhanças entre os gatos e os comunistas. Ambos são aparentemente dóceis e inofensivos, mas, a qualquer momento, podem mudar e ser traiçoeiros.

Atilla encena a forma como devem ser tratados os seguidores do comunismo. Ele retira o cinto da calça e amarra um gato numa porta. Afasta-se, corre em direção ao bicho e o esmaga com a cabeça.

É uma das cenas mais impressionantes do cinema:




O opositor de Attila é o personagem Olmo, neto de um dos trabalhadores. Este cresce na fazenda dos Berlinghieri e torna-se amigo de Alfredo, filho do patrão. Durante anos, Olmo alerta Alfredo para o perigo da adesão de Attila ao fascismo e sugere que este fosse demitido. Mas é ignorado, sob alegação de que se tratava de um homem qualquer.

O tempo passa, e o fascismo cresce na Itália. Os camisas-pretas se transformam em máquinas de matar. Bertolucci conta a história do Partido Comunista Italiano, por meio de Olmo, e a conivência do movimento fascista com os grandes proprietários de terra, como a família Berlinghieri. 

Tudo é uma questão de ponto de vista, diz o senso comum. Ou de paralaxe, como assinala Slavoj Zizek. Os anos pós-comunistas representam uma mudança de perspectiva que, no Brasil, trouxe de volta Gilberto Freyre e Nelson Rodrigues ao centro dos debates. Criticados em vida, eles ressurgiram num tempo que consegue ser mais anticomunista do que o da Guerra Fria.

Seria uma felicidade enorme para ambos, dada à aversão deles ao socialismo. Freyre apoiou a ditadura militar no Brasil, e Nelson somente acreditou na tortura do pós-1964 ao ver o próprio filho estropiado nos porões. Atualmente, virou de bom tom dizer que aquilo não foi nada e os governos militares foram o mal menor, em vista da possível revolução comunista. Uma entrevista de Freyre à revista Veja, em 1972, expõe certas posições que já antecipam a visão dos anos pós-Muro de Berlim:

“O senhor concorda com a aposentadoria compulsória do sociólogo Florestan Fernandes, que hoje leciona no Canadá?, pergunta Veja. ´Essa pergunta é muito difícil de ser respondida. O intelectual não deve ser um privilegiado. Eu  mesmo fui preso três vezes durante a ditadura de Vargas. Minha casa foi literalmente saqueada em 1930. Se o intelectual tentou atingir o regime, e se isso ficar provado, como não sei se é o caso de Florestan Fernandes, nada mais justo que houvesse uma reação de defesa”.

Florestan nunca escondeu a filiação ao socialismo e foi um dos críticos mais fortes das idéias freyreanas, sobretudo quanto à democracia social, que está hoje na crista da onda. Tão em voga essa idéia que o jornalista Ali Kamel, por exemplo, se inspirou na linha de Gilberto Freyre para defender suas teses contra as cotas raciais nas universidades:

“Florestan estava errado. Nosso ativo como nação é prezar a miscigenação. E aqui no Brasil ninguém nega o racismo. Eu não nego o racismo. Onde quer que haja homens reunidos há os piores sentimentos, inclusive o racismo. Há racistas no Brasil, em profusão. Mas o racismo não é um traço dominante de nosso caráter nacional”, disse Kamel, ao jornal Correio Braziliense, em 2006. Interessante ver o retorno ao conceito de caráter nacional, algo como o espírito do país, que está superado há muito tempo.  

O filme Cão sem dono (2007), de Beto Brant e Renato Ciascia, se passa nos anos em que tudo é “pós”. Não há mais utopia, laços sociais, política, emprego. Só indivíduos solitários numa metrópole brasileira, no caso a distante Porto Alegre, a “Gay Port” de Caio Fernando Abreu. O personagem Ciro é um tradutor que recém saiu da faculdade e decide morar sozinho com um cão vira-lata. Sua vida se resume à companhia de um cachorro e da namorada Marcela, uma manequim que sonha se mudar para o exterior.

Ciro enxerga a todos como inúteis e inferiores. Apenas ele está acima de qualquer julgamento. O olhar blasè de Ciro lembra justamente os de uma modelo. Nada acontece no filme, não há conflito, aproximando a obra do teatro contemporâneo. O drama desaparece. Há muito sexo, cigarros, bebedeiras, rock. Brant aprofunda o estilo de viver presente na adolescente rica de seu filme
O invasor (2002).



Cão sem dono é uma adaptação do romance Até o dia em que meu cão morreu (2002), de Daniel Galera. Uma parte dos novos romancistas brasileiros se volta para esse nada existencial dos tempos atuais. Um nada que se encaixa bem no modelo de produção globalizada. São todos “burgueses sem religião”, conforme bem percebeu Renato Russo ainda nos anos 1980, e conformados com o rumo tomado pelo mundo.     

O que passou pela cabeça de Foucault quando proferiu suas palestras a respeito da biopolítica em 1978 e 1979? O poder não é mais centralizado, ele alcança e penetra o corpo dos indivíduos. Ao tratar da nova forma de controle, Foucault analisou o discurso de Hayek e dos novos liberais alemães e norte-americanos. A globalização ensaiava os primeiros passos nos anos 1970, e o autor de As palavras e as coisas já se debruçava sobre idéias e políticas que defendiam a primazia do mercado e a redução do social.

Também assustadora é a avaliação de Octavio Ianni, em texto de 1998, chamado “Neoliberalismo e nazi-fascismo”. “Sob o neoliberalismo, recriam-se as condições e os ingredientes do nazifascimo. A despeito de se apresentarem como guardiães e arautos da democracia, afirmam e reafirmam o predomínio da economia, produtividade, competitividade, lucratividade e racionalidade instrumental”, alerta Ianni, que havia sido aluno de Florestan Fernandes e questionava a naturalidade de Gilberto Freyre.

 


leia mais...
POR EM 27/10/2008 ÀS 05:20 PM

Personalidade autoritária

publicado em


Impossível não se impressionar com os filmes de propaganda política nazista da brilhante cineasta alemã Leni Riefenstahl. É claro que as idéias expostas em obras como O Triunfo da Vontade são altamente discutíveis, contudo a força de suas imagens são inegáveis e possuem, por que não, uma estranha beleza. É de fato fascinante observar a maneira como a figura caricatural de Hitler, com seus gritos grotescos e gesticulação afeminada, cercado de suásticas por todos os lados, hipnotiza multidões. Milhares de alemães entregando-se a uma catarse absoluta, conduzidos pela presença de um líder carismático. O que testemunhamos, através da lente de Leni Riefenstahl, é a apoteose de um símbolo de autoridade de alto quilate.
    
