revista bula

compartilhe



últimos comentários

  • Sou maranhense, e nao entendo..
    A familia Sarney está no poder por aqui há muito tempo. Quando finalmente na última eleição para vereador conseguimos desfazer a oligarquia elegendo Jackson Lago eles d ...

    21 horas atrás por k. sobre Leitura de “Honoráveis Bandidos” sugere a pergunta: por que Arruda está preso?
  • É o utilitarismo, meu caro.

    Abraço!
    www.formigueirocomunista.com/sss ...

    2 dias atrás por André HP sobre A invenção da roda
  • Assisti a'O púlcaro búlgaro no teatro do Colégio Marista ontem. Excelente. Pena que o teatro estivesse vazio. Hoje (sábado) haverá a segunda e última apresentação. Quem não foi, que vá. ...

    2 dias atrás por Flávio Paranhos
  • Obrigado pelo comentário, Liana. ...

    4 dias atrás por eberth vencio

últimas no twitter

  • Imagens gigantes e gratuitas... http://www.morguefile.com/
    2 horas atrás
  • Para aficionados por piercing: http://bit.ly/dpo6Hq
    2 horas atrás
  • Again: como eram os sites mais famosos do mundo quando foram lançados... http://bit.ly/UQxNn
    2 horas atrás
  • Eis o link: Lista com os 100 melhores blogs de (ou sobre) fotografia...http://bit.ly/lqpw
    2 horas atrás
  • Os homens mais ricos do mundo online (segundo a BBC) http://bit.ly/d3eyHy
    2 horas atrás

parceiros

  • Tawitter

  • twitter rank

  • Marconi Leal

sugestões de livros

  • Centopeia de Neon

sugestões de filmes

  • http://bit.ly/bE40kL

  • Lola Montes

  • Europa 51

  • No Limiar da Vida

ensaios

POR EM 02/02/2009 ÀS 09:34 PM

John Updike é o Balzac da classe média americana

publicado em

Os críticos mais reticentes à prosa de Updike são aqueles que também são reticentes aos Estados Unidos. Porque, de certo modo, Updike é um “biógrafo”, crítico e compreensivo, do modo de vida americano. A crítica certamente, ao não negar o capitalismo, não agrada os críticos de esquerda, dominantes nos cadernos culturais. Updike queria compreender criticamente, mas não destruir, não era um revolucionário. Era “apenas” um escritor

 
John Updike - Foto: Susan Wood/Getty Images 
 

O escritor norte-americano John Updike era um polímata, mas, curiosamente, não acadêmico. É possível compará-lo ao crítico americano Edmund Wilson. O autor de “Rumo à Estação Finlândia” e responsável por firmar a reputação de Scott Fitzgerald (cuja prosa o surpreendia) e Ernest Hemingway (notando, com perspicácia, que era filho da prosa enxuta de Abraham Lincoln, Mark Twain e dos manuais de redação de jornais. O artigo figura no livro “Onze Ensaios”, com tradução de José Paulo Paes e seleção e prefácio de Paulo Francis) era um crítico brilhante (o que provam as análises à quente de Proust e Joyce em “O Castelo de Axel”, com tradução de José Paulo Paes) e, ao mesmo tempo, escreveu prosa. Sua prosa não é propriamente ruim, mas não tem o nível da literatura de Fitzgerald, Hemingway, Ralph Ellison, Faulkner, Saul Bellow, Philip Roth e John Updike. As 416 páginas do romance “Memórias do Condado de Hecate” são de uma chatice ariano-suassuniana, o que prova que o crítico notável apenas eventualmente se torna prosador relevante. Como nota George Steiner, a crítica sempre fica degraus abaixo da literatura. É uma tarefa menor. Updike, como Wilson, era um grande crítico, mas, diferentemente do tutor literário de uma geração, era também um escritor do primeiro time. Updike morreu na terça-feira, 27, de um câncer no pulmão. Tinha 76 anos e publicou mais de 50 livros (romances, contos, poesias, crítica literária, crítica de artes plásticas). Com uma qualidade acima da média. 

Os obituários de Updike, o americano tranqüilo, foram no geral generosos. Poucos destacaram sua crítica literária pertinaz e amorosa. Pelo menos um sugeriu que seus romances são superficiais (sem explicar devidamente por quê). Outros lembraram que era o cronista das pequenas cidades americanas — o próprio Updike dava-se esse rótulo (ligeiramente enganoso, por assim dizer). No Brasil, saiu apenas uma coletânea de sua crítica atenta, mas nada sensacionalista ou corrosiva. “Bem Perto da Costa — Ensaios e Crítica” (Companhia das Letras, tradução de Carlos Afonso Malferrari, 1991). Um dos bons momentos é a resenha da correspondência entre Edmund Wilson e Vladimir Nabokov. Os dois foram amigos e se tornaram inimigos por conta “da tradução que Nabokov fez de ‘Eugene Onegín’ (1964)”, de Púchkin. “Uma amizade que viveu pela linguagem morreu também pela linguagem. Não foi a política que criou entre ambos uma animosidade duradoura; não foi sequer a divergência de opiniões sobre [Thomas] Mann e [Maksim] Górki; foram sim palavras russas como ‘netu’, ‘vse’, ‘zloy’ e ‘pochuya’, todas as quais figuram no grande debate de Onegín” (“Edmund Wilson — Uma Biografia”, de Jeffrey Meyers, relata mais extensamente as razões da polêmica).
 
Num ensaio memorável sobre Walt Whitman, no qual destaca todo o talento do poeta americano, Updike tem a coragem de dizer, com acerto, que “os versos da reclusa Emily Dickinson mostram mais apetite pelos detalhes e sutilezas da psicologia humana do que os peãs de Whitman”. Nem Harold Bloom, um crítico abusado, ousou tanto.
 
Joyce e Memórias — Ao comentar as cartas de James Joyce (organizadas pelo indefectível Richard Ellmann), na resenha “O singelo Jim”, Updike nos oferece uma síntese precisa da literatura do Homero irlandês. Os textos sobre Hawthorne e Melville, resultados de palestras, John Cheever, Anne Tyler (ótima, mas subestimada no Brasil), Samuel Beckett, Flann O´Brien, Céline, Milan Kundera (“‘O Livro do Riso e do Esquecimento’ é brilhante e original, escrito com uma pureza e uma sagacidade que nos convidam a entrar de imediato. Mas é também um livro estranho, de uma estranheza que nos tranca do lado de fora”), Gunter Grass e Auden são deliciosos. Vale a pena ler o artigo sobre a atriz e cantora Doris Day. Updike escrevia sobre ficção como crítico e, evidentemente, prosador. Por isso, não destruía seus pares (tudo indica que evitava publicar resenhas sobre livros ruins. A “New Yorker” certamente o liberava do tormento). Como Susan Sontag, escreveu, encantado, sobre a literatura de Machado de Assis.
 

Updike e Jane T Howard em 1966 - Foto: Truman Moore
 
As memórias de John Updike, “Consciência à Flor da Pele” (Companhia das Letras, tradução de José Antônio Arantes, 1989), não alcançaram grande repercussão no Brasil. Acredito que tenha a ver com sua defesa, intransigente, da Guerra do Vietnã. Num ensaio percuciente e corajoso, “Sobre não ser um dove”, Updike explica seu apoio ao governo americano. “Eu era liberal” — é assim que Updike resume seu credo. “Penso o seguinte: a paz depende da ameaça da violência. A ameaça não pode ser sempre vã. Em particular e em conjunto, atravessamos a vida à flor da pele, e quando nos roubam esta flor temos de lutar. (...) A paz não é algo a que temos direito, mas um descanso ilusório que obtemos.” 
 
Nas memórias, Updike escreve uma carta aos netos Anoff e Kwame. Recentemente, aconselhou o presidente americano Barack Obama a ler o romance “O Golpe”, sobre uma ditadura africana, mas o líder do Partido Democrata está mais interessado nas sugestões do livro “Time de Rivais — A Política e o Gênio de Abraham Lincoln”, da jornalista e historiadora Doris Kearns Goodwin. Só uma mente cultivada e inteligente como a de Lincoln podia fazer um governo funcionar com uma equipe de rivais (o governo Henrique Santillo, formatado com santillistas e “aliados” iristas, não funcionou. Santillo era inteligente, mas era pouco político e não tinha paciência). Obama segue a mesma estratégia. Veremos se, com ele, funciona. Ah, sim os netos de Updike são filhos de sua filha branca com um “negro puro da África Ocidental” (lembram os netos de Chico Buarque, filhos de Carlinhos Brown e de uma de suas filhas).
 
Por que Updike se tornou escritor? Por conta de uma doença, psoríase, que adquiriu ainda criança e levou-o ao isolamento. “Por conta de minha pele, excluí qualquer emprego — vendedor, professor, financista, ator de cinema — que exigisse boa aparência. Por que me casei tão cedo? Porque, tendo uma vez encontrado uma mulher graciosa que relevou minha pele, não me arrisquei a perdê-la e a tentar encontrar outra.” A saída foi se tornar escritor, depois de estudar em Harvard e Oxford. 
 
Updike admite, nas memórias, que foi grandemente influenciado por Chesterton, Kierkegaard, Karl Barth, entre outros. “... Senti-me livre para descrever a vida com a maior precisão de que era capaz, com especial atenção para traições e desgastes humanos. A pouca fé que tenho deu-me a coragem artística que tenho. Minha teoria era a de que Deus já sabe de tudo e não se escandaliza. E só a verdade tem serventia. Só a verdade pode ser edificada. De um ponto de vista inumano, mais elevado, só a verdade, por mais áspera, é sagrada. A verdade fabricada da poesia e da ficção cria um abrigo onde sinto-me seguro, abrigado no interior das plausibilidades entretecidas na imagem de um mundo real pelo qual não sou responsável. Tal maneira de escrever é, em essência, pura. A partir de uma vida agitada e aviltada, apurei meus livros. Eles são aparados, vivos, claros, particularmente quando acabam de chegar da gráfica em uma caixa de papelão, antes de os resenhistas deixaram neles suas máculas e de eu descobrir, como uma florzinha que insiste em desabrochar em uma superfície plana, uniforme e brilhante de sal, o primeiro erro tipográfico. No entanto, a ficção, como a vida, é uma coisa injusta; discrição e bom gosto desempenham nela um pequeno papel”. Sobre a fama: “A fama é uma máscara que corrói o rosto”.
 

John Updike e o jornalista Alan Brien em 1968 - Foto: Michael Ward/Rex Features
 
O Updike mais famoso não é o crítico ou o memorialista, e sim o romancista profundo da vida americana, aquele que tem o olho clínico para o detalhe (“Uma voz fala no tom agudo que se usa para falar com animais de estimação” — em “Coelho Cai”), para aquilo que, de tão corriqueiro, não nos incomoda nem chama a nossa atenção. Nos obituários, talvez por falta de uma leitura atenta, disseram que Updike é melhor contista (o mesmo se diz de Hemingway) e que seus romances são superficiais. Não adianta: contos são importantes. São importantíssimos. Mas, quando se diz que os contos de um escritor são melhores que seus romances, o crítico está, sim, diminuindo a importância do prosador. Porque nenhum autor de romances se julga melhor como contista, porque o romance é a forma mais aceita e, portanto, admirada (o que explica Hemingway não ter se contentado em ser contista). Updike, embora grande contista, não era romancista superficial. Era um prosador que acertava tanto como contista (“Confie em Mim” contém contos muito bons. “S”é um romance, embora tenha sido apresentado, num jornal, como livro de contos) quanto como romancista. Percebo que os críticos mais reticentes à prosa de Updike são aqueles que também são reticentes aos Estados Unidos. Porque, de certo modo, Updike é um “biógrafo”, crítico e compreensivo (até certo ponto), do modo de vida americano. A crítica certamente, ao não negar o capitalismo, não agrada os críticos de esquerda, dominantes nos cadernos culturais (infestados por citadores de teóricos). Updike queria compreender criticamente, mas não destruir, não era um revolucionário. Era “apenas” um escritor.
 
Há pouco tempo, Philip Roth disse à “Folha de S. Paulo” que o americano é menos puritano do que pensam os estrangeiros. Tem razão. Na série “Coelho”, com 1.860 páginas, Updike traça um painel balzaquiano da vida americana — e não apenas das cidadezinhas (“Cidadezinhas” é o título de seu último romance publicado no Brasil), porque, no fundo, as cidadezinhas, pouco a pouco integradas, reproduzem, ainda que com menos agudeza e mais flexibilidade (há mais calma, menos apreço pelo progresso a qualquer custo. “Os que vivem correndo na frente não veem o que os mais lerdos percebem”, anota o narrador, em “Coelho em Crise”), a vida das médias e grandes cidades.
 
 O sociólogo-escritor — A série "Coelho" é uma tetralogia que, em 2000, ganhou a novela "Coelho se Cala" para completá-la. "Coelho Corre" (1960), "Coelho em Crise" (1971), "Coelho Cresce" (1981) e "Coelho Cai" (1990), traduzidos com mestria pelo poeta Paulo Henriques Britto (surpreendentemente, em "Coelho em Crise", ele usa linguagem de rua: "E aí, tem afogado o ganso?" É o negro Buchanan que faz pergunta ao branco Harry), relatam a história de Harry Angstrom, o Coelho (jogador de basquete frustrado), e de sua família. Harry é casado com Janice. Típico casamento de classe média da cidadezinha de Mt. Judge: "Mas quando [Harry] abre a porta vê sua esposa sentada numa poltrona, um coquetel a seu lado, vendo televisão, o volume bem baixo". Rebelado, Harry deixa o emprego de vendedor, se torna jardineiro e toma por amante uma mulher gorda, Ruth (ela pergunta: "Você é rico?" Coelho responde: "Não, pobre". O pai de Harry é tipógrafo. Ruth esconde de Harry que teve uma filha com ele). A rebelião dura dois meses. Ele volta para casa e diz: "Feliz por estar finalmente do lado certo". Nas conversas, fala-se muito dos preços das coisas (carros, comida, televisor). O lema de Harry é: "A pessoa não tem que gostar de trabalhar. Se gostasse, então não seria trabalho". A opinião de Harry sobre as mulheres: "A gente vive se desentendendo com as mulheres, porque o que elas querem é diferente, elas são de uma raça diferente.Ou elas cedem, como uma planta, ou arranham, como uma pedra. Em todo esse mundo verde, nada é melhor do que uma mulher de bom gênio". O ideário da classe média? Talvez o ideário da maioria dos homens.
 

John Updike em 1969 - Foto: Truman Moore

Numa cidade do interior da Pensilvânia, Coelho não deixa de ver filmes, como "Gigi", "Sortilégio de Amor", "A Morada da Sexta Felicidade", "O Cão Felpudo" (talvez precursor de "Marley", que tanto agrada a classe média, e não só, é claro). Janice viu "Quanto Mais Quente Melhor", de Billy Wilder. O primeiro romance refere-se à segunda metade da década de 1950.

O romance esgota-se em si mesmo. Não precisa dos outros. Mas a leitura dos seguintes permite-nos entender que Updike está traçando um amplo painel da vida de indivíduos que subiram a ladeira social nos Estados Unidos. Indivíduos que são jogados para cima, na escola social, por intermédio de trabalho, casamento e investimentos. Pessoas que, de pobres, se tornaram integrantes de uma desesperada classe média. A classe média é a mais insegura, porque teme descer e tenta, desesperadamente, subir ainda mais. Talvez seja a classe social que mais se cobra, que mais se castiga e, por isso, lota os consultórios de psicólogos, psiquiatras e terapeutas alternativos.

"Coelho em Crise", publicado em 1971, nos Estados Unidos, é um dos melhores da série, senão o mais bem-construído. Harry-Coelho, com "o nariz pequeno e o lábio superior ligeiramente levantado, que no passado valeram-lhe o apelido de Coelho", reaparece como funcionário da Verity Press, até ser demitido por conta da modernização do setor gráfico, que aboliu a figura do linotipista. Está com 36 anos. Ele e o pai, Earl (dono de uma dentadura frouxa; crítico do partido de George W. Bush, diz: "Os republicanos não fazem nada pro povo"), andam de ônibus. Coelho bebe cerveja e está casado com Janice, aos trancos e barrancos, há 14 anos.

A família de Janice tem mais posses, pois é dona de uma concessionária, a Springer Motors, que vende veículos da Toyota. A mãe de Janice diz sobre o genro: "Ele não é mau não, mas senso moral nele é manga de colete". Antes, Harry punha cornos na mulher; agora, pelo contrário, ganha um belo par de chifres. Janice o trai com Charlie Stavros, funcionário de seu pai na empresa. O marido diz: "... quem ia querer aquela boboca? Apaixonada pelo pai e pronto". Ocorre que a "boboca" abandonou a vida de doméstica, empregou-se na concessionária do pai e foi morar com o amante.  Ajudinha do narrador às suas personagens: "Uma das vantagens de ter um amante é que a gente vê tudo por um ângulo novo. O resto da sua vida vira uma espécie de filme, irreal, até engraçado".


John Updike e a família - Foto: Truman Moore 

Janice parece perceber as mudanças comportamentais de modo mais arguto do que Harry: "Acho que ele [Coelho] voltou para mim, para mim e pro Nelson [filho do casal], pelos motivos tradicionais, e quer viver uma vida tradicional, mas ninguém mais vive assim, e ele sabe disso. Ele organizou a vida dele em termos de umas regras que ele sente que agora estão se dissolvendo. Quer dizer, sei que ele acha que está ficando defasado, vive lendo o jornal e assistindo ao noticiário da tevê" (Janice está falando da primeira separação, quando Coelho saiu de casa, deixando-a com o filho Nelson). O narrador faz a ponte, ampliando o entendimento de como a classe média se vê na história: "... a história está acontecendo mas não é tão importante quanto dizem os jornais não, a menos que a gente termine envolvida". Mais: "... a verdade vai acabar passando, é grande demais". Janice, revolvendo o sentimento feminino — as mulheres vivem à procura não do príncipe encantado, e sim de homens que as despertem —, diz (ou melhor, o narrador pensa por ou com Janice): "Nós temos cordas que só as outras pessoas podem fazer soar". A "filósofa" Janice acrescenta: "As mulheres gostam de mentira; a vida fica mais divertida".

O narrador é tão cruel quanto Janice e constata: "Ele [Coelho] não consegue se apegar a nenhuma idéia e dar-lhe sentido: deve ser exaustão" ("Qualquer coisa, só para preencher o vazio com uma felicidade, para servir-se dela mais tarde"). A crítica, dura, é suavizada pela tese da exaustão. Coelho, pois, não é muito diferente da classe média brasileira, que detesta idéias e tem paixão por cerveja, churrasco e automóvel (recentemente, um garoto de 18 anos atirou numa garota, em Goiânia, para roubar o som e as rodas de um automóvel).

A irmã de Coelho, Miriam, a Mim, se torna uma espécie de garota de programa, puta, na Costa Oeste. Os negros aparecem, de supetão, na história: "Triste ser negro, sempre mal pago, os olhos deles não são como os nossos, vermelhos, escuros, cheios de um líquido sempre prestes a escorrer". "Há negros demais nos ônibus." O violento negro Skeeter é, aparentemente, um diálogo com o Ralph Ellison de "Homem Invisível". O espantoso e, de certo modo, inexplicável incêndio na casa de Coelho soa kafkiano.

Atento aos acontecimentos históricos, Updike apresenta a chegada do homem à Lua e a Guerra do Vietnã ("Eu sou totalmente a favor", diz Coelho, ecoando o próprio Updike). "O futuro está em serviços e software", diz o narrador, num livro de 1971, quando Bill Gates era apenas um garoto. Apesar da vigência da idéia de progresso, da satisfação americana por ter se tornado a potência dominante, Harry se mostra pessimista e intolerante: "Este país [os Estados Unidos] está tão pirado de LSD, tão afundado na gordura, na conversa fiada, na sujeira, que só se jogassem bomba de hidrogênio em todas as cidades, de Detroit até Atlanta, a gente conseguia acordar, e assim mesmo a gente ia pensar que tinha sido só um beijo".

 
John Updike em 1972 - Foto:  Chris Smith

Embora eventualmente seja apresentado como otário, quando deveria ser apontado tão-somente como inculto, Coelho é um sujeito perspicaz. Em 1969, com os Estados Unidos no auge, ele diz: "Nunca tive vontade de conhecer [outros países]. Vejo esses outros países na televisão, estão todos loucos para ficar iguais à gente, e queimam as nossas embaixadas porque não conseguem". Ao mesmo tempo, Harry é patriota e diz para o sogro rico e pão-duro: "Para mim, os Estados Unidos continuam sendo o melhor país do mundo".

As drogas estão na moda. As pessoas usam heroína, maconha, ácido, haxixe, bolinha e mescalina. Coelho usa drogas em companhia de alguns pirados, na casa onde mora com o garoto Nelson (sonha ter uma camiseta com a estampa de Che Guevara), que não foi levado por Janice. Reúne uma comunidade hippie em sua casa e tem um caso com Jill, uma garota de 18 anos, que acaba morrendo queimada no incêndio criminoso que ocorre na residência de Coelho. Este diz, rebelado: "Mas o que é que não é caretice agora? Só tomar droga e fugir do serviço militar. E deixar o cabelo crescer até entrar nos olhos".

No terceiro romance da série, "Coelho Cresce", publicado em 1981, Updike registra o ligeiro amadurecimento de Harry-Coelho. Nos romances de formação, como "A Montanha Mágica", os escritores têm o hábito de mostrar o crescimento intelectual de uma personagem. Os romances "Coelho" são uma espécie de resgate da formação do homem Harry — só que ele não tinha veleidades intelectuais. Fica-se com impressão de que Harry cresceu fisicamente (tem, adulto, 1,90m), mas, no fundo, continua um meninão, como se Udpike estivesse nos dizendo que idade não significa, necessariamente, amadurecimento. Mesmo assim, pode-se falar que Harry cresce, daí o título "Coelho Cresce" — e não apenas financeiramente. "Coelho grunhe. Uma geração sem espírito de luta, sem gana, sem nada sólido que diferencie o que é fato do que é pura cascata. Satanismo, maconha, drogas, vegetarianismo. Chega a ser patético. Tudo entregue a eles de bandeja, e eles acham que a vida é igual ao que eles vêem na televisão povoada de fantasmas".

