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POR EM 18/07/2009 ÀS 08:51 AM

Literatura para quem?

publicado em

A recorrência à nossa subjetividade, ao nosso imaginário particular, faz da literatura a expressão legítima de arte da intimidade, e nos convida a pensar na figura impar do leitor, que renova o poema, conto, romance ou texto teatral em cada leitura

A leitura é, antes de qualquer coisa, uma atividade mental, pois embora leiamos com os olhos, não podemos atribuir à visão (exceto em experiências concretistas) a apreensão do sabor estético da literatura. Assim talvez seja porque, apesar de o som que as palavras bem colocadas que reboam em nossa mente no momento da leitura nos trazerem impressão de beleza, a visualização particular e íntima das imagens que concebemos daquilo que nos é narrado ou descrito nos remete ao nosso repertório pessoal. Fala-nos o teórico do efeito estético, Wolfgang Iser, nome grande da turma apelidada de Escola de Constança, no seu já clássico “O Ato da Leitura”, que “à medida que os vazios indicam uma relação potencial, liberam o espaço das posições denotadas pelo texto para os atos de projeção do leitor. Assim, quando tal relação se realiza, os vazios desaparecem”.

Não há como nos desvincularmos da nossa ideia de “bela casa” quando lemos uma descrição do que seria essa “bela casa” que o narrador pretende nos fazer visualizar. Talvez por isso eu atribua maior deleite à apreciação da literatura que à do cinema, já que na arte do audiovisual a imaginação está descartada, pois o repertório de imagens nos obriga a ver o que o diretor e sua equipe definem como “bela casa” ou algo que o valha. Pois bem, essa recorrência à nossa subjetividade, ao nosso imaginário particular, faz da literatura a expressão legítima de arte da intimidade, e nos convida a pensar na figura impar do leitor, que renova o poema, conto, romance ou texto teatral em cada leitura, reservada, privada, feita por um indivíduo em sua solidão, que nada tem de crepuscular ou taciturna, e se o tem, falamos das sombras a que se refere o poeta inglês John Milton, em seu grande “Paraíso Perdido”, a obscuridade chamada por ele de “clara escuridão”, já que a boa literatura mais nos leva a ler a nós mesmos que ao mundo que nos é pertinente.

Esse aprendizado do ato da leitura, essa espécie de educação sentimental pela qual deve passar o leitor, a mim parece-me mais necessária ainda na apreciação da poesia, já que o fenômeno da hipersemanticidade (hiper significação de uma palavra ou transmutação de seu sentido sintático ou morfológico dentro da obra literária) é mais comum na poesia que na narrativa, salvo em experiências como o brilhante “Casa Entre Vértebras”, de Wesley Peres, no qual a definição do que é poético e do que é narrativo fica salutarmente obscura.

Outrora chamei atenção para a dificuldade de termos leitor de poesia quando escrevi a respeito de “Trompa de Falópio”, de Valdivino Braz, no qual o fenômeno da hipersemanticidade está aliado a uma erudição singular e uma vastidão de citações e referências a figuras icônicas da cultura ocidental. Nesse ponto até mesmo a teoria do efeito estético de Wolfgang Iser, segundo a qual o leitor recorre a seu repertório idiossincrático para preencher os lugares vazios deixados pelo texto literário, parece-me problemática. A que repertório ele poderá recorrer se não tiver as leituras das obras às quais o poeta se referiu na construção de seu texto?

Mas para além das questões teóricas e categoriais do leitor enquanto objeto de estudo acadêmico, que não é o mais relevante para o presente ensaio, lembro-me do famoso fragmento do poema “Trouxeste a chave”, de Carlos Drummond de Andrade, contido em “A Rosa Do Povo”, no qual ele, sublime, nos coloca, de chofre, ante à questão pertinente e lapidar:  “[…] / Chega mais perto e contempla as palavras. / Cada uma / tem mil faces secretas sob a face neutra / e te pergunta, sem interesse pela resposta, / pobre ou terrível, que lhe deres: / Trouxeste a chave? / Repara: / ermas de melodia e conceito / elas se refugiaram na noite, as palavras. / Ainda úmidas e impregnadas de sono, / rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.” O poeta aqui nos convida a desvendar a magia da poesia em transformar a palavra ou extrair dela, numa contemplação que nada tem de letárgica, e que, ao contrário, muito traz de ativa e astuta, o mundo que essa palavra esconde e carrega, misteriosa, em si. Portanto, mais do que o elemento que se encontra na leitura, o importante seria para o poeta o ato em si de ter a chave, desvendar o mistério, atravessar a porta que, como apregoa o poeta Carlos Willian Leite em seu recém lançado “Noves Fora: Nada”, “[...] aberta / toda porta / é viagem”.

Mas para mim, a chave drummondiana esconde uma questão mais complexa, levantada por Fernando Pessoa no poema “Liberdade”. Diz-nos Pessoa que “Grande é a poesia, a bondade e as danças... / Mas o melhor do mundo são as crianças, / Flores, música, o luar, e o sol, que peca / Só quando, em vez de criar, seca”.

Se isso nos reflete e nos explica, fazendo-nos perceber que o enigma não é a falta de leitores, mas sim esse embrutecimento da alma, talvez movido por uma cultura de mercado empobrecida e ordinária, por meios de comunicação que, numa espécie de conchavo imaginário, asfixiam a produção artística impedindo que a mesma seja ventilada; ou pela vulgarização da violência, pela escassez da delicadeza, pelo emudecer da elegância, pela falta da gentileza, pela patologia do amor mal vivido, desprovido de leveza, sorriso fácil e alma leve; pela morte das amizades puras e despojadas de apego ou instância, pela velocidade com que os gostos mudam guiados por efemeridades banais, pela morte da inocência, que nada tem a ver com alienação ou misticismo, mas sim com o que há dentro de nós que possa almejar, de algum modo, o sublime; enfim, tudo isso e mais talvez seja o mote, o problema real, a verdadeira chaga: os livros fechados tornam-se assim mera e triste consequência de um mundo tétrico, árido, estéril.

Mas se não temos mais alma, se um poema nada mais pode, se escritores escrevem para escritores, tal qual pintores para seus pares, atores montam peças para os seus iguais, pergunto-me: literatura para quem?
 


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POR EM 18/07/2009 ÀS 08:51 AM

A verdadeira dimensão do homem

publicado em

Felizmente ou infelizmente, considerando algumas variáveis estatísticas, parece que estamos mesmo sós, nessa imensidade assombrosa. Para existir vida é necessário que haja uma conjunção de fatores, da qual a Terra é um exemplo único conhecido

Pintura: O geógrafo, de Jan Vermeer 

Por que Deus — se existe — se ocupa com um ser tão ínfimo na escala universal quanto o homem? A desproporção parece ridicularizar a Bíblia e outros livros sagrados. Faz sentido? Faz, e a resposta não é necessariamente religiosa. É também científica.

A física é a ciência capaz de conferir ao homem sua verdadeira dimensão, na natureza. De acordo com ela, faria sentido um Deus tão grande dedicar seu tempo a uma criatura tão pequena, por duas boas razões. Primeiro, porque nosso tamanho físico não traduz nossa estatura intelectual. Segundo, porque a probabilidade de sermos únicos no Universo é bastante apreciável. As duas questões relativizam, de saída, o que entendemos por grandeza e mediocridade. Está certo que devemos — e a física paradoxalmente reforça essa postura — devemos ser humildes. Se o homem é maior do que parece, sua casa, a Terra, é por outro lado bastante pequena e frágil. Pode acabar num simples e inesperado evento cósmico, como a colisão com um asteróide (infelizmente, não é ficção científica). De forma que não temos nenhuma garantia de futuro.

Feita a advertência, podemos nos reconfortar. O principal desafio da física, hoje, é confirmar a existência de uma partícula conhecida como bóson de Higgs. Para obtê-lo os cientistas construíram o LHC, que é o maior acelerador de partículas do mundo (um corredor circular de 27 quilômetros de extensão, onde prótons se chocarão entre si a uma velocidade próxima à da luz). Mas, o que é o bóson de Higgs? A menor partícula existente, o tijolo com o qual foi erguido todo o resto. Inclusive o homem. Daí que a chamaram, também, de “a partícula de Deus”. Comparado a esse tijolinho — muitíssimo menor que um átomo -, o homem é uma grandeza. Já o é, se comparado à menor estrutura orgânica conhecida, o DNA, que é igual a 2 x 10 elevado à nona potência. O é, também, se comparado aos seres unicelulares, milhares dos quais habitam o nosso organismo, que podemos imaginar como um universo à parte. Faz sentido, também, nos concebermos como um universo à parte.

Graficamente, o desenho de muitas estruturas microscópicas que compõem os nossos órgãos parece ser análogo ao das estruturas macroscópicas que existem no firmamento. A grande “teia cósmica”, que corresponde ao maior aglomerado de galáxias observável, é semelhante por exemplo aos nossos neurônios. Existe, assim, em escalas muito diferentes, certos padrões gráficos que fazem confundir aquilo que somos com aquilo que está acima — muito acima - de nós. É como se nos repetíssemos, em tamanho e complexidade, ao infinito. Deus, quem sabe, seria o limite extremo desse processo. Voltando aqui à primeira questão — a relatividade de nosso tamanho -, pode-se dizer que o que nos faz muito maiores do que o nosso corpo é a capacidade de conceber o Universo. Há formas poéticas e mitológicas de fazê-lo, como a religião. Mas há, também, uma forma verificável, que é a científica. E a física é o caminho, o método, para traçarmos já o seu esboço. Nem mesmo os céticos podem resistir ao encanto dessa capacidade.

Um homem normal olha para o céu, durante o dia, sem o auxílio de uma telescópio e do conhecimento da natureza acumulado nos últimos 6 mil anos, e enxerga apenas uma porção da atmosfera terrestre. Uma profundidade de, no máximo, 15 ou 20 quilômetros. À noite, pode ver muito além, de sorte que enxergaria as estrelas. Vai uma enorme distância, porém, entre essa capacidade ocular natural e as possibilidades da especulação e experimentação intelectual. E é nesse ponto que o homem começa a se redimensionar, deixando para trás a condição de simples animal proporcional ao seu organismo. É aí que, apesar de sua escala física relativamente minúscula, ele se torna um gigante, capaz de mapear o Universo como um cartógrafo debruçado sobre seu objeto de estudo — portanto localizado, imaginariamente, num ponto externo, à maneira daquele cientista pintado por Jan Vermeer, em 1668. Sim, o homem, amparado pela ciência, goza desse privilégio. Como assim, considerá-lo pequeno?  

O mais impressionante dessa capacidade de se colocar como um observador externo — apesar de estar dentro — é que não é exatamente com o auxílio da visão que o faz. É o fato justamente de ser “cego” que aumenta a magia. Todas as conclusões a que tem chegado a física, inclusive a das proporções descomunais do cosmo, se dá por intermédio da inteligência, da capacidade humana de se fazer cúmplice da Natureza. Se as leis se inscrevem nos fenômenos, o homem vai lá e as descobre, com imaginação e raciocínio. É assim que pode chegar a uma conclusão impressionante: o Universo observável pelo homem, a parede contra a qual se choca nossa capacidade, chega a mais de 13 bilhões de anos-luz! Uma vez que o que enxergamos é o passado, essa profundeza abissal é quase o ponto de origem de tudo o que conhecemos. Convenhamos: é algo mais do que aqueles 20 quilômetros que podemos ver todo dia, ao abrir a porta de nossa casa e olhar para o céu. Devemos isso a gênios como Copérnico e Galileu, Newton e Einstein, ou seja, devemos a nós mesmos, humanos. Sob essa perspectiva, Deus não se ocuparia, ao se ocupar de nós, com uma criatura que ridicularizaria sua grandeza.