Mas quais os mecanismos sociais que possibilitam que cenas como estas se multipliquem através da história? O que é a autoridade enquanto um valor humano? Quais os compromissos efetivos assumidos entre as pessoas que geram e alimentam os valores e as personalidades autoritárias? São questões como estas que o sociólogo norte-americano Richard Sennett persegue em seu novo livro lançado no Brasil, intitulado simples e convenientemente de Autoridade. O lançamento é tardio: a obra é de 1980, fruto de uma conferência em memória de Sigmund Freud que Sennett ministrou em 1977, na Universidade de Londres, e vem engrossar sua bibliografia em português, justando-se a pequenas pérolas como Carne e Pedra e O Declínio do Homem Público. Mesmo sem possuir a mesma qualidade destes, Autoridade é um trabalho de fôlego, marcado pela escrita elegante que celebrizou seu autor. Trata-se do primeiro volume de uma série de quatro ensaios sobre as relações complexas entre a psicologia e a política. O segundo volume versa sobre a solidão, o terceiro sobre a fraternidade e o quarto aborda os rituais. Esperemos que estes livros também sejam lançados no Brasil.
    
O objetivo de Sennett neste primeiro volume é ambicioso: desenvolver uma teoria social geral sobre o medo da autoridade. Ambicioso porque, apesar da vasta erudição destilada ao longo do texto, que demonstra o estudo aprofundado que realizou, suas concepções sobre o tema são apresentadas de forma incomodamente cristalizadas. Desde o início o autor deixa claro que para ele as características inatas de uma autoridade são “segurança, capacidade superior de julgamento, capacidade de impor disciplina, capacidade de inspirar medo”. Para Sennett o sentido de autoridade se constrói através de imagens de força e de fraqueza, que formam vínculos entre indivíduos de posições desiguais. Em outras palavras: de superior para inferior. Sennett parece desconsiderar que muitas vezes a autoridade independe das características e qualidades pessoais de quem a exerce, que podem advir de, por exemplo, um título herdado, uma posição burocrática ou a mera posse incidental de algum símbolo de status. Refiro-me aqui tanto as micro-relações de poder, estudadas por Foucault, quanto às viciosas relações de tráfico e abuso de influência, tão familiares em nosso cotidiano.     
    
Seja como for, a argumentação de Sennett, não tanto dentro do que propõe e sim dentro do que almeja, é consistente, ainda que não chegue a roçar a universalidade aspirada. Para desenvolvê-la ele optou por ilustrá-la utilizando um recurso que denuncia sua pretensão em criar uma obra mestra: a literatura. Cita em inúmeras ocasiões mestres como Shakespeare, Dostoievski e Orwell, extraindo de passagens de suas obras exemplos de figuras de autoridade e, paralelamente, do enfraquecimento da autoridade. Não é por acaso que um dos personagens mais citados é o velho Rei Lear: o monarca destronado, traído e abandonado pelas filhas. A saga de decadência e queda do infeliz soberano shakespereano serve como metáfora para ilustrar diversas situações em que figuras de autoridade, chefes, pais, líderes, vêem-se usurpados de suas posições de poder, seja por empregados, correligionários ou parentes; tal qual o próprio Lear.  
    
Além da literatura, outro recurso largamente utilizado é a psicologia. São relatados inúmeros estudos de caso, entre situações de grupo e individuais, incluindo casos clínicos, em que os nomes dos envolvidos são devidamente alterados, e histórias envolvendo celebridades como André Gide e Kafka, em que o autor disseca os meandros das relações autoritárias tanto na esfera pública quanto na privada. A partir de perspectivas freudianas, Sennett relaciona intimamente atitudes autoritárias com a busca pelo prazer de gerar servidão voluntária e, em contrapartida, “conquistar a liberdade significa abafar as vozes do prazer”. Ao mesmo tempo se aproxima da Escola de Frankfurt e sua fusão entre a psicanálise e a crítica social marxista. Abraça o conceito de “Personalidade Autoritária”, desenvolvido por Adorno e companhia, para explicar a necessidade desesperada de certos indivíduos em demonstrar força, moldando-se a cada época de acordo com as tensões históricas e sociais do respectivo período. Tensões estas que podem redundam tanto no banho de sangue resultante da Revolução Francesa quanto na “reinfantilização das massas” que Freud observou na Europa dos anos 30.    
    
Dentre os vários tipos de práticas de autoridade estudadas por Sennett, talvez a mais aprofundada seja aquelas que se coligam ao que podemos chamar de poder paterno, desdobrados nos conceitos de paternalismo e patrimonialismo. Sendo o primeiro a autoridade fundamentada em relações de laços familiares e o segundo baseada na posse, transmissão e distribuição de bens entre pessoas não necessariamente ligadas por parentesco. Neste sentido é muito pertinente a observação do autor de que ao longo do século XIX, a imagem do patrão estava superposta a imagem do pai. Foi neste época que se criou e popularizou uma metáfora: “o patrão é um pai”. Enquanto nos séculos anteriores a maior parte dos pais realmente eram patrões de seus filhos, e portanto se preocupavam de fato com sua segurança e evolução profissional, o que se tinha então era uma entidade econômica que substituía e multiplicava o poder do genitor natural, interessada unicamente em explorar a força de trabalho do falso “rebento”.
    
Contudo, a mais impressionante imagem de autoridade paterna do livro é a de um pai real, pessoa física: o pai do escritor Franz Kafka. Sennett resgata e analisa uma célebre carta pessoal que Kafka escreveu para seu pai em novembro de 1919, na qual confessa todo rancor, culpa, medo, sentimento de inferioridade, física e moral, que ele lhe inspirava. Nas quase cinqüenta páginas da longuíssima missiva, em um exercício sutil de manipulação, Kafka coloca-se como uma vítima inocente, cem por cento com a razão, diante de um tirano sádico. O escritor enxerga terror e, em meu entender, leva o leitor a enxergar sadismo nos inconseqüentes castigos paternos que sofria por suas molecagens de infância, igualando-os a tortura chinesa. Ao mesmo tempo Kafka transparece sentir-se enobrecido em função de seu sofrimento, o que empresta um elemento masoquista a seu relato. Incapaz de se livrar desta deplorável situação, sua total submissão ao pai, Kafka escreve-lhe a carta como um desabafo, mas tem consciência de que nada via mudar. O pai, um tipo de deus onipresente, onipotente, vai continuar condenando seu casamento, desdenhando sua profissão e suas ambições literárias. Em tempo: a carta nunca chegou às mãos de seu destinatário.  
    