Enquanto Coelho "cresce", nos primeiros meses de 1979, "está acabando a porra da gasolina no mundo inteiro" (um problema que atinge todos, não só a classe média). Com a crise do petróleo, os automóveis japoneses, como Corolla, mais econômicos que as "banheiras" americanas, se tornam hegemônicos nos Estados Unidos. (Num momento de Fernando Collor, Harry-Coelho discursa: "Dizem que aqui [Estados Unidos] é o paraíso dos automóveis, mas são os estrangeiros que têm todas as boas idéias. Se quer saber, acho que Detroit deixou os duzentos milhões de americanos na mão. Eu preferiria vender carros americanos, mas aqui entre nós três [Coelho está conversando com um casal de jovens], são um lixo. Uma porcaria. São carros de mentira. [...] Se dependesse de mim, nós venderíamos por peso todos os carros americanos, assim que eles entram. Só quem quer esses carros são os negros e os cucarachas, e mesmo eles vão acabar acordando um dia desses". Só faltou chamá-los, à Collor, de carroças. Por sinal, há uma estocada de Nelson, de 22 anos, nos sul-americanos: "Na América do Sul, todos os governos são nosso fantoches".)

Webb Murkett diz para Coelho: "O dólar vai continuar a perder o valor, Harry, enquanto eles não descobrem um jeito de tirar gasolina barata do álcool de cereais, o que vai devolver a força dos americanos. Cereais nós temos". Interpretando Nelson, o narrador diz: "Essa história do Irã vai fazer o preço da gasolina subir ainda mais, mas vai acabar passando, não vão ter coragem de segurar os reféns presos por muito tempo". O perspicaz Charlie Stravos anota: "Pelo menos isto [a crise do petróleo] vai evitar que os chineses e os negros façam uma revolução industrial". Os negros não fizeram, mas viram um negro, Barack Obama, chegar à Presidência da República do país mais rico e poderoso do mundo. Os chineses fizeram uma grande revolução industrial, e mantendo o regime comunista combinado com o sistema econômico capitalista. Nesta prédica, Updike dançou. Updike menciona meninos de rua, na Pensilvânia, em 1979. Ele registra também a invasão do Afeganistão pelos russos. A História, com H maiúsculo, entra na história de Updike não de forma didática, e sim como parte da vida de suas personagens. Sobre 1980: "Uma estagnação mortal dá o sabor da nova década".


John Updike em 1980 - Foto: Eamonn McCabe  

Mesmo com estagnação, como a crise de hoje, as pessoas continuam vivendo, é o que nos diz Updike, com seus dramas, tragédias e comédias. Harry põe a cabeça no lugar e se torna vendedor de Toyotas na Springer Motors. Torna-se um bom vendedor e, paradoxalmente, se torna amigo do grego Charlie Stravros, ex-amante de sua mulher. Charlie, um figuraço que se apresenta sempre doente, mas parece mais forte do que sugere (inclusive, transa muito bem, segundo Janice), costuma dizer: "É a maluquice que nos mantém vivos".

Coelho e Janice (que perderam uma filha) voltam a morar juntos e, com eles, o garoto Nelson, agora crescido. Janice mudou e é uma mulher avançada, exigente sexualmente, mas nem sempre correspondida por Harry. Uma boa síntese do casal, e dos que vivem em torno deles, todos gente de classe média, consumistas, é expressa pelo narrador: "Na meia-idade, de certa forma você carrega o mundo nas costas, mas assim mesmo o mundo dá a impressão de estar mais do que nunca fora do controle, a pessoa que você era na infância se esfacela e é distribuída como os pães multiplicados do milagre".

Ao "examinar" a cabeça de Coelho, num exercício que lembra Faulkner (ao expressar o sentimento de um débil mental), o narrador diz: "Quando mais história você acumula, mais é obrigado a viver. Depois de algum tempo, ela fica excessiva, e talvez seja nesse momento que os impérios comecem a decair". De um romance para outro, Updike, ou suas personagens, fica um tanto quanto desencantado, talvez cético, e não cínico. As mulheres não saem muito bem: "... depois dos quarenta qualquer mulher fica com um ar assombrado, arregalado, de olhos fixos".

Há salvação para aqueles que não buscam conforto espiritual no mundo das artes? Updike, que não quer convencer ninguém de nada, diz pela boca do narrador, que interpreta o pensamento de Coelho: "Podemos rir o quanto quisermos dos sacerdotes, mas eles sabem dizer as palavras que queremos ouvir, as palavras que os mortos disseram antes".  O pensamento de Coelho organizado pelo narrador: "Talvez Deus esteja presente no universo pela mesma razão por que existe sal no oceano, para dar-lhe gosto". "O problema é que, mesmo que exista um Céu, como é que pode existir um Céu que as pessoas aguentem para sempre? Na terra, quando você fica entediado e olha em volta, as coisas mudaram, você já está mais perto da cova, e é interessante", disserta o narrador a partir dos pensamentos de Coelho. Imagine, leitor, a classe média, perdulária e, às vezes, amoral, sem a religião, católica ou evangélica, para controlá-la e confortá-la?

Afinal, a classe média, o objeto de Updike, é infantil, juvenil ou adulta? "A vida, exatamente como acham no começo, consiste em brincar de adulto", sugere o narrador, a partir do garoto Nelson. Depois, outra pancada no juveniilismo: "Como é que dá para respeitar o mundo se vê que está sendo governado por um bando de meninos que envelheceram?"

Há pelo menos dez anos, os brasileiros parecem encantados com os carros asiáticos, principalmente os japoneses. O Corolla, da Toyota, e o Civic, da Honda, são dois dos carros mais admirados pelos brasileiros. O objeto de desejo da classe média patropi. A classe média americana descobriu o Toyota Corolla SR-5 em 1979. Ao compreender a classe média americana, Updike acabou por compreender a classe média ocidental. Seu romance, portanto, é um retrato, ficcional, de todos nós.


John Updike em 1994 - Foto: Michael Brennan/Corbis

O que Updike nos diz, ao examinar a aparente pequenez da classe média, suas limitações existenciais e intelectuais, é que ela tem, sim, uma vida rica. Só não é uma vida intelectualizada, mas seus problemas e alegrias são semelhantes, ainda que não esbocem uma ideologia justificadora, aos daqueles que são intelectuais e têm uma vida espiritualmente mais iluminada. A classe média tornou-se melhor, ainda que duramente exibida, depois da prosa de Updike. É consumista, não é dada à leitura de bons livros, vê filmes e novelas (Janice, sua mãe e Tereza, a Pru, assistem as novelas "Em Busca do Amanhã", "Dias de Nossas Vidas", entre outras) e ouve música de segunda categoria. Coelho corre diariamente e, rico, joga golfe, e Janice joga tênis "três ou quatro vezes por semana" e pertence ao Rotary. Janice passeia por shoppings. Coelho ouve música no estilo discoteca. Os Bee Gees "assumem" o lugar da disco music. A dieta está na moda: "As pessoas hoje querem ter a impressão de que comem menos". Mas ambos têm uma riqueza mundana a ser interpretada com mais perspicácia. É o que faz Updike.

O mestre Updike é daqueles escritores que não perdem a dimensão individual — as histórias miúdas da vida privada — e sabem introduzi-la, ou captá-la, na história geral dos Estados Unidos e do mundo. Nesse sentido, ecoa Balzac e mesmo Tolstói, mas com a delicadeza narrativa de Henry James. A partir de vidas aparentemente insípidas, como as de Harry-Coelho e Janice, Updike constrói grandes painéis da sociedade americana, com prioridade, claro, para a classe média, mas com um olhar às vezes arguto para as classes altas e para a plebe; há um olhar ligeiramente compassivo para imigrantes e negros.

O leitor imediatista tende a avaliar que Updike chega a ser sádico na descrição das fragilidades, mentais e comportamentais — a estupidez —, de suas personagens da classe média. A crueldade, porém, é aparente, pois, ao descrever minuciosamente seu objeto, a classe média, com toda a sua pobreza cultural e riqueza humana, às vezes vista como torpeza, o escritor mostra-se uma espécie de sociólogo ou antropólogo rigoroso mas apaixonado de homens e mulheres como Harry e Janice, que, no fundo, querem apenas viver suas vidas em paz, fazendo seu sexo seguro, eventualmente admitindo uma troca de casais, como numa viagem ao Caribe, ou mesmo aventuras extra-conjugais.

Updike descreve tão-bem o modo de viver e ser da classe média porque, longe de detestá-la, de odiar sua futilidade cotidiana, de algum modo a ama. E amá-la significa compreendê-la. Updike não denuncia a classe média, compreende-a e a explica... para ela mesma.

Voltemos a Harry (Harold) Angstrom. Ele agora é rico, sócio da Springs Motors. Gosta de Barbra Streisand e mora na grande casa dos pais de Janice. Não é impotente sexualmente, mas perdeu parte do interesse sexual. Ele culpa o fato de ter dinheiro. Está gordo ("Na idade dele, precisa usar chapéu. E tomar vitamina C também ajuda. Daqui a pouco vai estar tomando geritol". Mais: "Com a idade, as pessoas vão ficando mais largas da cabeça aos pés"). "Nunca lê livros, só o jornal." Vive às turras com Janice. O narrador parece entender bem a falta de sintonia, ou, quem sabe, pelo contrário, a sintonia de Harry e Janice: "... um dos laços que existem entre eles sempre foi que a confusão dela se mantém equivalente à dele".

Ao beber champanhe na festa de casamento de Nelson e Pru, Harry, rico, lembra-se do pai, pobre: "O gosto de champanhe persiste em trazer-lhe a lembrança de seu pai, coitado. Cerveja, água ferrugenta e sopa de cogumelos em lata". Ele próprio "decolou: está voando bem alto, rumo a uma ilha em sua vida". A morena Janice, aos 44 anos, dirige um Mustang conversível, bebe vodca com soda ou água tônica. Voltou a fumar. "Nós não somos Deus", diz e arranca uma resposta de Harry: "Ninguém é".


John Updike em 2004 - Foto: David Levene

Nelson fuma maconha. Harry, que havia fumado na juventude, não aprova. Nelson não é o filho de seus sonhos, mas é o próprio Coelho quem diz: "Você se esforça tanto para conseguir a atenção dos pais a vida toda que parece estranho continuar a viver sem eles". Webb  Murkett diz: "Marty, o [filho] mais velho, me disse: 'Papai, obrigado por ter sido tão filho da puta. Eu aprendi a cuidar da minha vida'". Nelson é mais terra-a-terra: "Meu pai [Coelho] é um babaca".

Na página 33, numa espécie de tributo à literatura modernista, à James Joyce, Updike escreve um parágrafo em pontuação. É como se dissesse: "Também sei fazer isto". E faz, com facilidade.

No quarto volume da série, "Coelho Cai", de 1990, assistimos o desmoronamento do mundo de Harry. Sua formação está completa e ele... pode morrer. O que Updike descobriu? Que Harry não mudou. Permaneceu um garotão. A classe média não deixa de ser média, mediana, por ter mais dinheiro. Não consome nada que envolva riscos. Consome o que é apontado como certo e chique.

Nascido em 1933 (Updike nasceu em 1932), Coelho tem 55 anos e pesa 104 kg (ele próprio se chama de baleia. "Todo mundo empaturrado, agora é assim que a gente vive."). "Uma pontada fria e súbita de dor desce seu braço esquerdo, passando pela axila." Há uma  "sensação de constrição no peito". Nelson assumiu o comando da concessionária e torra dinheiro comprando drogas pesadas. Coelho e Janice mudam-se para a Flórida, em 1984. Ele se diz uma "ave de arribação". Tem dificuldade de urinar. Assiste "Lassie", ao lado da neta Judy, e chora. Judy não chora. "Lassie não faz parte da infância perdida de Judy."

A velhice chega e, com ela, alguns problemas: "Os casais velhos, como ele [Harry] e Janice, emitem um cheiro bolorento de caules de flores mortas, apodrecendo no vaso". Coelho sofre um infarto. O Dr. Breit, ao atender Harry, o chama de Harold, o que o leva à infância. Morrem várias pessoas, entre elas Slim, amigo de Nelson, de Aids. "... Nada é muito importante, daqui a pouco todos nós estaremos mortos". Harry irrita-se com as orientações médicas: "Esse cara [o médico Olman] tem um preconceito contra batata frita e cachorro-quente. Se Deus não queria que a gente comesse sal e gordura, porque Ele fez essas coisas tão gostosas?"


John Updike em 2006 - Foto: David Levene

Harry sai um pouco de cena, por conta da doença, e Nelson e Pru (com quem Harry, amoral, transa uma vez) assumem o palco. Nelson usa cocaína, crack e maconha. (Na página 340, fala-se, brevemente, dos perigos do amianto.)

A concessionária, sob Nelson, está em decadência. O grande negócio (década de 1990) são as empresas de alta tecnologia. "Agora está difícil encontrar uma estação que não seja de música country nem de pregação religiosa." Não se está falando de Brasil.

Harry tem sua Madeleine. Era muito ligado à mãe e frequentemente se lembra da infância. "Havia naquele quarto [de sua casa, na infância] um gosto, de linóleo, ou como tinta quente no parapeito da janela, ou de baunilha e noz-moscada quando sua mãe fazia bolo, que ele quase consegue sentir de novo, mas não, o sabor desaparece nas sombras, atrás da serpentina prateada, com seus meandros enfeitados com volutas em baixo-relevo".

Ao final da leitura da tetralogia, o leitor se torna íntimo de personagens como Harry e Janice, compreende seus dilemas, é quase solidário e tem certa simpatia por eles, por mais que sejam vazios culturalmente. Um bom teste para um romance é verificar se os personagens são retidos por nossa memória. Harry e Janice são meio sem sal, principalmente Janice, mas, concluída a leitura, são retidos por nossa mente. São seres humanos comuns, mais próximos de Leopold Bloom do que poderíamos pensar.

Falemos, rapidamente, dos outros livros de Updike.

Como era expert em artes plásticas, Updike escreveu um romance muito bom sobre Jackson Pollock — "Busca Meu Rosto" (Companhia das Letras). É um romance e, por assim dizer, uma aula sobre como a literatura pode iluminar outras artes, como as plásticas. Ele é autor do excelente "Pai-Nosso Computador" (Rocco), do divertido "O Sabá das Feiticeiras" ("As Bruxas de Eastwick", Rocco), o interessante (mas menor) "Brazil" (Companhia das Letras), o ótimo "Memórias em Branco" (Companhia das Letras) e "Gertrudes e Cláudio" (Companhia das Letras), que não li. Entre os mais antigos, e muito bons, estão "Casais Trocados" (Record), "Case Comigo" (Record), "Um Mês Só de Domingos" (Record), "O Golpe" (Nova Fronteira) e "O Centauro" (Record).

A prosa de Updike é elástica e multifacetada. Desconfio que a maioria dos críticos que percebe "certa superficialidade" não tenha lido o conjunto de sua obra. Deve ter lido, no geral, comentários esparsos na imprensa mundial. No Brasil, a crítica de jornal vive de citação de obras críticas, tem-se pouco apreço pela leitura direta de literatura. 
 


leia mais...
POR EM 02/02/2009 ÀS 07:02 PM

Uma Língua Portuguesa, com certeza

publicado em

Disseram que o acordo ortográfico é um reencontro do Brasil consigo mesmo, e que a importância da medida é maior do que pode parecer à primeira vista. Em outras palavras, está tudo em casa — duas em uma só pátria, por osmose

Num país historicamente comido pelas bordas, como tem sido o nosso, tanto pelo assédio quanto pelo assalto das hordas d´além-mar, e não me refiro nem a esse nem àquele, em particular, mas a todos, inclusive as hordas internas; num país como esse, em que quase tudo vai de “arrastão”, da irrefreada devastação amazônica ao sarcástico narcotráfico — vide a entrevista de Marcola, curtindo com a cara de todos —, da inimputabilidade penal a assassinos menores de dezoito anos — com um 38 na mão — à escancarada corrupção política e policial, o que representa o novo acordo ortográfico, recentemente sancionado pelo governo federal? Certamente, não nos habilita a dizer que a Colônia venceu, pois não? Ora, poix, poix. E logo na questão do idioma. 
         
Há tempos eu vinha acompanhando, a meia distância, essa querela idiomática entre Portugal e Brasil. Essa “carta” de Pero Vaz de Caminha vinha vindo pela Estrada Real — a mando de El Rey? —, d´além-mar pra cá, e de cá pra lá, pois carta e descarte é o que não falta no trânsito e no jogo diplomático e/ou idiomático, que sempre os há, reformadores e homens de acordo, postados nas tamancas ou atracados no Porto da Marquesa de Santos. Mas isso aqui é só uma brincadeira, “uma nota só” de “um samba do crioulo doido”, pra dizer do muxoxo e gesto de balançar a cabeça em desacordo e desagrado com o tal acordo.
         
Disseram que o acordo ortográfico é um reencontro do Brasil consigo mesmo, e que a importância da medida é maior do que pode parecer à primeira vista. Em outras palavras, está tudo em casa — duas em uma só pátria, por osmose. Uma casa híbrida, de azulejos do Alentejo e telhas de amianto brasileiro, ou de zinco favelado. Uma casa portuguesa, com certeza, como diz a música, e brasileira por natureza, com as brasas do pau-brasil, que, aliás, no período colonial, tanto quanto o ouro de Minas, muito fascinou e encheu as burras estrangeiras. A tal ponto, que se construíam igrejas barrocas com madeira coberta de ouro, pois tinha-se ouro (o nosso) pra dar com pau. Por falar nisso, o que aconteceu com aquele “Ouro para o bem do Brasil”? Alguém se lembra da campanha, e pode me dizer onde foi que enfiaram todas aquelas jóias — até alianças de casamento —, tomadas do povo?
         
“Um reencontro do Brasil consigo mesmo”. Sim senhor! Com efeito! Quer dizer que o Brasil nunca esteve aqui, não está em si, em si mesmo não se encontra? Isso um pouco me remete ao livro “Retrato do colonizado precedido pelo retrato do colonizador”, de Albert Memmi, que andei lendo por volta dos anos 70 ou 80.
         
Mas, claro, ô gajo — diz lá o português; mas claro, Manoel Joaquim — diz cá o brasileiro: a miscigenação idiomática — essa interferência — vem “mui” a propósito para os negócios intercontinentais dos dois países, com abrangência de toda a Europa, e também internacionais, com projeções e reflexos futuros. Se bem que eu não creia que isso aí, essa pouca coisa do acordo, alavanque — se é que possa ajudar —, a médio ou longo prazo, o alcance que se propala e se espera da Língua Portuguesa unificada. E por que há descontentamento de ambas as partes, de portugueses e brasileiros? Imposta de cima para baixo, a medida não agrada, até porque, como de praxe, ao povo nada foi perguntado.
         
Entende-se o caráter ou sentido do acordo. Num mundo em que o inglês, principalmente, e o espanhol são pontes para as relações internacionais — esse parlatório mundial, esse falatório sem fim —, entende-se a busca de performance luso-tupiniquim do idioma no contexto internacional, sobretudo no mundo dos negócios, onde economia e política são gatos do mesmo saco, ou saco do mesmo gato.
         
Intercontinentalizar-se a Língua Portuguesa é preciso, viver não é preciso, como diria — ou não diria? — o poeta lusitano Fernando Pessoa. Vislumbre só: o Português disseminado pelos quatro quadrantes do mundo, por todas as latitudes e longitudes da rosa-dos-ventos. Para se viver, sonhar é preciso.
         
Vai daí que, tão-logo anunciada, pelo governo brasileiro, a sanção do acordo ortográfico, alguém em Goiânia publicou que não abrirá mão do trema, por considerá-lo elegante. Já eu vinha resmungando justamente contra a anunciada supressão do trema, que, mais do que elegante, considero inteligente em função da pronúncia — “tranqüilo”, o trema indicando que o “u” se pronuncia, e que agora perde o seu diferencial, para ficar “tran/quilo”. E não se põe o trema justamente para evitar erro de pronúncia? De resto, uma coisa inócua, por conta do acordo, já que não muda nada, senão a grafia da palavra com a supressão sofrida. Ao fim, de forma implícita, “tranquilo” se lerá mesmo como “tranqüilo”. Mas isso não parece coisa de quem fica inventando moda? Há coisas de maior importância e de maior urgência com que se preocupar e se ocupar. O Brasil tornou-se um pesadelo real, que não se resolve com acentuação gráfica, antes exige medidas imediatas e eficazmente concretas.
         
Mudança de longo prazo — se a tanto chegar —, como suponho ser este acordo, é como comprar a prazo: quando se termina de pagar, o produto já se desgastou, até porque, no caso, a língua é dinâmica e sofre naturais transformações — e elas não ocorrem no âmbito mesmo do povo, da cultura e dos costumes? A médio prazo, amiúde se desgosta do que se gastou, porque então não era bem isso o que se desejava. É de supor-se que sempre haverão de impor-se mudanças como essas do presente acordo. Há direito de devolução? Devolvam-nos o trema, as nossas vogais abertas e o nosso acento circunflexo — dê cá o nosso “chapeuzinho”. Sim, também é possível que, no fundo, estejamos com ciúmes do nosso idioma, o português falado no Brasil. O Português, ao nosso modo, é mais bonito, falado ou escrito. Eu acho.
         
O acordo exclui, entre outros, o acento gráfico — o circunflexo, o bendito chapeuzinho —, no penúltimo “o” do hiato “oo(s)” — por exemplo, em “voo”, ficando aí esse “o” boiando a mais, no final. Uma coisa boba. A palavra perde sua graça, seu referencial, sua marca, sua estética. Fica feia. E para que suprimir-se o acento gráfico ou agudo nos ditongos “ei” e “oi” de palavras paroxítonas? Certo: o cidadão guiar-se-á pelo sentido da frase, mas não se descarta, à falta de acento na vogal aberta, que alguns não leiam vogais abertas como vogais fechadas. “Idéia”, por exemplo, lida como “idêia”, e assim por diante. Odeio tais idéias.
         
Há acentos e acentos. “Acentos necessários e acentos talvez inúteis”, como observa o professor Adriano da Gama Kury (“Para falar e escrever melhor o português”, Rio, Nova Fronteira, 1989), que agora parece favorável ao acordo ortográfico. São inúteis os acentos nos casos desse acordo? Está correto o fim do trema, do acento agudo em ditongos abertos e do acento circunflexo com duplos “e” e “o”? Concordam, mesmo, com isso, os nossos filólogos, gramáticos e professores? Aonde vai a fonética? Por que ficam os mestres aí calados, conjugando o verbo do silêncio e da inércia?
         
Por que não fazer algo mais útil com a gramática? Por conta dessas insignificâncias do acordo, nunca pensaram em retirar o “h” da palavra “companhia”? O “h” em “campainha” “soa” bem, mas, em “companhia”, “h” pra quê, se peca por inútil e, portanto, descartável? Não é que o “i”, nesse caso, dispensa o “h” de “acompanhar”? E por que não suprimem da Língua Portuguesa a palavra mais horrorosa, que é “cônjuge”, aplicada a cada pessoa unida a outra por matrimônio? Pois já não se têm, bem melhor, “esposo” e “esposa”, para marido e mulher? 
         
