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POR EM 13/04/2009 ÀS 03:01 PM

Senhores das letras

publicado em

Das perversidades machadianas à perplexidade buarqueana, o escritor brasileiro vive enredado nas memórias. Há uma dificuldade enorme dos letrados em entender quem são aqueles outros que vivem nas ruas, sobrevivem de favores, trabalham na informalidade e moram em locais insalubres 

Eu me lembro das coisas
antes delas acontecerem...
Guimarães Rosa, Grande sertão: veredas (1956)
 
É esquisito ter lembranças de coisas
que ainda não aconteceram, acabo de
lembrar que Matilde vai sumir para sempre.
Chico Buarque, Leite derramado (2009) 
 

O escritor dá forma à memória desordenada: uma brincadeira de criança, a alegria na fazenda, a passagem para a vida adulta, o rito de passagem intelectual, o desgosto pela convivência em meio à gente ignorante, a situação então incompreensível e agora entendida do país. O que são ruínas pequenas das lembranças serve de matéria para narrativas longas. Nada garante que tudo não vai continuar arruinado. O desconforto inicial torna-se prazer, e o autor dana a escrever, falar, interpretar. Quem fala é o indivíduo que não se considera parte de um extrato da sociedade. Ele decide qual o seu lugar diante dos outros.

O letrado brasileiro mantém uma relação tensa com os iletrados. Não abre mão do que tem, rejeita a compartilhar – ou melhor, evita comunicar com. Escrever significa ter o controle das representações, visões, interpretações disseminadas em toda sociedade. Quem escreve, manda. Contra isso, segundo Willi Bolle, surge a novidade do romance “Grande Sertão: Veredas”, que é um diálogo realizado na forma de um monólogo imenso. Já velho e latifundiário, o personagem Riobaldo conversa com um sujeito citadino – a cidade seria o espaço para a modernidade, as letras, a civilização. Cria-se finalmente um diálogo.

A literatura brasileira é feita por escritores que falam muito de si e assumem a missão de representar o outro iletrado. É um fardo para quem acha que nasceu para guiar a nação. O outro fala muito pouco, quase nada escreve. Em seus melhores momentos, esse narrador à brasileira problematiza a relação dos poucos que possuem todas as letras com os muitos que tiveram escassas palavras. Quando atingem momentos mais altos, os letrados desvendam suas próprias baixezas, que é a própria má-formação do país e dão voz aos iletrados para expor outra visão de mundo. Mas pouco espaço existe para o sem-letra escrever e exibir sua representação da vida.

Senhores perversos

A inovação de Machado de Assis foi criar um narrador diferente em seus romances de segunda fase, a partir de “Memórias Póstumas de Brás Cubas”. As primeiras obras já traziam o realismo e o quadro histórico de uma sociedade escravista baseada no favor, conforme assinala Roberto Schwarz. O novo narrador machadiano é o sujeito que escreve, se posiciona socialmente e sente um gozo imenso ao contar suas perversões. Brás Cubas fala de tudo, se contradiz. A cada capítulo, acha que pode mudar de opinião. O tom jocoso é sucedido, na mesma página, pelo ar solene e grave.

O narrador machadiano atinge um refinamento em “Dom Casmurro”. A atitude perversa continua a mesma de Brás Cubas, mas o personagem Bentinho traz a novidade da dissimulação. Desaparece o sujeito grotesco e espalhafatoso. Agora, tem o controle do mundo o indivíduo que sabe jogar com a teatralização da vida. O primeiro capítulo mostra os objetivos de Bentinho ao escrever: “Vou deitar ao papel as reminiscências que me vieram vindo. Deste modo, viverei o que vivi, e assentarei a mão para alguma obra de maior tomo”. Em plena época do realismo/naturalismo, Machado de Assis lança a “a ficção de si mesmo” de um personagem que conta suas memórias.

Emile Zola defendia que a escrita realista deveria ter os métodos do cientista que observa as coisas e cria um espelho da realidade. Machado vai contra essa orientação e tem consciência de que a escrita é uma construção, algo manuseado, sobretudo numa narrativa memorialística. No capítulo “Uma ponta de Iago”, de “Dom Casmurro”, o narrador apresenta seu estilo de filtrar o mundo pelas palavras: “O discurso humano é assim mesmo, um composto de partes excessivas e partes diminutas, que se compensam, ajustando-se. Por outro lado, se entendermos que a audiência aqui não é das orelhas, senão da memória, chegaremos à exata verdade”.

As memórias de Bentinho podem se dar o luxo de relatar assim o desfecho do motivo maior de sua escrita: “A mãe — creio ainda não disse que estava morta e enterrada. Estava; lá repousa na velha Suíça”. A “mãe” é Capitu, por quem o narrador se apaixonara, casara e sentira ciúmes intermináveis. No entanto, o narrador a trata com desdém, que é um traço dos letrados brasileiros em relação aos iletrados. Meio abobalhado no início do livro, o velho e silencioso Bentinho vai sofisticando as técnicas de dissimulação que, segundo ele, seria a principal característica negativa de Capitu.

A perversidade machadiana reaparece em Graciliano Ramos, um autor que, a princípio, trata apenas do mundo rural e está longe dos jogos de sobrevivência nas cidades. O personagem Paulo Honório, de “S. Bernardo”, dá continuidade a Bentinho ao escrever obsessivamente a respeito do ciúme e da propriedade. Já no início do romance, ele fala de sua divisão social da escrita. Mas logo desiste e assume ele mesmo a tarefa. O controle das letras é completo: “Essa conversa, é claro, não saiu de cabo a rabo com está no papel. Houve suspensões, repetições, mal-entendidos, incongruências, naturais quando a gente fala sem pensar que aquilo vai ser lido. Reproduzo o que julgo interessante. Suprimi diversas passagens, modifiquei outras”.

O “pio da coruja” ativa a memória de Paulo Honório, que passa a relatar a vida de fazendeiro e de marido de Madalena. “É o processo que adoto; extraio dos acontecimentos algumas parcelas; o resto é bagaço”, diz ele. Esse narrador transforma justamente os outros em bagaços. O ciúme pela esposa (uma letrada, em um meio rústico e tradicional) provoca o descontrole. Capitu e Madalena são mulheres esclarecidas que desagradam os senhores de todas as letras. Eles não conseguem controlá-las e usam a violência da escrita para impor uma versão dos acontecimentos. A elas, cabe o desfecho da extinção, da morte por tristeza, para que se mantenha a situação obscura e estagnada na sociedade. 

Diálogo difícil

Guimarães Rosa traz a novidade dos narradores letrados que problematizam a difícil relação com os iletrados. Não há mais o sujeito isolado em casa, escrevendo suas memórias do tempo perdido. O que surge é um diálogo entre grupos sociais que foi interditado e, agora, pode finalmente se realizar. Os conhecidos neologismos do autor fundem as palavras de várias línguas estrangeiras com as expressões do interior de Minas Gerais. A escrita rosiana é uma reinvenção da fala do interior do país, uma recriação que mistura a oralidade dos iletrados à erudição dos letrados. Rosa não espelha o linguajar sertanejo, como seria de esperar numa narrativa realista. Ele a transfigura.

“O problema da falta de diálogo social é trabalhado nessa obra [Grande Sertão: Veredas] em todos os níveis: desde a situação narrativa, que confronta um narrador sertanejo e um ouvinte letrado, passando pela história contada, com a fala de chefes políticos e de pessoas do povo, até a representação de uma nação dilacerada e a utopia da invenção de uma nova linguagem”, nota Willi Bolle. Esse diálogo complexo dentro da sociedade brasileira é também o ponto central de outros contos de Guimarães Rosa, como “Famigerado” e “Meu tio o Iauaretê”. Tais narrativas indicam uma possibilidade de mudança social. Outra forma de dialogar poderia existir na cultura brasileira.

O otimismo dos anos 1950 vai se desfazendo na medida em que os anos avançam no Brasil. O papo fértil entre as diversas classes foi a utopia anterior ao Golpe de 1964, com os intelectuais se aproximando do povo, do “homem simples”. Os primeiros anos da ditadura militar se concentraram justamente na tentativa de rompimento do laço que se fortalecera desde os Centros Populares de Cultura (CPC) até a “câmera na mão” do Cinema Novo. Só partir de 1969 é que, sob a fantasia de ameaça comunista, os militares adotaram a política de encerrar, de uma vez por todas, o diálogo dos letrados com os iletrados.
 
A conversa impossível do intelectual com o outro aparece de maneira formidável em “A Hora da Estrela”, de Clarice Lispector. O livro não é a história da nordestina pobre. É a narrativa da dificuldade do escritor em construir a personagem que vive na mais absoluta pobreza. O narrador Rodrigo SM pode exercer todas as perversidades para criar Macabéa: “Como é que sei tudo o que vai se seguir e que ainda o desconheço, já que nunca o vivi? É que numa rua do Rio de Janeiro peguei no ar de relance o sentimento de perdição no rosto de uma moça nordestina”. Ele quer aparentar o controle total: “É um relato que desejo frio. Mas tenho o direito de ser dolorosamente frio, e não vós”.

Em alguns trechos, o criador se identifica com a criatura, afinal ele é um escritor e ela, uma datilógrafa. Ambos trabalham com a escrita. “Quero neste instante falar da nordestina. É o seguinte: ela como uma cadela vadia era teleguiada exclusivamente por si mesma. Pois reduzira-se a si. Também eu, de fracasso em fracasso, me reduzi a mim mas pelo menos quero encontrar o mundo e seu Deus”. No fim, de desgraça em desgraça, o narrador condena o destino de Macabéa. Ela morre atropelada, e ele lembra que chegou o tempo de morangos. Não tem mais conversa, e tudo se acaba.

Eu, o supremo

O novo milênio é a continuação dos 30 anos anteriores, do final do século XX. Valoriza-se o individualismo. O consumo orienta os desejos. O conhecimento (as letras?) vira insumo para a criação de produtos. O dinheiro volátil viaja por computadores, em redes mundiais que conectam sujeitos ilhados.

Em ambiente de tamanha desagregação, dois memorialistas foram as duas melhores novidades da literatura brasileira recente. Bem ajustados à tradição cultural do país, seus narradores escrevem, contam suas memórias à beira da morte e desvendam as artimanhas dos letrados para controlar a sociedade. Estamos em casa com esses velhinhos perversos, herdeiros de Bentinho e Paulo Honório.

Em “Heranças”, Silviano Santiago dá voz a Walter, um senhor que se muda de Belo Horizonte para Rio de Janeiro de hoje para viver os últimos dias de vida. As memórias jorram: “Não importa se tenha de me valer de recursos artificiais na recordação e na descrição do tempo presente. Aceite, pois, que eu busque apoio na muleta da memória voluntária. Sairemos ganhando Garanto-lhe”. Seguem daí as desventuras de um homem com mulheres virgens, prostitutas, abortos preventivos, negócios com imóveis e na bolsa de valores. A quem deixar tanto dinheiro? Não importa; afinal o dinheiro só serve para ser acumulado no Brasil, sem destino. A herança, na verdade, é o próprio relato do livro.

O legado de outro memorialista recente difere da abundância de dinheiro de Walter. Em “Leite Derramado”, de Chico Buarque, o personagem Eulálio está num hospital, aos 100 anos, sem um tostão dos recursos e sem a glória do passado. Só lhe resta narrar a história desde os ancestrais portugueses ao atual tataraneto traficante de drogas. É a rememoração do lento declínio de como ele e o Brasil deixaram o leite derramar. “Eulálio Montenegro d´Assumpção, 16 de junho de 1907, viúvo. Pai, Eulálio Ribas d´Assumpção, como aquela rua atrás da estação do metrô. Se bem que durante dois anos ele foi uma praça arborizada no centro da cidade, depois os liberais tomaram o poder e trocaram seu nome pelo de um caudilho gaúcho”, destaca o narrador, sobre o passado importante de sua família.

O senhor exemplar do passado, no entanto, vai parar num subúrbio carioca, pouco antes de agonizar no hospital no ano de 2007. Numa das melhores passagens, ele e a filha Maria Eulália chegam ao bairro longínquo, que havia sido um local de “clubes campestres e chácaras aprazíveis”. Mas hoje: “Perplexa, Maria Eulália olhava aqueles homens de calção à beira da estrada, as meninas grávidas ostentando as panças, os moleques que atravessavam a pista correndo atrás de uma bola. São os pobres, expliquei, mas para minha filha eles podiam ao menor se dar o trabalho de caiar suas casas, plantar umas orquídeas”.

Das perversidades machadianas à perplexidade buarqueana, o escritor brasileiro vive enredado nas memórias. Há uma dificuldade enorme dos letrados em entender quem são aqueles outros que vivem nas ruas, sobrevivem de favores, trabalham na informalidade e moram em locais insalubres. Os melhores momentos da literatura brasileira estão justamente nos mergulhos pelos baixos instintos dos endinheirados e pelas vidas degradadas dos empobrecidos.
 


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POR EM 06/04/2009 ÀS 05:57 PM

Os Nazistas estão de volta

publicado em

Frente ao horror do extermínio parece que nos tornamos condescendentes com todas as outras vilanias, todas as outras formas de humilhação e terror levadas a cabo pelo regime nazista. Não deveria ser assim. A ditadura hitlerista e sua ideologia fundada no ódio, no medo e na discriminação, muito antes de iniciar a matança já era um ataque infame contra a espécie humana 

No dia 20 de julho de 1944 uma tentativa de matar Hitler é levada a cabo numa conspiração de oficiais do exército alemão – assunto de que trata a mais recente produção cinematográfica do astro Tom Cruise, “Operação Valquíria”. Suponhamos que naquele momento a Wehrmacht estivesse em ofensiva vitoriosa contra as forças aliadas. Apenas suponhamos, porque, como é sabido,  não era o que estava acontecendo.

Primeira cronologia

Uma rápida cronologia de fatos militares e políticos mostra que: em junho de 1944, os Aliados haviam desembarcado na costa da Normandia; seis meses antes, em dezembro de 1943, Roosevelt, Churchill e Stalin já acordavam sobre a divisão da Alemanha no pós-guerra; no ano anterior (pouco mais de dois meses após o desembarque Aliado na Sicília) Mussolini fora apeado do poder na Itália. O ano de 1943 se iniciara, na verdade, com claros sinais dos rumos desfavoráveis que a guerra havia tomado para os alemães: em meados de janeiro, americanos e ingleses já se imaginam capazes de exigirem a rendição incondicional da Alemanha e o fazem (Conferência de Casablanca). Dias depois, o Sexto Exército alemão (duzentos e cinqüenta mil soldados) capitula em Stalingrado.

Recuando ainda mais no tempo, os prenúncios da derrota militar já são visíveis nas crises no interior do corpo militar alemão e, em setembro de 1942, após discordâncias graves com o Estado Maior do Exército, Hitler se vê obrigado a destituir seu Chefe, Franz Halder, substituindo-o pelo general Kurt Zeitzler. Em meados de 1941, portanto três anos antes da fatídica data que inicia este artigo, com o fracasso da blitzkrieg alemã no Leste, a unidade do exército hitlerista já não era a mesma de quando invadiu a Techcoslováquia e meses depois a vizinha Polônia, dando início à expansão “manu militari” do domínio alemão da Europa e à II Grande Guerra.

Portanto, a questão inicial é: se ao invés da profunda crise relatada acima estivesse a Wehrmacht em ofensiva e somando conquistas haveria entre os seus descontentamento suficiente para produzir o atentado daquela data contra a vida do líder nazista? DUVI-DÊ-Ó-DÓ!

