Desenho de  Wendy MacNaughton
revista bula

compartilhe



últimos comentários

  • Razões do Existir

    Quando nos deparamos com um mistério, um obstáculo intransponível à nossa lógica e entendimento, nossa insaciável necessidade pela compreensão nos compele a recorrer às divindades e ...

    7 horas atrás por João Carlos Figueiredo sobre Sim. Deus existe
  • É comovente o esforço que os ateus fazem para justificarem seu ateísmo...Mas não dá! O ônus da prova é de quem nega... ...

    12 horas atrás por Pedro Pinto de Arruda sobre O odor deletério de Dostoiévski
  • Teistas e ateistas, pouco me importam. Vale mesmo o indivíduo, dono do seu eu, senhor de si. Pronto para acreditar no que melhor lhe convir, pronto para servir-se da crença que lhe for favorável, apto ...

    1 dia atrás por Marcelo Pasqualin Batschauer sobre Sim. Deus existe
  • Gostei do texto, Denise. Parabéns.
    Face às definições sobre ateísmo que surgiram nos comentários, postarei a minha:
    Ateu: uma pessoa, um animal racional, que não conseguiu, depois de adulto, encontrar ...

    2 dias atrás por Frankly Andrade sobre Sim. Deus existe

últimas no twitter

  • @Alelex88 DM...
    4 horas atrás
  • Um gigantesco acervo da televisão europeia disponível on-line (conteúdo a partir de 1900): http://t.co/hT9URTMp
    23 horas atrás
  • Muhammad Ali x Ryu: http://t.co/fcF38dh7
    23 horas atrás
  • Google Insights: mapeie comportamentos e tendências de pesquisas feitas na internet: http://t.co/7JY7qT7a
    24 horas atrás
  • @DeniseRossi Pensando em algo audaz...
    24 horas atrás

parceiros

  • twitter rank


sugestões de livros

  • e eventualmente nojentas de casais escatológicos

sugestões de filmes

ensaios

POR EM 16/07/2011 ÀS 10:17 AM

Woody Allen deveria filmar também em Lisboa

publicado em

Este não é um texto sobre Woody Allen. É um ensaio/tributo a Lisboa. Mais: é um passeio pela história do Fado e seus mitos

Já me disseram que há um ditado que nos lembra que conhecer o mundo sem ir a Sintra não seria realmente conhecer o mundo. Bem, não há como discordar, mas acredito que pecado maior é ir a Lisboa e não ouvir fado.

Estamos em Lisboa já há alguns dias, R. e eu, e ainda não ouvimos fado. Ou antes: ainda não fomos a uma casa de fado, pois já ouvimos fadistas na rua e também a música, quase sempre de Amália Rodrigues, que sai das lojas de discos (percebo que escrevi “discos” em vez de “CDs”: muitas vezes, palavras entregam a idade). E há uma mendiga cega na Rua Augusta que sempre está cantando e balançando seu copo para recolher moedas; seu lamento, do qual não entendo nada, fere de um modo pungente meu coração. (Não sei se R. também se sente assim, preciso perguntá-la sobre isso — aliás, noto agora, me parece que ela ainda não reparou na mendiga, o que pode significar que os vinhos que tenho bebido talvez estejam fazendo com que eu transforme coisas banais em situações memoráveis. Passarei um dia sem vinho para conferir. Se não encontrar a velhinha novamente, com certeza ficarei não apenas um, mas muitos dias sem beber.) Iremos, claro, ouvir a música na fonte. Antes da aula prática de fado, porém, faço minhas pesquisas e descubro coisas do balacobaco (uma curiosidade: a palavra balacobaco tem uma certa ligação com o samba; qual seria, se é que existe, a palavra equivalente para o fado?). O fado tem, como todos os tipos de música, seus mistérios; por exemplo, não há concordância sequer em relação a sua origem. Para alguns, ele vem da música dos invasores árabes; para outros, ele descende dos cantos dos trovadores; há ainda quem o queira fruto das canções dos marinheiros portugueses que correram o mundo. Muita gente, contudo, crê que o fado, vejam só, viria da nossa música, da modinha e do lundu, influência brasileira (e africana) que teria chegado a Lisboa com o retorno da Família Real, em 1821, do Brasil, onde ela aportara, em 1808, fugida das tropas napoleônicas.