A conclusão de Sennett para o dilema do escritor tcheco é a de que “Herr Kafka era o tipo errado de pai para o filho, e Franz Kafka era o tipo errado de filho para o pai”, mas o fato é que “a dominação é uma doença necessária de que padece o organismo social”. O simplismo aparente desta conclusão revela na verdade o substrato da visão de autoridade do autor. Que como se percebe não é muito diferente daquela do Grande Inquisidor da fábula de Dostoievski, extraída de Os Irmãos Karamazov, evocada ao fim do livro: o poderoso homem de Igreja que violentamente acusa o Cristo revivido de provocar anarquia oferecendo ao povo a impossível visão conjunta de liberdade e autoridade. Mas, independente de qualquer coisa, Sennet é um intelectual de fino trato. Não se sentiria a vontade nas masmorras imundas freqüentadas pelo Grande Inquisidor. Com certeza ficaria bem mais confortável entre os convidados das inúmeras festas requintadas proporcionadas pelo personagem principal do romance O Recurso do Método, do cubano Alejo Carpentier. Trata-se de um homem culto, educado, apreciador de bons vinhos e música erudita, mas que também é um ditador sanguinário de um pequeno país da América do Sul. Ditador sim, mas antes de tudo um cavalheiro.

 


leia mais...
POR EM 12/10/2008 ÀS 06:58 PM

Pensar o Brasil com Sérgio Buarque de Holanda

publicado em

Um ano antes da grande noite do Ato Institucional nº 5 que se abateria sob a Nação, Sérgio Buarque de Holanda deixava claro que acreditava que, apesar da sua ancestral submissão aos poderosos de plantão, o povo brasileiro permaneceria fiel aos princípios democráticos

             
Para quem não se conforma com os atuais altos índices de popularidade do presidente Luís Inácio Lula da Silva (aprovado por mais de 77,7% da população brasileira, um recorde histórico), a leitura de uma palestra dada por Sérgio Buarque de Holanda (1902—1982) na Escola Superior de Guerra, no Rio de Janeiro, em 1967, no começo da travessia do conturbado regime militar (1964—1985), pode ajudar a explicar muita coisa. 
    
A palestra, “Elementos básicos da nacionalidade: o homem”, encerra o livro Sérgio Buarque de Holanda: Perspectivas, coletânea que reúne ensaios de 28 estudiosos de várias gerações e procedências, além de imagens, bibliografia e textos poucos conhecidos do próprio historiador, lançada pela Editora da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e pela Editora da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) e organizada pelos professores Pedro Meira Monteiro, da Princeton University, e João Kennedy Eugênio da Universidade Federal do Piauí.
    
No texto, Sérgio Buarque de Holanda recorda uma observação de Joaquim Nabuco (1849—1910) sobre uma suposta submissão do povo brasileiro, que seria “maior do que a das outras nações sul-americanas”, o que poderia explicar um pouco o atual conformismo da população com o que o economista chileno Sebastián Edwards, professor da Universidade da Califórnia, Los Angeles (UCLA) e consultor econômico do governador da Califórnia, Arnold Schwarzenegger, já definiu como “economia da melancolia”, ou seja, uma trajetória sem crises, mas também sem crescimento.
  
 À época, na casa daqueles que haviam derrubado e enxovalhado as garantias individuais dos cidadãos, Sérgio Buarque de Holanda citou Joaquim Nabuco para contestá-lo, argumentando que não se podia dizer que as tentativas de governos ditatoriais haviam encontrado o povo brasileiro cegamente submisso ou inerte. “E se é certo que esse povo recebeu com aparente indiferença a mudança de regime em 1889, e não se deixou abalar, depois disso, por tendências restauradoras, para tanto há de ter contribuído largamente o sentimento generalizado de que a Monarquia já tinha cumprido sua missão e pouco adiantaria querer sustentá-la ou restaurá-la a qualquer preço”, dizia.
    
Àquele tempo, um ano antes da grande noite do Ato Institucional nº 5 que se abateria sob a Nação, Sérgio Buarque de Holanda deixava claro que acreditava que, apesar da sua ancestral submissão aos poderosos de plantão, o povo brasileiro permaneceria fiel aos princípios democráticos. Para ele, historicamente, o Brasil, depois de uma fase mais ou menos prolongada de ditadura, empenhava-se sempre por voltar à aplicação de constituições escritas ou das consultas eleitorais. Por trás da frase, com certeza, estaria a sua esperança de que a ditadura, que já levava três anos, logo refluísse e o País voltasse à senda democrática.  Aconteceu, porém, o contrário: Sérgio Buarque de Holanda nem viveria para ver o fim do regime ditatorial.
  
 Ao se referir ao regime igualmente de exceção que se inaugurou em 1930 — que, até hoje, é chamado de Revolução de 30 por historiadores pouco perspicazes —, não deixa de mostrar Getúlio Vargas como homem que se via como chamado pela Providência para guiar a nação em crise, exercendo forte apelo sobre as grandes massas, “lançando os dados nesta ou naquela direção, ora para a direita, ora para a esquerda, numa versatilidade que só não enganava aos muito precavidos ou aos muito teimosos”. Qualquer semelhança com o governante atual, descontado o fato de que vivemos hoje sob regime democrático com os devidos freios a aventuras caudilhescas, não é mera coincidência.
    
O resultado disso, dizia Sérgio Buarque de Holanda, foi que, “conservadas as massas, assim, na dependência do poderio de um homem, era como deixá-las em estado de menoridade ou de imaturidade para seguir os rumos naturais”. De onde vem, portanto, essa submissão natural das massas brasileira? Essa vocação para se deixar levar por um homem providencial?
    