Enquanto poeta menor que presumo ser, afeito à visão plástica ou estética que os acentos gráficos propiciam a certas palavras, eu estaria propenso a contrariar o “novo” código, transgredir as normas e preservar os acentos. O nó-cego da questão são as editoras. Estarão predispostas a atender à “teimosia” dos escritores? Não creio que o façam, certamente exigirão que se atualizem os originais das obras, conforme as novas normas ortográficas.
         
Da mesma forma que não coloco hífen na grafia dos meus vagalumes, pois acho mais bonito assim, contraditoriamente ainda o coloco em caga-fogos, que também são vaga-lumes — olha o hífen aí. Pois é. Por que não cagafogos? Sem o “pauzinho” (o hífen), como a gente dizia, e até mesmo as professoras. Foi com as professoras, aliás, que aprendemos a dizer “pauzinho”. “Coloca o pauzinho aqui”, diziam elas. Está rindo de quê, leitor? Sem malícia, por favor. Mais respeito com as professoras. O “pauzinho”, como elas diziam — assinalando com a unha esmaltada do polegar, em nosso caderno, o lugar do hífen em determinada palavra —, era para fixar, de forma fácil, na mente do aluno, a imagem deste sinal gráfico. Sim, porque alguns ainda não sabiam o que era um hífen.
         
Me lembro que uma delas, professora de Língua Portuguesa, por sinal, flagrou-me a desenhar obscenidades, que eu mostrava para o colega ao lado. Fez-me ela uma reprimenda moral que jamais pude esquecer. Me pergunto o que ela acharia desse acordo ortográfico que acaba de ser sancionado, como me pergunto se não  tinham mais o que fazer, os nossos reformadores oficiais de idioma. Ocorrem-me aqui as palavras de Oscar Wilde: “O acordo é o último recurso dos que não têm imaginação.”


leia mais...
POR EM 27/01/2009 ÀS 10:53 AM

Bernardo Carvalho, Indiana Jones e adjacências

publicado em

Bernardo Carvalho tende a repetir-se enquanto “fórmula” e saturar-se, saturando-nos. Há quem fale em grife bancada pela editora e por um gueto cultural na imprensa, bem como de uma “certa crítica” querendo canonizar o autor antes que a obra seja avaliada “com a devida pertinência e distância”. Dado a sair em busca de aventuras, decifrar quebra-cabeças e encontrar a chave de tudo, pode-se dizer que este autor é uma espécie de Indiana Jones da literatura brasileira, o que não deixa de ser um elogio 

 
Bernardo Carvalho. Foto: Bel Pedrosa

Não vou sequer ler, quanto mais reler, neste ano, certos escribas que ficam aí com ridículas declarações, fazendo pose em busca de saldo médio, se dizendo influenciados por este ou aquele autor de renome — ou se comparando a eles —, dependendo de qual eles estejam lendo e descobrindo no momento: numa hora é John Fante, em outra é Philip Roth, e noutra é Thomas Bernhard, até Samuel Beckett, o inimitável autor de “O Inominável”. Só não citam a influência que verdadeiramente sofrem, com a linguagem nua e crua, escatológica e chula de um Bukowski, um “mestre” no gênero, ou pegando atalho local com Mirisola, se não com o cubano Pedro Juan Gutiérrez, autor de “Trilogia Suja de Havana”, um livro visivelmente ecoando Bukowski, que Gutiérrez, inclusive, menciona. E essa trilogia, num ramerrão de “crônicas” paralelas, ou “cronicontos” — termo por mim criado, até prova em contrário, na capa de um fraco livreto meu, já publicado — vai indo, enche, satura, se se ficar lendo de enfiada. Tem que ser aos poucos. Engraçado é os escribas de início referidos não quererem admitir — ó angústia! — a flagrante influência. “E não me venham comparar o escritor com Bukowski.”, adverte Carpinejar em orelha de livro de Mirisola. Espelho, espelho meu, quem, melhor que Bukowski, senão eu? Diz aí, Harold Bloom, disseminador da “angústia da influência”, fala mais desse negócio de escritor ou poeta renegar o pai.
         
A mais das vezes resultam patéticos os textos dos que tentam imitar estilo deste ou daquele escritor. O entojo de tais neófitos, daí o meu bilioso azedume, e aqui o meu expurgo. Cambada de texugos sem estilo próprio. Espongiários de estilos alheios. Natural admitir influências, e sofrê-las em medida aceitável, desde que elas não se tornem flagrantes e depoentes em desfavor do imitador. Ridículo, mesmo — para não dizer “medíocre” —, à sombra de escritores consagrados, tentar fazer média na mídia. E tem gente que fica aplaudindo com as orelhas de burro. 
         
Já publiquei que minha obra é pontilhada de imperfeições, por vezes desleixada, passível de mais aprendizagem, buril e polimento. Nem por isso sou asno ou otário para engolir o que tentam impingir como boa literatura, em especial no campo do romance e do conto, já que a poesia brasileira, nos últimos tempos, anda capenga e declinante na maior parte de suas recentes fornadas, salvo alguns laivos para além da mixórdia, que o mais não passa de mero exercício poemático — ou pneumático, papo de vento —, que muitos chamam de poesia. Falsos escritores, falsos poetas, sem alma poética, sem noção de poesia. Sem talento para a arte com idéias, palavras e sentimento. Gente do tipo “eu também escrevo”, publicando livros por mera e boba ilusão de ser, tangida pela vaidade em busca de “status” nos meios culturais, posando de não ser nada e, de resto, iludida, acreditando que realmente é alguma coisa no campo da literatura. Sai do meio, miudeza! Precisamos de mais poetas com o quilate de Gerardo Mello Mourão.
 

Régis Bonvicino 
 
Régis Bonvicino generalizou dizendo que a poesia no Brasil, hoje, é “epigonal”, no sentido, se bem entendi, de copiar ou querer imitar poetas consagrados, sem nada criar. Curioso observar que Bonvicino é admirador declarado de poetas como Robert Creeley, Michael Palmer e Douglas Messerlei. Vale observar, pois parece que também Bonvicino não escapa das sombras ou ecos marcantes da influência
 

Andei lendo livros e livros, novos ou adquiridos nos sebos, deste ano e de anos ainda recentes. E chamou-me atenção, numa entrevista ao Antônio Abujamra — programa “Provocações”, da TV Cultura —, quando Régis Bonvicino generalizou dizendo que a poesia no Brasil, hoje, é “epigonal”, no sentido, se bem entendi, de copiar ou querer imitar poetas consagrados, sem nada criar. Curioso observar que Bonvicino é apreciador declarado de poetas como Robert Creeley e Michael Palmer, dos quais traduziu obras poéticas — respectivamente, “As One – A um” e “Cadenciando-um Ning, um samba, para o outro” —, além de “Primeiras palavras”, de Douglas Messerli. Vale observar, pois parece que também Bonvicino não escapa das sombras ou ecos marcantes da influência — cópia? — à força de outros poetas. Leia-se Palmer e Creeley e Messerli e Bonvicino; compare-se a forma, ou fórmula, ou técnica, ou estilo entre este e aqueles. Epigonal, Régis?
         
E por falar em prefácios, alguém leu “Máquina de pynboll”, da gaúcha cantora, guitarrista e jornalista Clarah Averbuck, prefaciado pelo Abujamra? Li por duas vezes, para dizer o que se segue. Um caso típico, a mim me pareceu, do prefaciador gentil ou deslumbrado menos com a mediana obra literária e mais com a simpatia de uma jovem autora — “Que mulher!”,o título do prefácio —, cuja fotografia e “glamour”, num sofá revestido com “pele de onça” (que gosto!), vêm na contracapa do livro. Não será, um pouco, também, um saldozinho médio da autora à sombra do culto prefaciador? Se estou enganado, vão me desculpando o mau jeito. Eu sou apenas o leitor. E já perambulando pela internet, encontro e pinço, num desses tantos blogs, o seguinte fragmento — falhei em não anotar autoria —, a propósito de “Máquina de pynboll”: “Repleto de referências, o livro é filho bastardo da geração beat. Fante, Bukowski e Leminski deram uma olhada por cima do ombro da autora enquanto ela escrevia. E os três devem ter sorrido. Não que o conteúdo seja semelhante — mas a atitude é.” 
         
E o que dizer de coisas como as memórias ou mixórdias eróticas, nacionais e estrangeiras, que andam saindo pelo ralo das editoras? Obras com o aval de “críticos”, mas que você lê só para se arrepender e repassar aos sebos. Sim, algo interessante num livro como “A entrega — memórias eróticas”, de Toni Bentley, que apresenta um verdadeiro tratado anal, até a alma, até numa busca de Deus! E “O cheiro do ralo”, de Lourenço Mutarelli, elogiado por Selton Mello e que virou filme? Foi “escrito em cinco dias”, vangloria-se. Que proeza! Confronte-se o tempo de criação, sem maturação, com o quesito qualidade. O livro, por sinal, com erros, muitos e muitos, numa nítida insuficiência gramatical do autor, premiado quadrinista. Mas o que importa, para o cinema, é o texto enquanto conteúdo, pois não? E nós outros também — eu mesmo me acuso — cometemos erros ou cochilos gramaticais.
 
O escritor Marcelino Freire achou “O cheiro do ralo” “espantoso” e “surpreendente”. Sim, o personagem é interessante, o tema do ralo também, além do erotismo malcheiroso, por conta do que o ralo exala, e ainda assim excitante. Mas não vejo motivo para espanto, como também não é a obra-prima que Selton Mello diz ser. Na contracapa do livro, Selton escreveu que o adquiriu porque não veio ao mundo “à” passeio — sem um passeio pela gramática (acentuação), colocou essa crase indevida aí atrás, onde coloquei aspas para assinalar. E agora dá-me que eu brinque: quem não veio ao mundo a passeio, leia e releia, até o fim da vida, até entender (se puder), os cinco volumes de “Finnegans Wake”, de Joyce, numa recriação de Donaldo Schüller, que, a propósito — e à parte o nosso reconhecimento por sua homérica empreitada —, enerva-me ao inserir, aqui e ali, no texto joyceano, vocábulos locais, bem brasileiros, que soam como “ruídos” e, para mim, uma aberração, em que pese algum intento de “facilitar” entendimento ao leitor. Isso, aliás, é comum em alguns tradutores: recorrer, por exemplo, ao candomblé da Bahia ou ao Cristo Redentor e colocar em textos traduzidos. Aí você confere o “ruído” com o que está no original, e não tem nada disso. Dá nos nervos, e pega mal pra dedéu, destoa, fere a fonte legítima. “Finnegans Wake”: esta sim, meu caro Selton, uma obra-prima, culta e lúdica, onírica e poética, labiríntica, hermética, esfíngica e única, para além do fim dos tempos, pois só aí poderá, porventura, se perder de ou em sua eternidade.
         
No âmbito da prosa, o que tenho lido de romances badalados como isso e aquilo, mas que não passam do nível mediano e daí para baixo, só faz abater-me o semblante e repuxar-me o canto esquerdo dos lábios. Um desejo de ler coisas, eu nem diria “novas”, badaladas como tais, mas realmente boas, porém escassas, esporádicas. Alguns neófitos aí deveriam garimpar boas leituras, livros como, por exemplo, “O Segredo Joe Gould”, de Joseph Mitchell, numa interessante mostra de jornalismo literário, em que o autor sabe contar bem uma história real, com ênfase na dimensão humana. Um “espelho” para Bernardo Carvalho aprimorar sua técnica, ou fórmula, já meio que — e tão cedo —, em processo de saturação, como Rubem Fonseca e outros. Nada de novo no frontispício das obras. O gênero misto de jornalismo e literatura foi inventado por Tom Wolfe, na década de 60, com a obra “Radical Chic”. E já ele, Bernardo, não anda meio que bebendo na fonte de Sebald, inclusive inserindo fotografias nos livros, como se vê em “Nove Noites”? Li este romance, e não me abalei, mas foi interessante saber, pelo amigo Francisco Perna, que um dos personagens do romance era seu avô, o engenheiro Manoel Perna, de Carolina (Maranhão) que “fornece” informações para o livro.
         
Tinha largado de lado, mas reiniciei — afinal, o autor é premiado, ué — e terminei a leitura de “Mongólia”, misto de relato de viagem e ficção, com o mesmo batidão de “Nove noites”, ambos com um certo clima de “A Encenação”, de Claude Ollier, ou não? Nesse romance de aventura e policial, além de documentário, o cenário, uma região isolada, é o “tórrido sul de Marrocos”. Pois parece que “Mongólia” tem qualquer coisa a ver por aí. Também acabo de ler “O sol se põe em São Paulo” e vejo a repetição do processo: aquela mesma coisa, o mesmo recurso de valer-se de uma carta esclarecedora no final, ou coisa parecida. “Nove noites” vem numa linha de mistério, investigatória, sobre o sumiço, em 1939, de Bruell Quain, jovem antropólogo americano, embrenhado em sertão brasileiro, enquanto “Mongólia” gira em torno de um diplomata brasileiro enviado aos confins da Mongólia, em busca de um jovem fotógrafo desaparecido, misteriosamente, nos montes Altai. Tipo assim: “eu já vi esse filme”. Bernardo anda se repetindo com sua “fórmula” tão premiada por aí. E é impressão minha ou há, também, em “O sol se põe em São Paulo”, alguma coisa de Inventário do tempo”, de Michel Butor — um dos ícones do “nouveau roman” —, que gira em torno de um crime, também numa atmosfera de mistério, em Bleston (Inglaterra)? Em síntese, ainda estou sacando a literatura — ou fórmula comercial? — de Bernardo Carvalho. Preciso que os críticos e distribuidores de prêmios me troquem em miúdos e a fundo, para a minha mísera compreensão, a obra deste autor. Sim, a trama do pôr-do-sol em São Paulo é bem interessante, bem-urdida, mas a fórmula repetitiva, como um cardápio típico, é um peixe cru para quem não aprecia peixe cru, mesmo nos melhores restaurantes do gênero.
         
Tenho dito, e repito: Bernardo Carvalho tende a repetir-se enquanto “fórmula” e saturar-se, saturando-nos. Terminei de ler “Mongólia”, para confirmar a mesma “técnica” utilizada em “Nove noites” e “O sol se põe em São Paulo”, que considero o melhor dos três. Li “Nove noites” e relutei em ler “Mongólia” — esse gênero de “romance-reportagem”, dito de ficção, não faz muito o meu gênero —, mas então li “O sol se põe em São Paulo” e julguei por bem ler o segundo livro da seqüência (“Mongólia”), e agora penso que terei que reler “Nove noites”, para me re-sintonizar (agora não tem hífen, e têm dois “ss” aí, né não?). Nesse ínterim, aponto aspectos curiosos, relativos aos três romances. Venham comigo. Em “Nove noites”, o narrador parte de “um artigo de jornal” sobre Bruel Quain, que se embrenha e se suicida em matas brasileiras; teria dito aos índios krahô que sua mulher o havia traído com o cunhado. A narrativa toda gira em torno da aventura do narrador em busca de decifrar o misterioso caso. Li em algum lugar que “Nove noites” usa metalinguagem como recurso para a verossimilhança entre pesquisa e ficção. São dois narradores, o autor e o engenheiro Manoel Perna, “cujo relato sobre Buell Quain, de uma suposta última carta deixada pelo suicida, foi inventado pelo autor”. Uma busca da verdade por meio da ficção. Como está no livro — e isso eu já ouvira do amigo Chico Perna, que até publicou a crônica “O rio Tocantins engoliu meu avô” —, Manoel Perna, retornando de Miracema do Tocantins para Carolina, morreu afogado no referido rio, em 1946, durante uma tempestade, ao tentar salvar a criança que era sua neta. Sete anos antes, em 1939, dera-se o suicídio de Quain, e tem-se que, sessenta e dois anos depois (2001), ao tomar conhecimento da história por acaso, “num artigo de jornal”, o narrador de “Nove noites” é levado a investigar as razões do suicídio.
 
“Mongólia”, misto de relato e ficção, também começa com o narrador mencionando uma “reportagem de jornal” sobre um acidente de carro e morte do personagem Ocidental, daí parte-se para a intrincada investigação sobre o misterioso desaparecimento de um fotógrafo brasileiro na Mongólia. “O sol se põe em São Paulo” inicia-se num obscuro restaurante japonês, na atual São Paulo, e vai pelo mesmo caminho, numa trama complexa, que se desdobra em outras, com os mesmos métodos, os mesmos elementos, estendendo-se as investigações ao Japão da Segunda Guerra e daí de volta ao Brasil de hoje. Em “Mongólia” o narrador está separado de sua segunda mulher, e um certo motorista de nome Bauaa tinha perdido a mulher havia pouco tempo. Em “O sol se põe em São Paulo”, o narrador também está separado de sua mulher. E, como de praxe, há sempre as mesmas coisas deixadas pelo morto, há sempre os papéis, os “mapas” — pastas, cartas, diários, manuscritos —, que servem de pistas ao decorrer da trama. Do romance de Claude Ollier, “A Encenação”, se disse que tudo nesse livro é novo e surpreendente (isso nos anos 60). “Numa época que muitos se queixam que o romance não pára de se repetir, aí está um que não repete nada”. Já numa página (137) de “Mongólia”, o personagem registra: “Tudo aqui é repetição.” E é, com efeito, também a técnica literária de Bernardo Carvalho. Uma fórmula. Há quem fale em grife bancada pela editora e por um gueto cultural na imprensa, bem como de uma “certa crítica” querendo canonizar o autor antes que a obra seja avaliada “com a devida pertinência e distância”. Pobre de mim! Que sei eu?
         
Em “Mongólia”, a pressa vai à prensa, senão que a pressa aqui seja por nossa conta. Mas é curioso que, num parágrafo, ao final da página 77 para a 78, o personagem Ocidental e seu guia Ganbold, que procuram o fotógrafo desaparecido, vão falar com uma monja, no subsolo de um mosteiro, e tão-logo adentrem o recinto, vai-se informando, por um dos personagens, que ela “chama-se Suglegmaa e tem vinte e sete anos”. Como é que se sabe, de imediato, o nome e a idade da monja? “Faz oito anos que é monja. Tinha dezoito anos quando entrou no templo pela primeira vez”, acrescenta-se. Somados os números, oito mais dezoito dá vinte e seis. Mas então não é vinte e sete a idade dela? Ah, peguei vocês! Mas estou aqui apenas ciscando, pois daí a duas linhas o narrador diz que ela “passou por várias provas até ser aceita, e desde então vive para o mosteiro”, sendo de supor-se aí, nesse ínterim, o ano faltante para inteirar vinte e sete. Além disso, o que se lê ali, como se fossem afirmativas feitas no tempo presente, é na verdade o trecho de uma carta de Ocidental, escrita para sua mulher, ou para o narrador, e que, havia anos, ainda se encontrava em poder deste. Portanto, evidencia-se que a monja lhes teria fornecido as numéricas informações. Mas não é mesmo curiosa, a construção de tal parágrafo, passível de confundir ou intrigar algum leitor? Pois intrigou-me. Todo autor deve atentar-se para detalhes como esse, inerentes à transparência ou clareza do texto.
         
A certa altura, em “Mongólia”, bem antes do fim, intuí que o fotógrafo brasileiro desaparecido apareceria repentina e inesperadamente, como de fato se deu, e me dei aqui um ponto de previsibilidade para o desfecho da busca. E logo na página seguinte vem uma afirmativa interessante: “A gente só enxerga o que já está preparado para ver.” Tomei isso no sentido de que devo conhecer melhor a obra de Bernardo Carvalho (risos). Dado a sair em busca de aventuras, decifrar quebra-cabeças e encontrar a chave de tudo (o “tesouro”), pode-se dizer que este autor é uma espécie de Indiana Jones da literatura brasileira, o que não deixa de ser um elogio.
 
         
Macaqueando Bukowski
 
O que há comigo? De algum tempo para cá, ando muito exigente — enjoado — em relação a livros, então não é qualquer coisa que me agrada muito, ao contrário do rebanho que se deslumbra com pouca coisa. Já me falta paciência, e muita, para perder tempo com a leitura de certos livros. Enfarado, mesmo — depois de 50 anos ininterruptos de leituras —, com quase tudo aí despejado como “novo romance brasileiro”, “novíssima literatura brasileira” e “prosa pós-moderna da nova geração de escritores”. Me poupem!
         
Em meio a tudo, há livros bons, ou dito bons, que começam bem, fazendo uma certa diferença nos primeiros capítulos, no que diz respeito à linguagem, técnica, ritmo, temática, personagens, imagética, atmosfera, (in)verossimilhança, imaginário e criatividade convincente. Porém, um pouco mais adiante caem na mesmice de muitos e de sempre. Caem no banal, quando não sobrecarregados de uma escatologia e erotismo apelativos, próprio de autores paupérrimos, frustrando o entusiasmo inicial do leitor e jogando por terra as belas resenhas e as entrevistas artificiosas, cheias de pose, ironia barata à guisa de indireta, presunção, arrogância ou mesmo ignorância de repórter, publicadas em jornais.
 
No que diz respeito ao sexo na literatura, chama atenção a declaração do romancista inglês Ian McEwan, no sentido de que o romance tem que ter sexo para ser verdadeiro. Mas isso pode ser temerário em ouvidos neófitos, que absorvam mal o sentido e o alcance da colocação de McEwan, pois uma coisa é criar personagens assexuados, com o risco de não agradar ao leitor, outra é achar que todo romance tem que, necessariamente, intercalar capítulos — capítulo sim, capítulo não — com cenas de sexo explícito, nu e cru, de forma gratuita e apelativa. Essa forma fácil e frágil denuncia falta de vivência e recursos intelectuais, de argumento, de criatividade. O resultado, amiúde, é ridículo, num enxurro que tenta copiar Bukowski, de forma desastrosa, macaqueando-lhe o estilo. De McEwan direi algo mais, daqui há pouco.
 
 
Marcelino Freire

Abraçado ao meu enfado
 
Nesse cabaré das letras, volta e meia sinto-me traído pelas orelhas e resenhas de livros. A não ser que isso seja só fruto do meu enfado com uma parte da literatura brasileira recente, ou apenas por má impressão de minha parte — pobre crítica impressionista! —, ou pobreza de avaliação minha mesmo. Devo reiterar que sou apenas um leitor. Mas então minha liberdade de expressão não deve ser respeitada? Certamente serei contestado, apedrejado e linchado logo que eu acabe de dizer, aqui e agora, que muito do que as resenhas dizem por aí não bate com a verdade. Vamos e venhamos, que tais resenhas ficam muito pela metade do que dizem, e com isso quero dizer que as obras edulcoradas pelos generosos resenhistas são, na verdade, apenas medianas, inseridas naquela mediania cotidiana de que há muito tempo venho falando.
 