Ou, parafraseando Tadeusz Borowski (citado por Imre Kertész), que perguntava “o que o mundo vai saber de nós (os judeus) se os alemães vencerem?”: o que a Wehrmacht estaria pensando de Hitler se sua estratégia expansionista estivesse apresentando resultados positivos?

Segunda cronologia

Na eleição presidencial de 13 de março de 1932, Hitler obtém 30,1% dos votos dos seus concidadãos. Em finais de julho, os Nacional-Socialistas conseguem o apoio de 37,3% dos eleitores e, com duzentas e trinta cadeiras, se torna o maior partido do Reichstag. Seis meses depois Hitler é nomeado Chanceler do Reich.

Mais alguns dias e suspende os direitos civis, promove “prisões em massa de comunistas e outros oposicionistas de esquerda”. Em março os Nazistas aumentam sua votação, comemoram o seu crescimento no Reichstag para duzentas e oitenta e oito cadeiras – e Himmler anuncia a criação do primeiro campo de concentração (não se trata ainda de campo de extermínio), em Dachau. O início do mês seguinte é coroado pelo “boicote nacional às lojas judaicas”. Em maio, os sindicatos são compulsoriamente dissolvidos, os livros de autores “não-alemães” são queimados nas ruas e nos pátios das universidades, o Partido Social-Democrata (SPD) é banido, o Partido Comunista já o fora sem nenhuma formalidade,  e nas próximas semanas os demais partidos são dissolvidos. Em 14 de julho de 1933, uma lei proíbe a formação de outros partidos além do Nacional-Socialista e “estabelece o Estado unipartidário” – na eleição que se segue (12 de novembro) os nazistas conquistam 92,2% dos votos dos alemães.

Está implantada a ditadura nazista – ditaduras são aqueles regimes que rasgam as Constituições em vigor e, amparados na força das armas (nas forças armadas do país e, como na Alemanha dos anos trinta, em outros agrupamentos armados), passam a exercer o poder de acordo com as determinações de um indivíduo e seus asseclas, na qual se encontram, evidentemente, seus camaradas de armas.

O Estado nazista, portanto, é resultado da livre escolha do povo alemão, manifesta por meio das tradicionais eleições democráticas onde, de nenhuma maneira, os nazistas escamotearam suas intenções e métodos, que logo em seguida se transforma numa ditadura com significativo apoio popular, não apenas da indústria e dos grandes proprietários rurais, e decidido amparo nas FFAA – sem o qual, evidentemente, não poderia fazê-lo.  Esses militares, na verdade, estão prenhes de orgulho nacional pelo reerguimento  da máquina de guerra da velha Prússia.

Portanto, apesar de eventuais e convenientes sugestões em contrário, o nazismo não é uma aberração. Seu vínculo com as FFAA, assim como o suporte que ali encontra, é expressão de uma relação aguda com a realidade alemã. Seus tentáculos estão bem fincados no corpo social e é dali que extrai a seiva da qual se alimenta.

Seja como for, desde a chegada ao poder uma longa década cheia de acontecimentos notáveis ainda está por vir antes que um grupo de bravos oficiais prussianos resolvam liquidar o repugnante ditador.

A data do estabelecimento do primeiro campo de concentração está fixada nos anais em 20 de março de 1933 – espécie de ato de abertura da ditadura nazista. A partir dali estava institucionalizada a perseguição (a caça) a todos aqueles que à esquerda se opunham ao regime hitlerista e, logo adiante, aos judeus, ciganos, etc. Ainda serão necessários mais cinco anos antes que uma desarmonia surja no seio das forças armadas. E, apesar das inúmeras atrocidades que vinham sendo cometidas – prisões em massa, tortura, espancamento, assassinato “de incontáveis oponentes políticos”, queima de livros, criação de campos de concentração, liquidação na prática do sistema legal do Estado com a submissão radical do corpo judiciário à vontade do ditador e “às exigências do poder executivo policial”, etc, etc –  não serão elas a causa da cizânia. Na realidade, em 18 de agosto de 1938, o Chefe do Estado-Maior, Ludwig Beck (interpretado no filme de Cruise por Terence Stamp), “apresenta sua demissão, em virtude da intenção de Hitler” invadir a Tchecoslováquia (o que acaba fazendo, em março do ano seguinte).

A Wehrmacht

É claro que desde o princípio Hitler dedicará especial atenção aos militares, tentando cativá-los. Assim, logo após sua consagração como chanceler inicia uma agressiva ofensiva em direção às instituições republicanas, mas o exército, este, ele manterá intacto. Nenhum “expurgo, nenhum assalto, nenhuma interferência” é tentado ali. Pelo contrário, desde antes da chegada ao poder, o contato com os militares é aprofundado em cima do “compromisso com o rearmamento maciço..., (e o) esmagamento da esquerda”.

Por outra parte, como diz Ian Kershaw em seu estudo sobre o ditador, “não é de surpreender... que, quando a liderança militar começou a se preocupar com a possível subordinação do exército a uma futura milícia dominante, formada pela SA (que contava com 2,5 milhões de homens no começo de 1934), Hitler tenha-se mostrado disposto, em julho de 1934, a agir com extrema desumanidade contra parte de seu próprio Movimento”.

Submetida (brutalmente – e esta é uma característica do regime desde as primeiras horas, aliás, jamais escamoteada) a SA, praticamente todas as rusgas entre o chefe nazista e o oficialato alemão estarão resumidas a desentendimentos técnicos (referentes a táticas e estratégias militares), nunca a questões de princípio. Inclusive quando, iniciada a campanha contra a Rússia stalinista, compromete diretamente todo o corpo do exército na participação em assassinatos e execuções que nada têm a ver com as operações militares, o que encontra de resistência é inteiramente residual.

Portanto, é inteiramente falsa a perspectiva apresentada pelo filme de Tom Cruise. Nada há de heróico na tentativa de assassinar Hitler levada a cabo pelo coronel von Stauffenberg e seus camaradas, senão que o mais puro oportunismo típico daqueles que escolhem o lado de acordo apenas com  as boas chances da vitória.

Nota

Frente ao horror do extermínio parece que nos tornamos condescendentes com todas as outras vilanias, todas as outras formas de humilhação e terror levadas a cabo pelo regime nazista. Não deveria ser assim. A ditadura hitlerista e sua ideologia fundada no ódio, no medo e na discriminação, muito antes de iniciar a matança já era um ataque infame contra a espécie humana. E desse ataque aqueles militares foram protagonistas e amparo.

Abominações do homem comum (ou: a propósito de “O Leitor”)

Considerar monstros àqueles seres abomináveis envolvidos nas operações nazistas, sujeitos que como nós foram deixando para trás a própria humanidade, como uma serpente trocando de pele (em brutais processos de alienação fartamente recompensados do ponto de vista material ou por ridículas prendas no campo do imaginário), e tratá-los como se fossem aberrações, considerando-os alheios à espécie, é uma trapalhada já exaustivamente comentada e condenada.

De outra natureza é a operação de transformá-los em inocentes homens (e mulheres) comuns, semelhantes a cada um de nós, seres falíveis, não imunes a graves deslizes de comportamento. Isso implica no reconhecimento de que ali estava o mal e a perversidade e que, portanto, essas marcas estão inscritas também nas nossas próprias feições – claro que não as enxergamos quando nos olhamos pela manhã no reservado espelho dos nossos banheiros. 

A face que ali está estampada é, rotineiramente, a mais imaculada das faces humanas: a nossa. Qualquer mácula que nela vislumbremos vai nos provocar uma imediata onda de auto-compaixão. E, então, no movimento reverso, quando olharmos para aquele sujeito que tendo encarnado o mal numa determinada circunstância se parece tanto conosco, trataremos de nos compadecermos dele (como se sabe, somos extremamente ágeis quando se trata de nos desculparmos, sobretudo quanto às nossas covardias morais). Tenderemos, portanto, a justificar os mais desprezíveis dos seus gestos e a perdoá-los (porque, ademais, padecemos todos dessa lastimável psique judaico-cristã marcada pela autocomiseração). Mas esta não será uma trapalhada tão ou mais nefasta que aquela de considerá-lo uma aberração?

Quando, na verdade,  aquele abominável homem comum, e da mesma forma cada um de nós todas as vezes em que formos capazes de ser como ele, não merece nenhuma compaixão. É preciso derrotá-lo. E é, sobretudo preciso, muito mais que encarcerar, matar e, só então, soterrar este ser abominável que habita nossa alma. Provavelmente, a condescendência que em nós permite sua sobrevivência seja mesmo parte dessa praga psíquica que se apresenta sob a forma da covardia moral. Talvez seja exatamente aqui onde esteja inserida a permanente atualidade do foco sobre a Alemanha Nazista.  Talvez por isso o nazismo não possa nunca parar de ser lembrado e espicaçado e hostilizado. Porque não se trata de uma aberração, nem muito menos de um regime excepcional definitivamente varrido para fora da história e, embora como poder de Estado tenha se constituído apenas naquele momento e naquele território, na verdade tinha (e tem) bases psíquicas presentes e prontas para se manifestarem em tudo quanto é canto do mundo capitalista desenvolvido, a qualquer momento.

É muito pouco nos contentarmos quando aquele ser desprezível é levado aos tribunais e submetido aos eventuais rigores da lei (do sistema legal em vigor num determinado lugar e numa determinada época). E, no entanto, tem sido suficiente isso para que nos sintamos apaziguados. Assim, podemos continuar livres para, eventualmente, aceitar/digerir o inominável, desde que imputável. Mas, ao inominável não deveria caber apenas penas ou pelo menos não outra pena que não a da extinção.

(Mesmo as sentenças capitais, morte por enforcamento, quando executadas, o que faziam era dar àqueles crimes o estatuto de um crime de morte como todos os outros crimes de morte, previsto nos mais diversos códigos penais, quando aqueles crimes nada tinham de ordinário. Assim, os juízes de Nuremberg, limitados pelos sistemas jurídicos sob os quais operavam, se viram obrigados a forjar a sui generis denominação “crimes contra a humanidade”, sem que, no entanto, ousassem criar um apenamento correspondente àquele status. Que pena, afinal, poderia ser essa?)

Curiosamente, em “O Leitor”, Hanna, a mulher da classe trabalhadora que ao invés de se empregar na Siemens é recrutada para a polícia política do nazismo (a SS), é quem carrega ao menos sobrevivências do ser moral que deveríamos todos abrigar e que, por isso mesmo, durante o seu julgamento não tenta evadir da culpabilidade pelos crimes cometidos e dos quais participou, como outros, mais ou menos diretamente – de natureza inteiramente diversa é a assunção de responsabilidade (ou culpa) de Albert Speer, o aristocrático arquiteto de Hitler, durante os julgamentos de Nuremberg, pois, ali do que se tratava era de uma planejada e racionalíssima estratégia para escapar da forca (a par de assumir uma responsabilidade geral pelos crimes cometidos negar qualquer envolvimento direto, e mesmo qualquer conhecimento (sic!) do que se passava nos campos).

PS: Duas dúvidas de mal-assombro sobre a crise atual

Do ponto de vista econômico: até onde vai a capacidade dos Estados cobrirem o rombo do sistema financeiro? Quanto tempo até que explodam crises sociais avassaladoras? (Manchete do El Pais em 6/02/09: “Taxa de Desemprego na UE Dispara para 8,1%, a maior em 25 anos – Mais de 650 mil pessoas perderam seu trabalho em fevereiro, o pior dado mensal desde 1949” – as manchetes ao redor do mundo repetem dia após dia dados semelhantes.)

Do ponto de vista político: até quando os consumidores (as massas) vão ter acesso às dosagens crescentes da droga (o consumo de mercadorias) que os mantém apaziguados? Quanto tempo restará antes da fúria? – porque ela, evidentemente, está ao nosso redor e por todos os lados, é só nêgo não poder mais comprar e ela virá à superfície.

Se não existem (ainda) as condições políticas, já estão em campo, no entanto, os grupos, partidos, associações e lideranças carismáticas de extrema direita dispostas a ocupar o palco tão logo aquelas condições se apresentem (se se apresentarem, é claro). Pelo lado contrário, na longa ressaca da queda do muro e da derrocada retumbante das ditaduras burocráticas stalinistas, na esquerda impera a mais completa dispersão e/ou desencanto. Não há no horizonte uma única centelha de imaginação política que aponte de qualquer modo para a superação do capitalismo – coisa que, evidentemente, àquelas organizações da direita não interessa de nenhuma maneira. O que restaria, então?
 


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POR EM 06/04/2009 ÀS 02:56 PM

O evangelho segundo Godard

publicado em

Sua impenetrabilidade conscientemente construída gerou um dos mitos mais fortes da História do cinema. É verdade que, eventualmente, uma voz dissonante se levanta, acusando-o de ser uma farsa, um charlatão. Porém, via de regra, o culto oficial segue mais forte do que as heresias. Não raro os furos de roteiro, deficiências técnicas, erros de continuidade e inverossimilhanças de seus filmes são interpretados como originais achados estéticos

Jean-Luc Godard não têm fãs. Têm estudiosos. É como Hegel ou Kant, que não têm leitores, têm eruditos especializados. Ninguém lê “Fenomenologia do Espírito” ou “Crítica da Razão Pura” para matar tempo em uma tarde chuvosa. O mesmo acontece com alguns filmes de Godard, como “O Desprezo” (Le Mépris). Nem sempre foi assim. Assisti-lo já foi moda obrigatória entre os jovens que se consideraram politizados. O que incluía multidões e mais multidões nos anos de 1960. Hoje, tudo mudou. Via de regra, é preciso razões acadêmicas, profissionais ou gosto pela cinefilia para alguém se dispor a vê-los. Ao mesmo tempo, ninguém nega a importância da obra de Godard. Sua impenetrabilidade conscientemente construída gerou um dos mitos mais fortes da História do cinema. É verdade que, eventualmente, uma voz dissonante se levanta, acusando-o de ser uma farsa, um charlatão. Porém, via de regra, o culto oficial segue mais forte do que as heresias. Não raro os furos de roteiro, deficiências técnicas, erros de continuidade e inverossimilhanças de seus filmes são interpretados como originais achados estéticos. A lenda em torno de seu nome é tão elaborada que o diretor Laurent Tirard, no texto introdutório à entrevista de Godard no livro “Grandes Diretores de Cinema”, não teve pudores em escrever que “devo reconhecer que até hoje jamais encontrei nenhuma outra pessoa que se aproximasse tanto da idéia que eu tinha de um gênio”. Lembremos que Martin Scorsese, Bernardo Bertolucci, Pedro Almodóvar e Woody Allen também figuram no livro.
 
Em certo sentido, Godard é uma relíquia da década de 1960. Foi um dos principais nomes do movimento artístico Nouvelle Vague, ou Nova Onda em francês. Aparentemente, a expressão foi lançada por Françoise Giroud na revista “L’Express”, em 1958, para referir-se a novidade representada por um grupo de jovens cineastas franceses que, sem grande apoio financeiro, realizavam seus primeiros filmes, marcados pela transgressão aos elementos estabelecidos pelo cinema comercial. O marco inaugural do movimento foi “Nas Garras do Vício” (Le Beau Serge), de Claude Chabrol. Logo em seguida, em 1959, Godard, até então conhecido como um virulento crítico da revista “Cahiers de Cinema”, apareceu com o estranhíssimo “Acossado” (À Bout de Souffle). Um filme rodado pelas ruas de Paris, dispensando cenários elaborados, com câmera na mão, cortes brutos na ação e nos diálogos (jump cuts), interação dos atores com a câmera, final infeliz etc. Uma verdadeira revolução na linguagem. Já em seu filme de estréia, aos trinta anos de idade, Godard foi louvado como o novo garoto prodígio das artes francesas. Nunca mais deixou o posto. Louvado por obras como “Bande à Part”, cada vez mais independente dos colegas do Nouvelle Vague, fazendo praticamente um filme por ano, muitas vezes dois ou três, Godard chegou na década de 1980 como a encarnação ideal do cineasta-autor. Personagem que ele mesmo ajudou a cunhar, a lado de François Truffaut, em seus tempos de crítico. Foi quando decidiu tornar-se um evangelista.
 