Dizia Sérgio Buarque de Holanda que viria das duas sociedades diferentes nos níveis e modos de vida que existem no Brasil: a que, abrangendo a maioria do País e de sua população, exibe ainda hoje traços coloniais, e aquela que, representada sobretudo pelo Estado de São Paulo, não receia o progresso nem o futuro. Na primeira se achariam ainda encastelados os resíduos de um passado renitente e se apresentam condições arcaicas, que lembram as da Índia e do Egito, enquanto na outra, mais ativa e progressista, encontram-se aspectos capazes de evocar Nova Iorque ou Chicago.
    
Mais de 40 anos depois, essa análise, feita com base nas idéias do historiador francês Jacques Lambert, autor de Os Dois Brasis (São Paulo, Companhia Editora Nacional, 1969), ainda seria válida? Sem dúvida, porque o Brasil, se cresceu muito nas últimas quatro décadas, poucas modificações sofreu em sua estrutura social e política porque continua refém do egoísmo e da cegueira das oligarquias que o dominam.
  
 Em outras palavras: não houve nenhuma revolução social nem qualquer ordenação nova na sociedade brasileira. Até porque as oligarquias estaduais — aquelas mesmas oligarquias que se achavam representadas no Parlamento ao tempo da Monarquia e que ganharam maior peso com a República — ainda continuam suficientemente bem representadas no Congresso, sempre dispostas a bloquear todos os esforços que visem eventualmente a romper o status quo.
    
Basta ver que, até agora, passados seis anos de governo Lula, o Congresso não se dispôs a votar uma reforma tributária para valer, que desonere os custos das empresas e dos cidadãos assalariados. A ponto de o País continuar a contar com duas espécies de cidadãos: de um lado, aqueles que pagam compulsoriamente ao Estado; de outro, aqueles que roubam o Estado. Até porque os que fazem parte das grandes massas marginalizadas nem sequer podem ser chamados de cidadãos.                  

II

Entre os ensaios dos analistas convidados a participar deste livro, um dos mais instigantes — embora seja difícil escolher os melhores, entre tantos tão bem escritos e pensados  —  é “Raízes do Brasil y El Laberinto de la Soledad: una comparación” em que José Ortiz Monasterio, do Instituto Mora, do México, compara as obras de Sérgio Buarque de Holanda e Octavio Paz (1914—1998), encontrando em ambas enormes semelhanças, já que tomam elementos da história, da sociologia, da literatura, da psicologia e outras disciplinas a ponto de tornar sua classificação extremamente difícil.
    
Já em “Sérgio Buarque de Holanda, historiador das representações mentais”, Ronaldo Vainfas, professor de História da Universidade Federal Fluminense (UFF), admite que pensar Sérgio Buarque como historiador das mentalidades “avant la lettre” seria uma tentação fácil, mas que pode ser inexata, já que "Visão do Paraíso" (1958) é livro de tamanha complexidade teórica e erudição que seria impossível classificá-lo em qualquer esquema rígido ou escola historiográfica.
    
Vainfas lembra ainda que "Visão do Paraíso", quando saiu à luz, estava na contramão da história e, por isso, ficou relegado ao ostracismo por várias anos. E só na década de 80 acabaria por adquirir a importância devida, depois de ter servido de inspiração para Laura de Mello e Souza escrever "O Diabo e a Terra de Santa Cruz" (1986), livro que, segundo o professor, inaugurou a leva de pesquisas da hoje chamada “nova história cultural” no Brasil. Como se vê, os ensaístas concordam que a obra de Sérgio Buarque de Holanda é de tamanha amplidão que não pode ficar restrita a categorias ou classificações.               

III

Em “Raízes do Brasil: Uma Releitura”, Brasil Pinheiro Machado (1907—1997), antigo professor de História na Universidade Federal do Paraná, destacou também a análise de Sérgio Buarque de Holanda segundo a qual o liberalismo, nas democracias sul-americanas, tendem para o caudilhismo, diante da ausência ou inconsistência dos órgãos partidários. É o que se vê, hoje, na figura do presidente Lula, que paira acima dos partidos, inclusive daquele que fundou e que lhe serviu de apoio para ascender ao poder. Curiosamente, o prestígio político e popular de Lula, segundo as mesmas pesquisas, não surge, porém, como uma força capaz de se transferir para um possível candidato à sua sucessão. É, portanto, pessoal e intransferível, o que lhe permite sonhar com um tranquilo retorno à cadeira presidencial em 2014.                    

IV

Sérgio Buarque de Holanda, ainda estudante, começou a colaborar em publicações como “Correio Paulistano”, “A Cigarra” e “Revista do Brasil”. De tendências monarquistas, influenciado pela leitura de Eduardo Prado (1860—1901), autor de "A Ilusão Americana" (1893), que considerava funestos os transplantes mecânicos das instituições dos Estados Unidos, como fizeram os primeiros republicanos no Brasil, o futuro historiador mudou-se para o Rio de Janeiro em 1921, matriculando-se na Faculdade de Direito.
    
Ligado aos modernistas de São Paulo, tornou-se representante da revista “Klaxon” no Rio de Janeiro. Em 1927, foi diretor de um jornal em Cachoeiro de Itapemirim, no Espírito Santo, e, em 1929, viajou para a Europa, sobrevivendo em Berlim com colaborações para jornais brasileiros e trabalhando em agências de notícias, como a “Havas” e a “Associated Press”.
    
Retornou ao Brasil em 1930, publicando então na revista “Espelho” o ensaio “Corpo e alma do Brasil”, primeira versão do que seria o livro "Raízes do Brasil" (1936). Continuou a trabalhar na “Associated Press” e a coloborar como crítico literário no “Diário de Notícias”. Trabalhou ainda no Instituto Nacional do Livro. Em 1944, começou a trabalhar na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro e publicou "Cobra de Vidro", reunindo textos sobre crítica literária, sociologia, história e temas afins. Em 1945, saiu o seu primeiro livro de pesquisa em história, "Monções".
    
Naquele mesmo ano, assinou um manifesto contra a ditadura de Getúlio Vargas. Em 1946, mudou-se definitivamente para São Paulo, dedicando-se sobretudo à pesquisa histórica, embora continuasse a colaborar em jornais, como a “Folha Carioca” e a “Folha de S.Paulo”. Entre 1946 e 1956, foi diretor do Museu Paulista, mas, entre 1952 e 1954, atuou ainda como professor na Itália. De volta, retomou a direção do Museu Paulista, só o deixando para assumir a cadeira de História da Civilização Brasileira na Faculdade de Filosofia de São Paulo. Por essa época, publicou "Caminhos e Fronteiras" (1957).
    