leia mais...
POR EM 04/07/2011 ÀS 07:32 PM

Eterna meia-noite em Paris

publicado em

Este não é apenas um texto sobre o novo filme de Woody Allen. É um ensaio sobre Paris. Um guia literário de uma época. Um grande passeio pela Paris dos intelectuais, das histórias, dos escritores e artistas que ficaram gravados no inconsciente coletivo do mundo 

Todos os que escreveram sobre o último filme de Woody Allen, “Meia-noite em Paris”, captaram bem a sua essência (e o próprio Dr. Flávio Paranhos, woody-allenista da linha de frente, já deu o seu aval ao filme). Agradeçamos aos santos padroeiros do cinema por Woody Allen não ser adepto do hermetismo cinematográfico, esse mal que lota cineclubes e esvazia cinemas: em “Meia-noite em Paris” claramente entendemos que ele questiona se haveria uma idade de ouro melhor do que os tempos atuais em que vivemos. O protagonista do filme volta, por conta de uma mágica qualquer, à Paris dos anos 1920 e passa a conviver com Scott e Zelda Fitzgerald, Hemingway, Gertrude Stein, Picasso, Dalí, Buñuel, Man Ray, Cole Porter. Vê Josephine Baker se exibindo no Bricktop's e dança com Djuna Barnes numa festa, o que lhe permite uma ótima piada: “Aquela era Djuna Barnes? Não me impressiona que ela quisesse liderar” (outras boas piadas acontecem quando ele antecipa o roteiro de “O Anjo Exterminador” para Luis Buñuel, que não o entende — “Por que as pessoas ficam presas na casa?” —, e quando cita uma frase do próprio Hemingway para o escritor, “Acredito que toda a literatura americana nasce com ‘As Aventuras de Huckleberry Finn’”, mas Hemingway, em resposta, apenas lhe pergunta se ele gosta de boxe). Contudo, a mulher por quem Gil Pender, o personagem interpretado por Owen Wilson, se apaixona naqueles roaring twenties, prefere a belle époque, e de novo, por causa de uma espécie de magia, eles recuam ainda mais no tempo e sentam-se a uma mesa no Moulin Rouge com Toulouse-Lautrec, Degas e Gauguin. Woody Allen parece concluir que não há uma época de ouro e que é preciso viver da melhor maneira possível o presente; o filme é assim uma apologia do “ubi sunt?” e do “carpe diem”.


leia mais...
POR EM 30/01/2011 ÀS 12:07 PM

Tréplica: Pelé nunca pretendeu ser santo, aliás ser Senna

publicado em

PeléMeu ensaio Senna Não é Pelé produziu reações diversas. Vários leitores concordaram com meu raciocínio, outros discordaram parcialmente, muitos ficaram indignados, houve quem suscitasse a possibilidade de que Senna teria praticado conjunções carnais com membros do “sexo feminino” de minha família, um amigo próximo acusou-me de desonestidade intelectual, dois cavalheiros mais exaltados mandaram mensagens eletrônicas me ameaçando de morte etc, etc, etc. Em sua maioria, como imaginei, as reações foram passionais. Infelizmente, afinal, não há possibilidade de debate civilizado quando um dos lados está vermelho, arrancando os cabelos, rasgando as roupas e batendo contra o peito. Como diz a tradição: apelou perdeu, playboy! 
 
Porém, dentre os discordantes, houve notáveis exceções. Por exemplo: Renan do Couto e Joubert Barbosa procuraram responder meus argumentos com outros argumentos, não com xingamentos vazios. Rodrigo Duarte Oliveira escreveu que “um texto pode acrescentar muito ao leitor. Porém, o texto do senhor Ademir, apenas nos acrescenta informações sobre a sua personalidade, o seu apelo a autopromoção”. Um primor de elegância e minimalismo, quase irrespondível. Renato Pujol questionou-me educadamente, acrescentando ao final uma tirada impagável: “abraço de uma viúva passional agarrada ao seu lencinho”. Hilário!


leia mais...
POR EM 11/01/2011 ÀS 03:50 PM

Acerca da arte

publicado em

Saturno devorando o próprio filhoDesde há algum tempo deixei de ler Arnaldo Jabor. Pelo mesmo motivo que não leio Diogo Mainardi e até mesmo o brilhante João Ubaldo Ribeiro — tornaram-se monotemáticos, e, como tais, monótonos. Os deslizes morais do governo Lula se transformaram em fortes e irresistíveis lâmpadas acesas para os escritores-mariposas (ou seja lá que inseto for que se sente atraído por luz). Não é que eu faça parte do grupo que perdoa o mensalão e similares. De jeito nenhum. O PT acabou pra mim. Existe tanto quanto o PSDB de FHC ou o PP de Maluf. Coloco-os na mesmíssima cumbuca, não faço a mais microscópica diferença entre eles. Mas estou me desviando. 

