(Bocejos do meu enfado)
Isto é um conto, e meu nome não lhes conto. Mostro-lhes, entanto, como destilar, em pequenos frascos ou em doses homeopáticas pra leão, o veneno da provocação. Pra começo de conversa, fecho, com bocejos de enfado, o último de uns livros que andei lendo, dessas fornadas que andam saindo por aí, bafejadas pelo fole ao fogo da reles bajulação ou forja de resenhas fajutas ou fraudulentas, à força de alardear baixa literatura, de rasa densidade e temperatura mínima, como coisa de qualidade e até de “gênio” pós-moderno. Coisas desse tipo porejam também em terras de Nelore — venha para as terras de Nelore —, com o seu jeito nelore de ser, bééé! muuu(lher)!; os cornos brotando nas cabeça, antes de serem extraídos para fabrico de berrantes —, não raro assinadas, tais resenhas, por certos professores de terceiro grau, podendo que o grau seja mais etílico do que universitário, favorecendo neófitos ainda com brotoejas na cara da insípida literatura, ou assaduras na bundinha que mamãe beijou, porquanto ainda incipiente e insipiente, consoante ou de conformidade com as consoantes propriamente ditas, intervogais e afins, conquanto diferenciadas entre si.
Há casos de “profs”, em Nelore City, de idade provecta — de terceiro grau, eu dizia —, já quase que de mala e cuia prontas para os contatos de terceiro grau com o ET da eternidade, porquanto já desconectados da realidade, em vias de serem deletados por senis obsolescências, e todavia embeiçados por certas alunas “escritoras” ou “poetas” entre aspas. E andam eles pelos eventos literários com o livro publicado pela aluna, exibindo a “obra-prima” e torrando a paciência de ouvidos alheios com a leitura de uns poemas chinfrins e patéticos, ressaltando-lhes a suprema qualidade poética e cuspindo os perdigotos de indiretas com o intento de subestimar a outros poetas, bem melhores, que ali se prestam, por educação, a ouvir-lhes a babação de bocas moles — vide, por comparação, a boca de lábios frouxos de um presidente da República que andou enchendo as burras com a compra e venda de gado nelore, e que, cínica e acintosamente para alguém educado na Sorbonne, boquejou em vídeo de TV e chamou de vagabundo aos velhos como ele, para não dizer de gente com idade para ser pai dele. Eta pai d´égua!
Tocando em frente, como naquela música do bom violeiro pantaneiro, toquemos a boiada, enquanto por aí trocam lâmpadas no bocal dos soquetes, se me entendem a elétrica metáfora, e umas e outras, genuflexas e contritas, caem de boquete numa nota de cem pratas. E aqui continuando com o início, falávamos de ridículos professores, “enamorados”, afetados por suas “paixonites” — não aquelas paixonites agudas de antigamente, antes com a murcha muxiba ou aponevrose do penduricalho caída que nem barbela de peru —, ainda mais por não estarem falando com idiotas, mas seres no mínimo inteligentes para perceberem a mediocridade da baixa literatura que exibem como coisa genial. Patéticos, ridículos, esses cantos de cisne professoral. Vão mijar, velhos! Que essa purpurina toda, pra cima de tais poemas e de tais meninas, não passa de tesão de urina. E parem de apadrinhar publicação de mixórdias que não passam de mera e diletante literatice, coisa que não vai a lugar nenhum nem servirá para nada, a não ser para fins escatológicos de algum leitor duplamente desprevenido: de senso crítico e de papel higiênico para o devido uso.
Nada de novo na papelada da propalada “nova” ou “novíssima” literatura de Nelore, globalmente falando, em cadeia ou rede nacional. Não vamos aqui generalizar, mas muito da loja de Bugigangas & Penduricalhos dessa propalada literatura, incluída boa parte dos “melhores da geração na venta”, alardeia-se por meio de orelhas, prefácios e resenhas, tanto mais quanto maior a fornada de autores e papel desperdiçado que, ultimamente, chega às livrarias. São crias de parto precoce, ainda sugando a placenta, e muitas delas formatadas via blog — nada contra, conquanto o ar saturado de fraldas ou cueiros de certa literatura —, daí para as editoras, com as bênçãos de amigos — também autores — que militam no meio jornalístico ou mantêm laços de mútuos interesses com editores e livreiros.
É por conta destes trâmites, tráfico de influência, permuta de favores, ação entre amigos, esqueminhas de amores carnais expressos e quejandos de igual teor, que as portas se abrem e se lavram resenhas sobre livros nem tão bons quanto se alardeia, nas páginas dos grandes jornais, nos grandes centros do país. E a galera inculta e incauta, que não manja nada, guincha, pula, bate palmas, peida e pede bis, feito macaco diante da banana, a exemplo do que ocorre também no campo da música, outro lixão de muita porcaria, promovida pela mídia, ou por conta de duplas ditas sertanejas, já estabelecidas, que ficam apadrinhando novas duplas de coisas ainda piores do que eles. Gente que nunca foi cantor, mas fica aí estufando as veias do pescoço até quase arrebentá-las, tentando se passar por artistas e, o que é pior, logrando sucesso junto a um público acostumado a engolir música (?) ou ruídos de péssima qualidade — não raro raiando a idiotice —, por falta de melhor formação ou informação cultural; por falta de dom, alma de artista, vivência e poesia, ou falta de desconfiômetro mesmo. Pois é, coitadinhos, vão logo dizer que somos preconceituosos e que a culpa não é deles, patati-patatá. Então é melhor deixar pra lá, causa perdida, pura perda de tempo e argumento.