De 1958 é a primeira edição de "Visão do Paraíso: Os Motivos Edênicos no Descobrimento e Colonização do Brasil", apresentado originalmente como tese para a cátedra de História da Civilização Brasileira. Em 1972, como responsável pela "História Geral da Civilização Brasil", da qual se encarregou entre 1960 e 1972, publicou "Do Império à República", que formava o volume V daquela coleção.
  
Em 1979, publicou "Tentativas de Mitologia", em que reuniu ensaios semelhantes aos que incluíra em "Cobra de Vidro".  Em 1980, o antigo pensador de tendências monarquistas inscreveu-se como membro-fundador do Partido dos Trabalhadores (PT), que, antes de chegar ao poder com a eleição de Luís Inácio Lula da Silva à presidência da República em 2002, anunciava-se como uma agremiação de tendências socialistas. Morreu em São Paulo, em 4 de abril de 1982.
  
Deixou inacabado "Capítulos de Literatura Colonial", que deveria ter sido o sétimo volume da "História da Literatura Brasileira", dirigida por Álvaro Lins, livro organizado e prefaciado por Antonio Candido em 1991. Em 1996, Antonio Arnoni Prado organizou "O Espírito e a Letra", coletânea em dois volumes de suas críticas publicadas em jornais entre 1920 e 1959. Sérgio Buarque de Holanda screveu ainda uma extensa introdução à coletânea de textos do historiador alemão Leopold von Ranke (1795-1886), O "Atual e o Inatual em L.von Ranke" (1979), e o livro "O Extremo Oeste", publicado postumamente em 1986.
    
___________________

SÉRGIO BUARQUE DE HOLANDA: PERSPECTIVAS, de Pedro Meira Monteiro e João Kennedy Eugênio (org;).. Campinas: Editora da Unicamp. Rio de Janeiro: EdUERJ, 719 págs., 2008.
_____________________

 


leia mais...
POR EM 15/09/2008 ÀS 06:43 PM

O Beatle palestino

publicado em


“Os Beatles são mais populares que Jesus Cristo. E não sei o que vai acabar primeiro, se o rock and rol ou o cristianismo.”

John Lennon

Aquilo que antigamente chamávamos de Igreja Anglicana já estava extinta há séculos quando foi oficializado o culto aos Beatles na velha Inglaterra. Na realidade, não havia mais nenhuma das antigas instituições. Recomeçávamos a civilização, praticamente, do zero. 

Sabiamente, o novo governo que se instituía percebeu que não bastava apenas reerguer os prédios em ruínas e voltar a cultivar os campos abandonados às plantas daninhas. Sim, o populacho estava nu e faminto, mas não precisava somente cobrir e alimentar o corpo. Necessitava, sobretudo, de alimentar e aliviar o espírito. As muitas décadas de seguidas desgraças avivou-lhes o extinto de sobrevivência, mas não privaram-nos de suas naturais necessidades emocionais. Sentiam falta de religião, sentiam falta de cultuar algo maior do que eles próprios, sentiam falta do inexplicável agindo em suas vidas. Em suma, o forçoso materialismo dos últimos tempos não curou a inata irracionalidade humana. 

Precisávamos remediar a situação em nome da ordem e do progresso. Tínhamos que lhes dar ídolos, dar-lhes uma mitologia, dar-lhes uma entrada para o mundo transcendente; para que se esquecessem do trágico passado recente e tivessem forças para olhar para o futuro, que poderia ser promissor. Assim, combateríamos os surtos de barbárie que assolavam certas regiões e, quem sabe, talvez até conseguíssemos diminuir o número de suicídios. Precisávamos de tantos braços para trabalhar quanto fossem possíveis e não podíamos dar-nos ao luxo de perdê-los por banalidades emotivas.  

A primeira opção, logo descartada, foi utilizar uma obscura lenda de um rei bretão, talvez chamado Lancelot, que governou a ilha depois de retirar de uma árvore uma espada mágica que pertenceu a seu pai, um mago de nome Artur. A sugestão desagradou a muitos, pois os ingleses, tradicionalmente, sempre odiaram a monarquia. Não suportariam a idéia de adorar um rei que também é deus. Tivemos que buscar outras idéias. 

Decidiu-se, enfim, por usar o que estava mais fresco na memória coletiva do populacho: os Beatles. Os quatro jovens de longos cabelos, inspirados pela providência divina para produzir sons, origem de todas as coisas. Entidade quadrupla que juntos formam um deus uno perfeito. Quatro emanações dos atributos do eterno. John: emanação da ira. Paul: emanação do amor. George: emanação da paz. Ringo, o deus que matou a Besta e tomou seu lugar: emanação da potência. Eis os mistérios da nova fé.  

Lembro-me bem que a sugestão partiu dos deputados de Liverpool, então capital inglesa provisória, pois o lugar onde antes existia Londres existe agora uma cratera, quase um lago, devido a incessante torrente do Tâmisa. Como se sabe, os Beatles nasceram (evento chamado agora de Natividade) em Liverpool. Pesou bastante na decisão o fato de que seria conveniente instituir ao mesmo tempo em que o culto pessoal, também a adoração a uma cidade sagrada. Não se concebe uma divindade sem uma cidade santa, poderosa em sua força telúrica, para ser alvo das devotas peregrinações dos fieis. Algo que sempre ajuda no crescimento da economia, aumenta o fluxo de viajantes nas estradas e, por conseguinte, de moeda em circulação e de trocas comerciais. Liverpool, sendo uma cidade grande, com quase dez mil habitantes na ocasião, reunia todos os predicados estruturais para assumir este importante papel. Tivemos uma decisão feliz ao escolhê-la e escolher seus quatro rapazes.  

Não foi difícil instituir a nova religião. Sobretudo porque, ao contrário de quase todo o resto, não eram tão raras as imagens gráficas do quarteto. Felizmente, muitas delas sobreviveram aos grandes incêndios do início do século passado e, por mais sorte ainda, da proibição da posse de papel pintado pelos tiranos derrubados no início deste século. Diversos indivíduos, creio que sem saber bem o porquê, mas incentivadas pelos pais e avôs, que por sua vez foram incentivados por seus respectivos pais e avôs, guardavam com todo cuidado estas imagens a várias gerações. Exibiam-nas orgulhosos em encontros sociais, como objetos de imenso valor. Lembranças de um passado glorioso. Sabemos até que muitos foram os casos de assassinatos cometidos pela posse destas raridades, hoje relíquias. Já existia, portanto, um culto insipiente, extra-oficial. Seus rostos já eram vagamente conhecidos pelo populacho, como algo digno de admiração. Precisávamos apenas canalizar esse potencial sacro para algo organizado dogmaticamente. Criar suas verdades. 