Não lia mais Jabor há algum tempo, mas li sua coluna no jornal “O Popular”, que fala sobre a última Bienal de SP. A obra de arte deve ser exaltante, defende ele, criticando as instalações com pretensas mensagens sócio-políticas. Diz Jabor: “A sensação dominante que tive foi de ruínas ou de despejos da civilização. Os trabalhos repetem os mesmos códigos e repertórios: terra arrasada, materiais brutos e sujos, desarmonia, assimetria, uma vergonha de ser “arte”, vergonha de provocar sentimentos de prazer”. [Grifo meu] 

Isso me fez lembrar de Slavoj Zizek, um filósofo cuja obra gosto muito de ler, embora dele discordando várias vezes. Zizek, a cujo livro “Lacrima Rerum — Ensaios Sobre Cinema” recorri em duas colunas minhas na revista “Filosofia Ciência & Vida”, a pretexto de analisar filmes do diretor polonês Krzysztof Kieslowski, tem um estilo direto, objetivo (a não ser quando entra em terreno lacaniano) que muito me agrada. Mas desvio-me novamente. Enfim, eis do que me lembrei, quando li Jabor: “Supostamente, apreciamos a arte tradicional, espera-se que ela traga prazer estético, ao contrário da arte moderna, que causa desprazer; a arte moderna, por definição, fere. Nesse sentido exato, a arte moderna é sublime: causa prazer-na-dor, produz seus efeitos por meio do próprio fracasso, na medida em que se refere às Coisas impossíveis. Em contraste, parece que a beleza e o equilíbrio harmonioso são cada vez mais do domínio das ciências (...)” (“A Visão em Paralaxe”, Boitempo, p. 200). 


leia mais...
POR EM 06/07/2010 ÀS 05:37 PM

Rebelde que Stálin matou renasce como poeta

publicado em

Isolado por Stálin no campo de Versonej, Ossip Mandelstam morreu, de fome, aos 47 anos

Ossip Mandelstam Durante anos, na União Soviética, dizer o nome de Óssip Mandelstam (1891-1938) publicamente era uma ofensa grave ao “guia genial dos povos”, Stálin. Aquele que o citasse podia ser preso ou, mesmo, assassinado. A polícia política fez uma varredura cultural e limpou o nome do escritor russo Mandelstam (nascido em Varsóvia) — que o político Nicolai Ivânovitch Bukhárin amava e, enquanto pôde, protegia — dos livros de história de literatura russa ou qualquer outra. Na União Soviética, “ninguém” sabia, ou podia saber, sobre o escritor Mandelstam. Era terminantemente proibido. Seus livros, como os de Boris Pasternak, não eram editados. 

Mandelstam era um poeta de formação clássica, não engajado politicamente. Num dos melhores estudos da Revolução Russa de 1917, “A Tragédia de um Povo: A Revolução Russa — 1891-1924” (Record, 1106 páginas), o historiador inglês Orlando Figes diz que Maksimilian Voloshin, Mandelstam e Andréi Biéli (ou Belyi) “mostravam-se ambivalentes quanto à violência revolucionária; entendiam-na como uma força justa e primitiva, mas revelavam horror diante de tamanha crueza selvagem” (página 503). Figes conta, na página 746, que Máximo Górki ajudou Mandelstam.  Há um belo livro no mercado, que poderia ter sido chamado de “O Livro Negro do Comunismo — Cultura”, mas o autor Boris Schnaiderman (um dos mais qualificados tradutores do russo), ucraniano nascido em 1917 e que mora no Brasil desde os 8 anos, não o permitiria. Por isso, o título é outro: “Os Escombros e o Mito — A Cultura e o Fim da Soviética” (Companhia das Letras, 306 páginas). 


leia mais...
POR EM 14/03/2010 ÀS 01:28 PM

Mérito e reparação: o que lembrar antes que oficializem o racismo no Brasil

publicado em

Operários, de Tarsila do Amaral

"Inventaram que responsabilizei os negros pela escravidão. É mentira. Apenas trouxe à luz o que está em qualquer estudo sobre o período: o tráfico de pessoas negras não começou com os europeus, mas entre os africanos; e era negra grande parte dos traficantes de negros"

"As diferenças entre um branco nórdico e um negro africano compreendem apenas uma fração de 0,005 do genoma humano. É a comprovação científica de que raça não existe ou só existe para os racistas"