Chega a dar enjôo, o cheiro de ovo no fresco glacê das loas e broas confeitadas para beneficiar a esse comércio de coisas fajutas, forjadas a mentiras, mais não sendo senão abobrinhas decantadas como boas obras literárias, mas que — masque, rumina esse coco, ou chupa essa manga —, na verdade, e quando muito, são medianas em sua maior parte, quando não verdadeiras empulhações a cuspe, impingidas ao leitor, com as bênçãos da mídia conluiada com as editoras. Em Nelore City, por exemplo, publicam-se algumas toneladas de livros ruins, desde que os autores paguem pela edição. E o pior é que as editoras costumam levar esse lixo às bienais de livros do chamado Eixo, pegando-se o Minhocão e curvando-se a espinha dorsal — pedindo bênção — ao pés do Corcovado. Duas corcovas tem o camelo, uma só tem o dromedário. Mixórdia literária que se leva daqui pra lá, e que só depõe contra o que de mais representativo se produz na área por aqui, e que não é mostrado. E assim tais editoras prestam um desserviço na área, contribuindo para a depreciação pública, meio que generalizada, da literatura produzida em nossas plagas, não bastasse a falácia de que santo de casa não faz milagre. Ô praga!
O que se tem, então, no contexto geral, é um conúbio quase carnal dos que vivem deste comércio — afoitos escritores de fachada, dando uma de espertos —, a tirar vantagens dos canais abertos, que levam ao canal excretor ou tubo terminal por onde se despeja o enxurro de uma literatura perrengue, diarréica. Se o canal é de dente podre, o bafo insalubre, doentio, paira no ar. São escribas ladinos, boa parte deles sem talento, expelidos a fórceps, forçando a projeção mais pela política literária e menos pela literatura propriamente dita, de melhor qualidade. Uma diarréia nacional a obrar-se por quilo, vendida como literatura, por atacado e a granel. A verdade, a lamentável verdade, é que eles até vendem — e até vão para as academias de letras, pra virarem cupins e roerem os móveis —, graças aos meios de que se utilizam e que, ao certo, pra eles, justificam os fins, e vice-versa a mesma coisa, numa espécie de marketing com o empurrãozinho por conta de “críticos” entre aspas, a ver o que tiram em proveito próprio deste conúbio de bastidores.
Tudo isso, sem falar dos poetas e escritores que ficam torrando a paciência de resenhistas que vivem em outros estados do mapa, telefonando para eles, dia e noite, até em horas tardias, inconvenientes, perturbando-lhes o sossego, como esses impertinentes funcionários de bancos, querendo vender produtos que só lhe tomam dinheiro e mais enriquecem os banqueiros. Assim os tais poetas e escritores. Insistentes feito muriçoca, pedindo resenhas sobre livros seus, só para forjar fama, fazer média em suas províncias literárias, posar de “estrelas” da literatura nacional. Em Nelore City mesmo tem gente fazendo isso — poetas, romancistas e contistas —, constrangendo os escritores de fora, que não sabem como sair dessa sem melindrar o patético, o ridículo implorante, “mendigo” de resenhas. Querem fama a qualquer preço e a toque de caixa, e não se tocam, achando que os resenhadores — sérios, muitos deles — não estão aí para resenhar todo e qualquer livro escrito no país. Tem gente que não enxerga o próprio nariz!
Estou por aqui e por conta própria, solidário com as vítimas desse tipo de coisa, que desabafam comigo, reclamando de gente daqui de Nelore City, que fica implorando resenhas, querendo avançar com as escoras dos elogios nem sempre merecidos. E nem me desculpem o replay, a indelicadeza de não ser generoso neste aspecto, mas vou insistir no que me toca e já tornei público: não insistam, não cometo mais o delito de prefaciar livros, não faço orelhas ou sequer trechinhos de contracapa; e salvo em casos muito especiais, não leio — não tenho tempo e não gosto de ler originais alheios — nem opino sobre futuros “bestsellers”. E quando ouso rara resenha ou comentário, é por puro encantamento com a obra, dessas que raramente aparecem e se aproximam do verdadeiramente grande poeta ancional que espero há anos.
Nunca pedi prefácio a quem quer que seja, nem resenha, nem nada; quando muito, busco divulgação na imprensa. Sempre defendi que uma obra caminha sozinha, por si mesma, e se não caminha, vai para o ostracismo do aterro sanitário que, muitas das vezes, é mesmo o seu devido lugar. E olha, nem é má-vontade, é cansaço, mesmo, quando não é enfado ou porque ando desmotivado. Ainda assim, há quem insista a pedir que eu leia calhamaços e dê minha opinião, que, não sendo elogio, nem sempre agrada e, salvo raros casos, não é levada em consideração — também não sou nem tenho a intenção de ser nenhum mestre de ninguém —, ou então fazem biquinho de menino emburrado, de gênio contrariado. Só falta pedirem que, além de prefácios e orelhas, eu faça também sobrancelhas, pé, mão, botox e lipoaspiração que lhes sirvam de “piercings” — saldo médio ou enfeite — em suas obras amiúde “geniais”, com perdão da má palavra.