Porém, se seus rostos eram de conhecimento vulgar o mesmo não se pode dizer de sua história. Para a esmagadora maioria das pessoas, os Beatles eram apenas sorridentes rostos sem passado. Não se sabe por que riem. Nem mesmo nossos cidadãos mais cultos tinham acesso a informações precisas sobre os Beatles. O material escrito disponível era irrisório. Com quase a totalidade de nossos livros destruídos a preservação de nossa tradição cultural tornou-se bastante deficiente. Possuímos apenas sombras, nuanças, fragmentos, de nosso passado, onde os Beatles foram personagens tão importantes. 

Restava, é claro, a tradição oral. Seus exageros gritantes, que para nós, homens cultos, constituíam em pecado, agradavam sobremaneira ao populacho. Deu-nos farto material para sua doutrinação. Baseados nestas parcas e maleáveis informações funcionários do governo, escribas, desenvolveram toda uma ortodoxia. Bela, sedutora e gloriosa coleção de narrativas sacras, de exemplos de vida, parábolas, fábulas, discursos, sermões; lidos inicialmente em separado e posteriormente reunidas em um único volume. O populacho chamou-o de White Book. É sempre melhor que eles mesmos o batizem. Mostra fé. 

Em toda esta mitologia religiosa nascente, nada era mais importante do que o fato de que os Beatles eram músicos. O aspecto musical foi um elemento importantíssimo na difusão do culto. O principal dogma da religião apregoava a verdade de que Beatles cantavam e tocavam seus respectivos instrumentos divinamente, como ninguém antes ou depois deles, com arte tão grandiosa que eram capazes de criar vida. Apesar de todas as vicissitudes, o gosto pela música nunca se perdeu em nossa ilha. Aconteça o que acontecer o espírito humano sempre foi e sempre será musical. Nada mais justo que acreditarem que o mundo foi criado através da música. Criado pelo supremo mistério da música dos Beatles, em sete acordes, tão longos e poderosos que duraram cada um sete dias e sete noites. Antes só existia o silêncio. Trata-se sem dúvida de uma bela metáfora, talhada para o sucesso. Como de fato o foi. 

E o foi principalmente porque, tantos séculos depois de suas mortes, tivemos o privilégios de ouvi-los. Sabíamos que em um passado remoto existiam aos milhares registros sonoros de suas obras musicais. De modo miraculoso, máquinas reproduziam o som de seus instrumentos, sem que eles necessariamente estivessem presentes. Lamentavelmente, só restavam em toda ilha três cópias conhecidas dos discos plásticos que guardavam estes sons. Foram devidamente confiscados e tornaram-se propriedade pública. 

Não conseguimos, ainda, reproduzir os objetos como se fazia há tempos. Com esforço, fomos capazes do prodígio técnico de fazê-los tocar. De forma precária, é verdade. Por isto mesmo, fomos obrigados a permitir a execução pública das músicas dos Beatles somente em datas religiosas especiais. Ao todo, cinco vezes por ano: nas datas de nascimento de cada integrante do grupo e no aniversário do martírio de um deles. As audições públicas somente se dão, por motivos logísticos e de segurança, em nossa capital política e religiosa de Liverpool. O que por um lado é positivo, pois a raridade aumentava o valor e o peso sacro do evento. Prova disto são os inumeráveis crentes que desmaiam emocionados ao ouvir, pela primeira e, muitas vezes, última vez na vida, depois de viagens extenuantes, os acordes arranhados dos sagrados instrumentos, seguidos de alegres gritos juvenis proferidos pelas sagradas gargantas dos Beatles.   

Se as vozes originais raramente podem ser ouvidas, em compensação em cada templo existente no interior da ilha abundam cópias das partituras das sacras canções, mantendo-as sempre pulsantes, frescas na memória do populacho. Nossos sacerdotes, que chamamos de maestros, aprendem, antes de mais nada, como base de suas formações religiosas, ler e conduzir música. Ciência que, felizmente, ao contrário de muitas outras, não se perdeu e são bastante úteis na direção dos cultos públicos ao quarteto, feitos basicamente de cânticos à capela e recitações poéticas. As técnicas e os instrumentos disponíveis atualmente, é claro, não são os mesmos dos tempos de ouro dos Beatles. Época em que homens viviam na inocência do paraíso terreal, em fartura, bonança e contentamento. Mas, mesmo imperfeitos, procuram se aproximar o máximo possível do que acreditamos ser seus ensinamentos fundamentais, seus tons. 

Mas, enfim, as verdades teológicas são sempre assuntos amplos demais para se esgotarem em poucas páginas, e as minhas acabam. Sobretudo, quando o destino da religião focada tende a expansão. Pois, se a velha Inglaterra viveu tempos de paz e progresso sobre a proteção dos Beatles, seus filhos, não demorou a que outras nações européias que se reerguiam, e com as quais recomeçávamos a praticar comércio, adotassem o culto. Não há nada que faça-nos duvidar de que a difusão da religião será surpreendentemente rápida. Chegará a todo o mundo, quando voltarmos a ter possibilidade de comunicação com as paragens mais distantes. Não restam dúvidas disto. 

Certamente não vou viver para testemunhar sua extensão máxima. Mas, aí de mim, já vivi o suficiente para ver agir a maldade humana nas coisas sagradas. 

Foi no País de Gales onde se urdiu a mais deplorável das inevitáveis heresias que surgem das erradas interpretações das santas verdades da fé. Um sujo eremita galês, vestido em trapos, ganhou fama pregando ao populacho sobre a gloriosa volta eminente de um impossível beatle palestino. O fanático garante haver encontrado, nas ruínas do que dizem ter sido uma igreja anglicana (um velho culto pagão), manuscritos antigos que afirmam que os Beatles não eram quatro, mas, sim, cinco deuses. Esta Quinta pessoa do Eterno teria o nome de Stu, ou Jesu, ou ambos, não estou certo, e representaria a emanação do dor. Não toca nenhum instrumento e não canta, não possui tanto talento quanto seus irmãos, apenas conta histórias sobre pescadores e agricultores. Não é originário de Liverpool, mas de uma região muito distante, que, para nós, homens letrados, é meramente lendária, conhecida como Palestina; terra muito rica e fértil, onde mana leite e mel das plantas e os tijolos são feitos de ouro.