O segundo ponto é a probabilidade de sermos realmente únicos, no Universo. Muitos cientistas acreditam nessa possibilidade. Em sendo verdade, seríamos literalmente um milagre. Tanto melhor se encontrássemos outros seres semelhantes a nós, e que fossem pacíficos. Isso tiraria nosso brilho, mas diminuiria nossa solidão excruciante. Porém as evidências não são animadoras. Se há vida além da nossa, no Sistema Solar, tudo indica que não passaria de bactérias, em Marte ou Titã, satélite de Saturno. A outra possibilidade considerada está fora de nosso sistema, e bem longe, a 20,5 anos luz de distância, onde poderia existir uma civilização complexa. Trata-se de um planeta, o GL 581c. Porém, um simples contato a essa distância, à velocidade da luz (quase 300 mil quilômetros por segundo) levaria 40 anos para obter resposta. Mas não se trata de distância, antes de condições efetivas para a manifestação da vida.

Felizmente ou infelizmente, considerando algumas variáveis estatísticas, parece que estamos mesmo sós, nessa imensidade assombrosa. Para existir vida é necessário que haja uma conjunção de fatores, da qual a Terra é um exemplo único conhecido. Contam desde a distância relativa de uma estrela que gere calor até a composição atmosférica de um planeta. E mesmo que haja tais condições em algum outro lugar, elas por si sós não garantem a manifestação de vida inteligente. Mesmo na Terra, ambiente inteiramente favorável, há milhares de formas de vida, mas apenas uma espécie, a humana, evoluiu sua capacidade cognitiva. Em quanto tempo? É outra variável: mais ou menos 1,7 milhão de anos, a idade do homem. Cada uma dessas variáveis elimina a chance de estarmos acompanhados, tornando-nos hipoteticamente a única companhia inteligente de Deus, em todo o Universo. Então, faria sentido que ele se revelasse para as únicas criaturas capazes de admiti-lo: nós. 

Sem outros seres, seríamos uma preciosidade sem par, o que nos imporia uma reavaliação ética radical. Tal reavaliação importaria em repensar atos e atitudes, para nos fazermos jus à nossa estatura e verdadeira importância na criação, seja lá o que isto significa. Não nos arrogaríamos, longe disso: tornarmos-íamos mais prudentes e responsáveis. Nós e nosso mundo são minúsculos, mas, e daí? Nós — e apenas nós, em certo sentido — justificamos o empreendimento de Deus.

É inevitável, por fim, voltar ao passado, aos gregos. Não convém ceder à tentação depreciativa de nossas mazelas, tantas que assustam. Protágoras de Abdera (480 a.C.) tinha mesmo razão: “O homem é a medida de todas as coisas”.
 


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POR EM 11/07/2009 ÀS 09:05 AM

Michael Jackson: uma figura trágica

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Como estrela maior de seu tempo, ele era fascinante, e como a figura trágica da qual temos notícias desde os anos 90, também. Ninguém subiu tão alto, e nenhum caiu de forma mais trágica, a ponto de transformar o trágico em patético

Michael Jackson

Sempre escrevi sobre literatura por ser ela o meu material de estudo. Eu estudo para ser crítico literário e sempre o farei para ser sempre crítico, já que nesse ofício nunca estamos completamente formados. Na literatura, além da forma e da sensação estética, percebo o mais profundo estudo da personalidade humana que se pode fazer. Isso, em forma de palavra, encanta-me. Como escritor romancista (tenho um romance inédito que pode sair esse ano) o comportamento humano me interessa. Parafraseio o historiador Marc Bloch: “tudo que é humano me interessa”, e sendo eu um homem que atravessou os anos oitenta e noventa assistindo a mais incrível ascensão e queda de uma figura pública, como não poderia ter me interessado por Michael Jackson, para mim, a figura mais trágica dos últimos trinta anos do século XX.

Donald Prater, na biografia que escreveu sobre o Thomas Mann, diz em seu prefácio que seu retratado era fácil de admirar e difícil de amar. Para Thomas Mann – ególatra que buscou durante toda a vida correspondência entre si mesmo e Goethe, filho de família burguesa que jamais teve que “trabalhar” na concepção mais genuína da palavra, que sempre buscou a reclusão e nunca teve problemas em sacrificar quem estivesse ao seu redor por causa de sua arte e de suas idéias, e que disse, enfaticamente, certa vez ser a juventude uma farsa da qual jamais gostou e que só conhecera a felicidade na velhice –, essa frase de Prater não teria grande efeito. Mas para Michael Jackson – que nascera negro em um país no qual o racismo era muito mais declarado que no Brasil, no qual este mesmo racismo resultava não só em agressões verbais, mas também em violência física; que fora filho de um pai violento e tosco, arrimo de família aos 10 anos de idade, vítima do ciúme infantil de seus irmãos que o viam já criança roubar a cena no palco, com uma infância furtada pela própria família e consumida pelo mundo e que por isso jamais desejara crescer quando, livre do jugo do pai, teve a oportunidade de ser a criança castrada em sua natural criancice; e mais e principalmente, com um talento de gênio e alma excessivamente sensível – tal afirmação poderia ser, como lhe foi, sempre, fatal. Shmuley Boteach, rabino e mentor de Jackson por muitos anos, do qual se afastou depois de ter filmado um documentário que pretendia resgatar sua popularidade e só serviu para lhe render outro processo de abuso sexual, disse certa vez que Michael lhe declarou: “Fiz tudo o que fiz para ser amado. Não gostava do que via no espelho, meu pai, quando criança, sempre me provocava, dizia não entender como gostavam de mim sendo que, dos meus irmãos, eu era o mais feio.” Cresceu rejeitado na sua face subjetiva, carente de amor, e na sua aparência física, rejeitada pelo pai que enriquecera às suas custas.
 
Otto Maria Carpeaux, em seu ensaio “O Admirável Thomas Mann”, diz também que o escritor alemão, enquanto figura trágica era fascinante, mas enquanto escritor, o melhor dentre os de segunda classe, opinião da qual discordo, mas cuja discussão não cabe aqui, no entanto, podemos dizer que é algo que não se pode dizer de Michael Jackson, símbolo de uma arte (a música pop de mercado) que, diferentemente da literatura, tem a fugacidade como marca para a maioria dos seus nomes. Michael revolucionou essa música pop, influenciando-a e sendo seu símbolo por quase quarenta anos. Sua magnitude nesse âmbito torna-se visível se fizermos um fácil exercício: pensemos na música pop mundial das últimas décadas sem a sua presença. Essa mesma história tomaria outros rumos e seria algo diferente do que é hoje. Melhor? Pior? Não se pode saber, mas seria diferente, isso podemos afirmar com absoluta certeza.
 
Como estrela maior de seu tempo, ele era fascinante, e como a figura trágica da qual temos notícias desde os anos 90, também. Ninguém subiu tão alto, e nenhum caiu de forma mais trágica, a ponto de transformar o trágico em patético. Sua figura física tornou-se piada para todos; sua música, pouco ouvida; seus discos, pouco vendidos em relação ao que foram no passado; sua dança sumira dos palcos. O que restou dele nos últimos anos foi uma sucessão de escândalos, processos, dificuldades financeiras e atos bizarros, além de um silêncio musical tremendo.

Não teço aqui juízos a respeito da sua música por não conhecer música o suficiente para fazê-lo. Não tenho como situá-lo, criticá-lo enquanto músico. O que me interessa aqui é sua figura humana trágica. Mas hoje, depois de sua morte, comentam sua obra sem conhecê-la a fundo, sem verem a repercussão que ela teve, dizem aquilo que eu ou qualquer pessoa pode afirmar: fixam-se nos clichês que todos conhecem, e mesmo assim reconhecem sua genialidade, que foi forte e criativa em todas as coisas que almejou fazer enquanto tinha lucidez para fazê-las.

Curioso observar que o infantiloide Michael à medida que envelhecia caia mais, pelo fato óbvio de não saber ser grande, de não estar preparado para isso e de nem querer fazer isso. “Eu sou o Peter Pan”, disse ele em uma entrevista. E assim, agora que as luzes se apagam e as cortinas se fecham, esse Peter foi – não como a criança ditosa da lenda, mas ainda assim –, para a terra do nunca, na qual jamais envelhecerá, assumindo, creio, o lugar que lhe é de direito na história da música pop, que foi seu reino de fantasia e sua mais dura realidade. Para mim, o que o faz gênio é o superlativo em tudo o que fez, para o bem e para o mal, e sua influência inegável. Para Harold Bloom a influência dá lugar aos gênios na literatura, penso que se o crítico norte americano fizesse um cânone da música pop, Michael seria o centro desse cânone, pois como astro influente de seu tempo, ele é canônico.
 


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POR EM 04/07/2009 ÀS 10:10 AM

Mínimo múltiplo comum

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Rubem Fonseca é um dos principais pontos de referência contemporânea. Alguns dizem que sua qualidade foi antecipar os traços da violência das cidades, mas outros têm certeza de que estamos diante da exploração barata de crimes e do rebaixamento das mulheres – numa versão urbanizada de Jorge Amado

Ler a literatura contemporânea é sempre muito perigoso. Causa medo errar na avaliação. O autor pode simplesmente sair de moda ou ter a obra morta antes de sua própria morte. Por isso, algumas universidades definem hoje que o contemporâneo no Brasil termina em Clarice Lispector e Guimarães Rosa. Há, porém, quem encare o desafio de entrar no terreno movediço da produção a quente. Os mortos estão frios e conservados para degustação segura e deliciosa de um tempo que louva o ideal abstrato e vazio de conhecer e valorizar apenas os clássicos. Na verdade, são as estudiosas brasileiras que mais se debruçam sobre uma produção variada e, como no espírito da época, fortemente pressionada pelos padrões de mercado.

Beatriz Resende enxerga três aspectos na produção literária atual no Brasil: fertilidade, qualidade e multiplicidade. A síntese de sua análise está em “A literatura brasileira na era da multiplicidade”, no livro Contemporâneos (2008). O terreno fértil revela que nunca se escreveu tanto como agora. A qualidade aparece, segundo ela, na “escrita cuidadosa, o conhecimento das muitas possibilidades de nossa sintaxe e uma erudição inesperada, mesmo nos autores muito jovens deste início de século”. O lado múltiplo fica evidente na variedade de tons e formas. Beatriz tem uma visão que destoa do pessimismo superficial que só vê fracassos nos autores brasileiros contemporâneos.

Os autores representativos para Beatriz Resende são os suspeitos de sempre: Sérgio Sant´anna, Rubem Fonseca, João Gilberto Noll e Silviano Santiago. Mas, no livro, ela faz apostas em análises mais aproximadas de Bernardo Carvalho, Cecília Gianetti, Paloma Vidal, Santiago Nazarin, Luiz Schwarz, Daniel Galera, Joça Terron, Maira Parula e Ana Paula Maia. Não existe uma preocupação de eternizar o que se faz na atualidade, mas sim de avaliar o que essas pessoas estão dizendo e escrevendo para merecer a atenção dos leitores atuais. As narrativas podem sair tanto em livros lançados por grandes casas editoriais, como em páginas na internet.

Ao seguir o pensamento de Beatriz, o leitor vai conhecendo certas características partilhadas por autores brasileiros contemporâneos. Há, segundo ela, a presentificação das coisas, como se não houvesse passado nem futuro. Bem ao sabor da época, tudo se resolve no presente mínimo e que desacredita no amanhã superior ao hoje. O progresso material ou das relações humanas desaparece nas metrópoles, onde é possível apenas o destino trágico. Dessa maneira e como o mercado (e não o diabo) gosta, a presença da violência urbana vira um segmento de best sellers. É bom negócio narrar o medo de uma classe média ao encontrar pobres, pretos & favelados. O outro se torna o monstro a assombrar becos e vielas das grandes metrópoles.   