Recontar a saga de Jesus de Nazaré, a chamada “maior história de todos os tempos”, tornou-se quase uma obrigação intelectual entre os modernos narradores de “estórias”. Em se tratando de escritores José Saramago, Norman Mailer, Robert Graves, Anthony Burgess, Nikos Kazantzakis, Gore Vidal e Charles Dickens são casos exemplares. No cinema temos, entre outros, o pioneirismo de Cecil B. DeMille, o gigantismo de George Stevens, a carolice elegante de Franco Zeffirelli, o naturalismo marxista de Pier Paolo Pasolini, o auto de fé incompreendido de Scorsese, o sado-masoquismo de Mel Gibson e a beleza irônica de Nicholas Ray, um dos ídolos de Godard. Sabe-se que Chaplin e Orson Welles planejaram, sem sucesso, filmar suas versões. Seguindo essa longa tradição, Godard lançou em 1985 seu filme mais polêmico: “Je Vous Salue, Marie”, uma versão modernizada do início da trajetória da sagrada família. O título, não traduzido do francês, significa “eu vos saúdo, Maria”. Na época do lançamento, o papa João Paulo II mostrou-se chocado com seu conteúdo, afirmando que o filme “atinge profundamente os sentimentos religiosos dos fiéis”. Acabou proibido no Brasil pelo governo Sarney, sob alegação de que ofendia as concepções religiosas católicas.   
 
A reação da Igreja e da opinião pública, embora esperável, como de hábito, foi exagerada. A narrativa de “Je Vous Salue, Marie” é hermética, contemplativa e bucólica. Dificilmente faria grande platéia. O escândalo multiplicou-a. Pode-se afirmar que Godard, embora tenha passado longe de ser purista, foi extremante respeitoso com o material original. Sua Maria é uma virgem quase sempre vestida de branco, com lâmpadas de banheiro servindo de aureola. Seu José, apesar das tentações da carne, aceita viver um amor platônico com a própria esposa. Seu menino Jesus é um protótipo de messias dos mais promissores. A única figura destoante é do arcanjo Gabriel, interpretado com fúria por Philippe Lacoste. Sempre acompanhado por uma menina que o chama de tio, é um personagem de forte presença cênica: truculento, boca suja, impaciente com as fraquezas e falta de fé dos mortais. Imagino que se anjos existissem seriam mesmo assim.
 
A todo o momento, sem aviso prévio, Godard coloca na tela um letreiro escrito “en ce temps là”, “naquele tempo”. Qual tempo? O passado e o presente. O Gênesis e a Natividade. Para Deus (Godard?) mil anos e um minuto são a mesma coisa. Duas narrativas se entrelaçam no filme. A primeira é a de Maria, interpretada por Myriem Roussel, uma jovem jogadora de basquete amador que trabalha no posto de gasolina do pai, e a de seu namorado José, interpretado por Thierry Rode, um taxista que transporta todos os personagens do filme. Os dois alimentam um relacionamento em crise permanente que quase desaba quando Maria se descobre grávida, mesmo sendo, ou dizendo-se, virgem. José, compreensivamente, a acusa de traição. Porém, acossado por um Gabriel brutamontes, que o chama de “furo na bunda” enquanto lhe dá tapas no rosto, o taxista é convencido de que seu orgulho ferido de macho é irrelevante diante dos planos divinos, levando-o a aceitar seu papel de padrasto de uma criatura miraculosa. A segunda linha narrativa trata do problemático relacionamento entre João, um excêntrico professor de ciências, que defende que a vida na Terra é de origem alienígena, com sua aluna Eva. Uma jovem Juliette Binoche em início de carreira, rouba a cena como Julieta, rival amorosa de Maria. 
 
O enredo passa-se em Genebra, cidade onde Martinho Lutero iniciou a Reforma Protestante. Não foi uma escolha alheatória. O filme trata de nascimento em um sentido de renascimento, renascimento em um sentido de reforma; quiçá tentativa de corrigir um cristianismo que foi deturpado da primeira vez. Genebra possui esse eco, lembrando-nos da concepção teológica de Lutero de que as sagradas escrituras devem e podem ser livremente interpretadas. A música de Bach, suprema contribuição artística do protestantismo, domina a trilha sonora. “Tocata e Fuga” ou “Jesus, Alegria dos Homens”, dentre outras, se fazem ouvir para imediatamente desaparecerem sem afetar o conjunto da ação. Como a vida na Terra. Inúmeras tomadas do Sol e da Lua lembram-nos o quanto à existência humana é efêmera diante do tempo profundo da geologia, astronomia, biologia etc.“Je Vous salue, Marie” alcança o máximo de sua inofensiva proposta iconoclasta quando sugere, discretamente, que as concepções virginais das duas marias, a antiga e a nova, tenham sido obras de extraterrestres. Gabriel, chegando do céu de avião (nave espacial?) e fazendo a Anunciação de táxi, seria um arauto dos alienígenas. O homo sapiens seria o resultado de um experimento genético. O Cristo um tipo de mutação controlada, regida ao estilo de “Os Meninos do Brasil”. A cena do cubo mágico montado às cegas, expõe a evolução como um jogo de cartas marcadas. Deus não joga dados. Disse Einstein. Eram os deuses astronautas? Perguntou Erich von Däniken.
 
Eva e Maria representam contrapontos diretos. Eva, cujo nome emula o mito do Gênesis, oferece uma maçã ao professor, iniciando uma relação ardente, mas fadada ao fracasso, ao acumulo de dívidas. Maçã?! Existe algo mais obvio?! Godard Sempre gostou de clichês. Usou-os como combustível de sua originalidade, desconstruindo, sobretudo, o cinemão de Hollywood, como fez em “Alphaville” com a ficção-científica e os filmes de detetive. 

Maria, ao contrário, precisa refrear seus desejos em nome de uma missão maior do que ela mesma. O final, feliz ou infeliz, dependendo do ponto de vista, lhe escapa. Godard mostra sua protagonista em luta constante pela abstinência, tentando prover a co-existência do corpo e do espírito. É tristemente resignada com sua condição de, como escreveu Fernando Pessoa em “O Guardador de Rebanhos”, “mala em que Ele tinha vindo do céu”. Em uma seqüência de monólogos interiores, durante noites de insônia, conclui que é “uma alma prisioneira em um corpo”. Chama Deus de “vampiro que me fez sofrer” e “um medroso, um covarde que não luta”. Reclama, mas não desobedece. As cenas que causaram escândalo seriam absolutamente banais se Maria não fosse Maria. Ela joga basquete, ela se olha nua no espelho, ela toma banho, ela se toca, ela vai ao ginecologista, ela se mostra para o filho. Sua nudez não é diferente daquela das figuras pintadas por Michelangelo no teto da Capela Sistina. Literalmente, a maldade está nos olhos de quem vê.
 
Quando seu filho nasce, no campo, cercado de animais (outro clichê!), começa uma nova etapa da missão. Maria acompanha seu crescimento, aguardando os sinais. Eles não demoram a acontecer. O pequeno Jesus chama seus colegas de brincadeiras de Pedro e Tiago, nomes de apóstolos. Recusa-se a obedecer a José, saindo correndo por um parque aos gritos de que precisa cuidar dos “negócios de seu Pai”. Qual pai? O Pai? O menino se apresenta como “aquele que é”. José ainda não compreendeu exatamente quem é o pequeno rebelde.
 
Diferente de Maria. O que sublinha a cena final, onde ela retira um batom vermelho da bolsa, passa nos lábios, como que dizendo “está consumado: agora vou viver minha vida”. Há tempo, muito tempo para viver. Nesse momento, Maria não está pensando que seu filho vai crescer, aparecer e sofrer sua dolorosa Paixão. Ou não? A tragédia se transformará em farsa, como apregoava o notório ateu Karl Marx? Se “a maior história de todos os tempos” estiver mesmo se repetindo, ela será testemunha ocular da morte do filho. Estará tão próxima que poderá ouvir seu último suspiro. Vai ouvi-lo lamentar ter sido abandonado pelo Pai. Pai que Maria não conheceu. Em nenhum dos sentidos.
 


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POR EM 30/03/2009 ÀS 05:49 PM

A origem social de Bentinho

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Em “Dom Casmurro”, a influência religiosa articula-se muito claramente com o desastre conjugal de Bentinho, símbolo talvez dos efeitos deletérios da moralidade religiosa, especificamente católica, sobre o destino familiar

É consabido que o texto de Machado de Assis, a despeito de sua inesgotável qualidade puramente estética, presta-se muito bem a múltiplas interpretações. Se se trata de identificar a “função primordial” de um romance, pode-se concluir que certas abordagens não correspondem ao seu objetivo maior, e nem seria o caso. Devemos ler sobretudo para nos deleitar com a linguagem, que é a via de acesso à psicologia dos personagens. Ou seja, se a linguagem funciona, se consegue com seus recursos instigar e convencer o leitor, então temos heróis bem constituídos e um parâmetro seguro para avaliar com justiça o trabalho de contistas, novelistas e romancistas. Artistas são o que são e não pretendem ser outra coisa: a beleza continua definindo o seu propósito, acima de qualquer outro. É assim também com Machado de Assis, artista supremo.

Mas o romance, muito ao contrário da poesia lírica, é um gênero que intercambia particularmente com a realidade objetiva, e não há como ou porque fugir dessa característica essencial: se também ela revela aspectos interessantes, o que justificaria omitir sua análise? Pensemos nas categorias de tempo e lugar. Ambas são intrínsecas àquele gênero, e se quisermos podemos abstraí-las nos livros de nosso romancista com a finalidade de compor um conjunto explicativo da vida íntima de suas criaturas. Podemos também subtrair dessa relação um entendimento do que seria o ponto de vista da burguesia urbana de meados do século XIX no Brasil, tanto quanto sua interação com outras camadas da população.

Como qualquer outro contexto, o da crítica vive de extremos: de um lado os que reivindicam a determinação dessas relações sobre a obra de arte (exemplo do marxismo ortodoxo), de outro os que propugnam a autonomia da arte, presos a um formalismo igualmente improvável (exemplo do new criticism).

É tanto mais óbvio, pelo contrário, que tanto as relações sociais quanto a subjetividade são realidades tangíveis, atuando em conjunto: toda e qualquer obra de arte é uma amálgama dessa relação inescapável, invariavelmente tensa. Essa relação – e não apenas um dos seus termos – explica porque mesmo a poesia de nossa época difere da de um século atrás. Com efeito, se uma ou outra vertente parece preponderar, a razão há de ser encontrada nas convicções ideológicas e no temperamento do artista e do crítico, não na obra em si, qualquer que seja ela – o que a princípio não desabona uns e outros, desde que prevaleça a honestidade. E não é preciso concordar para enxergar a honestidade: basta bom senso. A filosofia chinesa ensina que o melhor caminho é o do meio, mas, como diria Carlos Drummond de Andrade, cada um prefere enxergar consoante seu capricho, sua ilusão e miopia.

Pois bem. O lugar social das personagens machadianas em “Dom Casmurro” podem, e provavelmente implicam, o destino do herói. Bento Santiago compõe a burguesia urbana do Segundo Império. Muda-se do meio rural para a cidade do Rio de Janeiro (capital do Brasil desde 1763, quando o eixo econômico nacional desloca-se para o Sudeste e acentua-se o conflito com os espanhóis, em função da delimitação de fronteiras no extremo sul do país). Sabemos que a classe dominante em todo esse período, e até muito depois, era a aristocracia rural, não a classe média liberal e comerciante dos personagens de “Dom Casmurro”, que nem por isso deixam de cogitar as carreiras políticas. Esses estratos em ascensão terão de esperar a década de 1870 para que suas aspirações comecem a balançar o edifício social hegemonizado pelo setor agrário. Um Quintino Bocaiúva e um Aristedes Lobo, homens letrados e influentes, seriam talvez as vozes efêmeras dessa camada, fora do plano fictício. (Fundamentalmente porque, no dizer dos marxistas, não controlam os meios de produção).    

Em meados do século XIX, a fonte de renda dessa camada social média pode ser tanto o aluguel de escravos (conforme o Cap. XCIII), quanto a propriedade imobiliária – não confundir, aqui, com o domínio da terra; das grandes unidades de produção monocultoras – , mas o esforço pessoal, por meio das profissões liberais, concorre para explicar a origem de sua existência material. O pai de Bentinho foi deputado imperial e advogado; ele próprio termina advogado, num período de nossa história em que o bacharelismo seduzia já os espíritos, convergindo os interesses profissionais de sua classe, desejosa de status. Era uma vida sem necessidades; pelo contrário, até de luxos, tanto que o herói e a família – à parte as motivações dramáticas – passeiam à Europa, e na Suíça instala-se Capitu às expensas do marido, até a morte. O intercâmbio com a cultura européia, especificamente francesa, exerce sua influência no comportamento dessa classe média, reparado com acuidade pelo autor no simples modo de caminhar das damas pelo passeio público, nas ruas da capital federal. O costume merece de José Dias (não obstante, ele mesmo um amaneirado) esta reprimenda:

“ – Este gosto de imitar as francesas da Rua do Ouvidor – dizia-me José Dias (...) – é evidentemente um erro. As nossas moças devem andar como sempre andaram, com seu vagar e paciência, e não este tique-tique afrancesado...” (Cap. LVIII)

“vagar e paciência...” – seria este o modo particular de nossas moças! Tipicamente brasileira, a família do herói é um cadinho cultural e social que explica a absorção fácil de elementos alienígenas, não só genericamente em solo pátrio quanto no recinto doméstico. Além dos parentes consanguíneos, existem em seu seio os agregados vivendo de algum ordenado ou “casa e comida” – caso de José Dias. Com base na estruturação econômica tipicamente brasileira (a fazenda de engenho), pode-se dizer que a mistura entre pessoas da família e estranhos a ela, convivendo sob o mesmo teto, era lugar-comum há séculos. José Dias, em particular – esse personagem que Vianna Moog considera “o primeiro símbolo histórico completo da malandragem nacional” (cf: “Bandeirantes e pioneiros”, cap.V), auxilia nas tarefas miúdas do lar, no cuidado das crianças, podendo divertir “ao serão e à sobremesa”. O retrato que Machado pinta do agregado é, a despeito dos traços individuais que caracterizam seu coadjuvante, alguém que exerce influência moral sobre família, nesse aspecto visivelmente liberal: “com o tempo, adquiriu certa autoridade na família, certa audiência, ao menos”. Há obviamente uma hierarquia que Bentinho, em particular, deixa claro existir, quando nele a vontade fala mais alta que a timidez.

Além dos agregados, há em cópia os escravos, que trabalham em casa ou nas ruas vendendo doces, a lembrar as gravuras de Debret nesta cena (de lambujem, reparem o português “modernista” a lá Oswald de Andrade):

“Tínhamos chegado à janela; um preto, que, desde algum tempo, vinha pregoando cocadas, parou em frente e perguntou:
– Sinhazinha, qué cocada hoje?
– Não – respondeu Capitu.
– Cocadinha tá boa.
– Vá-se embora – replicou ela sem rispidez.
– Dê cá! – disse eu descendo o braço para receber duas.”