Andei lendo, inclusive, duas presunçosas antologias da decantada “Geração 90”: uma erva daninha de entremeio a alguns poucos contos consideráveis, que o mais não passava de muco melequento, extraído a dedo de uma geração “na venta”, onde se localizam as fossas nasais. Como contraponto, releio Adonias Filho, uma forte e contundente prosa regional — o cacau, o homem, a terra baiana, a vida violenta —, e penso reler João Antônio, entre as melhores vertentes urbanas da literatura brasileira. “Abraçado ao meu rancor”, uma das obras de João Antônio, e eu aqui abraçado ao meu enfado. Eu mereço!
 
Como eu vinha dizendo, dá-me que eu continue a dizer. Com a devida consideração aos autores — dos quais não espero ódio —, podem ser “boas”, mas medianas, obras como “Noves fora: nada”, do prezado Carlos Willian; “Pilóbolos”, do meu sósia e repetidor Val Braz, espongiário de mim mesmo; “O Senhor Ivan Huskoff”, do meu amigo Delermando Vieira; e “Balé Ralé”, de Marcelino Freire, em torno do qual se ouviu tanto ruído de mídia. Li, também, “Angu de Sangue”, deste autor, e tive uma impressão de formato e eco da prosa de outras décadas — uma distração da mídia, a pressa que a torna desatenta —, pois me pareceu um certo “revival” de alguns contos dos anos 70 pra 80, ou seja, ainda nada de novo. E, olhe só: em recente entrevista ao jornal “O Estado de S. Paulo”, Marcelino diz que “a literatura contemporânea precisaria ser mais criticada”, e que, “até agora, salvo exceções, só foi mal resenhada”. Ele vê preguiça e má vontade em relação a ela. Se lhe entendi bem o sentido, insinua falta de mais atenção e reconhecimento crítico para a literatura contemporânea, ao passo que vejo omissão crítica e até falta de seriedade em relação a muita coisa que se publica em nome dessa mesma (e saturada) literatura. Que eu ainda me lembre, alguns contos de Marcelino são fortes, incômodos, com as marcas de dura realidade social e da crueza da vida. Já outros contistas da atualidade, a mais das vezes, ficam só repisando a superfície, sem mergulhos, sem funduras, sem fraturas, e na forma fácil pelo viés do sexo simplista e inconseqüente. Pieguice, chulice, trivialidade, banalidade, pobreza literária, quase lixo. 
 

Alain Robbe-Grillet 

Minha decepção de 2008 foi com “Um Romance Sentimental”, o canto do cisne de Alain Robbe-Grillet, que aprecio — gosto do “nouveau roman” — e de quem li vários livros, mas este último pareceu-me uma obra senil, calcada num sado-masoquismo ultrapassado, às raias do meramente “pornô”, podendo que seja uma obra perigosa em mãos de pedófilos, pois envolve múltiplas taras e torturas, pra lá de bárbaras, com crianças


Pão, pães, mão, mães, congestão de opiniães. Marcelino Freire acha “Avalovara”, de Osman Lins, “um livro chato, mas bom”, enquanto Marco Lucchesi, em seu livro de ensaios “O sorriso do caos”, fala da mesma obra como “o belo Avalovara”, comparando-o a um labirinto no qual se consegue entrar, mas não se consegue sair. No rol das opiniões, posso então dizer — já o fiz de início — que determinadas obras são “boas, mas medianas”, apesar do estardalhaço da mídia e da confraria de resenhistas, colocando nas nuvens obras com vôo de galinha, voando baixo ou, no máximo, do chão para o poleiro. Do que tenho lido à margem mediana de “boas” obras, entre tantas quantas aí se têm, cito “Curva de rio sujo”, de Joca Reiners Terron; “Mãos de cavalo”, de Daniel Galera, com duas narrativas paralelas, dois tempos de um mesmo personagem, num foco existencial e de busca de identidade (o romance começa com uma prosa algo diferenciada da mediania e com bom ritmo, depois, parece-me que perde um pouco o pedalar e o embalo do biciclo — a história se inicia de bicicleta); Adorável criatura Frankenstein, de Ademir Assunção (personagem interessante, sem nome, numa trama engenhosa, mas que remete o leitor ao “Agora é que são elas”, de Leminski, razão por que nos deixa um ressaibo de “déjà vu”); “Hoje está um dia morto”, do goiano André de Leones (a seu tanto, mais um enfermiço eco bukowskiano, e nada excepcional, apesar de algum alarde de repórteres bairristas em Goiânia, e do noviço e natural entusiasmo do próprio autor, em seu hoje extinto blog “Canis sapiens”; todavia, um alentado começo, uma promessa, tanto é que foi premiado em concurso de romance do Sesc, se é que isso serve de parâmetro, como servem iludir-nos também as nossas próprias premiações).         

Alguns clichês ou estereótipos de autor iniciante, presentes neste romance inicial de Leones, parece que estão fermentados também no seu livro de contos “Paz na terra entre os monstros”, que ainda não li e que, salvo engano, é anterior ao primeiro, mas só há pouco saído do prelo, pela Record. Já este livro, por sinal, foi criticado, no “Jornal do Brasil”, pelo jornalista Felipe Moura Brasil, que reconhece o autor como talentoso contista, porém prisioneiro da repetição e pecando por excessos. Diz que o livro tem méritos, mas é regular demais. E o jornalista aponta o que tenho apontando em relação aos personagens de boa parte da prosa hoje: “gente jovem, em maioria, que urina, defeca, masturba-se, transa e goza, como se buscasse o prazer possível somente por vias fisiológicas”. E finaliza, ou ironiza: “Para tratar, afinal, de Pequenas criaturas ou de Secreções, excreções e desatinos, a gente já tem um Rubem Fonseca.” Nem por isso Val Braz deixará de ler “Paz na terra entre os monstros”. Só para checar.
 
Curiosamente, tão-logo à premiação de “Hoje está um dia morto”, Leones foi seguido pelo seu amigo, psicólogo e também goiano Wesley Peres, com o livro “Casa entre vértebras” — Leones organizou o livro e inscreveu-o no concurso, profetizando: “é do meu amigo, ele vai ganhar” (e ganhou!). Este livro, mais que um romance, é uma prosa poética fragmentária e interessante, espécie de diário, monólogo de psicólogo, à parte as confessas influências da obra “O inominável”, de Beckett, e uma tentativa de seguir-lhe o estilo, porém apresentando um diário meio que formatado ao modo de “Werther”, de Goethe, ícone do romantismo alemão, que levou jovens alemães ao suicídio. Em certos momentos das vértebras, Wesley dá mesmo a impressão de perseguir, deliberadamente, o estilo de Beckett, mas é traído pelos ecos mais acentuados de Clarice Lispector e laivos ao modo do poeta pantaneiro Manoel de Barros. Contudo, não chega a atolar sua égua em tais tentativas. É melhor, agradou-me mais a “casa entre vértebras” do que “um dia morto”. Revela mais densidade, mais maturidade, mais sabedoria. Sim, pretendo reler “Casa entre vértebras”. E por que não, também, “Hoje está um dia morto”? Sinceramente, arrisco minhas fichas nestes dois jovens autores. Bem-vindos ao antro. Hei-de acompanhá-los em suas trajetórias literárias.
 
 
Cormac McCarthy
 
Em meio a tantas e outras, tem gente aí dizendo que o norte-americano Cormac McCarthy, autor de “Todos os Belos Cavalos”, primeiro de uma “trilogia da fronteira”, é um novo Faulkner. Mas nem nunca! Aspectos à parte, não vejo muita diferença entre a obra deste romancista norte-americano e os livros de bolso, com histórias do Velho Oeste, que andei a ler, por atacado e a granel, no tempo da minha adolescência
     

Por certo que Leones não está nem aí para as nossas míseras opiniões, se bem lhe conheço a posição e o linguajar no seu extinto ”Canis sapiens” e em seu romance premiado, lá e cá o “palavrão” expedito, ao modo de Bukowski, mandando o crítico se catar, ou coisa pior, em forma de orifício. Mas não se quer aqui menosprezar a obra literária de quem quer que seja; cada autor possui seus méritos e deméritos, e me incluo entre eles. Convenhamos e deixemos de lado o ledo engano: somos todos medianos. O chato é que muitos se acostumam apenas com elogios, bajulações, daí que apontar detalhes e emitir opiniões — meras opiniões enfaradas, como as minhas, manifestas à guisa de expurgo —, ganham a dimensão de uma bomba caseira. Sempre que se critica, mormente autores premiados, vêm logo com o afoito recurso de se dizer que a crítica é invejosa. Por isso, não: tenho seis livros premiados (medianos), embora as premiações não me iludam — não muito. Uma premiação, amiúde, é sempre o arbítrio de três jurados (ou mais), e mesmo assim há sempre um que não lê as obras concorrentes, deixando a coisa correr por conta dos colegas.
 
Além do mais, como eu já disse, minha pobre obra é uma peneira de furos da imperfeição, por isso nem me sinto cômodo a contemplar estrelas através do meu telhado de vidro, passível de receber uma cusparada de meteoros indignados. Outro argumento fácil, em Goiás e noutros estados, é tachar-nos de provincianos sempre que mencionamos a confraria do eixo Rio-São Paulo — editoras, mídia, resenhistas, “críticos” e os próprios autores do eixo, ou que por ele transitam com facilidade —, quando se trata de uma sacana realidade, além de inoperância nossa mesma e dos nossos órgãos culturais e entidades representativas, no que se refere à abertura de canais de intercâmbio e acesso às grandes editoras do País. Com obras de qualidade, é claro — ou mesmo (ó conveniência!) de mediana qualidade, como se verifica no enxurro editorial do País. Já sei, vão agora tachar-me, também, de ressentido — o terceiro argumento fácil —, sem descer ao fundo da questão.
 
Ouro e latão ordinário
 
Em 2008, li e gostei dos romances “O mar”, de John Banville; “Sem sangue”, do italiano Alessandro Baricco, que pode dar filme; “Voz sem saída”, da estreante francesa Céline Curiol, e de alguns razoáveis contos de “É claro que você sabe do que estou falando”, da cineasta americana Miranda July. Li contos de Flannery O´Connor, que eu ainda não conhecia, e não gostei muito; dos vários que li, só um me agradou mais, inclusive pelo impacto: “Um homem bom não é fácil de encontrar” — um conto cruel, chocante, difícil de ser esquecido. Ainda estou lendo “Detetives selvagens”, de Roberto Bolaño, do qual tenho à espera “Noturno do Chile” e “Putas assassinas”. Li cento e tantas páginas, se não duzentas, do polêmico calhamaço “As benevolentes”, de Jonathan Littel, achei chato, um ramerrão pedregoso, daí larguei pra lá. Li e não gostei do “Diário de um ano ruim”, de J. M. Coetzee, com uma historieta banal, intercalada com breves ensaios, num arranjo que empolgou a tantos — com a mídia de sempre —, mas não a mim. Disseram por aí que “o escritor sul-africano convoca o leitor a sair da passividade para construir os caminhos da narrativa. Até aqui, nada de novo, muitos outros escritores já fizeram isso — além disso, e sem querer minimizar os experimentos ficcionais (que os aprecio), só o ato de predispor-se a ler um livro já é sair da passividade, pois não? O que me inquieta é a pirotecnia em torno de idéias repetitivas. Do Brasil, tenho para ler “Cinzas do Norte” e “Órfãos do Eldorado”, de Milton Hatoum — dele já li “Relato de um certo Oriente” e “Dois irmãos”. Muitos outros livros novos, estrangeiros, tenho para ler.
         
Minha decepção de 2008 foi com “Um romance sentimental”, o canto do cisne de Alain Robbe-Grillet, que aprecio — gosto do “nouveau roman” — e de quem li vários livros, mas este último pareceu-me uma obra senil, calcada num sado-masoquismo ultrapassado, às raias do meramente “pornô”, podendo que seja uma obra perigosa em mãos de pedófilos, pois envolve múltiplas taras e torturas, pra lá de bárbaras, com crianças. Arrepiante, se é que o autor francês queria fazer-nos arrepiar. Sei lá. Pode alguém aí dizer-me o que Robbe-Grillet pretendia com esse livro? Chocar? Ou terá sido “inconseqüente” brinquedo e deleite de terceira idade? Não creio. O livro nos é apresentado como uma fábula. Algum mestre aí nos dê uma luz em face dessa obra que nos vem com lacre da editora dizendo: “Lacrado por conteúdo impróprio.” Enquanto isso, vou ler “Fantasma sai de cena”, de Philip Roth, que ganhei de presente do amigo Chico Perna. Do que li de poesia, o melhor do ano, para mim, foi “Almádena”, coisa fina, de Mariana Ianelli, com o selo da Iluminuras. Estou em débito — e sem dinheiro — para ler os últimos lançamentos de alguns “bons” autores goianos, e também de estrangeiros. Temo pelo meu poder aquisitivo para livros, neste 2009. A coisa está feia. Estou catando e contando moedas. Se brincar, e sendo dado, aceito até dor de dente.
 
Tenho os livros, mas até hoje ainda não li “Sábado” e “Reparação” — apontados como os melhores —, de Ian McEwan. Estou atrasado. Li, deste autor, “Amor para sempre” e depois “Amsterdam”, que ganhou o “Booker Prize” e as resenhas cantaram e decantaram como “muito bom”. Não digo que a obra seja essa coisa toda, e tive a impressão de ter detectado semelhanças, semelhanças por demais — estarei enganado? —, com “Mortalha não tem bolso”, de 1937 (2001 no Brasil), romance de Horace McCoy, também autor de “Mas não se mata cavalo?”, que virou filme de Sydney Pollac, em 1969 (no Brasil, intitulou-se como “A noite dos desesperados”), com Jane Fonda e Michael Sarrazin. Uma coisinha a mais sobre “Amsterdam”: como fui revisor de jornal e sou atento — ou maníaco — a muito coisa quando leio, deparei-me, em páginas tais e subseqüentes, com uma farta utilização do verbo “haver”, denunciando pobreza na utilização de recursos verbais, a saber se por parte do próprio autor — estilo? — ou do seu tradutor brasileiro. Ironicamente, mas de bom grado, catando “erros” dos outros, obrigo-me a catar meus próprios e lamentáveis erros em obras por mim publicadas.
 

Luiz Ruffato 
 
De passagem, apenas a título de curiosidade, foi logo depois de publicar-se, no Brasil, “Todos os Belos Cavalos”, que o mineiro Luiz Ruffato — pegando a deixa? — publicou o romance “Eles Eram Muitos Cavalos”, aproveitando o verso de um poema de Cecília Meireles, no “Romanceiro da Inconfidência”
          

Vale observar, de passagem, que o filme “Menina de Ouro”, de Clint Eastwood, é baseado no livro homônimo (2002) de F.X. Toole, pseudônimo de Jerry Boyd. Assim como “Amsterdam”lembra “Mortalha não tem bolso”, “Menina de Ouro” lembra “Mas não se mata cavalo?”, de Horace McCoy, e o filme de Pollac. Teria Toole usado o “gancho” de McCoy para seu livro? Senão vejamos: inutilizada para continuar lutando box e curtir a fama e seus fãs, paralítica na cama, com uma perna amputada e sofrendo muito com tudo isso, a “menina de ouro” pede que o seu treinador — interpretado por Eastwood — a mate, e ele o faz. Não há que tirar nem pôr: o mesmo acontece no filme “A noite dos desesperados”: a personagem Glória (Jane Fonda), de vida infeliz e deprimida após perder uma maratona de dança com o seu companheiro (Michael Sarrazin) implora que ele a mate, e ele mata, com um tiro. Vai a julgamento e é condenado. Interpelado sobre a razão de ter matado Glória, ele responde como uma pergunta: “Mas não se mata cavalo?”, reportando a sua infância, onde um cavalo quebrara a perna e seu avô, para que o animal não sofresse, dera-lhe um tiro de misericórdia. Há quem aponte o filme “Menina de Ouro” como um clichê e melodramática versão feminina de “Rock”, com Sylvester Stallone.
       
Em meio a tantas e outras, tem gente aí dizendo que o norte-americano Cormac McCarthy, autor de “Todos os belos cavalos”, primeiro de uma “trilogia da fronteira”, é um novo Faulkner. Mas nem nunca! Estou terminando de ler o segundo volume, “A Travessia”, para em seguida ler “Cidades da planície”, que fecha a trilogia. Aspectos à parte, não vejo muita diferença entre a obra deste romancista norte-americano e os livros de bolso, com histórias do Velho Oeste, que andei a ler, por atacado e a granel, no tempo da minha adolescência, que já não era mais “no tempo das diligências” (um filme). Um aspecto na narrativa deste autor é a densidade nos enfoques, enredando os personagens, não meramente criados, uns e outros, tão-só para o entretenimento e a comercialização junto aos aficcionados do gênero, ou neogênero. “Prosa renovada e refinada, em que os personagens refletem sobre o sentido da existência”, dizem os entendidos. Harold Bloom, por exemplo, exalta “Meridiano Sangrento”, outro romance de McCarthy. E agora, afora o confronto do policial consigo mesmo e seus limites, o conflito e as reflexões em relação ao seu tempo (o passado) e o tempo atual, bem como suas malogradas tentativas de salvar as vítimas perseguidas por um frio assassino, afora isso, que festa foi essa em torno de “Onde os velhos não têm vez”? Mais uma obra mediana, senhores, boa mesmo, típica do gênero, pra cinema. Mídia e bilheteria.
         
De passagem, apenas a título de curiosidade, foi logo depois de publicar-se, no Brasil, este livro de McCarthy, que o mineiro Luiz Ruffato — pegando a deixa? — publicou o romance “Eles eram muitos cavalos”, aproveitando o verso de um poema de Cecília Meireles, no “Romanceiro da Inconfidência”.Particularmente, aprecio a literatura de Ruffato, de quem li este romance com cavalos no título e os dois primeiros volumes da trilogia que ele publicou ainda recentemente, engenhosamente montada a partir de dois livros de contos de sua autoria, anteriormente publicados. Ruffato pega bem a veia e explora satisfatoriamente a temática urbana — com uma raiz no cenário interiorano —, criando uma atmosfera aderente e uma outra realidade pelo viés da literatura.
         
Ainda a respeito de obras estrangeiras que nos chegam às carradas — eu não disse “escarradas” —, os afoitos ou mercenários resenhistas, também em orelhas, prefácios e textos de contracapas, além do que se publica nos jornais, logo folheiam a ouro o que não passa de latão ordinário. Ficam aí deslumbrados, se babando e esnobando, a dizer que está lendo isto e aquilo e não sei mais o quê, porque sim, porque não e coisa e tal, o ramerrão, a mesmice, o mediano, como de praxe, alugando os ouvidos, torrando a paciência, como se ninguém mais, além deles, nada lesse neste mundo. Sai do meio, recheio! “Vade retro”. E vou eu com “mea culpa”, que também já escrevi orelhas e prefácios, já pratiquei (ó vergonha!) esse tipo de delito; não pratico mais, e já tornei isso público (portanto, não insistam).
         
No mais, é isso aí. E tudo aqui não passa de ficção. A forma brincalhona e fricativa de um menino velho e um velho menino. Quem não entendeu o espírito da coisa, obriga-se a reler tudo, com mais atenção. Enquanto leitor, fiz um passeio pelos aspectos de obras literárias, tais como os apontei aqui, e expressei minhas impressões de leitura — por míseras que sejam — para além das confrarias ou meras bajulações em coro com o alarido do rebanho. Dou-lhes uma idéia do tipo de coisa que não vou ler ou reler neste ano de 2009. Tenho mais o que fazer, inclusive rever toda a minha miúda e defeituosa obra, e fechar uns romances que venho protelando há décadas. Particularmente, não vejo maior interesse, para o leitor, nessas listas ou programa de leituras, mas sempre se repassa alguma coisa aproveitável. E como não farei aqui uma lista imensa, esnobe e mentirosa — ninguém lê tudo o que afirma que lerá num ano —, redijo estes comentários de algum repúdio, sobretudo porque não como peixe cru. E assim a literatura. Gosto dela bem cozida e bem temperada. Que valha a pena ser deglutida. E querem saber? Gosto de Bukowski (risos), como gosto de blues. O velho e safado Bukowski, que, como disse — ao contrário de mim —, não gostava de Shakespeare, nem de Tolstói. 
 

leia mais...
POR EM 26/01/2009 ÀS 08:34 PM

Capitu e a morte da dúvida

publicado em

O que mais me intriga nesse debate é o fato de considerarem machismo defender a culpa de Capitu. Não compreendem que é justamente o contrário. Querer transformar a personagem em uma santa abnegada é um equívoco

 
Em 2008, no tempo vago entre os jogos olímpicos e as eleições, o Brasil comemorou o centenário da morte de seu maior escritor, Machado de Assis. Eventos acadêmicos, matérias na imprensa, lançamento de livros, correspondência inédita revelada etc. O ato final ficou por conta da exibição da luxuosa mini-série global "Capitu", baseada na obra-prima do autor, "Dom Casmurro". Dirigida por Luiz Fernando Carvalho, a produção foi encenada em um tom de farsa sofisticada, marcadamente onírica e surreal. Essa opção estética não me agradou. Devo estar sendo careta, conservador, mas creio que "Capitu", por toda melancolia que impregna as páginas do romance original, só funcionaria se seguisse o estilo realista de "Os Maias", outra mini-série de Carvalho. Contudo, por fim dei-me conta que, no atual cenário cultural brasileiro, nada seria mais óbvio do que ver "Dom Casmurro" transfigurado em teatro do absurdo. Não é por acaso que apresentam Capitu linda e glamourosa, na pele de seda de Maria Fernanda Cândido, ao lado de um Bentinho abobalhado, interpretado por Michel Melamed. Não é de agora que procuram transformar Bento Santiago de personagem trágico em estereótipo patético.
 
Os tempos mudaram. Quando o livro foi publicado, em 1899, a possibilidade de culpa de Capitu não representava um problema ético-estético-sócio-antropológico. Hoje, quase ninguém coloca em dúvida sua inocência. Duvidar dela é considerado machismo, chauvinismo e congêneres. O pretenso maior mistério da literatura brasileira é mera falácia, modo de dizer. Não há mais dúvidas. Capitu, a despeito de todo simbolismo contido em seus lendários "olhos de ressaca", passou a ser vista como uma mártir vitimada pelo ciúme obsessivo do marido.
 