Corpo vivo da cidade

Em “Os caminhos da cidade”, do livro Despropósitos (2008), Tânia Pellegrini traça um arco histórico de três décadas para analisar as transformações do país mais urbanizado e da literatura brasileira. O artigo saiu numa primeira versão em 2001 (aqui). A autora identifica uma “ficção em trânsito”, pois a produção sai de um período marcado pela censura dos anos 1970 para uma perspectiva de mercado a partir da década de 1980. São novas questões colocadas, de 1985 em diante, por autores que abandonam o enfoque dos conflitos históricos (urbano/rural, moderno/arcaico, local/cosmopolita) para mergulhar na vida flexível, líquida e angustiante das cidades.

A pós-ditadura representa a dissolução na crença de incorporação das classes sociais mais pobres à modernidade. A nação deixa de ser o aspecto único de identidade. Não há mais sertanejos, malandros ou mulatas atraentes. Surgem, por exemplo, novas vozes de literaturas com as temáticas feminina e homossexual. Segundo Tânia, as escritoras que se destacam são Lygia Fagundes Telles, Nélida Piñon, Edla Van Steen, Sônia Coutinho, Lya Luft, Helena Parente Cunha e Patrícia Bins. Mais recentes são Clara Averbruck, Lívia Garcia Roza, Cíntia Moscovich, Adriana Lisboa e Heloísa Seixas. A escrita com enfoque gay aparece nas obras de Caio Fernando Abreu, João Gilberto Noll e Silviano Santiago.

A presentificação traz de volta e contraditoriamente a ficção histórica, porém em molde diferente do que se fez no século XIX. Como não se acredita mais em progresso, a literatura volta-se para trás em busca de rupturas e continuidades do passado com o presente. Registre-se que se trata de um movimento da literatura mundial e não apenas do Brasil. Há o retorno do romance histórico com Márcio Souza, João Ubaldo Ribeiro, Luiz Antônio Assis Brasil e até com Raquel de Queiroz de Memorial de Maria Moura (1992). Juntando a perspectiva feminina e histórica, aparece Ana Miranda. Nesse olhar ao passado, às raízes, também cresce a literatura da imigração: Raduan Nassar, Milton Hatoum, Moacyr Scliar e Domingos Pellegrini.

O palco da produção pós-1985 é definitivamente a cidade. Tânia Pellegrini lembra a expressão “realismo feroz” usada por Antonio Candido para enquadrar as obras de Dalton Trevisan e Rubem Fonseca. Ambos são modelos para uma escrita concisa, elíptica, fragmentária e focada na violência da grande cidade brasileira. Cria-se, no rastro disso, uma narrativa policial cujos representantes são Luiz Alfredo Garcia Roza e Alcides Nogueira, sem esquecer Patrícia Melo. O brutalismo urbano gerou ainda Paulo Lins. O romance Cidade de Deus (1997) trata da “vida de crime e marginalidade na favela de mesmo nome, no Rio de Janeiro, com dicção acentuadamente naturalista, apresenta traços inconfundíveis do feroz realismo fonsequeano”, diz ela.

A esse enfoque mais naturalista, escapa a noção da cidade como um “corpo vivo” altamente complexo, mutável e conectado com o mundo. É desta vivacidade urbana, afirma Tânia, que nasce em décadas recentes a literatura de Sérgio Sant´anna, Silviano Santiago, João Gilberto Noll e Chico Buarque. O consumo, as simulações, os simulacros e as angústias da vida moderna encontram nesses autores uma tradução para os códigos literários. “O espaço urbano ficcionalizado passa, gradativamente, a abrigar significados novos, ampliando o seu espectro simbólico, hoje já muito diferente daquele das origens. De cenário que funcionava apenas como pano de fundo para idílios e aventuras, locus amenus, foi aos poucos se transformando numa possibilidade de representação dos problemas sociais”, diz.
 

Cerco à literatura

Rubem Fonseca é um dos principais pontos de referência contemporânea. Alguns dizem que sua qualidade foi antecipar os traços da violência das cidades, mas outros têm certeza de que estamos diante da exploração barata de crimes e do rebaixamento das mulheres – numa versão urbanizada de Jorge Amado. Com essas ressalvas, Walnice Nogueira Galvão começa pelo autor do romance Agosto o ensaio “Tendências da prosa literária”, de As musas sob assédio (2005). Um resumo está no original de “Musas sob assédio”. Especialista em Euclides da Cunha e Guimarães Rosa, a decana dos estudos literários no Brasil mantém um olhar permanente na produção atual.

Segundo ela, Fonseca abre uma tendência do thriller urbano que ressoa em autores como Patrícia Melo, Paulo Lins, Nelson de Oliveira, Fernando Bonassi, Luiz Rufafto, Marçal Aquino, Marcelino Freire, Marcelo Mirisola, Ronaldo Bressane e até em mais intimistas como Rubens Figueiredo e Amílcar Bettega Barbosa. Todos seguem, na verdade, a trilha aberta na ficção por João Antônio, embora este estivesse mais atento à vida popular dos pobres e menos ao estilo policial. Cada um segue caminhos próprios, indo do mais convencional de Patrícia Melo ao mais experimental de Luiz Ruffato, com o romance aos pedaços Eles Eram Muito Cavalos (2001). O risco que se corre é a mímese barata da metrópole caótica, na verdade, uma imagem muito recorrente nos meios de comunicação com sua pregação por mais e mais segurança pública.

Walnice vê continuidade também em relação à narrativa regionalista nas obras de João Ubaldo Ribeiro, Francisco Dantas, Antônio Torres, Luiz Antônio Assis Brasil, Tabajara Ruas, Márcio Souza, Domingos Pellegrini e Ronaldo Correia de Brito. A herança regionalista é uma das mais persistentes da literatura brasileira, ao ponto de Mário de Andrade tê-la chamado de “praga” por recorrer ao pitoresco. O tom regional vem misturado a uma rememoração do passado, de onde se desenvolve um romance histórico moderno (João Ubaldo e Márcio Souza). Mas essa narrativa histórica tem outra vertente que expande horizontes geográficos e de metalinguagem (João Silvério Trevisan, Isaías Pessotti, Silviano Santiago e Ana Miranda).

Por outro caminho e distante do tradicionalismo, há um grupo de autores que “põem em xeque a narrativa, estilhaçando-a, manejando a intertextualidade, a colagem e a montagem, em certos casos até recorrendo à ilustração”, diz Walnice Nogueira. São eles Sérgio Sant´anna, Caio Fernando Abreu, João Gilberto Noll, Silviano Santiago, Chico Buarque, Bernardo Carvalho, João Almino e Valêncio Xavier. Esse lado mais experimental se contrapõe a uma tradição realista da literatura brasileira que, em seus melhores momentos, teve Graciliano Ramos. O mais recorrente, no entanto, é o uso da ficção como documento da realidade, de uma tentativa de espelhar os problemas do cotidiano – e isso se vê na produção recente.
 

Além do real

Um bom panorama das recentes tendências formais vem sendo feito por Flora Süssekind. Em 2000, ela escreveu o ensaio “Escalas & ventríloquos, que deu sequência a sua leitura de produção dos anos 1970 (com os romances-reportagens e o memorialismo) e dos anos 1980 (repletos de “vitrines” e “dobradiças”). Estamos diante de uma estudiosa acostumada a pensar os longos movimentos de produção literária contemporânea. Sua última síntese focaliza os caminhos tomados pela escrita dos anos 1990, época de pressão redobrada dos padrões de mercado. 

Segunda ela, houve uma crise de escala das obras. Os poetas adotaram, por exemplo, uma “narrativização da lírica” (Waly Salomão, Sebastião Uchoa Leite, Paulo Henriques Britto, Carlito Azevedo, Haroldo de Campos e Bernardo de Mendonça). Abriu-se até um espaço para o poema em prosa de Angela Melim, Duda Machado, Rodrigo Garcia Lopes, Augusto Massi, João Moura Jr., Josely Vianna Baptista, Leonardo Fróes, Rubens Rodrigues Torres Filho, Júlio Castañon Guimarães e José Paulo Paes. Ao mesmo tempo, ocorre uma “miniaturização narrativa” nas obras de Dalton Trevisan, Silviano Santiago, Jean-Claude Bernadet, Modesto Carone, Zulmira Ribeiro Tavares, Vítor Ramil, Valêncio Xavier, Vilma Áreas e João Gilberto Noll. São fenômenos que chamam a atenção do leitor.

Uma segunda tendência é o que Flora chamou de “tensão enunciativa”. Os poetas brasileiros estão recorrendo a um “monólogo dramático” que se aproxima da fala teatral (Francisco Alvim, Paulo Henriques Britto, Glauco Mattoso e Lu Menezes). Na prosa, essa fala aparece nas “cisões numa só voz” dos narradores. Nunca se sabe ao certo quem está contando a história (Silviano Santiago, André Sant’Anna e Bernardo Carvalho). É uma narrativa difícil, afastada do padrão do best seller. Por outro lado, autores tentam a “geminação entre econômico e cultural”, o que seria a terceira tendência apontada por Flora, cuja representante notória é a narrativa histórica (Isaias Pessotti, João Silvério Trevisan, Rubem Fonseca e Jô Soares).

A prosa sintonizada com as exigências de mercado globalizado é um dos traços mais ressaltados pelos estudos literários de hoje. O que foge do padrão “vale tudo” das vendas é a poesia. “Não se pode deixar de constatar que a poesia escapou, pelo menos por enquanto, à mercantilização. À míngua de público, o mercado não se interessa por ela, o que pode infligir considerável frustração a seus cultores, mas de certo modo a preserva. Todavia há poetas produzindo material de qualidade, embora de modo quase clandestino, e até revistas especializadas, que lançam poetas novos enquanto servem de escoadouro à criação dos veteranos”, nota Walnice Galvão, em “Musas sob assédio”.

Um dos mais interessantes balanços sobre poesia foi feito recentemente por Iumma Simon, no ensaio “Situação de sítio”, publicado em novembro de 2008. A autora escreveu nos anos 1980, em parceria com Vinícius Dantas, uma das principais análises da produção daquele período, “Poesia ruim, sociedade pior. Para ela, ocorreu no Brasil uma retradicionalização da poesia: “A poesia deixou de ser companheira de viagem do presente, deu as costas aos acontecimentos, os quais no entanto a afetavam no mais íntimo de sua capacidade criativa”. Os sintomas dessa busca estariam no ideal de alta cultura; na depuração e refinamento poético; e na crença de que os poetas podem ser intérpretes da tradição literária mundial.

De acordo com a análise de Iumma, os anos recentes trouxeram uma mudança e chamaram sua atenção os trabalhos de Carlito Azevedo, Tarso de Melo, Ronald Polito, Ricardo Domeneck, Frederico Barbosa, Régis Bonvicino, Fabio Weintraub e Alberto Martins. Vale ressaltar que uma das maiores descobertas dela foi a poesia de Valdo Motta . A primeira parte de “Situação de sítio” dá essa visão panorâmica da poesia brasileira contemporânea para, em seguida, introduzir a leitura do poema Sítio” (2001), de Claudia Roquette-Pinto. Segundo Iumma, “a poeta contemporânea que parecia até então trancada no seu universo privado e burguês, alinhada a uma poesia delicada, erótica e feminina” saiu ao encontro do mundo. E lá encontra: “O morro está pegando fogo/ O ar incômodo, grosso,/ faz do menor movimento um esforço,/como andar sob outra atmosfera,/entre panos úmidos, mudos,/num caldo sujo de claras em neve”. Trata-se de uma descoberta e tanto.