"Os ongueiros querem que aceitemos a falácia de que a miscigenação ocorreu por estupro. Ou seja, todos os brasileiros que não forem de uma raça pura, segundo a tese racista dos militantes, tiveram sua origem em um crime sexual"


leia mais...
POR EM 04/12/2009 ÀS 03:59 PM

O corpo sem pulso

publicado em

Yoko Ono e John LennonContra todas as indicações, Fernanda Young posou recentemente para a revista “Playboy”. As fotos mostram muito piercing, tatuagem e palavras escritas em punhos, braços e costas. Nada parece convencional porque se espera, neste tipo de publicação, a mulher fruta com inúmeras próteses para aumentar seios, quadris e lábios. O que aparece ali é muita insinuação de dor e mutilação. O corpo está modificado, não por roupas, mas por meio de intervenções e de inscrições. Pessoas famosas estão exibindo mais as partes cobertas por roupas. Algumas vão além. Fazem filmes de sexo explícito e são entrevistadas no talk show de Luciana Gimenez (uma espécie de Paul Johnson da televisão brasileira). Leila Lopes contou, certa vez, que não sentia nada em termos sexuais nas filmagens. Só muita dor física. Os homens tomam Viagra para manter a perfomance durante cinco horas na mesma posição. As mulheres passam Xilocaína nas partes íntimas.

Tudo vira performance. Vinte anos atrás, Cazuza descobriu que era soropositivo da "maldita", como dizia na época, a doença que pune a sexualidade, e apareceu na capa da revista “Veja” (a versão impressa do programa Super Pop). Um corpo magro, debilitado, rosto esquálido, para chocar e vender revista de lixo cultural. As reações foram imensas. A esfera pública acabou de mutilar o que restava do compositor. Câmeras viram biopoder. Annie Leibovitz fotografou a progressiva doença de sua parceira Susan Sontag. As dores, a perda de cabelo e, por fim, o cadáver. Fez o mesmo com os próprios pais, em seu envelhecimento, a flacidez dos braços. O que pareceria vulgaridade, tornou-se vida pelas lentes da fotógrafa. Foi ela quem convenceu John Lennon a posar nu, abraçado à mulher Yoko Ono, e no mesmo dia o beatle morreu com tiro disparado por um aloprado. O corpo morto de Lennon não apareceu mais. 


leia mais...
POR EM 16/11/2009 ÀS 02:34 PM

Jornalistas raramente entendem o regime totalitário de Cuba

publicado em

Fidel CastroMesmo repórteres experimentados têm dificuldade para explicar o regime totalitário de Cuba. O correspondente do “El País” em Havana, Mauricio Vicent, publicou ótima reportagem sobre Fidel Castro no domingo, 8, mas, como muitos outros jornalistas, não interpreta com precisão o funcionamento do sistema comunista. Traduzo e comento alguns trechos de seu texto, expandindo aquilo que mostra e discute de modo superficial. Mauricio Vicent construiu sua longa reportagem, “Vida secreta de Fidel Castro”, baseado quase que exclusivamente em fontes anônimas, o que é natural, pois os cubanos, mesmo autoridades graduadas, temem dizer qualquer coisa a respeito do chefão; o que parece agradar pode desagradar. A intimidade e a saúde do Al Capone da esquerda são segredo de Estado. “Hoje”, diz uma fonte anônima, Fidel “verdadeiramente está fora do poder, dedicado às grandes estratégias e aos problemas mundiais”. Se está fora do poder, como aceita o repórter do principal jornal espanhol, como pode se dedicar “às grandes estratégias”? Elabora estratégias para quem? Para o regime do qual é tutor. Na “ausência” do imperador, Raúl Castro, o irmão Débil & Loide, é no máximo regente.

Embora não tenha conseguido entrar na casa de Fidel, Mauricio Vicent colheu informações detalhadas. “Punto Cero [Ponto Zero] é o nome para designar o lugar da residência de Fidel.” O chefão “aposentado” e sua mulher, Dalia Soto del Valle, com quem tem cinco filhos, moram numa casa de quatro quartos, com piscina (luxo em Cuba) e amplo jardim. Nas casas próximas moram filhos, noras e netos. O “sultão comunista” teme ser morto e é protegido 24 horas por dia. Paranoico, costuma dizer que é vigiado, até quando vai ao jardim, por satélites espiões americanos.