Na década de 1990, Lygia Fagundes Telles e Paulo Emílio lançaram um romance onde recontavam a narrativa do ponto de vista da inocente Capitu. No prefácio, mostram-se horrorizados com o fato de Bentinho ter saído para jantar ao saber da morte de Ezequiel, o filho que acreditava não ser seu filho. Paulo Francis ridicularizou o escândalo do casal de escritores no Diário da Corte, sua coluna em "O Estado de São Paulo". "Mais uma vez me parece que mulher não entende certas reações masculinas. Falei outro dia de Aquiles gozando fraternamente um troiano antes de matá-lo, o que deixou Simone Weil chocada. Agora, o prazer furibundo de Bentinho em ver o filho da p... morto escapa à bela Lygia. E por que essa mania de inocentar Capitu?".
 
Francis não é o único intelectual brasileiro fora de moda. Em 1994, o escritor curitibano Dalton Trevisan lançou o ensaio "Capitu sem Enigma", no livro "Dinorá — Novos Mistérios", para protestar contra o que considera leituras deturpadas do maior romance de nosso maior romancista. Trevisan se pergunta: "nosso Machadinho ocuparia mais da metade do livro com as manhas e artes de dois sublimes fingidores, sem que haja traição?". Ele mesmo respondeu, aproveitando para dar uma lição de como se escrever deve ficção: "um personagem não espirra em vão, na página seguinte tosse com pneumonia". Concluiu lembrando que "o livro, de 1900, foi publicado em vida do autor — até a sua morte, oito anos depois, um único leitor ou crítico negou o adultério?". Segundo Trevisan, não. Aparentemente, a teoria acerca da inocência de Capitu difundiu-se muitas décadas após a morte do autor.
 
Tal teoria assenta-se no fato que "Dom Casmurro" é narrado em primeira pessoa. O marido que se imagina traído, é o narrador. O que narra? Seus delírios de homem ciumento. Da mesma forma que Otelo, vê adultério nos mínimos atos da esposa e de Escobar, seu amigo, sócio e ex-colega de seminário. É um alicerce frágil para sustentar premissa tão psicologicamente complexa. Sobretudo considerando que, enquanto Escobar estava vivo, o desconfiado narrador nunca suspeitou de nada. Na verdade, ao contrário do que possa parecer, o famigerado "argumento da voz narrativa" é favorável a Bentinho, não contra ele. Como assim?
 
Quando escreve o livro, Bentinho não é mais Bentinho, é um semi-eremita conhecido na cidade como Dom Casmurro, por seu temperamento arredio "de homem calado e metido consigo". Inicialmente, desejou compor uma obra de fôlego sobre um grande tema, "jurisprudência, filosofia e política", mas não se viu preparado para tanto. Depois pretendeu escrever uma modesta "História dos subúrbios", que resolveu deixar para depois. Finalmente, decidiu escrever suas memórias, "deitar no papel as reminiscências que me vierem vindo", "atar as duas pontas da vida, e restaurar na velhice a adolescência". Sem dúvida, sua vida girou em torno de Capitu. Ela é a protagonista de sua existência, no amor e no desamor.
 
Essas não serão memórias destinadas à gaveta. Ele pretende publicá-las. Em diversos momentos dirigi-se diretamente aos leitores. A questão é: o que faria um homem conhecido pela discrição expor sua vida? Sobretudo, expor sua humilhação? Imagino que, em primeiro lugar, o desejo de exorcizar os fantasmas do passado. Sendo assim, por que mentiria? Estaria mentindo apenas para si mesmo, ao mesmo tempo em que, gratuitamente, denegrirei sua imagem de macho alfa, rico e culto. Trata-se de um homem do século XIX. Ser corno naquela época representava o maior dos estigmas sociais, algo que deveria ser guardado sob sete chaves. Não é dramaticamente verossímil que inventasse algo assim. Portanto, Betinho feito Casmurro pode até estar errado, pode até estar terrivelmente equivocado nas conclusões que tirou, mas é preciso considerar que ele acreditava piamente no que descreveu. Narra conforme se lembra. Nem mais nem menos. Isso é importantíssimo para compreender o romance.
 
Em segundo lugar, desejava vingar-se. Em certo momento, dirigiu-se a uma provável leitora em particular: Sancha, esposa de Escobar. Pede que ela não prossiga a leitura, que a interrompesse a partir do ponto em que iria expor suas desconfianças acerca de seu bem amado marido. Além de um excelente recurso dramático, uma preocupação de cavalheiro. Ou não? Em todo caso, dificilmente, Sancha pararia de ler depois de ser aconselhada a parar de ler. Essa, talvez, fosse sua vingança, sua motivação oculta para escrever o livro. Manchar a memória do ex-amigo, compartilhando com sua dedicada esposa a dor da traição. Todos os outros envolvidos estavam mortos, exceto os traídos. Não era mais possível expiação, apenas ressentimento.
 
Os partidários da inocência de Capitu costumam apontar dois episódios que antes eram usados contra ela para, imaginam, comprovar o temperamento delirante de Bentinho. O primeiro é o capítulo "CXIII — Embargo de terceiro". Aqui, Bentinho chega mais cedo de uma apresentação teatral, "voltei no fim do primeiro ato", e encontra Escobar em sua casa. Está visivelmente embaraçado, o que pode ser observado no diálogo titubeante. Capitu, que não acompanhou o marido por dizer-se indisposta, está fora da cama (e se estivesse na cama?) e bem de saúde. O outro capítulo é o de número "CXXIII — Olhos de ressaca". Nele, durante o enterro de Escobar, Capitu "olhou alguns instantes para o cadáver tão fixa, tão apaixonadamente fixa", que deu para o marido a certeza de que algo não estava certo. Situações suspeitas, sem dúvida, mas nada concreto. Pode ser que sim, pode ser que não. Os defensores de Capitu não estão errados em questioná-las. Afinal, porque um amigo íntimo não pode visitar a casa de seu confrade em um horário pretensamente impróprio? O que impede uma mulher de bom coração chorar a morte de um amigo da família? Nada. Ademais, não me parece plausível que os supostos adúlteros se encontrassem na casa de Bentinho. Os empregados falam demais. Os vizinhos são atentos. Haveria de ter hora e lugar mais apropriado.
 
Por outro lado, no capítulo "CXXXVIII — Capitu que entra", o que acontece não deixa sombra de dúvidas. Ao fim do capítulo anterior, Bentinho, que planejava se matar, disse para Ezequiel que não é seu pai. É quando Capitu entra e começam a discutir. O marido acusa a esposa de adultério. "Grande foi a estupefação de Capitu, e não menor a indignação que lhe sucedeu". Depois de muita baixaria, finalmente, ela diz: "Sei a razão disto; é a casualidade da semelhança... A vontade de Deus explicará tudo...". Bentinho riu diante dessa frase. Eu também.
 
O argumento número um dos defensores da inocência de Capitu é dizerem que Bentinho enxergava semelhança onde não tinha. Via Escobar em Ezequiel por puro delírio. Via o que queria ver, como forma de, intimamente, justificar suas desconfianças. Na prática, a aparência, a "cabeça aritmética" eram ilusões. Sendo assim, Capitu também delira, uma vez que admite a semelhança. É fato e contra fatos não há argumentos. Tanto não há que, pega de surpresa, o melhor que Capitu pôde pensar para justificar-se foi um ingênuo "a vontade de Deus explicará tudo". Essa saída funcionava bem na teologia de Santo Agostinho, em coisas mais terrenas não é lá muito eficaz. Só dispondo desse fraco argumento, Capitu nem resistiu muito. Rápido demais para uma inocente ultrajada, a discussão nem havia esquentado ainda e ela já disse: "peço-lhe desde já a nossa separação: não posso mais".
 
O que mais me intriga nesse debate é o fato de considerarem machismo defender a culpa de Capitu. Não compreendem que é justamente o contrário. Querer transformar a personagem em uma santa abnegada é um equívoco. Falamos de uma quase contemporânea de Ana Karenina e Ema Bovary. Como os primeiros capítulos do romance mostram muito bem, Capitu sempre foi precoce, vivaz, calorosa. O perfeito contrário de Bentinho. Sua casmurrice não surgiu do nada, foi apenas potencializada pela desilusão. Será que uma mulher tão cheia de vida realmente ficaria satisfeita em um monótono casamento burguês? Sentiria-se plena em um casamento com um homem superprotegido pela mãe, que, desconfiava-se, era estéril? Bastava ir para Europa ou Petrópolis de vez em quando para sufocar seus desejos de aventura e romance? Quero acreditar que não. Quero acreditar que Capitu não se deixou domar tão facilmente. Afinal, lembrando o que ensinou Dalton Trevisan, um exímio nadador não morre em uma simples ressaca do mar impunemente, se existe um personagem com "olhos de ressaca" na trama.
 
Por fim, não se pode negar que Capitu foi uma mulher de sorte. Sorte do marido ser um homem mais da pena do que da espada. No século XIX, lavar a honra com sangue, tendo ou não razão, tendo ou não provas, era coisa corriqueira e reconhecida como legitima nos códigos Penal e Civil. Violentos crimes passionais eram (e infelizmente ainda são) cometidos por muito menos. Capitulina, que terminou o romance indo morar na Europa, poderia, por pouco, ter tido um destino diferente. Poderia ter embarcado para o Velho Mundo dentro da mala.

 

leia mais...
POR EM 26/01/2009 ÀS 08:24 PM

Um tema desagradável

publicado em

Contistas e poetas notáveis refletem sobre a morte, e sua conclusão se parece com a nossa: estamos diante do grande enigma da natureza, obrigando-nos a reavaliar nossos valores e o sentido da existência

 
  
Harold Bloom insiste em que a melhor obra escrita pelo conde Liev Tolstói é a novela “Hadji Murad”. Sustenta sua opinião tanto em “O Cânone Ocidental” quanto em “Gênio”, livro este que pouco ou nada acrescenta em relação ao primeiro, salvo a quantidade de personalidades, entre as quais o brasileiro Machado de Assis. No mais, paga-se por um ramerrão de 800 páginas, esquematicamente esotérico: Sefirot, metáfora da Cabala, são atributos divinos, dos quais participaria o conjunto dos 100 nomes arrolados na obra.
 
Não posso duvidar e não tenho condições de contestar Harold Bloom quanto a Tolstói, mas arriscaria a dizer que a novela mais impressionante do escritor russo é “A morte de Ivan Ilicht”. Pelo menos, assim me parece. A morte, ao lado do amor e do ciúme, é sabidamente um dos grandes assuntos de toda a literatura, incômodo embora. Em último caso, é ela que tempera as relações humanas, justificando-as ou tirando-lhes todo e qualquer sentido, a depender do ponto de vista. E não é um conceito tão simples, uma vez que não existe apenas a morte física. Schopenhauer, em “A Arte de Amar”, defendeu que os suicidas se matam por amor à vida, incapazes que são de submetê-la a determinados sofrimentos. É um entre tantos paradoxos: algumas correntes espiritualistas e religiosas — o Cristianismo é uma delas — consideram que a vida eterna, ou vida verdadeira, segue-se à extinção da carne. Pessoalmente, acho importante, mas pouco importa o que pensam a filosofia e a teologia, duas tentativas desesperadas de consolo. Tememos de verdade a perda de nosso corpo, razão de nossos sentidos mais elementares. E amamos esta vida pelo mesmo motivo, vá ela ou não aos trancos e barrancos.
 
Li uma vez “A Morte de Ivan Ilicht” e nunca mais tive disposição para enfrentar a história escrita por Tolstói, hipocondríaco que sou. Nada que se escreveu acerca do infalível tema da morte, ao menos de meu conhecimento, é tão cruel. Uma das cenas antológicas de Shakespeare versa sobre o mistério dos mistérios: a de Hamlet segurando a caveira do histrião Yorick, quando uma vez mais reflete sobre nossa decadência final (Ato V, cena I). É uma das passagens mais famosas do teatro e da literatura. Mas o príncipe da Dinamarca não era um moribundo, o advogado Ivan Ilicht o era: a angústia deste infeliz denota a experiência de um condenado, não de uma testemunha. Nada é tão desalentador e tão sinistro quanto a visão de Tolstói. Apesar de no clímax subjugar seu personagem à redenção, convencer-me-ia facilmente de que Tolstói estava profundamente magoado com Deus ao escrever essa história, e que externa por meio dela seu profundo sentimento de decepção com a Criação. Somos por definição sensualistas, e é um contraste brutal a vida ofertar tanto e a morte tirar tudo.
 
Em vida, Ivan Ilicht prosperou na carreira e obteve materialmente o luxo e conforto sonhados por qualquer mortal; foi comissionado, juiz de instrução, promotor substituto e procurador. Conquistou respeito e admiração; cumulou-se de riquezas e elevou-se aos píncaros da sociedade russa — até que um dia, sentiu uma dor. Desde então qualquer dor física e mal localizada que sentir o leitor ou leitora de Tolstoi pode causar aflição, pois no caso de Ivan foi o começo do fim, aliás perturbador. Não houve alento, comiseração, nada. Ninguém foi capaz de curá-lo; a medicina nada pode fazer, a não ser tapeá-lo, e a família simplesmente o desprezou. Os raros instantes de solidariedade e de consolo, Ivan os teve ironicamente de um criado, Guerássim, o único ser humano que se dispôs a servi-lo com lealdade e respeito, até o último suspiro. Por alguns momentos apenas, Ivan convenceu-se de que as dores morais são muito piores do que as dores físicas:
 
“Considerou que as pequeninas tentativas que fizera, tentativas quase imperceptíveis e que logo sufocava, para lutar contra o que era considerado acertado pelas pessoas mais altamente instaladas na sociedade, podiam representar o lado autêntico das coisas, sendo falso tudo o mais. E que os seus deveres profissionais, sua vida regrada, a ordem familiar e todos os interesses mundanos e oficiais, não passavam de grandes mentiras. Tentou defender tudo aquilo perante si mesmo e, de repente atinou com a fragilidade de sua defesa. Não, não havia nada a defender.”
 
A zombaria de Hamlet, na cena mencionada, aplica-se perfeitamente a Ivan:
 
“Aí está outra; porque não poderá ser a caveira de um jurista? Onde estão agora as suas cavilações, os seus processos, os seus truques, as suas trapaças? Como é que ele agora suporta que esse maroto lhe pespegue pancadas com uma pá imunda sem processá-lo por lesões corporais?”
 
Podia ser esta a caveira do jurista Ivan, pisoteada por um relés coveiro. Onde fica a vaidade, a presunção de um homem, depois de morto? Mas a pergunta de Hamlet, “Onde estão agora as suas cavilações, os seus processos, os seus truques, as suas trapaças?”, persiste em busca de uma resposta, reportando-nos fatalmente a outros autores e a outras conclusões, aliás muito parecidas.
 
Recentemente, tenho lido o norte-americano John Updike. Aficionado por contos mais do que por qualquer outro gênero literário, adquiri dele uma coletânea de 23 histórias curtas chamada “Uma Outra Vida”. O título traduzido é ambíguo, mas apenas diz respeito às muitas facetas da relação amorosa na maturidade, quase na velhice. A narrativa de Updike é dotada de uma sensibilidade impressionista — aliás, o nome de Proust aparece no conto “O Boato”. Contudo, descobri uma página sua que me lembrou Tosltói, me lembrou “A Morte de Ivan Ilicht” e me lembrou esse trecho de “Hamlet”. Trata-se de uma preciosidade chamada “A Viagem aos Mortos”, em que o protagonista Martin Fredericks faz as vezes de Ulisses e Enéias descendo ao Hades. A certa altura, Fredericks vai com a esposa a um churrasco oferecido a uma amiga do casal, e que sofre de uma doença terminal. Sim: à parte à inadequação, trata-se de um churrasco de despedida silenciosa. Na chegada ao lugar, uma mangueira de jardim serve de pretexto para se pensar o tema em questão:
 
“...Fredericks voltou e removeu a mangueira para que o carro seguinte não a atropelasse [isto é, à doente, diante do carro], ao mesmo tempo tentando imaginar como esses acessórios de nossa vida cotidiana, pacientemente conservados, guardados, enrolados e consertados como se sua utilidade fosse eterna, deviam parecer a alguém cuja morte era iminente. A mangueira, as flores, a colher de jardineiro abandonada cujo cabo amarelo-canário cintila entre as ervas silvestres ao lado dos flox. O gramado mesmo, e o sol, o céu, as arvores semelhantes a maciços cenários bidimensionais desgastados — eles que se danem. O valor deles estava para ser submetido a uma revisão tão vasta e tão implacável que Fredericks não era capaz de imaginá-la.”
 
Seria preciso transcrever toda a página, para que o leitor fosse devidamente compensado pelo talento reflexivo de Updike. O fundamental, porém, é o lugar que ocupa em nossas vidas esse complexo de “acessórios”, as posições e “processos”, nossos “truques” e “trapaças” cotidianos, e mesmo o cenário à nossa volta, “o sol”, “o céu”, “as árvores” e tudo mais, quando o que está em questão é a irremediável condição do homem. Na poesia, Jorge Luis Borges escreveu um poema chamado “As Coisas”, fazendo sua própria e severa revisão: versificou em tom desprezível que elas “Durarão para além do nosso olvido / e nunca saberão que somos idos.” Outro poeta, Ferreira Gullar, intuiu o mesmo problema que Updike e concorda inteiramente com Borges, num poema dedicado a Clarice Lispector: a natureza não depende de nós, embora tenhamos a ilusão freqüente do contrário.
 
A morte é um tema naturalmente desagradável. Mas é também, na literatura como na vida, universal e se nos impõe.

leia mais...
POR EM 11/12/2008 ÀS 01:32 PM

O destino de Otto Maria Carpeaux

publicado em

A contribuição de Carpeaux ao acervo nacional não residiu naquilo que trouxe de fora para nós, mas naquilo que, desde o Brasil, ele deu à cultura do mundo, ajudando a elevar o nosso país da condição de importador passivo e discípulo beato à de criador e mestre

Ouvi falar de Otto Maria Carpeaux um punhado de vezes, antes de ler seus escritos. Sempre achei sugestivo este nome, “Carpeaux” – penso, aliás, (o que é inteiramente subjetivo) que certos nomes só existem mesmo para seus donos. Um dia, finalmente, fui à livraria e adquiri uma obra deste que se consagrou entre os mais fecundos historiadores e críticos literários do país. Torrei oitenta paus no volume I dos seus Ensaios Reunidos, um catatau de 928 páginas. Tão logo sai dali comecei a folheá-lo a caminho, no ponto e dentro do ônibus. O que em primeiro lugar chamou minha atenção nesses textos foi a densidade das análises e a abrangência de uma cultura pessoal aparentemente inesgotável. É difícil, em vida, alguém ler tanto, saber tanto. Ao cabo de alguns poucos ensaios – Visão de Graciliano Ramos, A idéia da universidade e as idéias das classes médias, Max Weber e a catástrofe, A política, segundo Shakespeare... - foi inevitável a conclusão de que eu perdia (este é o verbo) uma parcela importante do que de melhor a cultura já produziu em qualquer lugar do mundo. Repito: do mundo. Eu finalmente havia descoberto Otto Maria Carpeaux.

Pois bem, repisemos algumas informações biográficas a seu respeito. Este homem admirável nasceu em Viena em 1900, fugiu para a Antuérpia (Bélgica) com a anexação austríaca por Hitler e veio terminar, inclusive seus dias, no Rio de Janeiro, Brasil. Tinha completado 39 anos de idade quando aportou em nosso país, onde faleceu em 78, do coração. Entre nós foi dedicado jornalista, tornando-se redator e editor (Correio da Manhã), ao infatigável trabalho de pesquisa, tendo dirigido duas importantes bibliotecas (as da Faculdade Nacional de Filosofia e da Fundação Getúlio Vargas) e, por fim, à militância política: era, como não bastasse, também um abnegado. Sua singularidade, no âmbito da crítica e da historiografia literária, consistiu para alguns em ter transcendido a cultura brasileira para lhe acessar às águas profundas da tradição ocidental. A ele assim se refere outro crítico exponencial, Alfredo Bosi:

“...aparece hoje como um divisor de águas entre modos de ler menores e, não raro, provincianos, e uma consciência crítica poderosa da literatura como sistema enraizado na vida e na história da sociedade.” (cf. História Concisa da Literatura Brasileira, Vozes, p.496)

Mas essa consciência é “poderosa” – e importante - principalmente por encarnar uma pedagogia, uma concepção, um método, algo que, segundo o prefaciador Olavo de Carvalho, no começo quase ninguém percebeu ou soube valorizar. Segundo o filósofo paulista, por pouco não limitaram, na pátria-refúgio, a rebaixar Carpeaux à condição-síntese de “jornalista erudito”, ainda que cercado pela nata cerebral do país. Voltaremos a esse ponto. Acho que não se deve contextualizar o ensaísta apenas no tempo: a rigor, sua relação com o espaço é bem mais interessante e digna de apreciação. Carvalho se limita a desfazer alguns mal-entendidos e incompreensões, relembrando entre outras coisas a recepção equivocada que no Brasil teve Carpeaux – que o diga Alceu Amoroso Lima. Conviria pegar esse gancho, da recepção apática, ampliar o raio de abrangência e colocar a seguinte questão: que significado tem a obra de Carpeaux para o mundo? A pergunta, que me parece inevitável, é uma desculpa para dizer que, de uma maneira ou de outra, o que se coloca em certa medida é o problema do ostracismo intelectual de um gênio, e estamos falando daquele que o mesmo Carvalho não titubeou em colocar em pé-de-igualdade a um De Sanctis, um Hipólite Taine, um Arnold Hauser. Ora, e por que não?

Particularmente, não vejo problema nisso. Acho sinceramente que o maior exagero do intelectual brasileiro é a modéstia muitas vezes complacente e satisfeita de ser um zero à esquerda – quando muitas vezes é algo mais que isso! Eis em que não precisamos ser exagerados. Problemática, a meu ver, é certa ignorância sobre alguém da estatura intelectual e humana de Carpeaux, mas menos ainda em nosso país do que no mundo.

A palavra ostracismo pode soar inadequada, mas não pretendo lançar mão de outra. Explico-me, portanto. Ninguém em nossa terra agiu no sentido de obscurecer Carpeaux, pelo contrário: aqui ele foi carinhosamente recebido e conquistou suas melhores amizades e sua glória merecida. Não é para censurar este acolhimento solidário, com efeito, que recorremos àquela palavra, que importa pelas conotações de fato políticas e suas conseqüências. Afinal, tudo começou realmente como um ostracismo motivado por medo, e as conseqüências existenciais um tanto injustas para a missão de Carpeaux remontam a esse acontecimento. O que queremos dizer é que, mesmo indiscutivelmente universal, o autor parece alguém que ficou no meio do caminho, penalizado pela guerra, pelo destino geográfico e a ignorância de uma vasta parcela da cultura ocidental. Tal circunstância suscita outra, de ordem diversa.