PS: conclusão parcial


Jacques Derrida criou 40 anos atrás o conceito de desconstrução – não se trata de demolição. Descontruir é um método de leitura para expor as contradições ou ambivalências de textos e, principalmente, dos discursos hegemônicos. Vai contra o fonocentrismo. Onde há consensos permanentes e considerados eternos, a desconstrução provoca a desestabilização. Tudo que parece ser o centro passa a dividir espaços com o que está nas margens, escondido nos rincões. O pensamento entra em movimento. Abundam expressões “por um lado isso”, “por outro lado aquilo”. O texto desconstruído cria verdades parciais que, mais adiante, podem ser novamente desconstruídas.

Para o medo dos tradicionalistas, a desconstrução diz que a letra muda ao longo do tempo. Significados se alteram. O que é “isso”, hoje, vai se tornar “aquilo” décadas ou séculos depois. Os textos não são transparentes absolutos. Os cânones literários, por exemplo, devem se abrir para incorporar novos autores e obras. Jamais podem se fechar. Como disse Borges, o autor inventa sua tradição, reescreve letra por letra o Quixote e assim cria um novo texto, pois muda a forma de ler. Os contemporâneos fertilizam os do passado que, por sua vez, anteciparam muito do que existe hoje. Se perguntarmos para um marxista que movimento é esse, ele chamará de dialética. Não contem para os desconstrucionistas, mas eles podem estar mais pertos de Marx do que imaginam.

 

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POR EM 04/07/2009 ÀS 10:10 AM

Os sertões de Euclides da Cunha e outros sertões

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Um livro escrito com tanta mestria e percuciência que passa à linhagem da literatura. Canudos parece não ter podido existir, exceto na realidade encantada da literatura, numa invenção da pena euclidiana 

Euclides da Cunha

Umas tantas vezes, poucas, eu havia começado a leitura de “Os Sertões” de Euclides da Cunha e interrompido, fustigado pela aridez das primeiras cem páginas (mais ou menos) — sei de gente, no entanto, que um tanto idiossincraticamente as declaram as melhores do volume. Desta vez, rompi e fui.
 
Há leituras que de tão surpreendentes nos deixam abismados (tomados pela sensação do abismo). Eu que, embora tenha tido ainda no colegial um ou dois bons professores de literatura que certamente terão comentado com entusiasmo sobre “Os Sertões”, nunca fui capaz de aprender grandes coisas em escolas, de repente sou assombrado, precisamente, por aquela sensação. E, também, por uma certa vergonha. Explico.
 
Só encontrei energia para vazar o cerco das tais primeiras cem páginas ao ler uma pequena novela do húngaro Sándor Márai, de quem tomei conhecimento pelo também húngaro, e absolutamente essencial, Imre Kertész (quantos belos nomes os desses húngaros, quanta música!) chamado “Veredicto em Canudos”. Foi preciso o encanto de um europeu (ainda que de uma Europa, como este país onde vivemos nós, considerada periférica) para me convencer da completa necessidade de afinal ler “Os Sertões” — depois, para alimentar o reconhecimento da genialidade única e gigantesca de Euclides da Cunha bastou, é claro, sua escrita tão impregnada de luz e revelação. (Se confesso o crime, quem sabe não me amenizam a pena.)
 
Muito provavelmente, todos os meus comentários já terão sido feitos por outros. Estarei me repetindo. Mesmo assim, me arrisco. É que é preciso saldar a dívida — e amenizar a vergonha. Imagino que, talvez, o qualificativo mais batido de tantos quantos os usados para definir “Os Sertões” (e seu autor) é o ser único. Pois, como defini-lo sem partir daí?
 
Uma reportagem no sertão da Bahia longa o suficiente para se tornar um caudaloso livro — e uma épica do humílimo sertanejo, talvez nos revelando que na ousadia da rebelião a mais disparatada pudesse aquele homem do sertão se fazer notável, ao invés de insigne no aceitar ser manietado pelo despudor imoralíssimo dos poderosos. Um livro escrito com tanta maestria e percuciência que passa à linhagem da literatura. Uma literatura que se revela tão vastamente rebuscada, seja no ângulo da visada, seja na tocada do verbo que a conduz, que se torna praticamente inclassificável, mas certamente enorme.
 
E a reportagem penetra as intricadas e tortas ramagens do sertão até alcançar as beiradas da mais sublime poesia: “um brado de alarme estala na mudez universal das coisas...”.
 
E, de novo, de novo, há um ímpeto de repetir os incontáveis flashes de incontido brilho que nos conduz ao fundo dos abismos.
 
Quantos, ao mesmo tempo, já não terão dito (não sei, não posso garantir, embora possa, sim, ter lido aqui e ali ao longo do tempo escritos sobre o livro, mas não que me tenham ficado disponíveis na memória, se apagaram, desconheço e, assim, apenas suponho) que sem Euclides o Conselheiro não seria mais que uma dessas tantas figuras místicas que costumam assaltar no meio da miséria a alma desamparada dos miseráveis? Ao invés, graças a “Os Sertões”, temos um mito. Ou, ao invés uma vez mais, quantos não terão sido ao longo da história os mitos inconsiderados justamente pela ausência daqueles que os pudessem dimensionar e expressar? Inda mais quando se recorda que a história é no geral e quase sempre a versão da história ofertada pelos vencedores. Embora haja também os que imaginem existir para cada evento histórico um relato à altura.
 
Seja como for, por vezes Canudos parece não ter podido existir, exceto na realidade encantada da literatura, numa invenção da pena euclidiana.
 
Lá pelas tantas: “Canudos só seria conquistado casa por casa. Toda a expedição iria despender três meses para a travessia de cem metros, que a separavam do apside da igreja nova. E no último dia de sua resistência inconcebível, como bem pouco idênticas na História, os seus últimos defensores, três ou quatro anônimos, três ou quatro magros titãs famintos e andrajosos, iriam queimar os últimos cartuchos em cima de seis mil homens!”
 
Cago Montes Para a República — “Foi isso que vi e ouvi na edificação do Rancho do Vigário no dia 5 de outubro, entre as cinco horas da tarde e as nove horas da noite. Contei como pude. Não lembro mais nada de Canudos”. Assim termina a citada novela de Márai, que data: “Salerno, 1969”.
 
“Três ou quatro magros titãs famintos e andrajosos” resfolegam orgulhosos e atrevidos à frente dos maiorais da República, derrotados e no mesmo instante desafiadores. Márai os retira de “Os Sertões” e os traz ao centro da trama para que nos falem também do nosso tempo. De 1969. Ano post-mortem.
 
O marechal vitorioso conduz o interrogatório dos vultos esqueléticos e discursa: “Na anarquia há força, e a força é sempre possibilidade. Isso nós, democratas devotos, também sabemos. Mas a força em que não existe razão é possibilidade apenas no hospício. Seu marido sabia disso?
 
“Sabia o que todos em Canudos sabiam. Sabia que às vezes o impossível é a única coisa que vale a pena acreditar” — responde a prisioneira andrajosa, como se reverberasse, por uma curvatura do espaço tempo, a frase inscrita nos distantes muros parisienses tantas décadas após aquele 5 de outubro de 1897.
 
Agora, na nossa contemporaneirade, os “Bittencourts” vitoriosos ocupam todas as “fímbrias” do poder enquanto suas falas sensatas operacionais preenchem cada mínima fresta eventualmente aberta nas superfícies perfeitamente lisas e apenas umas poucas literaturas parecem nos redimir — em lapsos curtos, brevíssimos cada vez mais.
 
“A linha férrea corre no lado oposto. Aquele liame do progresso passa, porém, por ali, inútil, sem atenuar sequer o caráter genuinamente roceiro do arraial. Salta-se do trem; transpõe-se poucas centenas de metros entre casas deprimidas; e topa-se para logo, à fímbria da praça — o sertão...”
 
Confrontado com o poder da República (a força das instituições e da institucionalização da vida social, do pactuado como bem universal entre os donos da civilização e da razão — quando, na verdade, razão e civilização provavelmente já há muito se avessaram, e a permanência das condições espirituais, e da cultura política que alimentaram o nazismo na Europa é apenas um dos sintomas disso) o sertanejo, de joelhos, responde gigantesco: “Cago montes para a República.”
 
Civilização e barbárie se enfrentam. Não restam dúvidas sobre quem é quem. E, no entanto... Invertem-se os signos. Oximoros abundam. Em “Os Sertões” tanto quanto na paisagem recriada de Márai, tanto lá quanto aqui, tanto antes quanto agora. Frente à barbárie travestida de civilização das grandes ordens das grandes Repúblicas unificadas, à anarquia predatória recoberta pelo verniz brilhoso da mercadoria, à ignorância de semi-letrados acoitada na irracionalidade bruta e sob os trajes da razão, gozando com a morte e o desejo de matar em impulsos apenas circunstancialmente contidos (civilizadamente contidos) pela “res publica”, seria melhor que se dissesse “cago montes para a República”. Mas, nesses nossos tempos de mundo próspero (do projeto liberal-social-democrata), quem ousaria? Onde estão os cabras machos (e fêmeas) capazes de uma tamanha audácia?
 
A Língua Vibrátil — Onde outro qualificativo possível para “Os Sertões” que não o de uma épica? E onde uma outra épica em nossa história tão famélica de eventos notáveis?
 
De outra parte, a exploração/a perscrutação incessante e destemerosa dos recursos da língua e da concretude (fisicalidade) das palavras, numa elegância vibrátil inquietada pela vitalidade parece indicar também a intenção de fazer essa épica avançar até o cerne da própria linguagem (a palavra) onde geme como um rato do agreste a urgência de uma literatura suja de vida, úmida de selvageria.
 
A Vida na Urbs Monstruosa — Invertem-se os signos. Interpenetram-se. Não por acaso, oximoros abundam na frase euclidiana, em parágrafos de estupendas ambiguidades, e terríveis prenúncios, grávidos de possibilidades e de re-significações.
 
De um lado, a barbárie: “...comunidade homogênea, uniforme, massa inconsciente e bruta, crescendo sem envolver, sem órgãos e sem funções especializadas... Não cogitava de instituições garantidoras de um destino na Terra. Eram-lhes inúteis. Canudos era o Cosmos. E este mesmo transitório e breve: um ponto de passagem, uma escala terminal, de onde decampariam sem demora. O último pouso na travessia de um deserto — a Terra.”
 
Aquela “cidade selvagem”, a “urbs monstruosa” cujas fundações foram lançadas por aquela “... espécie de grande homem pelo avesso” urge ser “...esmagada pela civilização...”
 
De outro, a civilização: Passar a borracha sobre o borrão, lobotomizar, medicalizar/drogar (a ciência a serviço do bem coletivo, como a República), amputar, excluir, submeter a ferro e a fogo (a degola era o método favorito das tropas republicanas), assim procedeu a “res publica”, a civilização contra o chaga representada pelo perverso Conselheiro e seu bando alucinado de pervertidos — os selvagens, os monstruosos, os vertidos pelo avesso.
 
“O Conselheiro continuou sem tropeços na missão pervertedora, avultado na imaginação popular...” “Arrastava o povo sertanejo não porque o dominasse, mas porque o dominavam as aberrações daquele...” “Parou nas fronteiras oscilantes da loucura, nessa zona onde se confundem facínoras e heróis, reformadores brilhantes e aleijões tacanhos, e se acotovelam gênios e degenerados.”
 
A barbárie: “A urbs monstruosa, de barro, definia bem a civitas sinistra do erro. O povoado novo surgia, dentro de algumas semanas, já feito ruínas. Nascia velho... Não se distinguiam as ruas. Substituí-as dédalo desesperador de becos estreitíssimos, mal separando o baralhamento caótico dos casebres feitos ao acaso, testadas volvidas para todos os pontos, cumeeiras orientando-se para todos os rumos, como se tudo aquilo fosse construído, febrilmente, numa noite, por uma multidão de loucos...”
 