O trato humano, aí, parece ser dos mais cordiais: na vida cotidiana a escravaria é inteiramente integrada à existência familiar, e aparentemente dócil na relação com os proprietários brancos, confirmando em certa medida Gilberto Freyre (tão criticado, por exemplo, por Roberto da Matta, que duvida da chamada “democracia racial”). Mas fica naturalmente a impressão de que, se o agregado é “de dentro”, o escravo é “de fora”, apesar de frequentar a casa e exercer atividades domésticas. Em “Dom Casmurro”, o preto é o melhor amigo do homem: está no terreiro; chama-o e lhe vem servir, todo coração. Não se trata de juízo de valor, pejorativo ou não: é a apenas a impressão que a obra dá.

Um terceiro elemento presente nas relações familiares, menos encarnado num tipo e mais simbólico, é o religioso. Padre Cabral é a encarnação da Igreja, em “Dom Casmurro”. A vida feminina e a da infância à adolescência parecem estar particularmente sujeitas à sua vigilância onipresente. Dona Glória e Bentinho não participam do mundo exterior menos quando vão aos vizinhos ou à missa, esta um de seus únicos recreios de maior pompa. Quando não comparecem à celebração religiosa, é a Igreja que vem visitá-los, na figura do padre. Dá-se assim a influência da instituição católica na formação da família de Bentinho, aliás a mais marcante nesse romance e por certo decisiva. O mesmo Vianna Moog observa que a vocação religiosa foi, no Brasil, sempre um problema para Igreja, à falta de ambiente propício: “E como haver tais ambiências, se toda a história do Brasil reflete os trunfos do Império sobre a Fé?” De fato, Bentinho é desprovido de vocação para o seminário: esta é um produto do que Freud chama de superego, isto é, Dona Glória, José Dias e Padre Cabral conjugados. 

O catolicismo já foi acusado pelas interpretações culturalistas da história por quase todas as mazelas da formação brasileira, em contraste com o que aconteceu na América do Norte, sob o influxo do protestantismo calvinista. A conclusão do leitor, ao ler “Dom Casmurro”, não é mais generosa com nossa matriz espiritual.

A presença de um sacerdote é constante e íntima em casa de Bentinho, até porque é conselheiro maior e autoridade espiritual, porque não dizê-lo, de uma importante parcela da Nação. A idéia de culpa, associada a essa relação, parece ser muito presente no espírito individual das pessoas. Tomando por base Dona Glória e Bentinho, os destinos individuais nessa camada tomariam rumos amiúde alheios aos interesses das pessoas: a mãe, não fosse a promessa e a culpabilidade, eximiria o filho de um compromisso seu e não dele; ele, de sua parte, cumpre o desígnio muito mais compungido por obrigação moral do que por vontade própria. Ao fim e ao cabo, desiste, mas a Igreja não fica sem sua parcela, apesar da perversidade: imolam um órfão obscuro e todos aliviam a consciência: Dona Glória, Bentinho, Escobar – que deu a idéia – e, é claro, o “Protonotário Apostólico”.

Em “Dom Casmurro”, a influência religiosa articula-se muito claramente com o desastre conjugal de Bentinho, símbolo talvez dos efeitos deletérios da moralidade religiosa, especificamente católica, sobre o destino familiar. Os instintos do herói são reprimidos por sua formação, uma vez que a mãe leva-o à Igreja desde criança, no intuito de acostumá-lo à vida meditativa e sacerdotal. Machado não deixa, porém, de apontar os instintos reprimidos por meio das taras do aspirante a religioso: numa das páginas mais escandalosas do livro – também, uma das páginas mais sarcásticas ou irônicas –, Bentinho, em companhia do agregado, testemunha a queda de uma dama afrancesada que deixa à mostra suas meias e ligas azuis. O erotismo invade e naufraga a alma do menino, que padece autênticas tentações de Santo Antão: “Dali em diante, até o seminário, não vi mulher na rua a quem não desejasse uma queda...” (Cap.LVIII)

Mas suas taras são reprimidas em benefício da promessa materna e o herói persevera em seu destino, moldando-se pela beatitude, pela pureza ingênua que um dia lhe trai, embora a sexualidade permaneça latente e, com frequência, excessivamente graciosa. Quando extravasa, tende naturalmente a exagerar, daí o ciúme, talvez justificável porém doentio. Por não conseguir desvencilhar-se do compromisso da mãe, Bentinho por fim provoca a ira de Capitu, que se ofende e disputa com D. Glória o amor do adolescente. O fato desencadeia a promessa que há um século atordoa os leitores: “Olhe, prometo outra coisa; prometo que há de batizar o meu primeiro filho.” (Cap. XLIV) Não seria esta – quero dizer, “o compromisso religioso de mãe e filho” - a origem da traição sexual, se houve? Não fosse a influência religiosa – persistente, incisiva - poderia até haver traição por outros motivos, mas não haveria a frustração de Capitu “em função” dessa disputa, nem seminário muito menos Escobar. Quem sabe os protagonistas até viveriam felizes para sempre. É uma conclusão razoável, das muitas possíveis.
 


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POR EM 23/03/2009 ÀS 02:58 PM

O efeito Bloom

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Em “O Cânone Ocidental”, um panfleto contra tudo e todos. Bloom fez um ataque violentíssimo, messiânico e ideológico ao que batizou de “Escola do Ressentimento”. Para ele, os ressentidos podem ser encontrados em seis ramos: feministas, marxistas, lacanianos, neohistoricistas, desconstrucionistas e semióticos. O pecado deles havia sido trocar os estudos sobre Shakespeare por autores que pertencem a minorias étnicas e sociais

O ano de 1994 marcou o início da disseminação, no Brasil, das idéias do crítico literário Harold Bloom. O entusiasmo por este scholar norte-americano restringe-se aos meios de comunicação que lhe dedicam páginas e páginas a cada novo lançamento. No ambiente universitário, as obras dele têm circulação bem restrita e dividem espaço com outros estudiosos de literatura. Trata-se, portanto, de um fenômeno predominantemente midiático. E é curioso buscar as razões para um estudioso complexo de literatura inglesa do começo do século XIX cair no gosto de divulgadores culturais, em um país periférico de língua portuguesa.

Não se deve estranhar a volubilidade dos letrados brasileiros em assimilar idéias da última hora – ou da “a última moda em Paris”. Em 1986, Roberto Schwarz lembrava que ele mesmo já assistira à sucessão de impressionismo, historiografia positivista, “new criticism” americano, estilística, marxismo, fenomenologia, estruturalismo, pós-estruturalismo e teorias da recepção. “É fácil observar que só raramente a passagem de uma escola a outra corresponde, como seria de esperar, ao esgotamento de um projeto; no geral ela se deve ao prestígio americano ou europeu da doutrina seguinte”, diz Schwarz.

A recepção de Bloom no Brasil é mais um movimento volúvel de troca de teoria, ainda que confinado a um ambiente (a mídia) avesso ao pensamento teórico. Mas qual a motivação para tanto entusiasmo nos meios de comunicação?

Harold Bloom caiu como uma luva em um cenário (a primeira metade dos 1990) em que o campo cultural brasileiro sofreu o abalo do fim dos regimes do Leste Europeu e encantou-se com as virtudes do mercado. Foi o período de virada em direção aos encantos da globalização econômica. Algo que um dos barões da mídia muito bem sintetizou no livro para louvar os 50 anos do caderno da cultura e entretenimento de seu próprio jornal: “Nenhuma obra mais causa escândalo, nenhum (sic) geração de artistas faz uma revolução, porque todas as experimentações com a forma já foram feitas. Parodiando Fukuyama, a história cultural também acabou”.

O jornal deste barão ilustrado foi, por sinal, o principal divulgador de Bloom, lá pelo ano de 1994. Na época, trombetas celebraram o lançamento do livro “O Cânone Ocidental”, um panfleto contra tudo e todos. Bloom fez um ataque violentíssimo, messiânico e ideológico ao que batizou de “Escola do Ressentimento”. Para ele, os ressentidos podem ser encontrados em seis ramos: feministas, marxistas, lacanianos, neohistoricistas, desconstrucionistas e semióticos. O pecado deles havia sido trocar os estudos sobre Shakespeare por autores que pertencem a minorias étnicas e sociais.

Esse tipo de comentário veio no momento certo para servir de arma no debate cultural e político brasileiro de 15 anos atrás. Um crítico de literatura romântica, alguém completamente deslocado no tempo e no espaço do país, dava a resposta exata para uma disputa, essa sim, de espaços. E é lógico que, para Bloom, o mentor do ressentimento só poderia ser um marxista.

Diz ele em “O Cânone Ocidental”: “O herói desses anticanonizadores é Antonio Gramsci, que em suas “Seleções dos Cadernos de Prisão” nega que qualquer intelectual esteja livre do grupo social dominante se se apóia apenas na ´qualificação especial´ que partilha com o ofício de seus companheiros (como outros críticos literários)”. É muito interessante notar como a escolha de Gramsci como inimigo coincide com as idéias de nossos aristotélicos aloprados que infestam hoje revistas e jornais brasileiros.

Bloom começou ali a pregar a existência de um mundo estático, cujo único movimento seria a luta edipiana de autores (a teoria da “angústia da influência”) contra o gênio de Shakespeare. E daí? E daí que foi um tal de redescobrir o “bardo inglês’, os clássicos universais. Numa época em que o mundo se voltava mais e mais para obras de africanos, árabes, indianos, aparece um especialista para falar de cânones e restringir o rol de obras que são reconhecidas como arte.

O militante Bloom faz a cruzada contra a linhagem de estudos que relacionam arte e sociedade. É a velha, surrada e conhecida história da autonomia da arte, que já foi esmiuçada por Pierre Bourdieu em “As Regras da Arte”. Em tempos mais reacionários e anticomunistas que o da Guerra Fria, porém, a defesa do cânone veio a calhar.

Os leitores midiáticos de Bloom usam o crítico norte-americano como arma letal na guerra de idéias, no “fim da História” cultural. É para isso que ele serve. Ataca-se a tradição da crítica materialista de Antonio Candido e Roberto Schwarz, mas não se recorre a Silviano Santiago ou a Luiz Costa Lima. A fórmula para os novos tempos, os anos 1990 globalizados, eram as sacadas contra uma “Escola do Ressentimento”, que estaria destronando e rebaixando as grandes obras canônicas. Porém, os divulgadores bloomianos não vão à sofisticada e criativa teoria de “angústia da influência”, até porque exigiria um aprofundamento de estudos.

O caso recente e pitoresco do efeito Bloom no Brasil ocorreu no lançamento do livro “Gênio”. Ao incluir Machado de Assis entre os “gênios”, o crítico norte-americano provocou lágrimas e uma tietagem que beirou a histeria. Um dos fãs soltou essa: “E é difícil não reconhecer a precisão deste julgamento da obra mais famosa de Machado de Assis, “Memórias Póstumas de Brás Cubas”: ‘Brás Cubas jamais sofre e, por conseguinte, jamais sofremos com ele. Todavia, uma frieza misteriosa emana das suas Memórias Póstumas, obra que contém atmosfera tão original que não permite comparação com qualquer outro texto ficcional´".

Outro divulgador conseguiu uma entrevista com Bloom a respeito do novo livro e arrancou a confissão do mestre: “Considero Machado o maior gênio da literatura brasileira do século XIX. Ele reúne os pré-requisitos da genialidade: exuberância, concisão e uma visão irônica ímpar do mundo. Procuro um grande poeta brasileiro vivo. Ainda não o encontrei. Conheço Carlos Drummond de Andrade e ouvi falar de Guimarães Rosa, que adoraria ler. Não sei se terei tempo”.

Bobagens não são exclusivas da mídia brasileira. Que o diga Larry Rother. Ele publicou no ano passado, no “New York Times”, uma reportagem sobre o centenário Machado de Assis na qual, obviamente, Harold Bloom é a grande estrela, a começar pelo título: “After a Century, a Literary Reputation Finally Blooms”.  Ou seja, o dito maior jornal do mundo dispensou o principal leitor de Machado em língua inglesa, John Gledson, para ouvir os lugares-comuns de Bloom.

Quem deu a melhor dica para entender o efeito bloomiano foi Terry  Eagleton: “A crítica de Bloom revela com clareza o dilema do liberal moderno, ou humanista romântico – o fato de que, de um lado, não é possível uma reversão a uma fé humana serena, otimista, depois Marx, Freud e do pós-estruturalismo, mas que por outro lado qualquer humanismo que, como o de Bloom, tenha sofrido as pressões agônicas dessas doutrinas, está fadado a comprometer-se com elas, a ser contaminado por elas”. Esse é um desejo bem atual na mídia e certos círculos intelectuais: voltar a um mundo anterior ao marxismo e à psicanálise. Ainda bem que jamais conseguirão.
 


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POR EM 15/03/2009 ÀS 02:13 PM

Lula no país do ornitorrinco

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Diziam os ilustrados de então e de até pouco tempo atrás: basta deixar o sonho tropical de um país do futuro e assumir a condição de um satélite de países desenvolvidos. Resultado: um país com bancos entre os mais avançados e o quarto lugar no ranking mundial de homicídios

Em 1982, Felix Guattari esteve no Brasil e encontrou-se com o então sindicalista Lula. A conversa ficou registrada num livrinho de menos de 40 páginas, editado pela Brasiliense, numa daquelas coleções de bolso. Enquanto o intelectual francês relatava os últimos movimentos sociais na Europa, o operário brasileiro explicava as idéias do Partido dos Trabalhadores para tornar públicas as empresas estatais do país, com a gestão nas mãos da população e prestação de contas à sociedade.

Foi um diálogo fecundo entre dois mundos distantes que buscavam uma alternativa ao capitalismo ocidental e ao regime soviético. A opção chinesa ainda era algo desconhecido: o capitalismo ideal, no sentido de Adam Smith, que se tornaria o “show case” da virada do milênio. Naquele momento, começo dos anos 1980, as coisas pareciam possíveis de mudar. As palavras tinham força e amedrontavam. Tanto Lula quanto Guattari eram novidade nas discussões públicas.

O ano de 1982 foi marcante para os brasileiros, em eventos sem muita relação entre si. O México anunciou uma moratória de sua dívida externa e jogou a América Latina no caos econômico e social pelos 20 anos seguintes. Até o futebol, um símbolo de identidade, perdeu o sentido. A seleção brasileira foi derrotada para os pragmáticos italianos. Acabou ali qualquer desejo de ser diferente. A solução estava em reproduzir a eficiência dos europeus. Porém, o Brasil insiste na fantasia do “futebol-arte”.

Naquela época, também começou a ser taxada de ilusão qualquer iniciativa de ter um país diferente. O Brasil foi comprando idéias, as neoliberais, para colocá-lo no mesmo padrão de desenvolvimento dos países ditos avançados – hoje afundados na maior crise desde 1945. Diziam os ilustrados de então e de até pouco tempo atrás: basta deixar o sonho tropical de um país do futuro e assumir a condição de um satélite de países desenvolvidos. Resultado: um país com bancos entre os mais avançados e o quarto lugar no ranking mundial de homicídios.

A política perdeu espaço para a economia, uma vez que a racionalidade do mercado deveria controlar os “transes” dos políticos. A política deveria ser uma técnica, orientada pelo pragmatismo de pesquisas de opinião. É interessante ver o então líder sindical Lula no documentário “ABC da Greve” (1979), de Leon Hirszman. Numa cena, ele aguarda a vez de falar numa assembléia de trabalhadores. Percebe-se ali um sujeito que domina um público, que sabe o momento de atuar frente a uma platéia.