Segundo o heresiarca de Gales, o beatle palestino sacrificou-se aos rigores dos sons para salvar nossas almas do pecado. Teve sua cabeça explodida pelo barulho ensurdecedor da poderosa música de seus irmãos. Seu holocausto deixou marcas. O beatle palestino, além dos cabelos, também usava barbas longas, tão longas que chegavam a seus pés. Depois de sua morte, seus quatro irmãos sobreviventes dividiram sua barba entre si, para que nunca o esquecessem e para que houvesse fartura na Inglaterra. Stu, Jesu, voltaria para recuperar sua barba no fim do mundo, que, segundo o louco, estava próximo. 

Ano passado o eremita galês foi apedrejado por uma multidão inconformada com suas blasfêmias. Morreu, cuspindo sangue aos jatos, jurando em brados ameaçadores que falava a verdade e que todos nós iríamos nos arrepender amargamente, que iria haver fome, choro e ranger de dentes, em vingança divina por sua morte. Ninguém lhe deu atenção. Todos sabiam que dentre os santos Beatles apenas um deu a vida para nos salvar: John. Aconteceu em dezembro, dia 08 de dezembro; e por isto neste mês se comemora a festa do natal, ouvindo a sua voz em Liverpool. 

 


leia mais...
POR EM 08/09/2008 ÀS 06:41 PM

Chupa essa manga

publicado em
(Bocejos do meu enfado) 
 
Isto é um conto, e meu nome não lhes conto. Mostro-lhes, entanto, como destilar, em pequenos frascos ou em doses homeopáticas pra leão, o veneno da provocação. Pra começo de conversa, fecho, com bocejos de enfado, o último de uns livros que andei lendo, dessas fornadas que andam saindo por aí, bafejadas pelo fole ao fogo da reles bajulação ou forja de resenhas fajutas ou fraudulentas, à força de alardear baixa literatura, de rasa densidade e temperatura mínima, como coisa de qualidade e até de “gênio” pós-moderno. Coisas desse tipo porejam também em terras de Nelore — venha para as terras de Nelore —, com o seu jeito nelore de ser, bééé! muuu(lher)!; os cornos brotando nas cabeça, antes de serem extraídos para fabrico de berrantes —, não raro assinadas, tais resenhas, por certos professores de terceiro grau, podendo que o grau seja mais etílico do que universitário, favorecendo neófitos ainda com brotoejas na cara da insípida literatura, ou assaduras na bundinha que mamãe beijou, porquanto ainda incipiente e insipiente, consoante ou de conformidade com as consoantes propriamente ditas, intervogais e afins, conquanto diferenciadas entre si. 
 
Há casos de “profs”, em Nelore City, de idade provecta — de terceiro grau, eu dizia —, já quase que de mala e cuia prontas para os contatos de terceiro grau com o ET da eternidade, porquanto já desconectados da realidade, em vias de serem deletados por senis obsolescências, e todavia embeiçados por certas alunas “escritoras” ou “poetas” entre aspas. E andam eles pelos eventos literários com o livro publicado pela aluna, exibindo a “obra-prima” e torrando a paciência de ouvidos alheios com a leitura de uns poemas chinfrins e patéticos, ressaltando-lhes a suprema qualidade poética e cuspindo os perdigotos de indiretas com o intento de subestimar a outros poetas, bem melhores, que ali se prestam, por educação, a ouvir-lhes a babação de bocas moles — vide, por comparação, a boca de lábios frouxos de um presidente da República que andou enchendo as burras com a compra e venda de gado nelore, e que, cínica e acintosamente para alguém educado na Sorbonne, boquejou em vídeo de TV e chamou de vagabundo aos velhos como ele, para não dizer de gente com idade para ser pai dele. Eta pai d´égua!
 
Tocando em frente, como naquela música do bom violeiro pantaneiro, toquemos a boiada, enquanto por aí trocam lâmpadas no bocal dos soquetes, se me entendem a elétrica metáfora, e umas e outras, genuflexas e contritas, caem de boquete numa nota de cem pratas. E aqui continuando com o início, falávamos de ridículos professores, “enamorados”, afetados por suas “paixonites” — não aquelas paixonites agudas de antigamente, antes com a murcha muxiba ou aponevrose do penduricalho caída que nem barbela de peru —, ainda mais por não estarem falando com idiotas, mas seres no mínimo inteligentes para perceberem a mediocridade da baixa literatura que exibem como coisa genial. Patéticos, ridículos, esses cantos de cisne professoral. Vão mijar, velhos! Que essa purpurina toda, pra cima de tais poemas e de tais meninas, não passa de tesão de urina. E parem de apadrinhar publicação de mixórdias que não passam de mera e diletante literatice, coisa que não vai a lugar nenhum nem servirá para nada, a não ser para fins escatológicos de algum leitor duplamente desprevenido: de senso crítico e de papel higiênico para o devido uso.
 
Nada de novo na papelada da propalada “nova” ou “novíssima” literatura de Nelore, globalmente falando, em cadeia ou rede nacional. Não vamos aqui generalizar, mas muito da loja de Bugigangas & Penduricalhos dessa propalada literatura, incluída boa parte dos “melhores da geração na venta”, alardeia-se por meio de orelhas, prefácios e resenhas, tanto mais quanto maior a fornada de autores e papel desperdiçado que, ultimamente, chega às livrarias. São crias de parto precoce, ainda sugando a placenta, e muitas delas formatadas via blog — nada contra, conquanto o ar saturado de fraldas ou cueiros de certa literatura —, daí para as editoras, com as bênçãos de amigos — também autores — que militam no meio jornalístico ou mantêm laços de mútuos interesses com editores e livreiros.
 