A barbárie, de novo: “...aquela fachada estupenda, sem módulos, sem proporções, sem regras; de estilo indecifrável; mascarada de frisos grosseiros e volutas impossíveis cabriolando num delírio de curvas incorretas; rasgada de ogivas horrorosas, esburacada de troneiras; informe e brutal, feito a testada de um hipogeu desenterrado; como se tentasse objetivar, a pedra e cal, a própria desordem do espírito delirante.”
 
Poesia (ou quase poesia): “...volutas impossíveis cabriolando num delírio de curvas incorretas...”
 
A civilização: “Os soldados impunham invariavelmente à vítima um viva à República... Era o prólogo invariável de uma cena... Agarravam-na pelos cabelos, dobrando-lhe a cabeça, esgargalando-lhe o pescoço; e, francamente exposta a garganta, degolavam-na. Não raro a sofreguidão do assassino repulsava esses preparativos lúgubres. O processo era, então, mais expedito: varavam-na, prestes, a facão. Um golpe único, entrando pelo baixo ventre. Um destripamento rápido...”
 
A civilização, mais uma vez: “A degolação era... infinitamente mais prática, dizia-se nuamente. Aquilo não era uma campanha, era uma charqueada. Não era a ação severa das leis, era a vingança. Dente por dente. Naqueles ares pairava, ainda, a poeira de Moreira Cesar, queimado; devia-se queimar. Adiante, o arcabouço decapitado de Tamarindo; devia-se degolar. A repressão tinha dois pólos — o incêndio e a faca.”
 
A República — Erradicar o mal absoluto pelo bem da assepsia do processo civilizatório. Assim ainda agora se procede, embora os métodos tenham eventualmente se tornado mais limpos e mediados, até porque os desviantes se tornaram eles próprios mais mansos — há um coisa que acima de todos nós, e metida entre nós, mediando nossas relações, suga as energias (e as pulsões e os desejos) as mais extremas, e contamina até a fúria dos enfurecidos.
 
Isso, no entanto, é apenas uma hipótese...
 

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POR EM 04/07/2009 ÀS 10:10 AM

Michael Jackson foi mesmo um gênio?

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A morte parece ter devolvido Michael ao Olimpo dos gênios. Citam-no ao lado de outros célebres músicos falecidos precocemente. É preciso separar as coisas. Comparar com Mozart não faz sentido. Diferentemente de Jim Morrison, Janis Joplin, Jimmy Hendrix e Kurt Cobain, todos mortos com apenas 27 anos, deixando incompletas carreiras, aparentemente, promissoras, o ciclo criativo de Michael Jackson parecia estar esgotado

 Michael Jackson

A morte de uma celebridade, seja qual for seu nível de celebridade, sempre vem acompanhada de palmas e lamentos. A morte de um astro mundial, como era Michael Jackson, multiplica essa tendência a enésima potência. O lugar-comum entre seus admiradores mais afoitos é dizer que ele saiu da vida para entrar na história, que se tornou, definitivamente, um mito. Os mais cínicos podem afirmar que a morte precoce lhe fez bem. Agora ele não pode mais fazer bobagens, acumular dívidas ou arranhar sua imagem dos tempos áureos. Os mais cínicos dentre os cínicos podem ir além e defender que a morte valorizou seus feitos. 
 
Praticamente em todos os textos que abordam a morte de Michael Jackson, e são muitos, ele é chamado de gênio. Definir o conceito de gênio é complexo. A rigor ele pertence ao período romântico. Não existia antes e passou a existir de modo totalmente diferente depois. O século XX, de certo modo, desfigurou a palavra. Ao mesmo tempo em que esvaziou seu sentido, difundiu-a e, estranhamente, popularizou-a. Os gênios multiplicaram-se, mas também passou a ser possível questioná-los. Se antes a genialidade era estabelecida, fundamentalmente, pela capacidade criativa de um indivíduo e o reconhecimento da mesma pela comunidade culta da época como algo assombroso e original, na sociedade pós-industrial o fator genialidade está intimamente ligado ao fator números. Nessa nova configuração, um artista criativo que não aparece fora do circulo dos iniciados não pode ser gênio. É apenas mais um entre muitos. O título de gênio, antes raro, muitas vezes só concedido postumamente, tornou-se um rótulo definidor de carreiras. A nova genialidade, dos séculos XX e XXI, é, por definição, um produto. O que não significa que todos os candidatos a gênio na era pós-moderna sejam fabricados pelo mercado.  
 
O caso de Michael Jackson é um dos mais difíceis de julgar. Não por sua megalomania, por ter enlouquecido ou por ser um possível criminoso. Tudo isso é irrelevante nesse debate. Alguns dos maiores talentos da humanidade foram canalhas inescrupulosos: de Rousseau à Sade, de Brecht à Chaplin. Para ser justo com um artista ou pensador é preciso considerar apenas sua obra no contexto histórica em que foi produzida.
 
Muitos consideram impossível genialidade em música popular, quanto mais em música pop. Não creio que seja tão simples assim, embora o pop esteja intimamente ligado ao pueril. Segundo Ray Browne, teórico que cunhou o conceito de “cultura pop”, na década de 1960, “o termo pop, como o conhecemos hoje, se refere basicamente àquilo que agrada aos jovens e que tem popularidade, ou seja, que gera dinheiro”. Michael Jackson, sendo o Rei do Pop, foi a encarnação máxima desse principio. Mas foi, acima de tudo, fruto de uma era. Não o artista Michael Jackson, mas o fenômeno Michael Jackson só foi possível porque surgiu no momento de maior apogeu da indústria fonográfica, coincidindo inclusive com o estabelecimento da MTV como definidor de tendências globais. Importante lembrar que contou com um grande guru, o lendário compositor e arranjador Quincy Jones, produtor de “Off the Wall”, “Thriller” e “Bad”, seus melhores trabalhos. Sempre considerei subestimada a contribuição de Jones na lapidação artística do pequeno vocalista do Jackson Five. Michael Jackson era o homem certo na hora certa. Tinha fama de bom moço, tinha carisma, era bonito, experiente, muito bem produzido e, sobretudo, cantava melhor que Madonna e era menos agressivo que Prince. Um artista negro feito sob medida para ser aceito pela classe média americana; e, por extensão, mundial.
 
É comum o pop canibalizar elementos culturais mais sofisticados ou de guetos, tornando-os aceitáveis ao gosto médio. A estratégia mais usada é torná-los espetaculares, enchendo-os de luzes, cores e movimentos, acelerando o ritmo. Michael Jackson fez isso com sua influência musical mais evidente, Marvin Gaye. Visualmente, em termos de figurinos e performances, incluindo coreografias, a influência de James Brown é inegável. A revolução que fez nos clipes musicais foram passos adiante em experiências estéticas que tiveram como pioneiros nomes como Beatles e, com maior similaridade, David Bowie. Nada disso por si só é negativo. Inspirar-se em outros artistas é comum tanto em gênios criativos quanto em farsantes. Não significa muito. 
 
É possível que os limites do talento, ou do gênio, de Michael Jackson tenham sido estabelecidos pelo gênero que abraçou. Em maio de 1989, Paul McCartney concedeu uma entrevista às páginas amarelas da revista Veja. O jornalista perguntou: “O que os Beatles tinham que Madonna e Michael Jackson não têm?”. O ex-beatle respondeu: “Falta-lhes profundidade. Falta-lhes qualidade musical. Parece pretensioso,mas é certo que as músicas de Lennon e McCartney eram muito melhores do ponto de vista musical. Até hoje são modernas, intrigantes, ousadas. Michael Jackson, por exemplo, é um bom cantor, mas sobretudo é um showman. É um grande bailarino, mas não toca nenhum instrumento (...). Eu compus com Michael Jackson e compus com John Lennon e posso dizer que John Lennon era realmente um gênio musical. Ele podia não cantar como Michael Jackson e certamente não dançava como ele – a menos que estivesse bêbado,mas isso era uma outra história -, mas era um homem muito profundo e um músico excepcionalmente habilidoso”.
 
Justificar a analise de McCartney pela inimizade com Michael Jackson, provocada pela compra dos direitos autorais de parte das músicas dos Beatles, parece-me pobre, sobretudo considerando as rusgas históricas entre ele e John Lennon. E McCartney não criticou apenas Michael Jackson, criticou toda uma tendência musical dominante nos anos de 1980, que supervalorizada a forma em detrimento do conteúdo. Ademais, não se pode negar que, como pede a cartilha do pop, as letras de Michael Jackson, a despeito das melodias contagiantes, sempre foram extremamente simplistas. “Billie Jean”, por exemplo, trata de um sujeito negando a paternidade do filho de uma garota com quem fez sexo casual. “Beat it” não vai muito além da repetição incessante do refrão que manda “cair fora”. Mas Michael Jackson nunca pretendeu ser um filósofo ao estilo de Bob Dylan. Cobrar-lhe profundidade é inútil. Sempre preferiu comover pelo sentimentalismo, como em “We are the world”. Uma estratégia válida, enfim.
 
Um dos fatores de medida da importância de um artista, do alcance de seu gênio, seria a lista de figuras influenciadas por ele. É comum afirmar que Michael Jackson influenciou toda a música feita depois dele. Mas quê música é essa? Feita por quem? Imagino que os nomes mais evidentes sejam os de Justin Timberlake, Britney Spears, Aaron Carter ou a camarilha de mentecaptos que cometem rap. Sem comentários. Tio Michael merecia coisa melhor.
 
Grande parte do fascínio de Michael Jackson deve-se ao estrondoso sucesso alcançado nos distantes anos de 1980. Sua fama nas duas décadas seguintes foi residual, retroalimentada pela sucessão de escândalos. Sua voz, suas músicas e seus clipes ficaram cada vez piores. De gênio passou a ser visto como louco. Para comparar, Madonna evoluiu como cantora e show girl, ganhando respeito. Prince, com uma série de projetos conceitualmente ambiciosos, tornou-se um artista quase underground. 
 
A morte parece ter devolvido Michael ao Olimpo dos gênios. Citam-no ao lado de outros célebres músicos falecidos precocemente. É preciso separar as coisas. Comparar com Mozart não faz sentido. Diferentemente de Jim Morrison, Janis Joplin, Jimmy Hendrix e Kurt Cobain, todos mortos com apenas 27 anos, deixando incompletas carreiras, aparentemente, promissoras, o ciclo criativo de Michael Jackson parecia estar esgotado. Assemelha-se mais a Elvis, seu “sogro”, que morreu semi-aposentado, cantando baladas românticas para antigas fãs velhas e gordas em cassinos de Las Vegas.    Curiosamente, nenhum dos nomes citados foi artista pop. Portanto, se Michael Jackson era gênio, possivelmente, foi o primeiro e único em seu estilo.
 
Por fim, depois de tantas voltas, é muito provável que George Bernard Shaw estivesse correto quando escreveu que “os gênios não existem. Eu sou um gênio e portanto sei. O que há é uma conspiração para fazer de conta que os gênios existem e uma escolha das pessoas certas para assumir o papel imaginário de gênio. O difícil é ser escolhido”. Com apenas 25 anos, Michael Jackson foi escolhido, como antes havia acontecido com Orson Welles, outro que caiu em desgraça depois de criar sua obra-prima.  Certamente, essas “escolhas” não são aleatórias. O escolhido precisa ter, além de sorte, seus méritos, para tornar a “conspiração” convincente. Talvez consista nisso a verdadeira genialidade.
 