Se passarmos ao Lula de 2002 no filme “Entreatos” (2004), de João Moreira Salles, é possível ver a transformação da política que vai agora para as minúcias do marketing. Nada daquele sindicalista falando ao livre, de barba e cabelos bem pretos. A imagem de agora deve ser adequada à televisão. A fala é importante, mas é o corpo do político que vai ao primeiro plano e deve se ajustar aos novos tempos. “Entreatos” é um Big Brother high-brow. Leon Hirszman mostrou um Lula no espaço público, e João Moreira Salles exibiu a ob-cena da política contemporânea.

Em certo momento de “Entreatos”, os marqueteiros simulam um show de auditório para apresentar a campanha de Lula no segundo turno das eleições presidenciais de 2002. Os melhores políticos de esquerda estão lá, simulando um programa de televisão. É nessa linha que vai Barack Obama ao usar intensamente em sua campanha, e mesmo no governo, a internet – esta que é o meio de comunicação do “capitalismo tardio”, da financeirização.

Assim como 1982, o ano de 2002 foi igualmente marcante. A política já funcionava como “reality show”, telenovela que não narra mais a nação e moeda que controla os transes pela taxa de risco-país. Não há mais um fio que liga os vários pontos dispersos na sociedade. Grandes cidades transformam-se no inferno terrestre. É o mundo do filme “Linha de Passe”, de Walter Salles, do rap de Mano Brown e dos livros de Paulo Lins e de Ferréz. Desapareceu aquele universo de trabalhadores organizados e seus conflitos de “Eles Não Usam Black Tié” (1981), de Leon Hirszman.

Há seis anos, Lula tenta vender a idéia de que os fios podem ser reatados. Um projeto de país pode ser viável, defende ele. A contradição está nessa orientação política do atual presidente brasileiro e a marcha em direção ao desmonte total que gera uma riqueza expressiva de uma parte da população. Deseja-se uma situação mais igualitária e justa, porém deseja-se também o consumo sem controles, além da liberdade completa para o dinheiro ir e vir. E cresce os condomínios fechados, com suas cercas elétricas.

Francisco de Oliveira chamou essa contradição de “o país do ornitorrinco”, onde os intelectuais tucanos e sindicalistas petistas ocupam funções de operadores do mercado financeiro. Fundos de pensão aliam-se a banqueiros para comprar empresas estatais e, depois, revendê-las a companhias transnacionais. Tal qual o bichinho que não é um mamífero, nem uma ave, uma nova classe surge com uma fisionomia indefinível e volúvel. O comando do país está em parcerias do Bankboston com a CUT.

Como fazer política num cenário destes? Para Luiz Werneck Vianna, Lula descobriu a mágica ao montar um amplo acordo de concessões, que vão desde os sindicatos até os banqueiros. Todos ganham uma fatia do bolo e têm direito a uma voz. De tão boa que é a situação, não se deve estranhar que Lula tenha mais de 80% de aprovação, em todas as classes sociais e faixas etárias. Mas esse arranjo político se desmancha a partir de 2011, com a posse do novo ou da nova Presidente da República. Depois, recomeçará uma disputa política digna dos “reality shows”, com cenas de cinema catástrofe.
 


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POR EM 15/03/2009 ÀS 01:50 PM

Justiça a Harold Bloom

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Bloom não tem ilusões quanto ao nosso destino: a morte é universal e contempla a todos. A única maneira de termos algum conforto é nos conhecer melhor com a ajuda de instrutores qualificados. E se eventualmente algum de nós é dotado de talento literário, ler e escrever são meios possíveis de alcançar a imortalidade, ainda que apenas na memória

Já li toda a espécie de malhação para cima de Harold Bloom. Muitos de seus críticos desconfiam de suas análises e de sua qualidade. O fenômeno, que é também editorial, seria mesmo um simples “modismo”, consoante Fábio Lucas? Pessoalmente, acho que não: podemos até discordar do formalismo do crítico norte-americano, mas não dá pra dizer que o cara seja rasteiro, desinformado ou mal intencionado.

Esta é a segunda vez que escrevo sobre Harold Bloom, desta vez para fazer-lhe justiça. Pergunto-me quem somos nós para tanta pretensão; de qualquer modo, se um dia publiquei uma crítica parcial, talvez seja honesto corrigi-la, o que não significa necessariamente concordar. Não estou certo de que tenha errado inteiramente da outra vez – quando, num ensaio chamado “A língua canônica”, interpretei “O Cânone Ocidental” como uma espécie de imperialismo cultural por meio de escritores da língua inglesa (por outras palavras, achei justamente que o crítico em questão fosse mal intencionado e servisse aos interesses do “mal”).  Dessa primeira impressão para cá – já se passaram mais de dez anos – reli Bloom e alguns dos escritores que canonizou, e avalio que, se cometi alguma injustiça com ele, foi a de ter julgado seus defeitos e esquecido seus méritos. Com efeito, não retiro muitas das coisas que disse anteriormente, mas acrescento algumas que descobri mais tarde e que permitiram-me compreendê-lo de maneira mais integral e portanto mais justa. Reler é sempre indispensável, e foi fundamental neste processo.    

Minha conclusão é a seguinte: o melhor caminho para se conhecer o ensaísta Harold Bloom não é ir direto à leitura pessoal que faz de cada escritor, onde menos se expõe e mais os outros. Deste último caminho deriva, talvez, o equívoco de só associá-lo ao culto secular, e talvez exagerado, de Shakespeare. Sobre essa influência deve ser dito logo: lidas com atenção, percebe-se nas entrelinhas de Bloom que nem todo mundo foi arrasado pelo dramaturgo, conforme sugere uma primeira leitura de seus livros. O crítico parece concordar que a literatura francesa – a única que talvez rivalize com a inglesa -, é bastante original. Montaigne, Molière e Proust são relativamente alheios ao fenômeno em questão: “Montaigne entreouve-se, como Hamlet e Iago; isso é precisamente o que os protagonistas de Molière não farão.” O primeiro repete na vida o que o Hamlet repetiu na ficção, mas sequer tomou conhecimento da existência do bardo elisabetano, ao passo que o segundo teria sido totalmente infenso à maior invenção shakespeariana. Quanto a Proust, cuja capacidade de representar a “personalidade” e o “amor sexual” rivalizariam com a do poeta inglês, escreveu Bloom: “Proust jamais dá ao ciúme uma ancestralidade literária”, excluindo até mesmo o todo-poderoso Sigmund Freud desse mérito.

Os escritores analisados por Harold Bloom dividem-se entre os que foram influenciados fortemente pelo poeta ou que têm força quase ou propriamente “shakespeariana”, deixando claro que a originalidade comporta mais gente. Kafka é um desses casos, e provavelmente Goethe. A força de Shakespeare estaria sobretudo na construção de personagens – em particular Falstaf e Hamlet. Ora, como avaliar que Kafka ou Jorge Luis Borges são canônicos a partir desse critério? Simplesmente não faz sentido, em que pese os gêneros de apreciação do crítico, nesses e em muitos casos: contos e aforismos, onde não há espaço para construções dessa ordem. Quem, segundo Harold Bloom, sentiu todo o peso de Shakespeare nas costas foi realmente a própria literatura inglesa: Wordsworth, Becket, Milton, Virgínia Wolf etc. Fora da Grã-Bretanha, alguns nomes teriam sofrido o mesmo impacto: norte-americanos, Freud e Tolstoi principalmente. Daí em diante a influência do dramaturgo, se não acaba, tende a ser minimizada.

Como dizia, a idiossincrasia bloomiana pode ser melhor apreendido longe de seus estudos particulares: nós o enxergamos melhor nas suas introduções e epílogos, e pode ser que “Uma elegia para o Cânone” ou “Conclusão Elegíaca” sobrevivam como seus textos fundamentais. São panfletos, onde o crítico revela intensamente tudo o que pensa. Serenamente, não há como não concordar com muitas dessas revelações. Harold Bloom é um bravo, e qual o problema em reconhecer isto? É, como se diz, um dos últimos moicanos; um devoto entrincheirado, resistindo ao avanço impiedoso dos inimigos. Seu empenho é muito nobre, indicutivelmente: defender uma deusa (afinal, a literatura tem devotos religiosos) muito digna mas seriamente ameaçada, e a única arma de que dispõe para fazer isso é a crítica. Seu gesto é cativante. Ele acredita em seu propósito e na força da palavra escrita. Pena que, paradoxalmente, não tem muitos motivos para acreditar nos homens nem em sua própria época. Não é um otimista.

O diagnóstico de Harold Bloom é preocupante, e tem a mácula, já, da nostalgia. O que ele constata de mais importante é o obscurecimento gradativo da arte literária e de seus gênios, com sérias consequências para o desenvolvimento da personalidade individual. O cânone existe porque, parece, a literatura sobreviverá à ignorância, porém seu público está fadado a ser cada vez menor, cada vez mais escasso. O mundo fatalmente descobriu novos prazeres e divertimentos, desviando as pessoas da preocupação essencial com o autoconhecimento, salvo quando se trata de livros de auto-ajuda ou charlatania. Sabemos que a arte é um dos pilares da gnose. Quem discorda que o propósito último da grande literatura de ficção é nos dar a conhecer melhor? Ela é povoada de pessoas cujas paixões e sentimentos - iguais aos nossos -, são dissecados pela sabedoria. Mas, infelizmente, na ótica bloomiana, ninguém quer mais perder tempo com o espelho da alma. Romances sutis e volumosos, poemas clássicos – tenho um Milton de capa dura que mais parece uma joia de museu! – ou dramas escritos perdem adeptos a cada dia, posto que o materialismo tem desfeito o interesse do homem por aquilo que Machado de Assis compara a uma casa: o seu interior. Sócrates e outros luminares parecidos mais do que nunca estão ficando fora de moda, pois além do interesse faltam tempo e paciência a uma sociedade cujo grande ilusão é o dinheiro, seguido, parece, do culto quase religioso mas inútil do corpo.

Bloom não tem ilusões quanto ao nosso destino: a morte é universal e contempla a todos. A única maneira de termos algum conforto é nos conhecer melhor com a ajuda de instrutores qualificados. E se eventualmente algum de nós é dotado de talento literário, ler e escrever são meios possíveis de alcançar a imortalidade, ainda que apenas na memória. É possível que o que mais importa, em nós mesmos, sejam de fato os nossos pensamentos e opiniões, pois são a única coisa humana potencialmente indestrutível. Tudo o mais, nos termos do “Eclesiastes”, é vaidade e vai desaparecer. Será difícil concordar com o óbvio?

Em “Como e Por Que Ler” Bloom teme pela perda da ironia. O que talvez muitos não percebam é que Bloom é, ele próprio, um talentoso ironista. Presumo que não seja verdade que ele, evasivo, odeia a política e necessariamente a história, embora toda a sua argumentação constitua um ataque poderoso contra tais questões. Em “Grande Sertão: Veredas” – romance que Bloom deveria ter lido – Riobaldo reflete sobre o Demônio, afirmando que “Quem muito se evita, se convive.” A política pode ser um dos demônios que obsedam o crítico novaiorquino. Suspeito, portanto, que para a sorte comum ele não consegue ser tão emersoniano como se declara e até gostaria de ser. Ao fim e ao cabo, o que sobra de suas alegias e reclames? Um militante fervoroso em favor da literatura, e sua voz desesperada não deixaria necessariamente de ecoar nas instituições de ensino mais sérias, motivando corações e mentes apaixonados como ele por aquilo que o tempo já testou: o poder de um livro bem escrito.

Embora odeie o culturalismo, Bloom sabe que este poder transcende povos, culturas e gêneros taxonomicamente literários. Em meio a uma nova guerra civilizacional entre ocidentais e muçulmanos, ele surpreende ao defender a leitura do livro sagrado dos antípodas da Casa Branca, o “Alcorão”, obra “verdadeiramente importante para todos nós”, até porque “o islã há de exercer crescente influência sobre nossas vidas, seja nos Estados Unidos ou no resto do mundo.” Não sabemos se é verdade, mas é uma previsão incômoda para o fanatismo calvinista e pertinente do ponto de vista político. Em contrapartida a este elogio, o crítico não cansa de alfinetar o ex-presidente, George W. Bush, fazendo coro à onda mundial contra o neoconservadorismo republicano. Por incrível que pareça, Hussein Obama, o “esquerdista”, teria mais a ver com ele do que o branquelo do Texas.

Haverá de existirem adeptos dos livros bem escritos, apesar de tudo. Se cremos que a arte é a educação dos sentidos, então em matéria de política cultural Harold Bloom não poderá deixar de ser lembrado, penso eu. Pelo que sei, nas universidades brasileiras a subliteratura é também prestigiada, a exemplo do que acontece em Goiás. Ao invés dos clássicos – Camões, Dante, Proust etc. – dá-se sempre um jeito de meter um autor de segunda ou terceira categoria nos vestibulares, apenas porque trata-se de um “valor regional”. As perguntas que ficam são: ao denunciar esse tipo de coisa, Bloom está errado? Por quê? E o que o vestibulando ganha com um autor de terceira que não ganharia lendo Homero? Talvez o problema seja não a intromissão da política nas academias, mas a renúncia dela por parte daqueles que acreditam na importância dos cânones literários, que natural e forçosamente existem. Não é este um meio de deixar o caminho livre para a ação de seus inimigos?

Em última análise, a ogeriza de Bloom contra a ideologia procede, embora seja chocante em função dessa renúncia sobrecarregada de niilismo. Estamos de acordo em que não se deve nivelar por baixo, simplificando, e é verdade que os oprimidos não passarão a ler apenas porque algum autor identifica o conteúdo de sua arte com os problemas de determinada classe social. Pode-se duvidar que Brecht, Maiakóvski ou João Cabral de Melo Neto tenham tido maior sucesso entre os oprimidos do que Joyce. Pode-se duvidar, também, que alguém, algum dia, encontrará um meio de tornar a humanidade feliz, ainda que não possamos jamais condenar aqueles que o tentarem ou tentaram, o principal deles um humanista inexcedível, Karl Marx. Oxalá haja muitos Marx, não porque devamos concordar com eles, mas porque têm esperança na humanidade. O que ganhamos em não ser esperançosos, o ânimo ou o desespero? A ataraxia é improvável e seria perturbadora. Só nos resta ter esperança.

Eu dizia que, depois da primeira crítica contra Bloom, li alguns autores que canonizou e fui obrigado a reconhecer que, se temos autores de primeira plana em paises como o Brasil, certamente não os temos em tamanha profusão como na Europa. Além disso, é preciso ler Montaigne, Proust e o próprio Shakespeare se quisermos ter um parâmetro exato para qualquer julgamento literário menos débil, inclusive em relação aos autores pátrios. Outra vez a história tem o que ensinar, independente de Emerson: é natural que o velho mundo tenha mais em quantidade e qualidade, se comparado à recente constituição, por exemplo, da literatura brasileira, que só adquire autonomia verdadeira com os românticos, passando por José de Alencar e afirmando-se definitivamente apenas com Machado de Assis, há cem anos. Por outras palavras, não temos a tradição histórica de culturas de 500 ou de mil anos, como também não a têm os Estados Unidos. Somos, uns e outros, relativamente novos nesse palco, onde a competição é milenar.