Carpeaux é expoente de um caso interessante. Não foi o único europeu a se exilar ou radicar na América. Por razões diferentes - econômicas, políticas e principalmente para escapar do flagelo da guerra -, acorreu para este canto do mundo uma plêiade de pensadores, artistas e cientistas dos mais brilhantes nascidos na Europa, incluindo aí a União Soviética. Podemos lembrar alguns artistas plásticos e escritores, áreas de nosso interesse: Lasar Segall, Frans Krajkberg, Franz Weismmann, Mira Schendel, Mark Rothko, Willem de Kooning, Arshile Gorki, Vladimir Nabokov, Isaac Singer, Clarice Lispector e, entre eles, Otto Maria Carpeaux. Carpeaux, como se vê, é parte de um acontecimento de envergadura na história do continente americano, no século XX: a imigração de cérebros europeus para as Américas. Como indica nossa lista, nos limitaremos a falar de Brasil e Estados Unidos. Um caso e tanto.

A epopéia dos imigrantes (a rigor, braços para a lavoura e a indústria) é contada nos livros de história, mas, que eu saiba, ainda não se escreveu uma história tão relevante quanto aquela iniciada por volta de 1870. Refiro-me à “fuga” desses artistas e eruditos do Velho Mundo na primeira metade do último século para o nosso continente, bem como a influência – às vezes decisiva - que exerceram entre seus pares americanos. A primeira leva teve impacto econômico fundamental, particularmente no Brasil, quando substitui o braço escravo nas lavouras de café pelo trabalho assalariado. Trouxe consigo, além da força física, ideiais políticos como o anarquismo e o socialismo, com formidáveis desdobramentos na organização classista operária e na vida nacional. A leva seguinte impactou sobre a cultura, contribuindo na difusão de idéias e, em alguma medida, na visão de mundo dos povos que os acolheu, a ponto de alguns de seus expoentes figurarem de forma marcante na história literária ou artística dos países em questão. É o caso de Otto Maria Carpeaux, para sempre integrado ao nosso acervo literário. Mas, aí é que está.

O destino geográfico implica também o destino histórico, salvo raras e conhecidas excessões. De maneira que a sorte de uns, dos personagens mencionados, não foi a sorte de outros, em que pese o alcance e repercussão de suas obras, mesmo quando essa produção tem, de lugares distintos de atuação, equivalência em termos de qualidade. Se não tiveram a mesma sorte, a explicação parece simples e plausível, e não tem nada a ver com a qualidade intelectual de suas obras, portanto.

Penso que a escolha dos países de adoção espiritual fez toda a diferença, contra ou a favor desses imigrados. De sorte que aqueles intelectuais que decidiram fixar nos Estados Unidos alcançaram uma projeção internacional significativa, certamente muito maior do que aqueles que optaram em viver no Brasil. Quem escolheu o Brasil se condenou a uma glória que, normalmente, não ultrapassa as fronteiras do país, independentemente do valor intrínseco de seu projeto cultural. Olavo de Carvalho menciona que sequer em nosso país Carpeaux obteve uma reciprocidade intelectual digna de seu merecimento. Foi recebido no paraíso com risos e afagos, está bem, mas quando morreu não poucos o trataram como simples divulgador cultural. Não seria exagerado imaginar o desespero íntimo do grande ensaísta ante o destino selado de sua brilhante realização, contida, talvez para sempre, nas fronteiras de um país periférico, e que e tese mal o havia compreendido.

A língua portuguesa não terá sido o maior desafio à sobrevivência e imortalidade de Carpeaux, antes, talvez, a realidade histórica da pátria adotiva. Este é um fenômeno digno de atenção, que provavelmente tem a ver com o papel exercito pelas nações sub-desenvolvidas no mundo, conceito útil para a realidade em que viveu. É a hipótese que temos em vista para explicar o ostracismo de que falamos: é um fato – incômodo, mas um fato.

Certa vez, um de meus mestres na academia argumentou que esse tipo de problema reflete traços de um estima pouco elevada que o Brasil tem de si mesmo, como se o país sempre dependesse da “aprovação” alienígena para ter certeza de seus valores. Na época considerei sua opinião, mas hoje discordo: não basta nossa mudança de humor para, de um dia para o outro, uma realidade imanente e sedimentada tornar-se outra coisa diferente de si mesma. Em outras palavras, estou convencido de que o problema é mesmo histórico e não de temperamento – a menos que passássemos a se mais afirmativos quando o caso o exigisse. E é por ter certeza desses valores – e amor próprio -, é que não devemos ignorar certas verdades, um tanto quanto óbvias mas que, por alguma tola razão, temos dificuldade em proclamar.

Um pouco de fatos para clarear as idéias e sairmos da especulação vazia. Desde 1914 que os EUA vêm gradativamente exercendo um papel de liderança mundial, em substituição à Grã-Bretanha; liderança que se consolida inquestionavelmente depois da vitória de 45 sobre o nazi-fascismo. A cultura nacional local se projeta em consonância com a importância crescente daquele país, prova disso é que Nova Iorque passa a dividir com Paris a condição de centro irradiador mundial das novas tendências estéticas, em particular nas artes plásticas. É de lá que emanam, por exemplo, o expressionismo abstrato de Jackson Pollock e a pop art de Andy Warhol. É possível que os organizadores de um livro, Teorias da Arte Moderna, em particular Herschel B. Chipp, não tenham pensando no tipo de abordagem que propomos, mas o que declaram é apenas um dos muitos casos, aliás sintomático, que reafirmam nossa intuição:  

“O surgimento de uma escola vigorosa e independente em Nova York resultou da emergência dos Estados Unidos no final da guerra, não só como influente centro cultural mas também como força política e econômica. Pela primeira vez um movimento artístico originado nos Estados Unidos se viu reconhecido no cenário internacional como um significativo marco do desenvolvimento da arte contemporânea. A corrente internacionalista a partir de então tem sido, sem dúvida, a predominante. Mas o internacionalismo passara agora a ter novo significado: o de que a arte americana era uma força no cenário mundial e de que esta palavra já não servia meramente para designar certos artistas que iam buscar fora as suas idéias.” (ob.cit, p.515)

A história norte-americana se assemelha em muitos aspectos à brasileira, e certamente partilhou, como nós, a condição de periferia cultural e, mais que isso, de reles consumidora de idéias vindas da Europa. Mas isso mudou com a ascenção dos Estados Unidos a superpotência, até meados do século XX – ainda que a arte local continuasse dialeticamente sintonizada com a européia. Salvo por este último aspecto, não é o caso do Brasil, um país que atravessa o século XX inteiro na periferia do sistema: não nos tornamos uma “força política e econômica”, nos termos de H. B. Chipp. A condição de país subdesenvolvido possivelmente forneça elementos de análise capazes de esclarecer por que, numa perspectiva inversa – isto é, em que analisássemos a trajetória de alguns artistas nascidos no Brasil – muitos de nossos talentos não galgaram o justo reconhecimento no exterior. Tudo indica ser o caso do concretismo, na poesia.

O inverso também acontece: artistas como o argentino Lucio Fontana e o chileno Roberto Matta, destacados respectivamente por críticos como Giulio Carlo Argan e o mencionado Herschel B. Chipp, indicam que a escolha de uma carreira em um dos “centros”, a Europa, já foi fator determinante para a consagração no grande circuito internacional.

Com efeito, a visão de que o gênio artístico e intelectual independe da realidade social para se sobressair pode até ter sentido – Carpeaux é inteiramente realizado, a despeito do Brasil - mas não satisfaz o questionamento aqui proposto. Não responde o porquê de determinadas presenças e ausências naquilo que poderíamos chamar de cânone internacional em qualquer âmbito criativo. Voltemos à literatura, ao caso emblemático de Carpeaux. Fosse o contrário do que acabamos de dizer, suspeito que, com justiça, esse crítico literário teria no exterior glória parecida à do já mencionado Arnold Hauser. Sua História da Literatura Ocidental poderia, quem sabe, figurar nos debates mundo afora ao lado da História Social da Literatura e da Arte, com a diferença, aliás oportuna, de oferecer uma contra-leitura de natureza historicista. A obra brasileira seria uma espécie de resposta ao materialismo hauseriano, se o Brasil fosse também, como Carpeaux, uma potência mundial. Por quais motivos alguém diria que estamos exagerando?

Façamos uma troca simbólica, a título de provocação: o que seria do russo Nabokov no Brasil e do austríaco Carpeaux nos Estados Unidos? Óbvio, não posso pretender uma solução razoável para um questionamento dessa natureza. Dada a impossibilidade, não é uma resposta objetiva que pretendo obter: apelo então para uma resposta da imaginação – o que ainda pressupõe se valer das referências concretas que temos. De minha parte, imagino que a escolha do país faria toda a diferença contra Nabokov, ainda que entre nós houvesse escrito Lolita. Basta olhar para a tendência dominante para concluir por seu confinamento e redução cultural. De sua parte, olhando para as mesmas tendências – que também ampliam os horizontes dos homens e de suas obras -, Carpeaux teria um auditório que provavelmente alcançasse a sua Europa estimada, repercutindo no circuito da crítica mundial como infelizmente não logrou ao escolher o Brasil e o idioma do país. Olavo de Carvalho (advirto que não me interessam, aqui, suas posições ideológicas) faz uma declaração surpreendente sobre Carpeaux e, nos parece, inteiramente justa:

“A História da Literatura Ocidental não é só uma contribuição da Geisteswisseschaft à cultura brasileira: é uma portentosa contribuição da cultura brasileira à Geisteswisseschaft. Logo, a contribuição de Carpeaux ao acervo nacional não residiu naquilo que trouxe de fora para nós, mas naquilo que, desde o Brasil, ele deu à cultura do mundo, ajudando a elevar o nosso país da condição de importador passivo e discípulo beato à de criador e mestre.” (Carpeaux, Ensaios Reunidos, p.50)

Olavo de Carvalho merece um elogio pela ousadia e originalidade de suas palavras. À maneira de Capistrano de Abreu em relação a Varhagen, o filósofo inverte a perspectiva e brada a verdade íntima, porém sem aquela empáfia vazia dos retóricos que no Brasil fazem festa. Mas a pergunta persiste: o mundo deu conta dessa contribuição à sua cultura? A resposta parece ser negativa, pois, salvo engano, a única obra sua traduzida na Europa é um texto menor no conjunto de sua significativa produção, A missão européia da Áustria (1941), dedicado ao chanceler austríaco Engelbert Dolfuss, contemporâneo seu. Já nos EUA, foi preciso que um brasileiro do Portuguese Literary & Cultural Studies, João Cezar de Castro Rocha, da Universidade de Massachusetts, Dartmouth, dedicasse uma página ao ensaísta num estudo dedicado às influências estrangeiras na formação da cultura nacional (cf. site Sapietiam Autem Non Vincit Malitia). E é tudo, salvo melhor juízo.

Extrema injustiça, pois Carpeaux, além de ser um ensaísta gigantesco, não se enquadra na categoria de importador cultural. Admitir o contrário legitimaria nossa própria atitude, ou seja: se ele bebeu no italiano Croce e no belga Burkhardt, porque não poderíamos beber nas fontes do francês Breton e do italiano Marineti? É uma questão de perspectiva. Julgamos que o empreendimento de Carpeaux é distinto, até porque – não parecesse indelicado de nossa parte – poderíamos lembrar que é austríaco. O quero dizer chamando-o de austríaco é que as influências intelectuais que recebeu pertencem ao berço europeu, portanto não importou nada, tendo em vista que a Europa é vista como uma grande unidade pelos olhos alienígenas (é claro que para um europeu isso é um mito, ao menos político, como periodicamente fazem lembrar os conflitos separatistas na Espanha, Irlanda e ex-Iugoslavia, sem contar as repúblicas soviéticas).

Na pele de tais alienígenas, podemos afirmar que Carpeaux é um original cuja vicissitude foi ter escolhido o Brasil para viver e trabalhar. Em outras palavras, é a condição do país e da língua que escolheu que, aos olhos mesquinhos do estrangeiro, não permitem que se lhe façam a devida justiça, no mundo. Se dependesse exclusivamente da obra que realizou, há muito deveria ecoar em todos os meridianos; há muito deveria ser estudado, consultado e citado.  

Minha conclusão pessoal é de que é preciso relativizar algumas de nossas percepções. O termo “os maiores” está inapelavelmente associada a uma realidade que extrapola o indivíduo e o carrega consigo, de roldão. Estamos rodeados por cânones, e o maior é sempre o maior com o auxílio de uma realidade histórica, quando certamente seríamos mais justos, talvez, se reconhecêssemos a contribuição intelectual sem levar em conta fatores de ordem política e econômica, francamente legitimistas. Há uma dialética nisso aí. A impossibilidade de fazermos isto, no entanto, é que obriga os homens a tomar um partido, e o meu é o de Olavo de Carvalho. O destino potencial de Otto Maria Carpeaux é bem maior do que o Brasil, que a ele deve ser profundamente grato. Seu destino é, sem sombra de dúvida, o dos talentos universais da espécie.


leia mais...
POR EM 08/12/2008 ÀS 06:55 PM

Por que Woody Allen é superior a Dostoiévski

publicado em

O filme é mais rico na medida em que, polifonicamente, dá voz a várias teorias morais sem eleger a “correta”. Isso foi visto como cinismo pelos críticos do cineasta. De minha parte, vejo-o como uma brilhante elaboração filosófica descritivo-moral (em contraposição à de Dostoiévski, que é normativo-moral, ou seja, moralizante, ou seja, empobrecida) 

Tive um professor no mestrado em Filosofia na UFG (Adriano Naves de Brito, que agora está na Unisinos, infelizmente, para a UFG), que, ao analisar as diferentes fundamentações da ética, costumava dizer que, por mais elaboradas que fossem as tentativas (kantiana, humeana, shopenháurica, etc), no fim, o que contava mesmo era nossa simpatia por uma delas para a aceitarmos como satisfatória. Na verdade, ele não dizia propriamente “simpatia”, isso digo eu. Mas algo equivalente, como podemos ver no seu recém-lançado “Ética – Questões de fundamentação” (Editora da UNB, pp.106-107):
           
“A justificação é sempre relativa a alguma coisa e, mais especificamente, ela é, para ele [o outro], sempre relativa ao meu desejo de participar de uma comunidade moral para a qual certos valores e normas são considerados legítimos. Ela é, por conseguinte, relativa ao meu desejo de que seja válida.” [Grifo meu]
           
Considero que exatamente o mesmo pode ser dito a respeito da apreciação estética. Pode-se elaborar toda sorte de teorias ricas, bem fundamentadas, por pessoas que passam a vida estudando o assunto, que dará na mesma. Gosta-se ou não se gosta, prefere-se ou não, a despeito de qualquer fundamentação aparentemente objetiva. Já defendi isso no
jornal Rascunho, contra Pedro Lyra e sua pretensão de objetividade crítica. E foi o que eu disse pra platéia de estudiosos da língua e da literatura russas, quando, sob o título de “Heresia”, apresentei meu último slide: “Crimes e pecados é filosoficamente superior a Crime e castigo”.
           
Para minha surpresa, minha provocação foi muito bem recebida. Ninguém se alterou, ninguém tentou me demonstrar o contrário. No máximo, travamos amigável discussão sobre o “Epílogo” do livro que, seguindo minha opinião, é o que o empobrecia filosoficamente, principalmente se o contrapuséssemos ao final de “Crimes e pecados”. Um, o livro, é fechado, o outro, o filme, aberto. É evidente que isso não equivale a dizer que “Crime e castigo” seja filosoficamente pobre, mas que seria mais rico sem o tal Epílogo.
           
O mesmo não pode ser dito, entretanto, a respeito de
alguns leitores e colegas colunistas da Bula. Sua reação foi a mesma de um torcedor. O que apenas serve para reforçar o que penso sobre apreciação estética. É como se, no meio da torcida do Corinthians, eu começasse a gritar: “Porco, porco!”. Feri orgulhos, ofendi, com minha opinião. Interessante. Parece que os especialistas no assunto estão vacinados contra provocações como a minha. Mas admiradores, não.
           
Eu poderia ter me defendido lembrando a todos que minha perspectiva é filosófica. Ambos, livro e filme, são verdadeiros tratados de filosofia moral. Mas o filme é mais rico na medida em que, polifonicamente, dá voz a várias teorias morais sem eleger a “correta”. Isso foi visto como cinismo pelos críticos do cineasta. De minha parte, vejo-o como uma brilhante elaboração filosófica descritivo-moral (em contraposição à de Dostoiévski, que é normativo-moral, ou seja, moralizante, ou seja, empobrecida).
           
De nada adiantaria, entretanto, eu me defender com o dito no parágrafo anterior. Minhas argumentações racionais escondem algo mais importante. São minhas. A opinião é minha. Em outras palavras, e reescrevendo meu último slide: “Crimes e pecados é filosoficamente superior a Dostoiévski PARA MIM.” Ora, se admito que o PARA MIM é o que decide a parada, tenho de admitir o mesmo para meu interlocutor. PARA ELE eu estou dizendo um disparate. E a discussão ficaria vazia, sem sentido. Talvez daí o famoso “Gosto não se discute”. 
           
(Justiça seja feita,
Brasigóis Felício disse mais ou menos o que eu digo aqui)
           
Um ponto interessante, ressaltado por
Euler Belém no último Opção, é que um não existiria sem o outro. Woody Allen seria filho pródigo de Dostoiévski. É verdade. A apropriação de uma obra (genial ou não) e seu “melhoramento” é recorrente na história da arte. Shakespeare foi craque nisso, “roubando” idéias alheias e as melhorando (muito). O próprio Shakespeare foi vítima de um melhoramento, seu “Otelo, o mouro de Veneza”, ficou filosoficamente (olha a palavrinha mágica aí de novo) mais rico com a pena de Arrigo Boito, autor do libreto da ópera homônima de Verdi. Boris Godunov, poema histórico longo de Púchkin, só ganha vida por meio da ópera homônima de Mussorgsky. A sonata para violino “A tempestade” não faz jus à peça de Shakespeare que a inspirou (Prospero’s book, de Peter Greenaway, faz). Já a sonata para piano “a Kreutzer” é uma experiência estética mais interessante do que a leitura da novela de Tolstói, nela inspirada. Ambas de Beethoven. (Olha as comparações esdrúxulas aí, gente!). 
 
A tese que defendi na Abralic com meu “Dostoiévski vai ao cinema” foi justamente a de que quanto mais um cineasta se distancia do autor russo (e, pra todos os efeitos, de qualquer autor, em adaptações cinematográficas), mais rica é sua obra. Assim, “O Idiota” de Kurosawa é melhor do que o de Pyriev. “
Nina”, de Heitor Dhalia, é mais interessante do que “Crime e castigo” de Joseph Sargent. E por aí vai, até o distanciamento máximo, a ponto de não ser uma versão, mas, sim, uma subversão do original, “Crimes e pecados”, de Woody Allen, o segundo melhor filme já realizado por alguém (o primeiro é “O Anjo exterminador”, do Buñuel).
           
Por último, mas não menos importante, não é que Dostoiévski escrevia mal. Compreende-se e concorda-se com o defendido pela professora
Maria de Fátima Bianchi, que o estilo é “deliberada e calculadamente desleixado”. Mas isso não é o mesmo que deixar de reconhecer certos cacoetes do autor, o mais óbvio deles, o uso e abuso das palavras “de repente”, “de súbito”, “subitamente” e “num átimo”. É preciso ser cego para não ver. Ou não ter lido o livro.
           
Nota: O texto “Dostoiévski vai ao cinema” apresentado na última
Abralic, está disponível em minha coluna de Cinema & Filosofia no número 23 da revista Ciência & Vida FILOSOFIA (Editora Escala).
           
Nota 2: Segue abaixo uma lista de algumas das adaptações cinematográficas disponíveis, com minha (minha!) opinião a respeito (de uma a cinco estrelas, sendo cinco a melhor avaliação):
 
            “O idiota” de Ivan Pyriev **
            “O idiota”, de Kurosawa ***
            “Pickpocket”, de Robert Bresson *
            “Nina”, de Heitor Dhalia ***
            “Notes from underground”, de Gary Walkow ****
            “Os possessos”, de Andrej Wadja ***
            “Crime e castigo”, de Joseph Sargent **
            “Match Point”, de Woody Allen ****
            “O sonho de Cassandra”, de Woody Allen ***
           “Crimes e pecados”, de Woody Allen *****
 
 
 

leia mais...
POR EM 08/12/2008 ÀS 06:54 PM

A utilidade das humanidades

publicado em

                   (PARTE 2)

Stanley Fish 1
Stanley Fish 3

O financiamento das humanidades nas universidades não pode ser justificado pelo fato de que poemas e argumentos filosóficos mudaram vidas e deram origem a movimentos. A questão pertinente é: As humanidades mudam vidas e dão origem a movimentos? Aqueles que as ensinam o fazem com esse propósito, e se, o fazem, isso poderia ser alcançado?

Stanley Fish, jornal The New York Times

Tradução: Flávio Paranhos
          
(disponível em:Aqui
          
Num poema intitulado “Matins”, o poeta anglicano do século XVII George Herbert diz a Deus: “Se Tu me ensinares a conhecer teu amor... Então, por um raio de sol eu subirei a ti”. Mas a dinâmica da barganha proposta – se fizer X eu farei Y – é fragilizada pela maneira como é proferida, especialmente pelo duplo sentido de “sunbeam” (raio de sol).
           
[Segue um parágrafo com análise do poema]
           
Esta breve análise de um poema que, simultaneamente, o elucida e minimiza é um exemplo do tipo de trabalho e aulas que tenho realizado por quase cinco décadas. É o trabalho de um humanista, ou seja, alguém empregado em uma universidade para ensinar textos literários, filosóficos e históricos. As questões levantas em meu último artigo [traduzido aqui na Bula – veja link] dizem respeito ao valor deste trabalho, por que alguém deveria financiá-lo e por que razão alguém o financia.
           
Por que eu faço esse trabalho? Não o faço por ser da mesma religião de Herbert. Não acredito no que ele acredita, nem valorizo o que ele valoriza. Também não o faço por que me inspira a fazer outras coisas, como mudar de religião ou sair por aí ajudando os pobres. Se eu tiver de dizer, direi que o faço por que obtenho uma espécie de satisfação estética por meio da experiência de tentar compreender como uma admirável realização verbal foi engendrada.
           