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POR EM 27/06/2009 ÀS 09:12 AM

Mercado global das letras

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Quando se cobra de um autor brasileiro uma presença na república mundial das letras, deve-se ter em conta que o desafio não é de qualidade literária. A questão é de mercado, de estar dentro de um padrão

  Saul Bellow e Philip Roth

Nos últimos anos, ressurgiu um debate a respeito da existência ou não de uma literatura mundial. A discussão segue uma linha de pensamento proposta no século XIX (época das narrativas nacionais de fundação) por ninguém menos que Marx e Engels, no “Manifesto Comunista”. “Em lugar do antigo isolamento de regiões e nações que se bastavam a si próprias, desenvolvem-se um intercâmbio universal, uma universal interdependência das nações. E isto se refere tanto à produção material como à produção intelectual. As criações intelectuais de uma nação tornam-se propriedade comum de todas. A estreiteza e o exclusivismo nacionais tomam-se cada vez mais impossíveis; das inúmeras literaturas nacionais e locais, nasce uma literatura universal”, diz o conhecido texto que fala de um espectro rondando a Europa.

Alguns estudiosos investigam na atualidade o que seria essa literatura mundial. Franco Moretti observa a combinação de formas literárias européias com expressões locais espalhadas pelo mundo. É deste encontro que floresce uma produção com alcance em diversas partes do mundo. Pascale Casanova tomou outro caminho e buscou ver como os escritores escapam de uma camisa de força da tradição nacional. A leitura de autores de outras línguas ajudam a criar obras diferenciadas e inovadoras, abrindo novos caminhos. Hoje, segundo ela, várias cidades disputam com Paris a posição de centro da “república mundial das letras”, de centro irradiador de influências. O risco do descentramento do mercado editorial, porém, é a criação de uma globalização cultural que acaba com a diversidade cultural.

“As regiões mais livres do espaço literário mundial estão portanto fortemente ameaçadas pelo poder das leis do comércio internacional que, transformando as condições de produção, modifica a forma dos próprios textos. O desenvolvimento de multinacionais editoriais que imitam as aquisições de autonomia e a enorme difusão desses romances de sucesso internacional, que conseguem aparentar uma produção literária das mais autônomas, colocam em perigo a própria ideia de uma literatura independente dos circuitos comerciais”, assinala Casanova. O que ela apontou é a possibilidade de os alemães da Bertelsmann, os espanhóis da Alfaguara ou os norte-americanos da Random House se tornarem o McDonald´s das letras e inibirem a pluralidade de formas culturas.

No livro “Linhagens do Presente”, Aijaz Ahmad analisa os efeitos dessa concentração do mercado global das letras em poucas editoras localizadas em Paris, Londres, Madri, Frankfurt e Nova York. Para ele, as grandes editoras têm alcance mundial por centralizar a distribuição de títulos e disseminam livros por meio de traduções que passam a ser a “voz” de um determinado país. Apaga-se todo um conjunto de obras que não conseguem entrar no circuito globalizado das letras. Ahmad cita o caso da Índia: “Os poucos escritores que por acaso escrevem em inglês são valorizados além da medida. Testemunhe-se, por exemplo, a caracterização de “Os Filhos da Meia-Noite, de Salman Rushdie, no “New York Times” como ‘um continente encontra sua voz’— como se não tivéssemos uma voz são não falarmos inglês”.

A discussão aberta por Moretti, Casanova e Ahmad é importante no momento em que mercados editoriais como o brasileiro recebem uma onda grande de livros oriundos de fora dos Estados Unidos e da Europa. A produção que chega ao Brasil é filtrada por grandes casas editoriais dos já citados centros econômicos da globalização. Quase nada que vem para cá é trazido diretamente de países africanos, asiáticos e sul-americanos. Trata-se, portanto, de uma mega-mercado global de best sellers que reúne desde um Philip Roth, um José Saramago, um J.M. Coetzee, passando até por um Thomas Bernhard – este teve há 20 anos uma explosão nos países de língua espanhola semelhante ao que está tendo no Brasil, conforme já relatou Javier Marías (mais um autor globalizado).

Quando se cobra de um autor brasileiro uma presença na república mundial das letras, deve-se ter em conta que o desafio não é de qualidade literária. A questão é de mercado, de estar dentro de um padrão. “Pessoalmente, não acredito que o best seller ajude realmente o público leitor a crescer culturalmente ou a levar à leitura aqueles que anteriormente não liam. O best seller é, em certo sentido, um ‘antilivro’, um livro ‘mata-livros’. Dá aos leitores o inebriamento de terem lido, em um só livro, o essencial e o melhor de todos os livros em circulação. Faz esquecer que os livros são muitos (talvez demasiados) e que, seja como for, essa multiplicidade reclama ser descoberta pessoal e vagarosamente”, diz Alfonso Berardinelli, em “Não Incentivem o Romance”, que coloca Philip Roth, Saul Bellow e Umberto Eco no balaio dos best sellers.

Se tomarmos uma periodização proposta por Berardinelli ou por Sergio Miceli, que analisa o caso brasileiro, é possível concluir que a literatura deixou de ser o centro da cultura na virada dos anos 1950 para os 1960. Depois disso, impera o best seller, o blockbuster. Os escritores tiveram de dividir o status de antenas culturais com diretores de cinema, músicos, artistas plásticos etc. Contra os fetichistas da escrita, pode-se seguir a sugestão de Giorgio Agamben e adotar o método da “profanação” (mas não de achincalhe). Profanar é recolocar obras auratizadas pelo mercado (best sellers com pretensões de alta cultura) entre os comuns. Clássicos podem sim morrer, e que o digam os anatolianos do começo do século XX – alguém se lembra?  
 

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POR EM 12/06/2009 ÀS 01:02 PM

Rimbaud, o mito permanente

publicado em

O poeta francês, tido como gênio revolucionário, reinventou o amor e a angústia

Rimbaud

Se vivesse nos dias de hoje, o poeta Jean Nicolas Arthur Rimbaud seria bombardeado pela mídia e perseguido pela opinião pública, tal qual uma Amy Winehouse. Tido por muitos como a “voz do futuro”, Rimbaud destacou-se pela precocidade e pelo estilo visionário de sua poesia. Lembrado pela escrita agressiva e surtada, pela vida boêmia e por seu relacionamento conturbado com o também poeta Paul Verlaine, Rimbaud abandonou a literatura aos dezenove anos, deixando uma obra que, embora pequena, é significativa e original, e acabou por influenciar diversos poetas das gerações posteriores. Se vivesse nos dias de hoje, notícias como esta seriam comuns nos jornais e sites:
 
Paris – Aos 18 anos, o poeta francês Arthur Rimbaud se recupera de um dos capítulos mais polêmicos de sua trajetória de bebedeiras e escândalos. Há duas semanas, o agitado envolvimento com o poeta Paul Verlaine culminou no disparo de dois tiros, um deles acertando o punho esquerdo de Rimbaud. Conhecido pelos acessos de raiva em público, pelas noitadas intermináveis e pela parceria amorosa e poética, o casal tornou-se o principal assunto dos tablóides e cadernos de fofoca da Europa.
 
Apesar de avesso a qualquer tipo de meio de comunicação, Rimbaud aceitou receber a reportagem em sua residência, uma casa simples localizada no subúrbio parisiense. Ainda com o punho enfaixado por causa do incidente com Verlaine, Rimbaud sabe muito bem que todos os seus passos são detalhados, analisados e criticados pela mídia de todos os lugares. O poeta divide opiniões. Para uns, trata-se do grande gênio da poesia de nosso tempo, aquele que fora iluminado pelas contradições e desgraças do mundo e agora escreve compulsivamente em busca de uma saída para si e para os outros. Há ainda os que o enxergam como um adolescente inconsequente que falsifica uma inovação literária, e choca apenas por sua rebeldia.
 
Rimbaud também prefere se manter longe de festas e rodas literárias (na última que participou, escandalizou os franceses ao debochar dos outros escritores presentes). Nos últimos meses, enquanto frequentavam bares e casas noturnas na periferia de Paris, ele e Verlaine eram perseguidos pelos paparazzi e fãs lunáticos. Há algum tempo, os jornais noticiavam que a relação dos dois passava por momentos delicados, marcados por agressões e brigas homéricas.
 
De frente para a janela, sentado no único sofá de sua sala de estar praticamente deserta, Rimbaud não parece muito disposto a falar sobre Verlaine. Quando toco no assunto, o poeta é direto: “Eu nunca poderei atirar o Amor pela janela.” Apesar de superficial, o ferimento representa o estopim de uma paixão intensa e violenta. Pergunto-lhe se as notícias a seu respeito o incomodam. Surpreendentemente, Rimbaud confessa: “O meu maior medo é que os outros me vejam como eu os vejo. Imaginar o inferno é ser inferno.” A declaração é inesperada, partindo de uma figura que nunca se conteve em criticar a tudo e a todos.
 
O interesse pela forma pioneira de Rimbaud escrever provoca curiosidade sobre seu processo criativo. Ele garante que externar seus sentimentos de angústia e confusão não é fácil. “Ao princípio, era apenas um exercício. Escrevia silêncios, anotava o inexprimível. Captava vertigens. Depois, explicava os meus sofismas mágicos com a alucinação das palavras!” Rimbaud é o ícone de uma geração de poetas voláteis e perdidos, que cultivam o álcool e a fuga da realidade.
 
Sem se preocupar em dominar as perdições e insanidades que coloca no papel, Rimbaud escreve sobre a cidade “monstruosa”, a noite sem fim, as ruínas, os esgotos. O poeta é um voyeur da hipocrisia mundana – e muitas vezes é agente das situações que descreve. “Fico à espera de ser um louco muito perigoso. Trair o mundo seria uma tortura demasiado breve.” Após conhecer o revolucionário francês, a impressão é a de que se trata de alguém em estado permanente de incômodo, exilado de si mesmo.
 
Questiono Rimbaud sobre seus próximos passos. Ele não cita a poesia, tampouco Verlaine. “Nadar, trincar erva, caçar, fumar, fumar muito; beber licores abrasivos como metal fundente – como faziam os nossos queridos antepassados em volta das fogueiras”, é o que planeja fazer o poeta após a recuperação total de seu ferimento. Todos os interessados em suas profecias acompanharão atentamente cada uma dessas ações. Afinal, eles querem descobrir o segredo daquele que deseja “possuir a verdade numa alma e num corpo.”
 
 
Seleção – Poemas de Arthur Rimbaud
Minha boêmia
(Fantasia)
 
Lá ia eu, de mãos nos bolsos descosidos;
Meu paletó também tornava-se ideal;
Sob o céu, Musa, eu fui teu súdito leal,
Puxa vida! a sonhar amores destemidos!
 
O meu único par de calças tinha furos.
– Pequeno Polegar do sonho ao meu redor
Rimas espalho. Albergo-me à Ursa Maior.
– Os meus astros no céu rangem frêmitos puros.
 
Sentado, eu os ouvia, à beira do caminho,
Nas noites de setembro, onde senti qual vinho
O orvalho a rorejar-me a fronte em comoção;
 
Onde, rimando em meio a imensidões fantásticas,
Eu tomava, qual lira, as botinas elásticas
E tangia um dos pés junto ao meu coração!
 
 
A eternidade
 
Achada, é verdade?
Quem? A Eternidade.
É o mar que se evade
Com o sol à tarde.
 
Alma sentinela
Murmura teu rogo
De noite tão nula
E um dia de fogo.
 
A humanos sufrágios,
E impulsos comuns
Que então te avantajes
E voes segundo...
 
Pois que apenas delas,
Brasas de cetim,
O Dever se exala
Sem dizer-se: enfim.
 
Nada de esperança,
E nenhum oriétur.
Ciência em paciência,
Só o suplício é certo.
 
Achada, é verdade?
Quem? A Eternidade.
É o mar que se evade
Com o sol à tarde.
 
 
Romance
 
I
 
Não se pode ser sério aos dezessete anos.
– Um dia, dá-se adeus ao chope e à limonada,
À bulha dos cafés de lustres suburbanos!
– E vai-se sob a verde aléia de uma estrada.
 