“Gênio”, uma das últimas obras de Bloom, provou que o crítico de Yale é menos unilateral e estúpido do que supúnhamos. Ali ele faz inteira justiça a grandes nomes da língua portuguesa – a Eça, Camões, Pessoa, Machado de Assis e ao próprio Saramago. Este, segundo ele, só não foi contemplado em seu livro pelo fato de estar vivo, reconhecendo-lhe não obstante a condição de “maior escritor” em atividade. Bloom obviamente desprezaria as infelizes comparações da revista “Time” (cf. revista Veja de 21 de outubro de 1998) sobre a premiação de Saramago com o Nobel, pois é da opinião de que foi um dos poucos laureados que conferiram “dignidade” ao prêmio, ao lado de Octavio Paz. Devemos então ser honestos e reconhecer que Bloom não é ignorante ou autista como muitos de seus compatriotas desinformados. Outra coisa é que hoje compreendemos melhor os critérios de “estranheza e sublimidade”, de que se valeu para escolher seus canonizados, nos anos 90. São critérios de uma disciplina esquecida, a Retórica, e portanto menos subjetivos do que imaginávamos há dez anos, quando não tínhamos essa informação.

Embora o debate atice as vaidades, Bloom está correto também ao insistir que tenhamos uma lista para ler – um cânone, pessoal que seja -, e seu argumento é inatacável: nem de longe teremos tempo para ler tudo; logo, leiamos o que reconhecidamente presta. Quem negará Tostoi, Machado de Assis, Flaubert, Virgínia Wolf? Estou particularmente convicto de que a leitura árdua que o crítico sugere é a única que realmente funciona. Eu mesmo aprendi a ler e a escrever, em parte, lendo suas leituras, e confesso que tenho, hoje, mais gosto pela literatura e mais respeito por nomes como São Paulo e Emily Brontë. Não duvido, tampouco, que Dom Quixote e Sancho Pança confundem-se com a realidade, embora sejam fantasia.

Ao contrário de Bloom, discípulo de Walter Pater e Dr. Johnson, sou dos que acreditam que o esteticismo puro e simples não existe, e que o meio social inevitavelmente condiciona a arte. Meu ponto de vista crítico combina mais com o de Alfredo Bosi e Carpeaux. É óbvio, por exemplo, que a língua inglesa e os nobres feudais que caracterizam as peças de Shakespeare estão lá porque esta era a sociedade do poeta, não por causa de suas idiossincrasias. Até que ponto isto é acessório é outra questão. Tampouco esperamos que o pessimismo de Bloom (que é em parte o nosso) cultive adeptos. Termino acreditando que a ação é o antídoto único e inevitável contra as ameaças que nos cercam de todos os lados, inclusive contra o abandono da boa literatura e da suposta extinção dos livros por alternativas virtuais e menos sábias, a médio e longo prazo. A política certamente não escreverá contos, poemas, romances, ensaios e dramas no lugar do indivíduo, mas poderá assegurar que permaneçam em nosso horizonte de interesses. Preservar a literatura é também uma forma de preservar a humanidade, e nesse caso não podemos abdicar da política. 
 


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POR EM 02/03/2009 ÀS 05:44 PM

Adições e subtrações

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A escrita de Graciliano Ramos, pessoalíssima, muito pouco tem a ver com a elegância de Machado. Em “Origens e Fins”, Carpeaux definiu o estilo do maior romancista da Geração de 30 como poeticamente clássico, a trair um “oculto passado parnasiano”. É lícito reconhecer que o gênio de Graciliano conseguiu uma síntese aparentemente impossível, a subverter de certo modo o didatismo das classificações e o aparente domínio da matéria expressiva pelos críticos e estudiosos

 
 
Alguns críticos de importância (Gilberto Mendonça Teles, Massaud Moisés) demonstraram a influência de Machado de Assis sobre Graciliano Ramos. Há um nítido jogo especular presidindo a construção de “São Bernardo” em relação a “Dom Casmurro”: obras parecidas, partilham a estrutura narrativa semelhante, a natureza memoralística, aspectos dramáticos e o tema do ciume. Mas a escrita do alagoano, pessoalíssima, muito pouco tem a ver com a elegância de Machado. Em “Origens e Fins”, Carpeaux definiu o estilo do maior romancista da Geração de 30 como poeticamente clássico, a trair um “oculto passado parnasiano”. A categoria Clássico implicaria uma gama de estilos que atravessa a história da arte: em geral a associamos à Grécia de Péricles, na Antiguidade, ou à França de Luís XIV, no século XVIII (neoclassicismo, para ser exato). Na Idade Moderna, seria mais do que essa autossuficiência de teor racional, entretanto: seria também a tradição católico-barroca, exponencial na Itália e sobretudo na Espanha, avançando pelo mundo protestante dos Países-Baixos sob a tortuosidade lânguida do rococó. Não seria apenas luz e moderação, mas também sombra e sensualidade.
 
Feita essa observação, é bem lembrado que o classicismo da linguagem de Graciliano reporta, de fato, à tradição francesa, que em nossa poesia rendeu Bilac, embora o efeito obtido seja curiosamente paradoxal. É impressionante o que Graciliano consegue subtrair com essa técnica conhecida pelo formalismo e polidez: se sua arte fosse feita para o gozo dos olhos e não apenas do intelecto, longe do equilíbrio e do contorno gracioso de um Ingres veríamos emergir, perplexos, o tosco à maneira não sei se de Max Beckmann ou do Portinari da série “Retirantes”. Isto é, não a linha delgada que aspira à exatidão matemática, antes o traço violento, deformante. É uma contradição em termos: de sorte que Carpeaux tem razão, é lícito reconhecer que o gênio de Graciliano conseguiu uma síntese aparentemente impossível, a subverter de certo modo o didatismo das classificações e o aparente domínio da matéria expressiva pelos críticos e estudiosos.
 
Mas voltemos ao veio inicial: a influência machadiana. Há na história de “São Bernardo” sutilezas que evocam o mestre fluminense, e que tanto podem ser simples resquícios quanto o princípio de uma explicação razoável para os segredos do romance. Senão vejamos, do mais insignificante ao mais ponderável: num dos períodos de seu capítulo 24, há essa passagem:
 
“Mais tarde, no escritório, uma idéia indeterminada saltou-me na cabeça, esteve lá um instante quebrando louça e deu fora. Tentei agarrá-la, ia longe.” 
 
Trata-se de uma construção tipicamente machadiana, com o tom zombeteiro de quem aspira vida às coisas inanimadas e abstratas. Não há outra igual no romance, centrado no tema fundamental do ser do próprio herói: “São Bernardo” são as memórias de Paulo Honório, como existem as de Bentinho. Vê-se que os dois terminam na mais completa solidão, e o segundo é um autêntico Dom Casmurro. Há ainda o filho do casal Paulo Honório e Madalena, aliás uma história com ciúme, lindeira portanto à de Machado. Essa identidade comum enseja, no capítulo 25, um comentário sintomático do narrador – transcrito por Mendonça Teles em “A escrituração da escritura” - justamente quando o fazendeiro é tomado de assalto pelas suspeitas em relação à esposa. O herói examina os traços físicos do filho como se fosse Bentinho diante de Ezequiel, à procura de um sinal que revele a traição. Ainda isso é de menos: o que, ao meu ver, Graciliano parece ter tomado de empréstimo de Machado e pagou com juros e correção monetária, em “São Bernardo”, é uma imagem que o último converte em metáfora. Leiam o Cap.LVI de “Dom Casmurro” e a encontrarão completa. Diz assim o fundamental (todos os grifos são meus, daqui em diante): 
 
“Escobar veio abrindo a alma toda, desde a porta da rua até o fundo do quintal. A alma da gente, como sabes, é uma casa assim disposta, não raro com janelas para todos os lados, muita luz e ar puro. Também as há fechadas e escuras, sem janelas, ou com poucas e gradeadas, às semelhanças de conventos e prisões.” 
 
Que Graciliano tenha se interessado por este período de “Dom Casmurro” em particular é hipoteticamente aceitável. Pode-se pelo menos cotejá-la à dinâmica de base de “São Bernardo”. A sede em que vive Paulo Honório não tem luxos, pela própria índole do proprietário (reconhece, no balanço final, que é um homem tosco). Ele tampouco ligaria em curti-la, pois o que o absorve é – dado interessante - o mundo exterior, os negócios, as andanças de inspeção, fiscalizando as obras e os trabalhadores da fazenda. Nessa labuta surpreendemos a dificuldade que tem de estar consigo mesmo: o mundo e suas exigências inesgotáveis são vias de escape inconscientes de um homem que trabalha para comer, apenas. É um bicho qualquer, movido pelo instinto miserável da sobrevivência. O comércio entre interior e exterior, isto é, entre a casa que se faz símbolo ou metáfora do homem, conforme a sugestão de Machado, revela-se nessa confissão aparentemente tola, do herói: (...)
 
“Levantei-me, encostei-me à balaustrada e comecei a encher o cachimbo, voltando-me para fora, que no interior da minha casa tudo era desagradável. (capítulo 23) 
 
A existência de Paulo Honório no interior de sua morada calha bem com a definição machadiana de que “Também as há fechadas e escuras”, isto é, casas – ou se o leitor preferir, almas. Todo o capítulo 30 de “São Bernardo” é uma noite passada pelo herói dentro da casa da fazenda, por outras palavras, um estar em si. É quando vêm-lhe à tona e o acuam seus fantasmas, suas obsessões, suas neuroses, não estando ele certo do que seja real e do que é fruto da imaginação (“no interior da minha casa tudo era desagradável”). O último capítulo, que é um balanço existencial, passa-o também dentro de casa - ou enfurnado nas próprias entranhas. Trata-se de outra noite, sob a qual depara-se com um homem numa solidão excruciante: 
 
“As janelas estão fechadas. Meia-noite. Nenhum rumor na casa deserta.” 
 
Curioso como, inversamente, este homem oco, reduzido brutalmente em sua humanidade e escala de valore essenciais pelo mundo, só encontra alívio quando se volta para o exterior. Em dado momento ele sobe à torre da igreja e contempla São Bernardo. Seus olhos perdem-se no horizonte e a paisagem, vista panoramicamente, transformada pelo “seu” esforço individual, confere-lhe as dimensões de um deus que tudo provê: 
 
“Quinze metros acima do solo, experimentamos a vaga sensação de ter crescido quinze metros. E quando, assim agigantados, vemos rebanhos numerosos a nosso pés, plantações estirando-se por terras largas, tudo nosso, e avistamos a fumaça que se eleva de casas nossas, onde vive gente que nos teme, respeita e talvez até nos ame, porque depende de nós, uma grande serenidade nos envolve. Sentimo-nos bons, sentimo-nos fortes.”
 
À medida que olha a fazenda, agiganta-se, à medida que mergulha em si, apequena-se. No capítulo final, Paulo Honório vê-se reduzido às próprias dimensões, sobrevindo-lhe as perguntas sem respostas e a agonia. Enquanto prosperou, o parâmetro de suas relações fora o cálculo, em termos de lucros, despesas e compensações. Toda a sua argumentação é obsessiva nesse sentido, mediando-se pela troca; cada um de seu contubérnio tem um preço, inclusive a esposa Madalena, que percebe salário e tem direito a férias: bastante normal, não fosse o fato de que não é o senso de justiça o leitmotiv de Paulo Honorário. Iniquo, ele a remunera, como nos demais casos – como remunera o editor Gondim e o advogado Nogueira -, para poder exigir e ter o controle de suas relações. É indiferente o dado afetivo ou conjugal.
 
Aliás, não contrai matrimônio por paixão, como quer Massaud Moisés, mas para produzir um herdeiro. Dirigindo-se à d. Glória, a quem confidencia sua intenção com Madalena, é enfático: “Qual reciprocidade! Pieguice. Se o casal for bom, os filhos saem bons; se for ruim, os filhos não prestam. A vontade dos pais não tira nem põe. Conheço o meu manual de zootecnia.” (capítulo 15) Tal criatura é um produto do ventre, não do coração. O realismo de São Bernardo equilibra-se entre a psique e o organismo físico. Paulo Honório é claro devedor do naturalismo: além dessa comparação bestial, põe a culpa na profissão e no meio, e a opressão psicológica que o atinge traduz-se melhor pelos nervos à flor da pele, quase a rebentar.
 
Há algo a ser dito sobre Madalena: apesar dela dividir o centro da trama romanesca, não é uma criação inteiramente convincente (Paulo Honório o é, sem arestas). O problema da heroína, acredito, transparece particularmente em duas situações fundamentais: primeiro quando, no capítulo 16, ela aceita se casar com seu pretendente, admitindo combinar com um homem que, no mesmo diálogo, contraria flagrantemente tudo aquilo que ela se propõe representar: os livros e a instrução. O desacordo seguinte é mais chocante: ao falar do filho, Paulo Honório revela que “ninguém se interessava por ele”, salvo Casimiro Lopes, que é praticamente uma besta. Enquanto o menino chorava sentido, a mãe, deprimida, “andava pelos cantos, com as pálpebras vermelhas e suspirando.” (cap. 25) Madalena celebrizou-se como um símbolo da solidariedade em nossa literatura. É o narrador quem registra sua indignação, não direi com uma classe, mas com o sofrimento de terceiros: Rosa, Marciano, Margarida, entre outros. Não é incongruente, com efeito, que logo o filho – tanto mais por se tratar de um inocente - não mereça sua piedade?
 
Há quem diga – já isto não é problema de Madalena, mas dos críticos – que se trata de uma revolucionária, tingida de cores socialistas. O marido, na sua ignorância teórica, pode fazer essa inferência, não o leitor atento (talvez eu mude de opinião, após nova leitura). A mim me pareceu que sua indignação é, apenas, a de um espírito saudável em face de um que é patológico, qual seja o do marido. Sua ingenuidade não obstante a impede de alcançar dimensões panfletárias, e as ideias que se conformam ao seu temperamento chegam-lhe mais por vias indiretas, em particular Luis Padilha, do que por iniciativa própria ou vocação política.
 
Paulo Honório é o oposto de Madalena, de onde o tensionamento que termina em tragédia. Desconhece vínculos de solidariedade e o amor; não há espaço para afeições e sensibilidades nessa alma assolada pela matéria. É integralmente absorvido pela posse, que esfacela sua humanidade: dele em verdade poderíamos nos apiedar como de qualquer um de seus empregados, porque são, possivelmente, mais felizes do que ele. Castigado pela lógica perversa do capitalismo, tem consciência de sua mesquinhez e vive a um passo do inferno. Mas a matéria o abandona finalmente – fatalmente – e percebe a estupidez de seus projetos de grandeza. Percebe, tarde, que se apegara a coisas efêmeras, incapazes de acudi-lo. Todos o abandonam em função de São Bernardo: São Bernardo, finalmente, o abandona, levada às brecas pelos ventos que sopram do sul (a Revolução de 30).
 
Impõem-se, severa, a pergunta de repercussão universal desta lição igualmente grande: o que, além de acumular, acumular, acumular (interesse supremo de nosso tempo mendicante)... pode e deve um homem fazer nessa vida, antes de se deparar com a ruína?
 

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POR EM 02/03/2009 ÀS 01:28 PM

Campos de Carvalho: A vingança do ícone iconoclasta

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"Sei que é de praxe o suicida invocar grandes razões, e se possível belas, para justificar seu gesto tresloucado. Se eu quisesse, certamente poderia encontrar uma dúzia (de razões) capaz de justificar não apenas o meu suicídio como o suicídio de toda a humanidade, no dias que correm como em todos os tempos"
 

Foto: Eder Chiodetto 

Campos de Carvalho não está mais entre nós, mas está com a bola toda. O último satanista da literatura brasileira (foi assim que ele se definiu certa vez) está virando um ícone contemporâneo. Um ícone iconoclasta. Seus principais romances, depois de muito tempo esquecidos, foram relançados com sucesso em meados dos anos 90, num volume único intitulado “Obra Reunida”. Agora eles voltaram a ser publicados também separadamente, e dois foram recentemente adaptados para o palco, com igual sucesso. Nada mal para esses livros irreverentes e inquietantes, às vezes ranzinzas e antipáticos — como dizem que seu autor costumava ser —, escritos há mais de quarenta anos.
Vamos aos fatos, aos boatos, às anedotas.
 