A satisfação é parcialmente auto-satisfação. É como resolver um quebra-cabeça. Mas a satisfação maior é admirar o que algumas pessoas são capazes de fazer com a língua que todos usamos. “Não é impressionante?”, eu digo aos meus estudantes. “Você não desejaria ter escrito algo assim?” (Em meu artigo anterior eu uso a palavra “prazer” para descrever a recompensa conseguida por discutir e decifrar textos literários, porém “prazer” é ao mesmo tempo muito restrito e muito vago; é o prazer específico que sustenta sua consciência de um efeito que voe não só experimenta, mas consegue explicar)
           
Note que estamos falando aqui de análise, e não de produção de textos humanísticos. [Grifo do tradutor]. A questão colocada no artigo anterior foi o valor instrumental não de obras de literatura, filosofia e história, mas da análise acadêmica de obras de literatura, filosofia e história. Quando Jeffrey Sachs diz que “no mundo real” a distinção entre as humanidades e as ciências não se sustenta pois “filósofos deram contribuições importantes às ciências” e “as próprias ciências tiveram grande impacto nas humanidades”, ele não chega nem perto de refutar o que eu disse. O que acontece ou deixa de acontecer no “mundo real” não está em questão aqui. O que está sendo discutido é o que acontece no “mundo acadêmico”, onde a distinção entre os saberes, que Sachs recusa, valem. Pode até ser que, como George Mobus defende, “só na academia há especialistas, só na academia se divide o mundo em departamentos”. Mas o mundo acadêmico é mesmo, por definição, dividido em departamentos, e quando a utilidade de um desses departamentos é questionada, não adianta dizer que num outro mundo esses coexistem numa grande mistura.
           
Em geral, os que discordam de minhas asserções, fazem como Sachs e Mobus, patinam (sem se dar conta) entre o verdadeiro foco da discussão (a academia) e algo maior, diferente. Quando eu digo que as humanidades não têm utilidade, eu me refiro aos departamentos de humanidades das universidades, não às “humanidades” como uma categoria cultural. Não estou me referindo aos poetas e filósofos e o impacto que causam ou deixam de causar no mundo e nas pessoas que os lêem. [Grifo do trad.]

O financiamento das humanidades nas universidades não pode ser justificado pelo fato de que poemas e argumentos filosóficos mudaram vidas e deram origem a movimentos. (Fiquei surpreso que ninguém tenha mencionado “A cabana do tio Tom”, um livro que, dizem, Lincoln credita como sendo o causador da Guerra Civil). A questão pertinente é: As humanidades mudam vidas e dão origem a movimentos? Aqueles que as ensinam o fazem com esse propósito, e se, o fazem, isso poderia ser alcançado?  
Se as respostas a essas perguntas forem não (como eu defendo) – ensina-se as disciplinas, e qualquer efeito retardado do que acontece na sala de aula é circunstancial e não tem como ser almejado – então a via da justificação externa das humanidades, de uma justificação que depende do cálculo de resultados mensuráveis, está fechada. O fato de que alguns dos leitores, incluindo alguns de meus ex-alunos, relatam experiências de mudança de vida como resultado de seus estudos é tocante (embora estou certo de que a vasta maioria relataria algo bem diferente), mas dificilmente serve como razão para dar suporte a um aparato inteiro de departamentos, diplomações, colóquios, etc., que cresceu em torno do estudo acadêmico de textos humanísticos.    

Alguns [leitores] que comentaram [o artigo anterior] apresentaram razões negativas para ensinar as humanidades. Disseram coisas como “ se pelo menos o governo tivesse algum conhecimento de história, poderíamos não estar no Iraque agora” e “será que os neoconservadores realmente acreditariam que o mundo é um campo de batalha do bem versus o mal, caso eles tivessem a mente aberta a um conhecimento mais completo de história e natureza humana?”. Mas os neoconservadores que eles têm em mente – Wolfowitz, Pearle, Kristol, Huntington – são bastante versados em história, filosofia e artes como qualquer um, e participam de discussões profundamente intelectuais de textos importantes nos seminários do Liberty Fund e outros lugares.
           
Especular que se eles tivessem sido introduzidos aos textos certos (Paul Krugman no lugar de Milton Friedman, Cornel West no lugar de William Buckley), eles teriam engendrado políticas melhores é uma ilusão. E, aliás, é o mesmo tipo de ilusão que os neoconservadores adotam quando argumentam que se eles apresentassem aos radicais islmâmicos os textos de Jefferson, Madison e J.S.Mill, eles aprenderiam a amar a liberdade e parariam de tentar nos destruir. A verdade é que o conhecimento de textos filosóficos e literários e a aquisição de sabedoria (em qualquer forma) são variáveis independentes. [Grifo do trad.]
           
[Continua]
           
[Como o texto é grande, vou parando por aqui. Na semana que vem eu trago o resto. Essa última frase, que eu grifei, me parece uma boa frase pra se refletir: será que o conhecimento de textos filosóficos e literários e a aquisição de sabedoria são mesmo variáveis independentes? Se por sabedoria Fish quer entender “sabedoria moral”, então ele está coberto de razão. Posso ser doutor em filosofia moral e um canalha ao mesmo tempo, nada me impedirá (nem o mais completo conhecimento do assunto). Mas sabedoria “em qualquer forma”, aí são outros quinhentos dólares.]
           
[Aqueles que lerem o original, e identificarem algum erro relevante aqui, agradeço desde já que o apontem].

           
(Flávio Paranhos)

leia mais...
POR EM 08/12/2008 ÀS 06:54 PM

Pra que serve a literatura?

publicado em

Se não há utilidade para Hamlet ou Platão, também não pode haver para a Monalisa ou a nona do Beethoven. Se não faz sentido perder tempo lendo Shakespeare, também não pode fazer sentido manter o Louvre no circuito de turismo da França

   

Os amigos da Bula vão me desculpar a insistência no assunto, mas é que o artigo abaixo, que saiu na última edição do jornal literário Rascunho , na seção Ponto Final, costura um pouco o que penso a respeito do tema abordado por Stanley Fish. Prometo não falar mais nisso depois. 

Não é a primeira, nem será a última vez que nos deparamos com tal pergunta. Inocente ou provocadora, não importa a forma como nos seja feita, ser-nos-á sempre motivo de desconforto e até, para alguns, insulto. E eu não aconselho a aplicar o método dialético-diatríbico-socrático pra respondê-la, ou seja, a esperteza verborrágica de que tanto gostamos, sob risco de apenas piorar a situação e nos colocar na posição de, além de inúteis, antipáticos.
         
Pois a perguntinha desconfortável voltou a nos ameaçar. Só que de forma mais contundente. Não é mais uma pergunta. É uma afirmação. A literatura não serve pra nada. Como consolação, não estamos sozinhos. As humanidades não servem pra nada. Ou tudo o que couber na classificação Arts and Humanities do sistema educacional universitário norte-americano. 
           
Quem diz isso é o professor Stanley Fish, da Florida International University em Miami e articulista do jornal The New York Times. No final do ano passado, em seu
blog, o professor Fish comentou um documento da New York State Commission on Higher Education, que fornecia uma espécie de diagnóstico com conseqüentes planejamentos estratégicos para colocar as universidades do Estado de Nova York em melhor posição e competir com as grandes universidades americanas. Com um detalhe: toda a ênfase do documento estava em Ciência e Tecnologia. Nem um centavo para Artes e Humanidades.
           
O que levou Fish a refletir (Will the humanities save us?, de 6 de janeiro), acerca da utilidade prática das humanidades. “O estudo das humanidades torna os cidadãos mais críticos, mais completos, mais virtuosos”, havia sido, em síntese, o comentário geral dos leitores à notícia. Ao que Fish retrucou que é difícil convencer um governante a dar dinheiro para uma “nova interpretação de Hamlet”, e que, se o estudo das humanidades tornasse os homens mais virtuosos, os departamentos de letras e filosofia das universidades estariam repletos de pessoas generosas, pacientes, benevolentes... o que ele, Fish, como integrante de tais departamentos “por mais de 45 anos”, sabia muito bem não ser o caso. Ainda: qual empregador daria atenção a alguém formado e pós-graduado em arte bizantina (exceto um grande museu)? (Poderíamos, por puro masoquismo, acrescentar à lista o argumento mais irritante de todos: de que serve o estudo de Platão ou história medieval a não ser para... ensinar Platão e história medieval?)
           
O citado artigo teve, claro, grande repercussão. Em sua grande maioria, os leitores discordaram. O que não é surpresa, dado o perfil de um leitor típico de Stanley Fish. Quando o conteúdo do comentário não era de pura indignação, arriscava meios para justificar a utilidade das humanidades. O que também não era nenhuma surpresa, pois se tratava de professores e/ou alunos cuja existência mesma estava sendo questionada.
           
Um argumento recorrente e (na minha opinião) eficiente era: se não há utilidade para Hamlet ou Platão, também não pode haver para a Monalisa ou a nona do Beethoven. Se não faz sentido perder tempo lendo Shakespeare, também não pode fazer sentido manter o Louvre no circuito de turismo da França. E dá dinheiro, nest’ pa? Com isso os leitores ficamos felizes e de alma lavada. Fish estava redondamente enganado.
           
Até que ele veio com o próximo artigo, The uses of the humanities, part two (13 de janeiro). Nós, os leitores, não teríamos compreendido o que ele quis dizer. Não é que as artes e as humanidades (literatura, filosofia, pintura, etc) não fossem úteis. É claro que Shakespeare, Leonardo da Vinci, Beethoven, Platão, etc, e seus equivalentes (ainda que menores) contemporâneos têm importância e dão dinheiro. O buraco seria mais embaixo.
           
O que estaria em questão não são as artes e humanidades, lato sensu, mas, sim, o agrupamento educacional universitário ‘Artes e Humanidades’. Não é Hamlet que está em perigo, mas os comentadores de Hamlet. Ou, mais ainda, os comentadores dos comentadores dos comentadores dos comentadores de Hamlet. Do ponto de vista de quem decide pra onde vai o dinheiro, Shakespeare está morto. Mas a turma de nerds da computação do Departamento de Engenharia que está prestes a bolar um chip novo com potencial de render alguns milhões de dólares merece toda atenção. Simples assim.
           
Touché. Ou não.
           
Sim, é verdade que muito do que se faz em departamentos de filosofia e letras parece masturbação intelectual interminável e absolutamente inútil. Mas também é verdade que essa “masturbação intelectual” é o que ajuda a manter viva a obra de muitos dos criadores originais de filosofia e literatura. Se admitirmos que ambas, em última análise, se justificam pelo prazer que dão a quem é capaz de sentir esse prazer, então manter vivos autores mortos não é pouca porcaria não. Algo assim como inventar sempre uma montanha-russa diferente, com mais loopings e maior velocidade... Pra quem gosta faz todo sentido. E dá dinheiro (que é o crivo fatal do utilitarismo capitalista, enfim, o raciocínio de quem decide pra onde vão os investimentos).
           
Por ouro lado, também é verdade que as ciências naturais não são santinhas perfeitas. Um bocado de ‘pesquisas reduntantes’ (pesquisar algo que já foi exaustivamente estudado, ou seja, a masturbação intelectual das ciências naturais) é realizado hoje em dia. No caso das ciências da saúde isso é particularmente grave, já que envolvem sujeitos de pesquisa humanos e/ou animais, portanto submetidos a stress e riscos desnecessários (embora riscos sejam menos prováveis, pois não se faz pesquisa em animais ou humanos hoje em dia sem o aval de comitês de ética em pesquisa).
           
Outra defesa possível e interessante, como subproduto do argumento de manter vivas as obras de grandes criadores, é o fato de, embora seja verdade que departamentos de filosofia e literatura tenham tantos maus sujeitos quanto qualquer outro, e também seja verdade não ser raro que governantes com tendências fascistas sejam eruditos, as populações que estes engambelam não o seriam tão facilmente se fossem, elas próprias, eruditas. O pensamento crítico é o bem mais precioso que o consumo das artes e humanidades é capaz de fornecer, para além do mero prazer estético. Mas aí, pra que os departamentos que ensinam e pesquisam essas disciplinas justifiquem sua existência, é preciso que se desencastelem. Não basta manter artistas e filósofos vivos. É preciso fazê-los chegar ao maior número possível de pessoas. Ou Stanley Fish e a turma do dinheiro passam a ter razão.
 
 

leia mais...
POR EM 08/12/2008 ÀS 06:53 PM

Cinema é arte?

publicado em

O cinema não esta sozinho na selva do capitalismo selvagem. O século XX fez de todas as artes tradicionais produtos de consumo. Música erudita é vendida na prateleira ao lado da de música pop. Clássicos da literatura ao lado de livrecos de aeroporto. A mesma companhia de teatro que monta Falabella hoje, monta Ibsen amanhã. Paulo Coelho na Academia. Ninguém mais é inocente

O épico Spartacus é considerado pela totalidade dos críticos de cinema como um filme brilhante. Ironicamente, seu diretor, Stanley Kubrick, não concordava. Segundo o polêmico cineasta o motivo da negação era simples: ele assinou Spartacus, mas Spartacus não era um filme seu. Dirigiu-o contratado pelo produtor e estrela do longa, Kirk Douglas, para substituir o despedido Anthony Mann, sendo obrigado a trabalhar com um roteiro do qual não gostava, sem controle artístico nenhum do resultado final das filmagens. Foi pouco mais do que um operário entre muitos. Por tudo isto preferia ver o filme excluído de sua obra. Costumava brincar, confessando que não sabia o que dizer quando alguém lhe falava entusiasmado que tinha adorado Spartacus. Sentia que tinha pouco que ver com aquilo. Stanley Kubrick se considerava um autor e definitivamente não reconhecia como sua a autoria do tão louvado épico, por mais louvado que fosse.  
    
Este capítulo do rico folclore dos bastidores do cinema dá margem a um questionamento. A realização cinematográfica, chamada comumente de Sétima Arte, sendo obviamente movida pelo esforço coletivo, para atender a uma demanda de mercado muito bem definida, admite em sua estrutura a figura do autor? Um produto industrial pode ser assinado por um artista criador? Será arte?

Um dos maiores atores do século XX, Marlon Brando, respondeu a esta pergunta ironicamente: “Eu dou risada das pessoas que dizem que fazer filmes é arte e que os atores são artistas. Artistas foram Rembrandt, Beethoven, Shakespeare e Rodin; os atores são formigas operárias que participam de um negócio e labutam por dinheiro”. Por outro lado, o diretor irlandês Neil Jordan afirmou que: “Cinema é como poesia. E nos filmes – quando eles são verdadeiramente bons – você encontra um tipo de poesia inexistente em qualquer outra forma de expressão, nem mesmo na poesia. No filme você obtém uma justaposição de idéias como não se consegue em qualquer outra forma de expressão”. Num terceiro nível temos Francis Ford Coppola que, tomado de um espírito olímpico, defendeu que: “Algum dia, uma garota gordinha de Ohio será o novo Mozart e fará um lindo filme com a camerazinha de seu pai. Daí o assim chamado profissionalismo terá sido destruído, e o cinema passará a ser uma forma de arte.”
  
O fato é que o cinema não nasceu nem como arte, nem como indústria. Começou como uma bizarra curiosidade científica. As imagens em movimento (fotos em movimento?), exibidas em 28 de dezembro de 1895, pelos irmãos Auguste e Louis Lumière, no Grand Café do Boulevard des Capucines de Paris, fascinaram os franceses, sempre sedentos por novidades. Grosso modo os primeiros filmes apenas registravam cenas do cotidiano. Seus títulos descreviam seus conteúdos. Eram, por exemplo, A Saída dos Operários da Fábrica e A Chegada da Locomotiva na Estação. Nesta gênese o cinema, ou cinematógrafo, parecia destinado a não ser mais do que uma moda passageira. Uma das muitas que faziam a fama de Paris. Alguns iam ao Moulin Rouge. Outros iam ao cinematógrafo. Ainda outros iam assistir as cômicas e muitas vezes trágicas tentativas de algum cientista maluco de voar com asas de papel coladas nas costas, saltando da Torre Eiffel. Diversão para todos os gostos.
    
Contudo, já no ano seguinte, um quarteto de espertos perceberam o potencial econômico da nova técnica e fundaram o primeiro estúdio do mundo, o Pathé, que em poucos anos se tornou uma império internacional. As primeiras realizações não iam muito além de teatro de pantomima ou shows de prestidigitação filmados. Nada muito ambicioso ou artístico, meros produtos para saciar o mercado crescente das “imagens em movimento”. Neste sentido não resta dúvida de que The Kiss, célebre filme de 1896, mostrando um beijo em close-up, visava atingir mais o baixo ventre do que a mente das platéias. Os tempos eram outros e, descontando as devidas proporções das “atividades físicas”, podemos afirmar que The Kiss foi uma espécie de precursor do pornô. Gênero que de artístico nunca teve nada. Assim, nasceu a indústria do cinema. A arte do cinema permanecia em gestação. Ninguém ainda, dentre os pioneiros, era ou se dizia autor / artista.  
    
O experimentalismo científico continuava (na verdade nunca parou) e já em 1898 apareceu o primeiro filme com trechos coloridos. Ao mesmo tempo as encenações se refinaram e em 1899 é realizada a primeira adaptação de Shakespeare da história, King John. Shakespeare mudo, obviamente. De qualquer forma daí em diante, ano após ano, as produções ficaram cada vez mais complexas, ambiciosas e, o mais importante, começaram a aparecer as primeiras personalidades célebres do cinema. Estas figuras angariaram fama e juntamente com ela começaram a almejar prestígio de artistas.
    
O primeiro desta estirpe talvez tenha sido o francês Georges Méliès, introdutor da ficção-científica na tela, com seu A Viagem à Lua, de 1902. Depois dele surgiu o americano D. W. Griffith, verdadeiro criador do que se chama linguagem cinematográfica. Seu filme de 1915, o épico apologético ao racismo O Nascimento de uma Nação, introduziu o uso de panorâmica e de montagem alternada. Esta revolução estética foi continuada por Sergei Eisenstein, em sua louvação da Revolução Russa, O Encouraçado Potemkin, de 1925, com sua “montagem das atrações”. Um pouco antes, na desolada Alemanha pós Primeira Grande Guerra, surgiu o movimento expressionista, cujo marco inicial foi O Gabinete do Doutor Caligari, dirigido em 1919 por Robert Wiene, onde o clima e o tratamento das luzes e sombras tornou-se parte fundamental da encenação. Por tudo isto, na segunda metade dos anos 20, o caminho para a construção da idéia de cinema como Sétima Arte estava aberto. O ato definitivo foi a fundação, em 1927, da Academia de Ciências e Artes Cinematográficas de Hollywood e, por conseguinte, a criação, em 1929, de um prêmio aos melhores do ano: o futuro Oscar. A melhor forma de emprestar respeitabilidade a algo, o que quer que seja, é lhe dar verniz acadêmico. Deu certo: hoje, no ramo das artes, o Oscar só perde em importância para o Nobel de Literatura, e mesmo assim ainda ganha em termos de visibilidade.

Não deixa de ser sintomático, e de alguma forma irônico, que no mesmo ano de 1929 passou a vigorar uma autocensura no cinema norte-americano. Para evitar escândalos que pudessem prejudicar seus empreendimentos, o conjunto dos estúdios criou o Código Hays, uma espécie de cartilha moralizante que definia tudo o que poderia ou não poderia entrar em um filme. A indústria do cinema flertava com o status de arte, mas hesitava em arcar com o preço do que este termo tem de perigoso, contestador, preferindo cultivar seu sentido bucólico. Afinal, tratava-se já de uma industria milionária, onde altas somas de dinheiro estavam em jogo. A cadeia de produção era praticamente fordista, em larguíssima escala. Para se ter uma idéia, em 1921, Hollywood colocou no mercado exatamente 854 filmes. Ainda um recorde. Claro que da quantidade sai a qualidade, mas, acima de tudo, um número tão assombroso como este ilustra a natureza eminentemente descartável do produto. Não por acaso a grande maioria dos primeiros filmes não foram preservados. Era prática comum o reaproveitamento de celulóide. A caríssima arte cinematográfica necessitava de tais mesquinharias para conseguir sobreviver. Dinheiro sempre esteve em jogo, sempre deu o tom. Não por acaso o nome que usualmente se dá para tal atividade, em inglês, é show business.
    
Uma célebre reflexão do cineasta Orson Welles, ilustra bem este fato. Ele costumava dizer que se quisesse pintar um quadro bastava uma tela, pincéis e tintas; se quisesse escrever um livro bastava gastar algum dinheiro com papel e caneta; mas se por outro lado quisesse filmar uma única cena teria antes que sair e levantar um milhão de dólares de financiamento. Welles sabia do que falava. Com pouco mais de vinte anos chegou em Hollywood como uma lenda do teatro e do rádio, para assinar um contrato inédito; no qual teria liberdade artística total para fazer seus filmes. A realidade se mostrou menos liberal. Seu projeto de adaptar O Coração das Trevas, de Conrad, foi vetado pelo estúdio. Com os prazos quase se esgotando, começou a filmar o futuro clássico Cidadão Kane, uma espécie de biografia disfarçada do magnata da imprensa Willian Randolph Hearst. O filme do novato revolucionou a técnica cinematográfica da época, mas fracassou nas bilheterias. Em grande parte devido a pressão do biografado, que não gostou da homenagem, e usou seu poder no show business para limitar a exibição da obra. Depois deste tropeço inicial, Welles nunca mais foi o mesmo. Orgulhoso do próprio talento, entrou em atrito com meio mundo e se tornou um pária. Durante décadas pagou para trabalhar. Acabou a vida usando seu status de lenda para conseguir fazer pontas em filmes de gosto duvidoso. Morreu celebrado como gênio, mas “subempregado”. Em poucas palavras, para usar um clichê que não deixa dúvidas sobre o que ocorreu, Orson Welles, um artista na acepção da palavra, foi esmagado pelas engrenagens da indústria do cinema.

Muito mais do que os cineastas, os produtores, os homens do dinheiro, são o motor da indústria. Não é por acaso que o fim da cerimonia da entrega do Oscar é normalmente um anti-clímax. Depois do desfile de celebridades lindas, carismáticas e / ou talentosas indo buscar seus troféus, fazendo seus discursos chorosos ou de protesto, em uma séria de categorias menores, o prêmio de Melhor Filme é entregue a um executivo que quase ninguém conhece. O verdadeiro dono da obra, da bola e da festa. Apesar de todo seu poder, ou devido a ele, os produtores sempre foram vistos pelo senso comum como mercenários sem escrúpulos, que podam a criatividade dos cineastas de acordo com seus interesses econômicos. Um tipo de Mefistófeles para o qual os artistas, os faustos, precisam vender continuamente suas almas para poderem continuar trabalhando. A demonização da figura do produtor ganhou sua tradução definitiva em O Jogador, de Robert Altman, uma crítica ácida aos bastidores do show business.
    