O quente odor da tília a tarde quente invade!
Tão puro e doce é o ar, que a pálpebra se arqueja;
De vozes prenhe, o vento – ao pé vê-se a cidade, –
Tem perfumes de vinha e cheiros de cerveja...
 
II
 
– Eis que então se percebe uma pequena tira
De azul escuro, em meio à ramaria franca,
Picotada por uma estrela má, que expira
Em doce tremular, muito pequena e branca.
 
Noite estival! A idade! – A gente se inebria;
A seiva sobe em nós como um champanhe inquieto...
Divaga-se; e no lábio um beijo se anuncia,
A palpitar ali como um pequeno inseto...
 
III
 
O peito Robinsona em clima de romance,
Quando – na palidez da luz de um poste, vai
Passando uma gentil mocinha, mas no alcance
Do colarinho duro e assustador do pai...
 
E como está te achando imensamente alheio,
Fazendo estrepitar as pequenas botinas,
Ela se vira, alerta, em rápido meneio...
– Em teus lábios então soluçam cavatinas...
 
IV
 
Estás apaixonado. Até o mês de agosto.
Fisgado. – Ela com teus sonetos se diverte.
Os amigos se vão: és tipo de mau gosto.
– Um dia, a amada enfim se digna de escrever-te!...
 
Nesse dia, ah! meu Deus... – com teus ares ufanos,
Regressas aos cafés, ao chope, à limonada...
– Não se pode ser sério aos dezessete anos
Quando a tília perfuma as aléias da estrada. 
 
Poemas do livro “Poesia Completa”, de Arthur Rimbaud (tradução de Ivo Barroso), editora Topbooks.
 

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POR EM 15/05/2009 ÀS 05:48 PM

Meandros da política café-com-leite

publicado em

A ambiguidade semântica da política café-com-leite está em sugerir que houve “alternância” de poder entre Minas e São Paulo, o que merece ser esclarecido. Na realidade, essa rotatividade interessa menos do que as diretrizes econômicas impostas pelos superestados, durante a República Velha, no Brasil

Uma das fórmulas políticas mais conhecidas na história do Brasil foi a denominada “política café-com-leite”, que prevaleceu na Primeira República entre 1902 e 1930, alternando na presidência do país os representantes dos dois Estados mais importantes da União, desde aquela época: São Paulo e Minas Gerais. O desequilíbrio regional no Brasil, onde o desenvolvimento concentrou-se muito no Sudeste e pouco (e talvez em detrimento) nas demais regiões – em particular o Norte, Nordeste e Centro-Oeste – pode ser explicado pelo estrito controle político e econômico exercido por essas unidades da federação. Alia-se a isso, obviamente, a mentalidade autoritária da burguesa nacional. Se muito pouco exercemos a democracia nos últimos 120 anos, tampouco chegamos a ser bons republicanos, em tanto tempo.

Hipoteticamente, tal desequilíbrio de forças consolidou o atraso das demais regiões do país, por pelo menos três décadas. O Brasil ficou a reboque de interesses estaduais – com preponderância absoluta da economia cafeeira -, nesse mesmo período, o que terá impedido de se enxergar o país como uma grande unidade repleta de carências e da presença do Estado. Educação e saúde, por exemplo, nunca tiveram representação ministerial durante o regime oligárquico, focado na economia, na infraestrutura, diplomacia e forças armadas. A infraestrutura para preponderantemente escoar seus produtos, a diplomacia em função das negociações internações e a força para conter os ânimos dos setores excluídos da sociedade civil, através da violência. Eis o mecanismo institucional que por 40 anos bastara a uma elite satisfeita, egoísta e atrasada. Chega a ser espantoso constatar que até meados do século XX, o Centro-Oeste brasileiro fora caracterizado pelos centros litorâneos como um “deserto”, o que é sintoma provável de que as elites dominantes em âmbito federal viviam realmente alheias aos problemas dos demais estados do país.

Tudo isso foi consequência do sistema oligárquico organizado por paulistas seguidos de mineiros, privilegiando, em plena era do desenvolvimento industrial, a economia primária de exportação, dificultando por décadas que o Brasil – gigante populacional e territorial - assumisse um lugar entre as grandes potências do mundo. A ambiguidade semântica da conhecida fórmula “café-com-leite” está em sugerir, todavia, que houve “alternância” de poder entre Minas e São Paulo, o que merece ser esclarecido.

Descontados Prudente de Morais e Campos Sales, foram dez governos sucessivos, até o aparecimento de Getúlio Vargas, isto é, de um líder de fora da órbita dominante (raciocínio que não se aplica inteiramente a Nilo Peçanha e talvez Hermes da Fonseca e Epitácio Pessoa, todos originários de outros estados). Uma leitura mais acurada do período revela que o jogo sucessório das oligarquias nacionais foi, no entanto, bem mais complexo do que normalmente se imagina, para um país sem nenhuma tradição democrática. A sucessão presidencial foi, todas as vezes, um jogo de cartas marcadas apenas na medida em que, com tal expressão, queiramos nos referir à escolha no âmbito das manobras oligárquicas comandadas pelos dois superestados. Não aludem a qualquer tipo de aceitação pacífica dentro das próprias hostes situacionistas ou, por outro lado, sem oposição articulada. Oposição sempre existiu, por vezes radical, na República Velha, concorrendo em todos os pleitos independentemente de partidos fortes: a única exceção se deu em 1914, quando houve chapa única, Wenceslau / Urbano dos Santos.

Quem sabe, ninguém caracteriza melhor a existência desse descontentamento do que Rui Barbosa, preterido eleição após eleição antes e depois de 1910, ou porque insistisse numa reforma constitucional ou na importância de se dar ouvidos à opinião pública nacional, em detrimento dos tradicionais conchavos políticos entre os caciques. Rui, não obstante, é a prova da maleabilidade do esquema café-com-leite no que refere à origem do postulante. Brilhante, venerável e experiente, nunca importou se vinha do Nordeste: seu problema não era este, de origem, mas de discurso e talvez de convicção, politicamente incômodos à elites agrárias sulistas.

Alguns grandes historiadores brasileiros dedicaram-se ao estudo minucioso da República Velha, Liberal ou Oligárquica, entre os quais Hélio Silva e Edgard Carone. Estudando a evolução política do Brasil, este último sequer faz uso da expressão consagrada “café-com-leite”, num livro de mais de quinhentas páginas: “A República Velha II – Evolução Política”. Ao analisar o governo de Campos Sales, sob o qual a famigerada fórmula teria sido inventada, o historiador não comenta nenhuma acordo formal que prevê uma alternância “necessária” de chefes oligárquicos de Minas e São Paulo para o cargo de presidente da República, daí por diante. Limita-se a narrar a circunstância em que Campos Sales procura o governador mineiro da época, Silviano Brandão, para que este indique um vice local para Rodrigues Alves, candidato à sua sucessão, surgindo desse pacto a primeira aliança política entre os dois estados. Eram também os dois mais ricos do país e detentores, ao mesmo tempo, das maiores bancadas federais na capital da República, a cidade do Rio de Janeiro.

Se este acordo abre na imaginação dos atores uma possibilidade de rodízio, essa possibilidade parece decorrer menos da vontade expressa dos paulistas do que de outros fatores: a começar, a atitude contestatória mineira em face da hegemonia vizinha, no pleito de 1906, quando Minas insiste no nome de Afonso Pena; segundo, o tropeço programático do concorrente paulista e candidato natural do PRP, Bernardino de Campos. Significa que em 1906, portanto, os dois estados tinham postulantes diferentes para o mesmo cargo, situação revertida em favor de Afonso Pena por razões alheias às pretensões ordinárias de cada facção. 

A fórmula café-com-leite deveria valer logo a partir de Rodrigues Alves, cujo vice é o próprio Silviano Brandão, de Minas. Caso não viesse a falecer neste cargo, o nome do ex-governador mineiro talvez prevalecesse ao término do período, para governar o país no quadriênio seguinte. Todavia, o próprio Campos Sales, indicado novamente - desta vez pelo Rio Grande do Sul e apoiado pela Bahia -, deixa seu nome fluir nas cogitações para o pleito vencido por Afonso Pena. E São Paulo tem um segundo pretendente, o governador Bernardino de Campos, que naufragou em função de certas declarações públicas relativas ao aumento do câmbio, tirando-lhe o apoio fundamental dos produtores de café. Bernardino não conta com a adesão mineira, pois, diz Edgard Carone, o Estado se julga “tão importante quanto São Paulo”, e seu representante acaba sendo homologado com o apoio dos próprios paulistas. Foi fundamental para o acordo em torno de Afonso Pena o fato deste ser favorável à desvalorização cambial, ao contrário do concorrente paulista. (O fator econômico que determina as escolhas da elite hegemônica na conjuntura é a estabilização cambial, útil aos interesses das áreas produtoras de café.)

Visto pela perspectiva do descenso, se, apesar de sua visão elogiosa e conservadora, concordarmos com Afondo Arinos – que dedica um capítulo à República Velha em “Problemas Políticos Brasileiros” - de que a vitória de Wenceslau Brás foi a última do “presidencialismo constitucional”, então, a rigor, o esquema teria feito apenas três presidentes, entre dez eleitos no período: Rodrigues Alves, Afonso Pena e Wenceslau Brás. É verdade que o mineiro Wenceslau foi o candidato de consenso entre paulistas e mineiros na sucessão de Hermes da Fonseca, mas deve ser lembrado que ele era vice do marechal gaúcho, nome preterido por São Paulo em 1910 e apoiado por Minas. Ou seja: os dois grandes estados estiveram efetivamente em trincheiras opostas nas eleições deste último ano, a segunda após aquela conversa aliancista entre Campos Sales e Silviano Brandão, no ano de 1902. O candidato de São Paulo, e que se opõe às perspectivas de militarização da política, foi o baiano Rui Barbosa, à frente da célebre Campanha Civilista.

Outra questão é que aqueles três presidentes, que se supõem eleitos por um pacto prévio dos superestados – ou seja, Alves, Pena e Brás -, não são contudo eleitos sequencialmente, daí o tradicional equívoco semântico, ao sugerir alternância de poder. Nilo Peçanha – de origem fluminense e pouco estimado nos círculos oficiais, porém empossado em decorrência de uma fatalidade (a morte de Pena, do qual era vice) – interrompe a série, prejudicada também pelo marechal Hermes da Fonseca, indício concreto de que aquela engenharia estava longe da perfeição. O Rio Grande do Sul, terceira força nacional, representaria sérias ameaças ao sistema vigente se tivesse pretensões dessa natureza, em especial porque sua trajetória política é marcada pela belicosidade de suas posições. Contudo, abdicara de lanças candidatos à presidência desde quando o governo da União, em 1898, garantiu ao então presidente (governador) Borges de Medeiros a neutralidade em relação a assuntos do seu estado. Hermes da Fonseca escapara ao acordo café-com-leite, o qual duraria até o aparecimento de Getúlio Vargas, em 1930, e certamente prejudicara as intenções de outro gaúcho, Pinheiro Machado, um dos políticos mais poderosos da República no espaço de tempo que vai de Campos Sales a Wenceslau Brás.

Pinheiro é o contraste de Rui, na República Velha. Senador, torna-se uma expressão nacional ao ser responsabilizado pela Comissão de Verificação de Poderes – principal instrumento fraudador do sistema eleitoral oligárquico – e tem influência decisiva na indicação de alguns candidatos à principal magistratura do país (entre os quais o próprio Hermes) e dos estados, fazendo do Congresso Nacional seu espaço de manobras. Se pudéssemos buscar no passado o protótipo ideal para a figura do coronel e oligarca, com a intenção de caracterizar certos políticos que até o final do século XX interferiram ainda na vida pública brasileira (em especial Antônio Carlos Magalhães e José Sarney), esse protótipo seria certamente Pinheiro Machado, que reinou por no mínimo 10 anos.