É por conta destes trâmites, tráfico de influência, permuta de favores, ação entre amigos, esqueminhas de amores carnais expressos e quejandos de igual teor, que as portas se abrem e se lavram resenhas sobre livros nem tão bons quanto se alardeia, nas páginas dos grandes jornais, nos grandes centros do país. E a galera inculta e incauta, que não manja nada, guincha, pula, bate palmas, peida e pede bis, feito macaco diante da banana, a exemplo do que ocorre também no campo da música, outro lixão de muita porcaria, promovida pela mídia, ou por conta de duplas ditas sertanejas, já estabelecidas, que ficam apadrinhando novas duplas de coisas ainda piores do que eles. Gente que nunca foi cantor, mas fica aí estufando as veias do pescoço até quase arrebentá-las, tentando se passar por artistas e, o que é pior, logrando sucesso junto a um público acostumado a engolir música (?) ou ruídos de péssima qualidade — não raro raiando a idiotice —, por falta de melhor formação ou informação cultural; por falta de dom, alma de artista, vivência e poesia, ou falta de desconfiômetro mesmo. Pois é, coitadinhos, vão logo dizer que somos preconceituosos e que a culpa não é deles, patati-patatá. Então é melhor deixar pra lá, causa perdida, pura perda de tempo e argumento.
 
Chega a dar enjôo, o cheiro de ovo no fresco glacê das loas e broas confeitadas para beneficiar a esse comércio de coisas fajutas, forjadas a mentiras, mais não sendo senão abobrinhas decantadas como boas obras literárias, mas que — masque, rumina esse coco, ou chupa essa manga —, na verdade, e quando muito, são medianas em sua maior parte, quando não verdadeiras empulhações a cuspe, impingidas ao leitor, com as bênçãos da mídia conluiada com as editoras. Em Nelore City, por exemplo, publicam-se algumas toneladas de livros ruins, desde que os autores paguem pela edição. E o pior é que as editoras costumam levar esse lixo às bienais de livros do chamado Eixo, pegando-se o Minhocão e curvando-se a espinha dorsal — pedindo bênção — ao pés do Corcovado. Duas corcovas tem o camelo, uma só tem o dromedário. Mixórdia literária que se leva daqui pra lá, e que só depõe contra o que de mais representativo se produz na área por aqui, e que não é mostrado. E assim tais editoras prestam um desserviço na área, contribuindo para a depreciação pública, meio que generalizada, da literatura produzida em nossas plagas, não bastasse a falácia de que santo de casa não faz milagre. Ô praga!
 
O que se tem, então, no contexto geral, é um conúbio quase carnal dos que vivem deste comércio — afoitos escritores de fachada, dando uma de espertos —, a tirar vantagens dos canais abertos, que levam ao canal excretor ou tubo terminal por onde se despeja o enxurro de uma literatura perrengue, diarréica. Se o canal é de dente podre, o bafo insalubre, doentio, paira no ar. São escribas ladinos, boa parte deles sem talento, expelidos a fórceps, forçando a projeção mais pela política literária e menos pela literatura propriamente dita, de melhor qualidade. Uma diarréia nacional a obrar-se por quilo, vendida como literatura, por atacado e a granel. A verdade, a lamentável verdade, é que eles até vendem — e até vão para as academias de letras, pra virarem cupins e roerem os móveis —, graças aos meios de que se utilizam e que, ao certo, pra eles, justificam os fins, e vice-versa a mesma coisa, numa espécie de marketing com o empurrãozinho por conta de “críticos” entre aspas, a ver o que tiram em proveito próprio deste conúbio de bastidores.
 
Tudo isso, sem falar dos poetas e escritores que ficam torrando a paciência de resenhistas que vivem em outros estados do mapa, telefonando para eles, dia e noite, até em horas tardias, inconvenientes, perturbando-lhes o sossego, como esses impertinentes funcionários de bancos, querendo vender produtos que só lhe tomam dinheiro e mais enriquecem os banqueiros. Assim os tais poetas e escritores. Insistentes feito muriçoca, pedindo resenhas sobre livros seus, só para forjar fama, fazer média em suas províncias literárias, posar de “estrelas” da literatura nacional. Em Nelore City mesmo tem gente fazendo isso — poetas, romancistas e contistas —, constrangendo os escritores de fora, que não sabem como sair dessa sem melindrar o patético, o ridículo implorante, “mendigo” de resenhas. Querem fama a qualquer preço e a toque de caixa, e não se tocam, achando que os resenhadores — sérios, muitos deles — não estão aí para resenhar todo e qualquer livro escrito no país. Tem gente que não enxerga o próprio nariz!
 
Estou por aqui e por conta própria, solidário com as vítimas desse tipo de coisa, que desabafam comigo, reclamando de gente daqui de Nelore City, que fica implorando resenhas, querendo avançar com as escoras dos elogios nem sempre merecidos. E nem me desculpem o replay, a indelicadeza de não ser generoso neste aspecto, mas vou insistir no que me toca e já tornei público: não insistam, não cometo mais o delito de prefaciar livros, não faço orelhas ou sequer trechinhos de contracapa; e salvo em casos muito especiais, não leio — não tenho tempo e não gosto de ler originais alheios — nem opino sobre futuros “bestsellers”. E quando ouso rara resenha ou comentário, é por puro encantamento com a obra, dessas que raramente aparecem e se aproximam do verdadeiramente grande poeta ancional que espero há anos.
 
Nunca pedi prefácio a quem quer que seja, nem resenha, nem nada; quando muito, busco divulgação na imprensa. Sempre defendi que uma obra caminha sozinha, por si mesma, e se não caminha, vai para o ostracismo do aterro sanitário que, muitas das vezes, é mesmo o seu devido lugar. E olha, nem é má-vontade, é cansaço, mesmo, quando não é enfado ou porque ando desmotivado. Ainda assim, há quem insista a pedir que eu leia calhamaços e dê minha opinião, que, não sendo elogio, nem sempre agrada e, salvo raros casos, não é levada em consideração — também não sou nem tenho a intenção de ser nenhum mestre de ninguém —, ou então fazem biquinho de menino emburrado, de gênio contrariado. Só falta pedirem que, além de prefácios e orelhas, eu faça também sobrancelhas, pé, mão, botox e lipoaspiração que lhes sirvam de “piercings” — saldo médio ou enfeite — em suas obras amiúde “geniais”, com perdão da má palavra.

 

leia mais...
‹ Primeiro  < 6 7 8 9 10 11 12 13 > 
É permitida a reprodução total ou parcial sem autorização prévia dos editores, desde que citada a fonte.
© Copyright 2012 — Revista Bula — Literatura e Jornalismo Cultural — seutexto@uol.com.br


renovatio