Bem mais sóbrio é o livro O Gênio do Sistema – a era dos estúdios em Hollywood, de Thomas Schatz, publicado no Brasil pela Companhia das Letras. Analisando três grandes estúdios, MGM, Warner e Universal, entre os anos 10 e 60, a chamada Era de Ouro do cinema, o autor procura provar que em grande parte das vezes a autoria de um filme se devia a máquina do estúdio, capitaneada pela figura pragmática do produtor, e não por seus diretores, que eram apenas uma de suas peças. Para a máquina funcionar o combustível era o talento, não apenas dos diretores, mas de toda uma gama de outros profissionais; que eram vistos antes como profissionais do que como artistas. Apenas para ser ter uma vaga idéia da estrutura que se esta rememorando basta lembrar algumas das figuras que os estúdios de Hollywood tiveram em suas folhas de pagamento: Bertolt Brecht, Thomas Mann, Aldous Huxley, Igor Stravinsky, Arnold Schoenberg etc, etc, etc. O próprio Sartre escreveu um roteiro, recusado e hoje lendário, com mais de 800 páginas, sobre Freud, para um filme que seria rodado por John Huston.  
    
O que acontecia é que em algumas felizes ocasiões os ingredientes da alquimia corporativa davam tão certo que se criava a ilusão de que tratava-se de uma obra autoral. Casablanca foi um caso raro, em que do caos nasceu a luz. Diferente foi  ...E o Vento Levou, em que cada passo foi planejado como se fosse uma operação de guerra. Nele trabalharam no mínimo três diretores diferentes: George Cukor, Sam Wood e finalmente Victor Fleming, que assinou o filme e ganhou o Oscar de direção por ele. No texto colaboraram um batalhão de roteiristas, dentre os quais os escritores William Faulkner e F. Scott Fitzgerald. A unidade foi mantida pelo produtor David O. Selznick, que comandou cada etapa da produção com mão de ferro. E de se imaginar que algo semelhante tenha acontecido em Spartacus.
    
Mas, diferente da maioria que aceitava a condição de operário, Kubrick, cuja personalidade autoritária e independente se tornaria mitológica, soube capitalizar o sucesso de seu “filho enjeitado” e passou a centralizar cada vez mais todas as etapas de produção de seus filmes futuros. Na seqüência assinou obras personalíssimas como 2001 – uma odisséia no espaço, Laranja Mecânica e Barry Lyndon. Tornou-se sem dúvida um autor, enfim. Porém, no meio de uma indústria em que as idiossincrasias pessoais não podem jamais ficar acima dos lucros, junto com o status de criador original veio a fama de maníaco por controle, perfeccionista ao extremo, excêntrico, louco etc. Mas, verdade seja dita, Kubrick, com sua liberdade artística duramente conquistada, foi uma exceção que confirmava a regra. Certamente era bom para a industria ter o seu Salvador Dalí particular, aquele que faz o que quer, quando quer, como quer. Atiça a imaginação do público acreditar que existe um outsider dentro do sistema. Um rebelde que faz o melhores filmes, mas passa a carreira praticamente ignorado pela Academia. Sem dúvida uma concessão do sistema. Não fosse assim, não há porque duvidar, o gênio de Kubrick teria o mesmo destino do gênio de Welles. Ademais, Kubrick sabia as regras do jogo que estava jogando. Como afirmou Frederic Raphael, roteirista de seu filme testamento, o fraco De Olhos Bem Fechados, no livro em que narra sua relação com o diretor, ironicamente intitulado De Olhos Bem Abertos: “Ele parece ser um pouco mais humano – comercial – do que esperei que fosse um grande diretor de cinema. Gosta de estrelas porque sabem o que fazem e porque lotam os cinemas”. O mito fica ainda mais a nu quando, adiante, admitir que “ele é, começo a suspeitar, um diretor de cinema que por acaso é um gênio e não um gênio que por acaso é um diretor de cinema”. 

De todo modo, se por um lado a produção fabril dava o tom, por outro não se pode ignorar a contribuição individual de alguns diretores. Mesmo na Era de Ouro, para cada cem paus-mandados havia um John Ford, um Alfred Hitchcock, um Billy Wilder, que sem dúvida possuíam um estilo inconfundível, independentemente do estúdio onde batiam ponto. Alguns, aliás, em vista da fama adquirida, conseguiam ser ilhas de independência no seio da indústria. Charles Chaplin foi o maior nome nesta categoria. Ele atuava, produzia, dirigia, escrevia o roteiro e compunha a música de seus filmes. Não por acaso foi um dos fundadores do estúdio United Artists, em bom português Artistas Unidos, juntamente com Griffith e os atores Douglas Fairbanks e Mary Pickford. Por ocasião da assinatura dos contratos, a imprensa alardeou que “os loucos tomaram conta do hospício”.
    
Não tomaram, mas algumas décadas depois teriam seu simulacro de Comuna de Paris. O livro Easy Riders, Racing Bulls, sem tradução para o português, do jornalista Peter Biskind, faz a crônica desta experiência. Sua tese pode ser resumida da seguinte forma: no final dos anos sessenta os chefões dos estúdios estavam muito velhos e não conseguiam acompanhar a mentalidade da década mais incendiária de todos os tempos. As pessoas fumavam maconha, dançavam rock e faziam sexo livre, e eles ainda insistiam em lhes dar comédias românticas ingênuas e musicais melosos. Era preciso sangue novo para tirar Hollywood do marasmo e salvá-la da concorrência cada vez maior da TV, do abalo comercial da Lei Antitruste e do trauma do Macartismo.
    
A solução veio da França. Nessa mesma época, os críticos da celebrada revista Cahiers du Cinéma, dentre os quais François Truffaut, Claude Chabrot e Jean-Luc Godard, criaram a chamada “política do autor”. Segundo esta tese, os diretores, eram sempre, em última análise, os criadores dos filmes. De uma forma ou de outra, alguns mais do que outros, sempre deixam sua marca no produto final. Os executivos da mais poderosa indústria cinematográfica do mundo decidiram comprar essa idéia e, literalmente, pagaram para ver. Experimentaram dar maior poder às mentes criativas que surgiam. Muitas delas vindas da universidade, dos cursos de cinema. Jovens que entendiam de sexo, de drogas e de rock’n’roll, porque viviam isto, exatamente como as novas platéias. E, principalmente, jovens que estavam encantados com as novidades estéticas que ocorriam no cinema intelectualmente sedutor e quase amador da Europa, como o neo-realismo italiano e o Nouvelle Vague francês, criado pelos mesmos críticos do Cahiers du Cinéma.
    
Assim, a década seguinte, os anos 70, foi “a década dos diretores”. Nesta época surgiram nomes como Francis Ford Coppola, Martin Scorsese, Steven Spielberg e outros, impondo seus estilos e modos de ver a Sétima Arte. Para Biskind, os treze anos entre a produção do policial Bonnie & Clyde, de 1967, e do faroeste épico O Portal do Paraíso, de 1980, foram marcados por uma onda de liberdade criativa até então inédita no cinema. E o mais interessante é que havia platéias dispostas literalmente a pagar para ver o resultado disto. Mais do que nunca o cinema foi questionador, contundente, autoral. Mais do que nunca foi arte.    
    
Tudo ruiu com o fracasso retumbante de O Portal do Paraíso, de Michael Cimino, que, de um modo até simbólico, levou a United Artists à falência; devolvendo à máquina da indústria, esta entidade sem rosto, um tipo de Leviatã, seu poder de decisão perdido. Um fato importante, sem dúvida, mas é importante notar que mesmo antes o cinema já dava mostras de que caminhava para outro rumo: o cinema pipoca. O marco foi Guerra nas Estrelas, de George Lucas, sucesso estrondoso de 1976. Segundo o crítico e cineasta Peter Bogdanovich “Guerra nas Estrelas foi o filme que comeu o coração e a alma de Hollywood”. Lucas se defendeu perguntando: “Por que as pessoas gostam de ver filmes comendo pipocas? Por que o público é tão estúpido? Não é minha culpa”. De fato não é, uma vez que Guerra nas Estrelas é uma aventura de primeira linha, muito bem urdida, e sua continuação, O Império Contra-ataca, uma ficção-científica inteligente, fundadora de uma mitologia moderna que remonta às tragédias gregas. O mesmo se pode dizer de alguns seus filhos diretos: Caçadores da Arca Perdida, Alien – o 8º passageiro, Matrix e O Senhor dos Anéis. Cinema de entretenimento não é necessariamente sinônimo de imbecilidade.  

Ademais, é um equívoco atribuir a paternidade do chamado “filme evento”, o blockbuster, aquele planejado detalhadamente para fazer sucesso durante um verão, para depois ser descartado, a Lucas individualmente ou a Hollywood do fim dos anos 70 como um todo. Afinal, “filme evento” já era o que Cecil B. de Mille fazia nos anos 40 e 50. Os carnavalescos Sansão e Dalila e Os Dez Mandamentos são a prova. Sempre se vendeu pipoca nos cinemas. O problema é que na atualidade a tendência se agigantou, virou um monstro. O desejo de agradar ao público a qualquer custo, dando-lhes o que se imagina que querem, tornou-se um câncer e o espetáculo pirotécnico tomou o lugar da narrativa. Como resultado pérolas como Blade Runner, foram retalhadas por conta de algumas vagas opiniões extraídas à fórceps de platéias teste. Os filmes passaram a ser planejados por equipes de marketing, não por cineastas que apenas executam as decisões tomadas. As vezes a estratégia dá certo e rende filmes passáveis ou bons, como o  primeiro Batman e a divertida série De Volta para o Futuro. Mas quase sempre o resultado é desastroso, rendendo bizarrias como o ridículo Batman & Robin e o acéfalo As Panteras. A lista, nos dois casos, é quilométrica.
    
Porém, o efeito mais nocivo da cultura do blockbuster foi que ela ajudou a sedimentar a ilusão de que existem dois tipos de cinema. Não o cinema bom ou ruim, mas o cinema do bem e o cinema do mal. Ou seja: o cinema artístico e o cinema comercial. O cinema para as elites intelectuais sensíveis e o cinema para as massas ignaras. Para se compreender a lógica ilógica deste dualismo cinematográfico basta levantar as orelhas e escutar algumas conversas de certos grupos de freqüentadores de festivais de cinema ou salas de exibição alternativas. Grosso modo falando o cinema do bem seria aquele feito na Europa, de preferência na França e em segundo lugar na Alemanha (o russo saiu de moda, o dinamarquês entrou). Como opção existem as produções originarias de países pobres (menos do Brasil), sobretudo os iranianos. É bom que o filme seja curto ou o contrário, muito, muito longo. Sua narrativa deve ser fragmentada ou teatral, com ritmo lento, quase sonolento; ritmo ágil significa alma vendida. Para os diálogos existem dois modelos igualmente considerados: ou se é tagarela ou quase mudo. Os temas tratados devem sempre envolver política ou minorias, vistas sob a ótica da esquerda; já que a direita e o centro são fascistas e portanto indignos de apreciação (com exceção dos filmes de propaganda nazista de Leni Riefenstahl, mas deixando claro que não se concorda com nada do que esta vendo). Quanto aos aspectos técnicos, quanto pior melhor: quanto mais a câmera tremer e cortar cabeças, mais artístico o filme vai ser. Se o final do filme for incompreensível, significa que ele é muito bom. Se por outro lado o enredo inteiro for incompreensível, significa que se trata de uma obra-prima.     
    
O cinema do mal, por sua vez, é feito nos Estados Unidos e custa muito caro. Só.
  
Podem parecer irresponsáveis as afirmações acima, mas por incrível que pareça elas são uma caricatura bastante fiel da visão de boa parte do que se costuma designar como a fatia intelectualizada do público. As causas disto são muitas, vão desde um tipo estranho de resistência política / cultural até a simples vontade individual de parecer moderno, antenado, na moda. A maioria se esquece que as tais duas formas de se fazer e ver cinema freqüentemente se amalgamam. Esquecem que o Festival de Cannes virou uma feira livre. Esquecem que o maior e melhor festival de cinema alternativo é norte-americano, o Sundance; capitaneado pelo astro Robert Redford. Que boa parte dos bons diretores europeus fizeram o melhor de suas carreiras dentro do sistema de Hollywood. Que os melhores mise en scene do Velho Mundo nada tinham de obscuros, na maioria das vezes eram narradores cristalinos, no que se inclui Federico Fellini, Roberto Rosselline, Jean Renoir, Vittorio de Sica, Fritz Lang; além de outros erroneamente considerados impenetráveis como Michelângelo Antonioni, Ingmar Bergman, F. W. Murnau e até mesmo Tarkovsky, apesar do sono. Ainda afogados no clichê Godard, ignoram, ou fingem ignorar, o fato de que o mesmo diretor do amado O Fabuloso Destino de Amélie Poulain, Jean-Pierre Jeunet, fez o caça-níquel Aliens – A Ressurreição, nos Estados Unidos. Hoje, na Europa, os filhos da Geração de 68, que discutia Godard, Marx e Freud em mesas de bar, estão assistindo coisas como o cartunesco Astérix & Obélix Contra César, a boa aventura kunf-fu O Pacto dos Lobos, o longo clipe Corra Lola, Corra, a comédia bem sacada Adeus, Lênin e a comédia pastelão lírico A Vida é Bela. Um cinema mais para Tarantino do que para Pasolini.
  
A respeitada crítica norte-americana Pauline Kael (uma espécie de Bárbara Heliadora do cinema, que de tão temida e odiada mereceu uma “homenagem” na fantasia Willow na Terra da Magia, emprestando seu sobrenome ao vilão), condenava a tendência de se forçar a identificação do produto cinematográfica com sendo Grande Arte através do uso de uma linguagem propositadamente, e exageradamente, obscura. Nos ensaios de seu livro Criando Kane, ataca a intelectualização da crítica especializada. Defende o prazer de se assistir um filme com a liberdade de “desfrutar do lixo como se fosse arte”. De fato, para a propagação da inversão de valores descrita acima, mais determinante do que os vícios da platéia são os vícios da crítica e dos realizadores, nesta ordem. Muitas vezes a crítica cinematográfica, talvez para justificar sua existência, procura chifre em cabeça de cavalo e, por incrível que pareça, ou faz parecer, encontra. Como resultado vemos filmes absolutamente descartáveis como Madame Satã ou Minority Report, se transformarem derrepente em obras-primas elogiadas por meio mundo, pelas razões mais estapafúrdias. Da mesma forma a vontade que boa parte dos cineastas tem de parecerem artistas inovadores colabora com esta divisão dualista do cinema. Para cada P. T. Anderson que tira da cartola sacadas brilhantes de realismo fantástico, como a chuva de sapos em Magnólia, existem dezenas de indivíduos que nos fazem engolir sapos como se fossem originalíssimos achados metafóricos. Optam pelo complicado, ao invés do simples. Mas, como se sabe, o gênio simplifica.
    
Em seus tempos de crítico, quando escrevia para a revista Cahiers du Cinéma, o ótimo diretor francês François Truffaut afirmou que: “Não temos coisa alguma a aprender com os cineastas de gênio se eles se chamam Eisenstein ou Orson Welles, pois é precisamente o gênio que os torna inimitáveis, e arriscamo-nos a cair no ridículo ao tentar, como eles, colocar a câmera no chão ou no teto. Em contrapartida, temos tudo a aprender com os cineastas americanos de talento como Samuel Fuller, que colocam a câmara ‘à altura do olho humano’”. Não dando ouvidos a este sábio conselho a obsessão pelo “artístico” se tornou uma praga. Tudo o que foi original com Luis Buñuel, em seus loucos dois primeiros filmes surrealistas, Um Cão Andaluz, de 1928, e L’age d’or, de 1930, virou pretensão intelectualoide vazia nas últimas décadas. A máxima “uma câmera na mão e uma idéia na cabeça”, deixou de ser um manifesto de liberdade para se converter em desculpa.     
    
Infelizmente o criador da máxima, Glauber Rocha, foi um dos porta-vozes desta perspectiva. Ele, que fez fama com a narrativa de cordel sofisticada de Deus e o Diabo na Terra do Sol, terminou a vida pregando que o cinema é algo para ser visto e sentido, sendo portanto uma mera convenção que um filme deva ter começo, meio e fim. No recente documentário Glauber – Labirinto do Brasil, o cineasta aparece falando em um estranho idioma, mistura de italiano, espanhol e português, que não adianta lhe perguntar o sentido de suas últimos trabalhos, pois ele mesmo não sabe e, se subentende, nem precisa saber. Foi mal sucedido em sua defesa de tese. O seu filme A Idade da Terra, acabou sendo um fracasso de público e nem a crítica aduladora engoliu a obra sem pé nem cabeça. Mal perdedor, Glauber quis bater em Louis Malle depois de ser derrotado por ele no Festival de Veneza de 1980. Chamou-o aos berros de “diretor de segunda categoria”, acusando a direção do evento de favorecer o comércio em detrimento da arte, somente porque Malle insistiu em contar uma história coerente em Atlantic City e foi premiado por isto. 

Diferente do brasileiro, Eisenstein jamais deixou de se preocupar com a dramaturgia cinematográfica. Seus textos teóricos em que discute este assunto foram organizados em dois volumes, O Sentido do Filme e A Forma do Filme, publicados no Brasil pela editora Jorge Zahar. Neles o cinema é retratado como “a mais internacional das artes”, na medida em que a montagem de um filme deve possuir uma clareza de intenção universal, ser compreensível para qualquer um, estimulando a razão e o sentimento do espectador. Muitas das produções artísticas contemporâneas, ancoradas no blefe pós-moderno, optam por eliminar esta inteligibilidade essencial do objeto filme, em nome de ideais estéticos que nunca ficam muito claros, principalmente porque ninguém entende nada do que se passa na tela. O resultado são filmes herméticos ao extremo, fechados em si mesmo. Para combater o mercado, e sedimentar a autoria como fato, giram em torno no umbigo do diretor. De tão pessoais, perdem qualquer traço de comunicabilidade universal, e justamente por isto assumem ares de portadores de verdades obscuras, acessíveis apenas para alguns poucos iniciados. Bobagem, claro.
    
Mesmo depois de esgotados por Andy Warhol, exemplos recentes deste gênero não faltam. Do quintal de Hollywood veio o caótico Cidade dos Sonhos, de David Lynch, que nos momentos de lucidez é capaz de fazer maravilhas como Veludo Azul e Coração Selvagem. Muitos perdem tempo tentando decifrar o turbilhão desenfreado de signos que brotam de Cidade dos Sonhos. Poucos sabem que o filme é uma colcha de retalhos porque não passa da reunião de algumas cenas do que deveria ter sido um seriado cancelado antes de ir ao ar, acrescidas de mais uns bons trinta ou quarenta minutos de seqüências novas. Portanto, apenas reciclagem criativa de sobras de filmagens. A direção de atores é impecável, mas, convenhamos, sentido não há nenhum. Com o fio da meada perdido, nem o fio de Ariadne daria jeito neste labirinto.  
   
Diretamente do Brasil vem Filme de Amor, de Júlio Bressane, festejado diretor underground de Matou a Família e foi ao Cinema, de 1969. Ganhador de um festival em Brasília, Filme de Amor é uma esfinge banguela. Exige ser decifrado, mas de tão fraco não consegue devorar ninguém. Mera masturbação intelectual, faz a festa de quem gosta de posar de entendido em cinema. Permite as maiores elucubrações, qualquer coisa que se concluir vai ser correta, uma vez que nele tudo e alegórico e de livre interpretação. É ótimo para impressionar garotas no papo cabeça durante o primeiro encontro. A sensação que se tem é a de que Filme de Amor não passa da reunião aleatória de diversas imagens que Bressane colecionou e decidiu colocar juntas. O famoso samba do crioulo doido. Um consolo: a fotografia é razoável e a cena final é boa. Mas isto é muito pouco diante de duas horas de enrolação.
    
O cinema esta em crise permanente, desde sua criação. Do advento do som à era das locadoras, a indústria teve que se reinventar continuamente para sobreviver. O tempo tornou-a multifacetada e mesmo o dito cinema artístico nada mais é do que mais uma fatia do mercado. Ainda assim, e por sua adaptabilidade, o cinema foi o modo de expressão mais influente do século XX (no XXI encontrou a Internet pela frente). Sua importância pode ser medida por sua capacidade de criar tendências, ou no mínimo de divulgar tendências emergentes. Neste sentido tornou-se clichê lembrar que o fato de Marlon Brando haver usado calças jeans e jaqueta de couro em O Selvagem, gerou uma revolução cultural na juventude muito mais visível e permanente do que todos os livros de Marx juntos. Revolução burguesa e silenciosa. E por isto mesmo faz-se necessário admitir que o cinema é antes de tudo indústria. A figura do autor existe, mas é rara e só acontece em situações muito especiais, sempre como párias ou concessões da indústria. E mesmo nestes casos, repito, as exceções confirmam a regra. Neste ambiente hostil a arte sobrevive como uma variável necessária, perceptível nas contribuições individuais feitas em um produto corporativo. Produções do tipo “filme dentro do filme”, como A Noite Americana, de Truffaut, O Estado das Coisas, de Wins Wenders, Coração de Caçador, de Clint Eastwood, e até mesmo Dirigindo no Escuro, de Woody Allen, e Ed Wood, de Tim Burton, são pródigas em retratar esta realidade.

Porém, o cinema não esta sozinho na selva do capitalismo selvagem. O século XX fez de todas as artes tradicionais produtos de consumo. Música erudita é vendida na prateleira ao lado da de música pop. Clássicos da literatura ao lado de livrecos de aeroporto. A mesma companhia de teatro que monta Falabella hoje, monta Ibsen amanhã. Paulo Coelho na Academia. Ninguém mais é inocente. O que houve é que o cinema, por ser de invenção recente, intrinsecamente ligada ao capital e a tecnologia, ganhou papel de Judas neste cenário. Mas, acredito, como em qualquer outra arte, o valor estético de uma da obra cinematográfica só pode ser medido em função de sua capacidade de permanência. Quanto a isto, Glauber Rocha fez uma interessante reflexão, quando afirmou que: “Os grandes filmes, como as grandes obras da pintura, continuarão passando no cinema – museus ou salas de arte – é assim com O Encouraçado Potemkin, que será sempre mais visto que James Bond, porque continua se exibindo a trinta anos e, se há dois milhões que vêem Bond em um mês, há dez milhões que vêm vendo O Encouraçado todos esses anos”. Incluindo, talvez, mas não necessariamente, a garota gordinha imaginada por Coppola.    


leia mais...
 < 1 2 3 4 5 6 7 8 >  Último ›
É permitida a reprodução total ou parcial sem autorização prévia dos editores, desde que citada a fonte.
© Copyright 2009 — Revista Bula — Literatura e Jornalismo Cultural — editorial@revistabula.com


renovatio