Trajetória torta   Walter Campos de Carvalho nasceu em plena Guerra Mundial, em 1º de novembro de 1916, em Uberaba, Minas Gerais (se é que Minas Gerais existe mesmo). Terminados os primeiros estudos na cidade natal, veio a São Paulo para cursar a faculdade de Direito e chegou a dividir um quarto de pensão com o conterrâneo Mário Palmério, com quem se desentendeu tempos depois, por razões ideológicas e estéticas. Em 1938 formou-se pela Faculdade São Francisco, tendo trabalhado durante toda a vida como advogado e procurador do estado de São Paulo.

Estreou na literatura aos vinte e cinco anos, ou seja, em 1941, com “Banda Forra”, coletânea de ensaios humorísticos publicada às suas custas, elogiada na época por Monteiro Lobato. Apesar disso o livro passou completamente despercebido. Mais de dez anos depois surgiu seu segundo livro, o romance “Tribo” (1954). Por vontade expressa do autor, que não via neles qualidades salientes, esses dois trabalhos ficaram de fora da “Obra Reunida”, publicada em 1995 pela editora José Olympio, com orelhas de Mário Prata, prefácio de Jorge Amado e introdução de Carlos Felipe Moisés, três admiradores confessos do autor. Desse volume fazem parte apenas os quatro romances que se seguiram ao de 54: “A Lua Vem da Ásia” (1956, indicado ao editor José Olympio, para publicação, pelo amigo e escritor Aníbal Machado), “Vaca de Nariz Sutil” (1961, escrito em quarenta dias), “A Chuva Imóvel” (1963) e “O Púcaro Búlgaro” (1964, escrito no tempo recorde de vinte e dois dias).

Também ficaram de fora desse volume o ótimo conto “Os trilhos”, publicado em 1960, no número 11 da “Revista Senhor”, e a narrativa “Espantalho habitado de pássaros”, contida na coletânea “Os Dez Mandamentos”, de 1965. “Campos de Carvalho é um autor que só será descoberto daqui a trinta anos”, disse Ênio Silveira, e a profecia de fato se realizou. Nos anos seguintes ao da publicação de “O Púcaro Búlgaro”, anos de ditadura militar e de guerrilha cultural, seu temperamento iconoclasta e por vezes arredio, a oposição ao regionalismo de Mário Palmério e Guimarães Rosa, a recusa à militância política cobrada pelos seus pares e as desavenças com os editores levaram Campos de Carvalho a se afastar da literatura.

Apesar disso, no período de 1968 a 1978 colaborou com “O Pasquim”, enviando da Europa as crônicas humorísticas que compuseram “Os Anais de Campos de Carvalho”, e também trabalhou no jornal “O Estado de S. Paulo”. “A Lua Vem da Ásia” e “A Chuva Imóvel” foram traduzidos para o francês e publicados pela editora Albin Michel, respectivamente em 1976 e em 1980. Seu nome foi citado pouquíssimas vezes nos compêndios de literatura brasileira e o autor jamais ganhou um único prêmio literário. Morreu de enfarte aos 82 anos, na Sexta-Feira Santa de 1998, depois de mais de trinta anos sem escrever nem publicar outro livro.

O retorno do maldito Durante as três décadas em que ficou distante da literatura, Campos de Carvalho também ficou longe da imprensa cultural, que deixou de procurá-lo. Com o lançamento da “Obra Reunida”, a situação mudou. Fotos, resenhas e entrevistas com esse romancista “louco, brutalista, maldito, anarquista, satanista e surrealista” — essa a maneira como Campos foi tratado por praticamente todos os críticos e jornalistas, tanto pelos que o admiravam quanto pelos que o rejeitavam — foram publicadas em todos os jornais e em todas as revistas importantes.

O gostinho de ser novamente lido depois de tanto tempo fez com que pensasse em retomar seu projeto literário e em dar à luz outro romance de puro nonsense, na linha de “O Púcaro Búlgaro”. Quando perguntado a respeito, o título provisório do livro que estaria escrevendo era sempre adiantado ao interlocutor curioso: primeiro foi “Pássaro Insano em Céus do Antigo Egito”, depois “Maravilha no País das Alices”, depois “Maquinação Sem Máquina”, “Especulação Sem Espelho”, em seguida “Mosaico Sem Moisés” e finalmente “De Novo no Ovo”. Títulos do derradeiro romance que Campos de Carvalho, impedido agora por sérios problemas de saúde, jamais pôde escrever. 


Neste início de século, o que mais aconteceu? A editora José Olympio publicou as “Cartas de Viagem e Outras Crônicas”, livrinho cujo título já diz tudo: trata-se da reunião das cartas e das crônicas publicadas no “Pasquim” nos anos 70. Além disso “O Púcaro Búlgaro” e “A Chuva Imóvel” foram levados ao teatro, em ótimas adaptações. O que vem por aí? Uma biografia do autor e mais um volume de textos dispersos. Devagar, passo a passo, Campos de Carvalho vai escapando do esquecimento, vai despertando o interesse de mestrandos e doutorandos, mas sem deixar de ser marginal.

Contra a razão As palavras iniciais de “A Lua Vem da Ásia”, elogio irônico à quebra do discurso racional e às sucessivas metamorfoses de todos os seus narradores pretéritos e futuros, sintetizam à perfeição o procedimento ficcional de Campos de Carvalho: “Aos dezesseis anos matei meu professor de lógica. Invocando a legítima defesa — e qual defesa seria mais legítima? — logrei ser absolvido por cinco votos contra dois e fui morar sob uma ponte do Sena, embora nunca tenha estado em Paris. Deixei crescer a barba em pensamento, comprei um par de óculos para míope e passava as noites espiando o céu estrelado, um cigarro entre os dedos. Chamava-me então Adilson, mas logo mudei para Heitor, depois Ruy Barbo, depois finalmente Astrogildo, que é como me chamo ainda hoje, quando me chamo”.

A lógica da insanidade e o bom-senso do nonsense foram sua marca distintiva: “A loucura em Campos de Carvalho é recurso de composição para a sátira combinada ao lirismo, assim como a escala diminuta de Lilliput, por exemplo, eleva a mil o ridículo das pompas dos governantes e das dissensões políticas. (…) Submetendo a tradição clássica aos ritmos da vanguarda traduzidos também, como não poderia deixar de ser, no compasso brasileiro, Campos de Carvalho alinha-se entre os grandes satiristas que, com indignação genuína, vergastaram a irracionalidade e os abusos com que o homem vem escrevendo sua História”, escreveu a crítica Vilma Arêas.

O que significava o humor para Campos de Carvalho? Às vésperas do lançamento da “Obra Reunida”, Mário Prata foi ao apartamento do autor para entrevistá-lo. Ao chegar, o romancista entregou-lhe um pedaço de papel mal datilografado. Num gesto tipicamente seu, ele já havia feito a entrevista: as perguntas e as respostas. Essa rápida autoentrevista terminava com a seguinte pergunta: “O que significa o humor para você?” E a resposta esclarecedora: “Significa o auge de qualquer ficção ou de qualquer outra arte, no sentido de sublimação do sublime, da efervescência do fervor ou da originalidade do original. É um passo à frente de qualquer vanguarda, que se arrisca ao hermetismo da própria linguagem, ao desconhecido, ao inefável. É o caso de ‘Finnegans Wake’, por exemplo, ou do mais nebuloso poema de Mallarmé, cujo humor intrínseco sempre nos escapa (tão-me estranho, tão-me intrínseco) por mais que o tentemos desvendar. É o caso também do extenso poema em prosa ‘Hebdomeros’, de Giorgio de Chirico, cuja facilidade aparente é apenas a maneira que o autor encontrou para melhor se disfarçar e não se expor ao ridículo, que nele é apenas o humor verdadeiro e sutil. Note-se que não estou sequer tentando comparar-me a esses luminares da literatura de ontem, mas apenas tentando justificar meu total apreço pelo humor como forma de arte, mesmo partindo de uma pequena experiência como ‘O Púcaro Búlgaro’.”
 
Por falar em humor… Tribo, o primeiro romance de Campos de Carvalho, ainda não foi reeditado. Infelizmente. Mas tudo indica que no futuro próximo esse delicioso lance de irreverência irá se juntar aos quatro últimos, que agora podem ser encontrados separadamente nas livrarias.
 
A lua delirante Surgido no contexto do pós-guerra e paralelo ao Existencialismo na Europa, o terceiro romance, “A Lua Vem da Ásia”, traz em sua trama caótica e fragmentada as discussões acerca dos traumas e das ansiedades da geração que presenciou os horrores da Segunda Guerra Mundial. Segundo Marcos Siscar, “as conseqüências psicológicas da guerra, nas personagens de Campos de Carvalho, são evidentes (…), os horrores do morticínio gratuito, largamente decantado pelo cinema, estão representados desde o triste e sutil humor d’A Lua até o protesto artisticamente previsível d’A Chuva.”
 
“A Lua Vem da Ásia” é narrado na primeira pessoa. Os episódios se desenrolam de maneira desordenada, o passado e o presente se alternam, e os fatos fantásticos e absurdos, juntamente com as impressões e as reflexões do próprio narrador, são expostos de maneira aparentemente aleatória. O enredo, não obstante o discernimento crítico do narrador, é fruto de uma mente complexa e atormentada pela loucura, que às vezes se cristaliza na forma da mais pura perplexidade. Trata-se de um romance fragmentário, estilhaçado e descontínuo, reflexo de uma mente e uma alma (a princípio do narrador, e não do autor) igualmente caóticas.
 
No entendimento de Siscar, o louco nas obras de Campos de Carvalho “não é o psicopata, o não-saudável, mas é justamente aquele que consegue compreender a essência mais íntima da razão humana”, o que muitas vezes redunda em dor e sofrimento, uma vez que a razão humana é a justificativa para várias atitudes não-humanas, ou irracionais, como se percebe nesse trecho, quando o narrador decide denunciar os abusos sofridos: “Pois o que me ocorre, onde me encontro, é apenas isso que me parece de um absurdo inominável: uma minoria armada até os dentes, inclusive com cadeiras elétricas, manda e desmanda em uma maioria de indivíduos realmente individuais…”. O louco, então, é o autoconsciente, em oposição ao são, que, ironicamente, é o grande responsável pela loucura e pelo caos do mundo. 

 
“Vida sexual dos perus” e “Cosmogonia” são as duas partes em que o livro se divide. Na primeira parte o narrador se encontra (ou julga se encontrar) num campo de concentração que antes imaginara ser um hotel de luxo, no qual permanece por longo tempo, sem saber determinar sua localização: “Não sei dizer se fica na Europa ou na Ásia ou mesmo na Polinésia.” Há a narrativa no presente e há uma série de flashbacks sobre a vida do protagonista anterior à clausura, além de várias reflexões que possibilitam ao leitor o contato imediato com as concepções e as posturas extravagantes de Astrogildo, que é como ele se chama ainda hoje, “quando se chama”. Nova reviravolta. Nem hotel de luxo nem campo de concentração, pois se trata na verdade de um hospício, sendo o narrador um de seus internos.
 
A segunda parte, “Cosmogonia”, após o relato da fuga nada espetacular de Astrogildo, relata sua vida em liberdade, bem como suas aventuras fantásticas por vários países. Nesse meio tempo ele exerce inúmeras profissões para sobreviver, inclusive a de estrela de cinema. Mas embora busque sentido em tudo isso, ele logo toma consciência exatamente da falta de sentido da vida: “Mas você, meu irmão, já imaginou o romance sensacional que poderemos escrever um dia sobre esta experiência bélica a que estamos sendo submetidos em pleno tempo de paz, se é que se pode chamar de paz a este estado de angústia permanente e de ódios gratuitos que marca todos os nossos passos, mesmo e sobretudo durante o sono?”
 
No final do romance, no capítulo “O.P.Q.R.S.T.U.V.X.Y.Z.”, o narrador escreve uma “Segunda e definitiva carta ao Times” (Com vista ao senhor redator da seção necrológica), desejando informar a todos sobre o seu suicídio. A força da ironia e do sarcasmo usados contra os seres humanos e a sociedade, o menosprezo explícito pelas normas, a posição crítica em relação à realidade circundante e a perplexidade diante deste mundo em que as relações humanas perderam completamente o sentido, por tudo isso o narrador decide abandoná-lo: “A comunhão dos vivos ainda está por existir e com toda certeza não existirá nunca, dada a pouca cordialidade existente entre os homens, como de resto entre todas as feras de uma mesma espécie.”
 
As sutilezas do olfato O título do terceiro romance, “Vaca de Nariz Sutil”, importado do quadro homônimo de Jean Dubuffet, pode enganar à primeira vista, uma vez que sugere um humor que em raros momentos se mostra no livro. Aliás, não só o título pode enganar, como as epígrafes (“Arrière la choucroute!” — Erik Satie; “Merde!” — André Derain) e as palavras iniciais: “Onde o senhor dorme? ‘No Hotel Terminus’. Mas aqui não há nenhum hotel Terminus. ‘É o que o senhor pensa’”. Ao contrário do que pode parecer, esse é um romance sombrio, denso, sério.
 

Cenas do espetáculo Vaca de Nariz Sutil
 
“Vaca de Nariz Sutil” é, como o romance anterior, um relato confessional, mas dessa vez de um ex-combatente de guerra que esteve submerso num universo de morte do qual conseguiu escapar fisicamente (apenas fisicamente) ileso. A temática do livro é a morte. A prosa se reveste agora de tragicidade e, ao mesmo tempo, de um lirismo refinado. Esse lirismo se manifesta especialmente quando o narrador trata de sua paixão por Valquíria, “uma moça de quinze ou vinte anos”, que parece ter alguma deficiência mental. É sobre um túmulo que o ex-combatente possui Valquíria, sendo em seguida surpreendido por uma viúva que o acusa de violentar a filha do zelador em pleno cemitério.
 
Após receber as honrarias de seu país, o narrador, “ex-combatente e assassino” (segundo suas próprias palavras), ironicamente se transforma (aos olhos da sociedade) num perigoso criminoso. Essa situação acaba instigando nele várias perguntas de fundo moral e ético. Afinal, por ter lutado por seu país e matado outros seres humanos, foi visto como um herói, mas ao se envolver com uma mulher, em cuja relação houve a aceitação mútua, agora é visto como criminoso. Assim, aos poucos se delineia o perfil de nosso anti-herói: questionador, antipatriótico, esquizofrênico, pedófilo e estuprador são algumas de suas características principais, a maioria atribuída pelos outros.
 
Como em “A Lua Vem da Ásia”, o protagonista de “Vaca de Nariz Sutil” é totalmente desencantado com as relações sociais, com a comunicação entre os homens. Tanto o primeiro protagonista quanto o segundo refletem, de alguma forma, em maior ou menor grau, um mundo estraçalhado pela guerra. Tanto o narrador do primeiro romance quanto o do segundo são frutos do pós-guerra, desse momento em que se instauraram, ao mesmo tempo, um desencanto e uma esperança débil nos rumos da humanidade. Assim, as duas vozes estão em constante conflito, ora excessivamente amargas, desencantadas e irônicas com o ser humano e a sociedade, porém às vezes desejosas de mudanças. Nesse sentido, é possível enxergar nessas obras um perpétuo assombro ante o caos, a violência e a destruição da civilização e de seus valores.
 