leia mais...
POR EM 10/11/2009 ÀS 10:35 AM

Com o dedo na garganta

publicado em

F GullarEm 1975, no auge da ditadura militar brasileira, o poeta Ferreira Gullar estava na Argentina na situação de exilado. A capital Buenos Aires era mais uma parada na longa fuga que começou pela União Soviética e passou por Lima no Peru e Santiago do Chile. Sua família se esfacelara: a esposa e um dos dois filhos haviam retornado ao Rio de Janeiro. O outro filho desaparecera naquele ano, durante o exílio argentino, em mais um surto psicológico. Os filhos tinham grandes problemas emocionais agravados pelo uso de drogas. Criou-se o vazio na vida daquele intelectual, membro do Partido Comunista e um dos conhecidos representantes da classe média que decidira resistir aos militares.

O clima de “respiração artificial”, para usar uma expressão de Ricardo Piglia, se acentuara na Argentina, às vésperas de mais um golpe político que viria a se concretizar em 1976. “Surgem rumores de que exilados brasileiros estavam sendo seqüestrados em Buenos Aires e levados para o Brasil com ajuda da polícia argentina”, diz. Quando escreve esse relato mais de 20 anos depois, no livro de memórias “Rabo de Foguete” (1998), Gullar sabe que se trata da Operação Condor, na qual os países do Cone Sul atuaram em conjunto para identificar os opositores de um governo que estivessem refugiados em países vizinhos. Na época, a única sensação era a de pavor e necessidade de exprimir, em palavras, aquela situação irrespirável.


leia mais...
POR EM 09/11/2009 ÀS 01:50 PM

O intelectual do século

publicado em

Sartre Existem poucas situações mais risíveis do que as infindáveis discussões entre dois pretensiosos donos da verdade. Podem ser muito divertidas, render diálogos dos mais irônicos, dignos de Woddy Allen. Lembro-me que há alguns anos meu amigo Alencar Arrais, dileto historiador, e eu discutimos durante dias quem teria sido o mais importante intelectual do século XX. Meu interlocutor defendia, concordando com um cânone publicado, creio eu, pela “Folha de São Paulo”, o nome do sociólogo alemão Max Weber. Eu não tinha dúvidas: o intelectual do século XX tinha sido o francês Jean-Paul Sartre. Sei muito bem que a produção de Weber é mais consistente, mas, ainda assim meus argumentos eram, em meu entender, indiscutíveis: além de sua vasta obra filosófica e artística, Sartre tinha a seu favor sua polêmica atuação política, a admirável petulância de recusar o Prêmio Nobel de Literatura e, talvez acima de tudo, o fato de ter sido um inexplicável símbolo sexual. O homem foi a práxis existencialista encarnada em carne, osso, óculos e cachimbo. Contudo, obviamente as discussões entre donos da verdade tradicionalmente não tem fim, como esta não teve. Foi apenas deixada de lado, vencida pela exaustão. Mas vai voltar. O lançamento do livro “O Século de Sartre – inquérito filosófico”, do filósofo francês Bernard-Henri Lévy, dá-me farta munição para reabrir a nossa insignificante polêmica pessoal. 
           
“O Século de Sartre” não é uma mera biografia crítica sobre seu personagem título, vai muito além disso. É, sim, um verdadeiro inquérito filosófico sobre o impacto que o pensamento sartriano teve no século XX. É também uma proposta de redescoberta de seu pensamento. Apesar de Sartre nunca ter sido esquecido, tendo lugar cativo entre os gênios de todos os tempos, a decadência das utopias de esquerda que coincidentemente se seguiram a sua morte, ocorrida em 1980, relegou sua filosofia a desconfortável condição de peça de museu: fundamental como instrumento de análise de uma época, mas datada, ingênua e equivocada, quando fora de seu contexto histórico. Sartre que em vida foi uma longa coqueluche intelectual, uma moda que durou quarenta anos, depois de morto, ao contrário de alguns de seus contemporâneos, como Foucault e Camus, nunca entrou em moda. De certo modo, sua morte foi um alivio. Sartre fez barulho demais, incomodou demais, foi camaleônico demais ao longo de sua carreira para ser plenamente inteligível. O melhor seria mesmo deixá-lo no limbo de Dante, pensaram os sobreviventes.


leia mais...
 1 2 3 4 5 >  Último ›
É permitida a reprodução total ou parcial sem autorização prévia dos editores, desde que citada a fonte.
© Copyright 2009 — Revista Bula — Literatura e Jornalismo Cultural — editorial@revistabula.com


renovatio