A chuva subterrânea O livro seguinte, “A Chuva Imóvel”, é certamente o mais denso, lírico e filosófico de Campos de Carvalho. Aqui o prosador exercita, com vigor e brutalidade, sua voz mais raivosa: a voz do sangue e da cólera.
 
Há controvérsias no que tange à escolha de sua obra-prima: embora a maioria dos leitores e dos críticos considerem “A Lua Vem da Ásia”, alguns consideram “O Púcaro Búlgaro”, e outros “A Chuva Imóvel”. Sendo ou não sua obra-prima, o certo é que o desenlace desse romance é o mais melancólico e claustrofóbico de todos os seus livros: “Levarão séculos para me içar, se é que estão realmente içando, e enquanto dure esta longa ascensão do meu cadáver, mas também do que está dentro dele, eu e não ele — continuarei minuto a minuto a cuspir-lhes do fundo da minha consciência, com esta corda no pescoço mas cuspindo, em sinal de protesto e sobretudo de nojo — por mim e por todos esses que morreram nos meus testículos, que morreram ou que estão morrendo, juntamente comigo morrendo, nesta matança dos inocentes. Mesmo morto continuarei dando meu testemunho de morto. Esta chuva imóvel serei eu que estarei cuspindo.”
 
O romance não se concentra em temas específicos, mas está calcado na busca existencial da personagem central, André. A narrativa se constrói em diversos episódios transmitidos ainda de forma fragmentária, aos pedaços. A história gira em torno de André e de sua irmã gêmea, Andréa, por quem ele nutre um amor incestuoso. Segundo Carlos Felipe Moisés, “A Chuva Imóvel” “se arma em dois planos conjugados: de um lado há a auto-escavação a que o narrador se submete, implacável, à procura de um sentido para a existência; de outro há a observação do mundo exterior, a tentativa tantas vezes repetida quanto frustrada de sintonizar com os que o cercam.” Diante da impossibilidade de se encontrar nesse sufocante mundo de contradições, o protagonista envereda por um caminho sombrio de indagações profundas acerca de si mesmo, encontrando como única saída para sua existência o suicídio.
 
O púcaro pícaro Sobre o quinto e último romance de Campos de Carvalho escreveu Antônio Olinto, quando de seu lançamento: “Com ‘O Púcaro Búlgaro’ atinge o autor o ponto mais distante em sua caminhada. E finca em nosso chão a bandeira da insatisfação e da insubmissão, de que, durante muito tempo, Oswald de Andrade foi aqui o símbolo. É por isso que Campos de Carvalho isola-se na literatura brasileira e constitui caso sem paralelo. Daí sua posição de vanguarda. E sua solidão.”
 
O romance pode ser dividido em três partes. A primeira parte compreende os quatro primeiros capítulos: “Explicação necessária”, “Os prolegômenos”, “Explicação desnecessária” e “In memorian”, que, excetuando-se este último (na verdade, apenas uma nota), têm praticamente o mesmo teor e poderiam ser considerados um único capítulo, caso não tivessem sido fracionados pelo autor. A segunda parte compreende o corpo do romance, redigido em forma de diário, e a terceira parte, menor que as demais, é formada pelo diálogo final entre as três personagens centrais do livro, sob o título “A partida” (Apesar dos pesares).
 

Cenas do espetáculo O Púcaro Búlgaro
 
A ação de “O Púcaro Búlgaro” tem início nos Estados Unidos — para ser mais preciso, nas dependências do Museu Histórico e Geográfico da Filadélfia, onde Hilário, o protagonista, se surpreende com a visão de um púcaro búlgaro —, depois se concentra por inteiro no Rio de Janeiro. Há muita agitação no apartamento de Hilário, nas ruas e avenidas próximas, por conta dos preparativos para a expedição de descoberta da Bulgária. Porém essa movimentação toda, o incessante entra-e-sai de tipos os mais curiosos, resulta sempre no oposto do que se espera: na inércia pura e simples.
 
Muito esforço é despendido durante meses seguidos na organização de uma expedição que não deslancha, que jamais ganha o mar, que termina (antes de começar) numa rodada de pôquer em pleno ponto de partida. Esse excesso de peripécias em torno da imobilidade — espécie de coito infinito sem orgasmo — é, ao que tudo indica, a melhor representação possível do movimento perpétuo do mundo moderno, em que tudo se encaminha mecânica e aceleradamente para determinados fins, que, de tão selvagens, jamais justificam o esforço.
 
As ações e reações de Hilário são tempestuosas, passionais, instintivas, mas não levam a nada: ao descobrir o púcaro búlgaro no Museu Geográfico ele retorna imediatamente ao Brasil, deixando no hotel a mulher sem dinheiro sequer para custear as despesas. Mas logo em seguida esquece-se do que pretendia fazer; põe-se a redigir um diário sem saber exatamente com que propósito; deambula pela cidade, angustiado sabe-se lá com o quê (é claro que com a descoberta recalcada, apagada da memória desde a sua chegada ao Brasil); enche o apartamento de estranhos, todos eles, na sua concepção, futuros expedicionários; promove debates e seminários sobre a existência ou não da Bulgária; cria o MSPDIDRBOPMDB (Movimento Subterrâneo Pró-Descoberta ou Invenção Definitiva do Reino da Bulgária ou Pelo Menos dos Búlgaros); adia várias vezes a partida e por fim desiste de vez de se lançar à empreitada.
 
A trama do romance é dominada por dois interlocutores: Hilário e Radamés Stepanovicinsky, o professor de bulgarologia. São eles que comandam os demais, propõem e organizam, da maneira as mais estapafúrdias, a expedição à Bulgária. As outras personagens — Rosa, o velho nonagenário e a sua neta, Pernacchio, Ivo que viu a uva, Expedito e o psicanalista — ficam sempre em segundo plano, pouco se destacando do fundo narrativo, pouco se destacando inclusive uns dos outros. Todos esses coadjuvantes são representados como se fossem meros objetos, sem profundidade psicológica e sem nenhum traço de caráter: eles estão aí para servir de escada, para que Hilário e Radamés tenham onde se apoiar. São como marionetes, mas nesse ponto assemelham-se todos, em maior ou menor grau: os dois protagonistas e os coadjuvantes.
 
Hilário descreve a si mesmo e aos outros sempre de fora: apreende apenas o seu comportamento exterior e lhes reproduz os diálogos, jamais penetrando na sua alma. Mesmo quando procura tratar de sua vida íntima percebemos que o narrador nada tem a dizer sobre ela, ou porque ele não a conhece ou porque ela simplesmente não existe. São todos títeres, o narrador, Radamés e os demais, pois não têm dimensão interior, sendo que as situações cômicas ganham mais intensidade graças a esse fato. A representação estilizada do mundo e das pessoas torna ambos estranhos e impenetráveis: “Os seres humanos tendem a tornar-se objetos sem alma entre objetos sem alma”, escreveu Anatol Rosenfeld.
 
Em contrapartida, esse recurso, empregado para deformar a perspectiva do narrador tradicional, também reveste as pessoas e a realidade com certo verniz mítico. O tempo da ficção deixa de ser o tempo cronológico, específico, em que se sucedem os fatos, e passa a ser o tempo ameaçador dos contos de fada, dos relatos grotescos e fantásticos. A forma objetiva de narrar, em tudo avessa à forma subjetiva do romance psicológico, privilegia a ação e a descrição, aproximando assim esse romance de Campos de Carvalho das epopéias homéricas.
 
“O Púcaro Búlgaro” é a única epopéia possível nos tempos modernos, porque é a anti-epopéia das expedições exploratórias. Enquanto na “Ilíada” e na “Odisséia” temos a consumação da conquista por parte da aristocracia grega, aqui temos o fracasso de semelhante empreitada conduzida pelos anti-heróis da classe média tupiniquim. Lá o tom épico; aqui o seu contrário, o tom satírico — o ponto comum a ambos: o choque, o susto, o espanto, o estranhamento que os seres humanos e os objetos do cotidiano provocam, como se estivessem sendo vistos e nomeados pela primeira vez. Choque provocado por tudo o que é mais corriqueiro: nas epopéias homéricas o mundo dos deuses, sua rotina pouco rotineira e sua ética particular; no “O Púcaro Búlgaro” o mundo dos homens, cada púcaro e cada búlgaro podendo existir ou não, cada membro do corpo podendo ser outra coisa, como a mão de Radamés que é, para todos os efeitos, seu gato de estimação.
 

 *Texto publicado parcialmente na edição de novembro do Rascunho e integralmente nesta edição da Revista Bula


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POR EM 16/02/2009 ÀS 09:15 PM

O mercado é mesmo gozado

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Até que ponto as narrativas de Antonio Carlos Viana e André Sant´Anna rebaixam e decompõem o poder? O que está em jogo é outra estratégia, numa época que diz ser pós-utópica, pós-política. Ambos se voltam para a transformação do riso e do sexo em mercadoria e entretenimento. Os contos são propositadamente grosseiros e radicalizam a linguagem baixa 


 

No conto “Dona Dadinha”, Antonio Carlos Viana cria uma senhora idosa com o gosto nada convencional para quem nasceu provavelmente na primeira metade do século XX e vive no novo milênio. “Ninguém melhor que dona Dadinha pra falar de putaria. Adora um filme pornô e sabe de cor e salteado os donos das melhores varas. A família inteira ri quando ela descreve as gozadas na cara de mulheres. ´Parece mamadeira de maionese desandada.´”, escreve, no livro “Aberto Está o Inferno” (2004).

As filhas se preocupavam, porque dona Dadinha possuía até bisnetos e não pegava bem ficar por aí vendo essas coisas. Porém, a velhinha pouco se importava e apenas lamentava a ausência do marido falecido para compartilhar os prazeres modernos. Ao terminar de assistir aos filmes, dizia: “Pena que o Olavo já morreu”.

 O conto de Antonio Carlos Viana mostra a descoberta da indústria cultural de hoje, em sua versão mais pesada e baixa, por uma pessoa vinda de uma outra época. Trata-se de um curto-circuito. Jovens podem exercitar-se e imaginar as mais radicais fantasias. Mas, a uma senhora que já é bisavó, essa opção está vedada. Barra-se a possibilidade de um gozo que é vendido em qualquer telenovela e que se tornou socialmente um direito individual.

Conforme ressalta Slavoj Zizek, a angústia de hoje não está no impedimento de um prazer, mas sim na consciência do indivíduo de que ele não consegue ter o máximo deste prazer ilimitado. O problema é não ter como usufruir de todas as possibilidades do sexo, do consumo, do lazer. “Enquanto assiste aos seus filmes, dona Dadinha murmura que perdeu muito na vida e que Olavo não sabia da missa nem a metade.”

Junto ao gozo irrefreável com a sexualidade, outro imperativo contemporâneo é a felicidade. Melhor ainda se incluir muito sexo. O escritor André Sant´anna começa assim o conto “Você tem que ser feliz!”: “E, para ser feliz, você tem que comer uma buceta, pelo menos uma. Não, melhor: você tem que comer um cu. Cu de mulher, que cu de homem é coisa de viado. Você é feliz, mas não é viado”, diz o narrador do conto do livro “Sexo e Amizade” (2007).
 
Sant´Anna constrói um narrador que associa felicidade, sexo anal e gozo sem limites. Para essa figura, que dá uma receita de como ser feliz, o melhor de tudo é que “as mulheres artistas estão gostando de dar o cu”. Seguem-se num texto de duas páginas 28 menções ao orifício anal, porém sem qualquer atenuante de linguagem. A narrativa vai baixando em níveis cada vez mais incontroláveis, como se o prazer devesse ser (lembrando Zizek) uma prática que não pode ser barrada ou reprimida. Afinal, qual a diferença entre os insaciáveis John Holmes e George Soros? 

A escrita de André Sant´Anna é repetitiva e obsessiva. Quando o leitor já está sem fôlego, vem o golpe final: “Mas, se você preferir, não coma nenhum cu de mulher artista e fique sofrendo em casa, vendo os cus das mulheres artistas que gostam de dar o cu, que vão ser felizes, mostrando o cu no Carnaval da televisão, onde todo mundo é muito feliz querendo dar o cu, os artistas”. A associação entre baixos instintos, celebridades e Carnaval é completa.

Os contos de Viana e Sant´Anna fazem o leitor rir das obscenidades de dona Dadinha e do narrador obcecado pelo ânus. É uma estratégia conhecida desde os tempos de Rabelais, que expunha as partes baixas do corpo para criticar e desvendar o poder. O riso rebaixava o que se apresentava como elevado, espiritual, ideal e abstrato na Idade Média e no Renascimento. Mikhail Bakhtin chamou isto de “realismo grotesco”.

Essa maneira de rir permite que os elementos sagrados sejam materializados, percam qualquer aura divina e sejam degradados. A degradação é importante porque remete à destruição de objetos imaculados e à abertura para regenerar e criar o novo. O rebaixamento ocorre no corpo dos personagens, com a exposição de “orifícios, protuberâncias, ramificações e excrescências, tais como a boca aberta, os órgãos genitais, seios, falo, barriga e nariz”.

Luigi Pirandello é outro escritor que pensou a potência do riso. Segundo ele, a épica e o drama apresentam personagens complexos, com ambivalências, mas resguardam neles a coerência interna para torná-los figuras edificantes. “O humorista faz exatamente o inverso: ele ‘descompõe’ o caráter em seus elementos; e enquanto aqueles (poetas épicos e dramáticos) procuram torná-lo coerente em cada ato, estes se divertem em representá-lo em suas incongruências”.

Mas até que ponto as narrativas de Antonio Carlos Viana e André Sant´Anna rebaixam e decompõem o poder? O que está em jogo é outra estratégia, numa época que diz ser pós-utópica, pós-política. Ambos se voltam para a transformação do riso e do sexo em mercadoria e entretenimento. Os contos são propositadamente grosseiros e radicalizam a linguagem baixa. A falta de ética e dos bons modos espalha-se pela sociedade, pois, como ensina o mercado globalizado, devemos infringir as regras e superar limites a qualquer momento.  

Vladimir Safatle vem analisando justamente os usos que o poder e o capitalismo de hoje fazem do riso e da ironia para se legitimar. E mais: como isso descamba para uma “forma de vida” orientada pelo cinismo. Além de suspender todas as regras de conduta, o mercado ri de si mesmo para manter tudo como está. É uma leitura que vai contra a tradição de Bakhtin que vê o riso como subversivo. Para Safatle, devemos nos acostumar com uma “nudez que não desmascara” nada. Ao contrário, as formas de riso e obscenidade são maneiras de reafirmação de poder, jamais de contestação.  

A obscenidade de hoje não serve para nada em termos políticos, uma vez que foi deglutida pelo mercado. Desaparece o espírito de Pasolini. Não é a toa que programas humorísticos da televisão ridicularizam os pobres, as mulheres loiras e os homens afeminados. Filmes pornôs tornam-se objeto de estudo e culto acadêmico. O riso e o sexo foram banalizados e perderam, de propósito, suas formas de contestação política.

Terry Eagleton avança nessa questão ao enquadrá-la no debate cultural: “Em alguns círculos culturais, a política da masturbação exerce fascínio muito maior do que a política do Oriente Médio. O socialismo perdeu lugar para o sadomasoquismo. Entre estudantes da cultura, o corpo é um tópico imensamente chique, na moda, mas é, em geral, o corpo erótico, não o esfomeado. Há um profundo interesse por corpos acasalados, mas não pelos corpos de trabalhadores”.


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