Wenceslau Brás não foi o último delegado da política café-com-leite, até porque após sua passagem o esquema evidenciou dificuldades das quais, na realidade, nunca esteve isento. Seu sucessor, Rodrigues Alves, faleceu em 1918, antes mesmo de tomar posse, e o nome que desponta para o novo pleito, determinado pela Constituição nesses casos, foi o de Epitácio Pessoa. Epitácio resulta de uma crise geracional no centro do sistema dominante, que se vê obrigado a indicar um nome vindo, pela primeira vez, de um estado secundário como a Paraíba. Diz Carone, da agonia oligárquica: “a indicação de um representante de um Estado secundário mostra a desorientação das hostes políticas e a falta de nomes representativos no sistema dominante. A velha geração – Campos Sales, Rodrigues Alves, Francisco Sales, João Pinheiro – já tinha desaparecido e a nova – Arthur Bernardes, Washington Luís, Altino Arantes, Antonio Carlos – apenas começa a se afirmar.” (“A República Velha II – Evolução Política”, quarta parte, A). E, como se viu, não custaria que Epitácio contrariasse a orientação mineira e paulista.

Mas a tentativa de alternar nomes originários de cada estado foi mais uma vez tentada na última década do regime, com Arthur Bernardes e Washington Luis, porém seu êxito a essa altura foi quase apenas de rotatividade, indo aos poucos e incontornavelmente perdendo sua eficácia. Já não havia mais condições de garanti-la, em face da dinâmica social do país, e sua legitimidade, provavelmente inexistente desde sempre, encontrou vozes robustas para contestá-la e finalmente força suficiente para destruí-la.

Como devemos interpretar essas contradições? Houve efetivamente uma política café-com-leite? Houve, mas jamais se traduziu numa alternância “sistemática” de presidentes mineiros e paulistas durante a Primeira República. A contar de 1902, São Paulo conseguiu fazer apenas dois chefes da Nação: primeiro Rodrigues Alves, e só no final do período o carioca de nascimento Washington Luis. Júlio Prestes seria o terceiro, mas não se efetiva: é deposto pela Revolução burguesa de 1930. Minas Gerais, também, elegeu três presidentes, que foram Afonso Pena, Wenceslau Brás e Arthur Bernardes (Delfim Moreira não conta para efeitos práticos, visto que a Constituição exigia novas eleições nas condições excepcionais em que este toma posse, como vice do recém falecido Rodrigues Alves, único ex-presidente que se reelegeu para um segundo mandato, em 1915).

Fogem das previsões daquele pacto Nilo Peçanha, Hermes da Fonseca e Epitácio Pessoa, este, o único dos três nomes sustentado pela aliança, mas originário do Nordeste. Carone escreve que o político paraibano sentiu-se surpreso com sua indicação, pois tal coisa pareceu absolutamente excepcional numa época em que a região Sudeste era mais importante do que o Brasil. É o primeiro a tentar escapar desse confinamento, embora sem êxito, posto que sem apoio, pois é também o primeiro a sentir a imposição de uma política econômica diante da qual o presidente da República não tem poder algum.

Epitácio não pode ser fiel ao plano de paulistas e mineiros não apenas porque lhe atribuem um temperamento forte e individualista: a realidade nacional exigiu de seu governo novos e maiores compromissos, decorrentes da urbanização, da ascensão da classe média e do operariado. Fazia-se uma curva no tempo. Segundo Afonso Arinos, por essa época “os problemas políticos e administrativos passaram a ser nacionais e não mais se podiam conter na política oligárquica, dominada pelos Superestados. Em entrevista concedida na Europa, pouco depois de escolhido candidato das forças dominantes, Epitácio Pessoa trata do carvão e do ferro, do operariado e das leis sociais, para concluir: “Vejo o Brasil. Eu sou brasileiro antes de tudo.” Não era um político regional ou estadual.” (Afonso Arinos, “Problemas políticos brasileiros”, capítulo sexto.)

Deduz-se desta breve análise, primeiro, que no Brasil dos tempos da República Velha também existiu oposição – termo amiúde associado a correntes ideológicas divergentes, o que era de somenos importância na época -; segundo, Hermes da Fonseca (apoiado por Minas), Rui Barbosa (apoiado por São Paulo) e Epitácio Pessoa ((apoiado por ambos os Estados) evidenciam certa permeabilidade do sistema a nomes de fora do centro e, terceiro, a condição sine qua non para ser homologado nas disputas eleitorais, durante a época de nosso liberalismo, foi menos a origem estadual do que, na verdade, o acordo baseado na plataforma econômica dos grandes produtores do Sudeste. Neste sentido, a política café-com-leite designa não propriamente a origem dos governantes, mas a linha dos planos de governo - em particular as diretrizes econômicas -, os quais merecem a verdadeira atenção do historiador. A aliança entre os estados de Minas Gerais e Rio Grande do Sul, contrariando São Paulo, ocorre à primeira vez em 1909. Perigosa, em 1930 essa divergência culminou na Aliança Liberal e no fim de uma época, no Brasil.
 


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POR EM 15/05/2009 ÀS 05:19 PM

O olhar perplexo de Chico Buarque

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O campo literário rechaça o compositor. Quando Chico Buarque deixou o lugar cômodo e seguro de músico e aceitou correr riscos, vieram os ataques mais violentos e ressentidos, que por sinal persistem até o recente lançamento do romance “Leite Derramado”

Chico Buarque 

Anos atrás, Roberto Schwarz notou o resultado pouco animador da eleição de um intelectual com boa formação marxista e, depois, de um sindicalista moderno à Presidência da República. Ambos nasceram politicamente na resistência à ditadura militar (1964-1985), mas, ao assumir o comando do país, sucumbiram à razão prática que criticaram no passado. As pessoas vindas dos movimentos de esquerda tiveram um êxito na disputa pelos cargos mais importantes na política brasileira, sem que houvesse a correspondente vitória de um pensamento de esquerda.

“O êxito da esquerda foi pessoal e geracional, mas não de suas idéias, das quais ela se foi separando, configurando algo como um fracasso dentro do triunfo, ou melhor, um triunfo dentro do fracasso. Talvez se pudesse dizer também que parte do ideário de esquerda se mostrou surpreendentemente adequado às necessidades do capital. O respeito marxista pela objetividade das leis econômicas não deixa de ser uma boa escola”, disse Schwarz, num discurso em homenagem ao arquiteto Sérgio Ferro, que foi um militante da luta armada dos anos 1970.

Sérgio Ferro é um dos intelectuais de esquerda que lutaram contra a ditadura e, passados os anos, se mantiveram ligados aos princípios de esquerda. Não foi mais um a se ajustar aos tempos modernos por pragmatismo ou oportunismo. Não houve aquela atração pelo mercado, pelas facilidades do capital, que diluíram as ambições intelectuais e até mesmo reformistas (dizer revolucionárias virou termo pejorativo) dos arquitetos contemporâneos. Ele se preocupa com as relações sociais nos canteiros de obras e não com a decoração de interiores de casa e apartamentos.

A trajetória de Sérgio Ferro e a análise de Schwarz são relevantes para entender o caminho tomado por Chico Buarque ao longo de sua carreira. Aliás, o compositor de “Construção” fora aluno de Ferro na Universidade de São Paulo, lá no começo dos anos 1960. Há um sentimento comum dos três (Ferro, Schwarz e Buarque) sobre o quanto é difícil e complexo se manter íntegro em relação às visões próprias de mundo, pois existe uma pressão social muito grande para que eles se ajustem às últimas crenças do mercado de idéias.

Chico Buarque transita no fio da navalha da indústria cultural e a grande arte. Seja na música, seja na escrita (romance, teatro), ele insiste em antecipar movimentos. O compositor dos anos 1960 catalisou o clima de “respiração artificial” no período mais duro dos militares. Foi o intelectual engajado que, com meias palavras, atingia em cheio os comandantes do regime, em canções como “Apesar de você" e "Acorda, amor”:

Acorda amor
Eu tive um pesadelo agora
Sonhei que tinha gente lá fora
Batendo no portão
Que aflição
Era a dura
Numa muito escura viatura
Minha nossa, santa criatura
Chame, chame, chame lá
Chame, chame o ladrão, chame o ladrão

Ao mesmo tempo, o engajamento dividia espaço com o intérprete da alma humana. Era capaz de criar personagens, como em “Valsinha”:

Um dia, ele chegou tão diferente do seu jeito de sempre chegar
Olhou-a de um jeito muito mais quente do que sempre costumava olhar
E não maldisse a vida tanto quanto era seu jeito de sempre falar
E nem deixou-a só num canto, pra seu grande espanto, convidou-a pra rodar
E então ela se fez bonita como há muito tempo não queria ousar
Com seu vestido decotado cheirando a guardado de tanto esperar
Depois os dois deram-se os braços como há muito tempo não se usava dar
E cheios de ternura e graça, foram para a praça e começaram a se abraçar
E ali dançaram tanta dança que a vizinhança toda despertou
E foi tanta felicidade que toda cidade se iluminou
E foram tantos beijos loucos, tantos gritos roucos como não se ouvia mais
Que o mundo compreendeu
E o dia amanheceu
Em paz

Em “João e Maria”, foi capaz de jogar com os tempos verbais e denunciar a própria ficção que o ser humano cria: “Agora eu era um herói...”.

Chico foi virando uma marca da resistência à ditadura e uma certa sensibilidade brasileira. Sua presença era garantia de crítica certeira ao regime. Mais importante: ele cumpria a função de fazer a ponte entre os intelectuais e a massa. Na sociedade brasileira, os letrados se isolam e vêem sinais de populismo em qualquer proximidade com o povo. Porém, os músicos são figuras que fazem essa mediação no país de poucas letras e os milhares de iletrados. Foi assim com Noel Rosa, ao qual Chico Buarque deu continuidade no trabalho hábil de aproximação social.

O ocaso da ditadura representou um esvaziamento do discurso engajado mais direto. Para o bom senso comum, não havia mais contra o que lutar. Afinal, o Brasil entrava na democracia, jogara o passado debaixo do tapete chamado Anistia, e os inimigos militares haviam sido derrotados. Interessante que, quando mais se precisou do pensamento crítico, ele se dissolveu na resignação e na adesão ao mercado. Não é por acaso que Caetano Veloso tenha se ajustado barbaramente aos instrumentos da indústria cultural e se dado tão bem. Ele consegue ser o pensador polêmico, porém dentro dos limites fixados pelo mercado.

Chico vai do “engajamento” à “perplexidade”. Ele não se ajusta às novidades. E foi na literatura que o olhar perplexo se manifestou com toda a intensidade. Quanto mais ele mergulha nas narrativas de ficção, no entanto, mais resistência encontra pelo caminho. “Aqui e ali narizes se torceram, e se torcem ainda, como se farejassem um turista das letras, pior que isso, um usurpador, um sem-credenciais a medir e ocupar com seus best-sellers a reserva de mercado das letras. ´O mundo dos escritores é muito complicado´, avalia Chico, mais à vontade no dos músicos”, escreve Humberto Werneck, num perfil biográfico do autor.

O campo literário rechaça o compositor. Wilson Martins o atacou sistematicamente desde o romance “Estorvo”, ao classificá-lo de mero plagiador. Bruno Tolentino aproveitou a oportunidade e começou a desqualificar a veia poética dos compositores da MPB. “Letra de canção não é poesia”, disse. Quando Chico Buarque deixou o lugar cômodo e seguro de músico e aceitou correr riscos, vieram os ataques mais violentos e ressentidos, que por sinal persistem até o recente lançamento do romance “Leite Derramado”.

Os admiradores do compositor engajado e lírico não estavam preparados para o escritor. No lugar de personagens inesquecíveis e cheios de poesia, surgiram figuras anônimas, uma narrativa tensa de um sujeito vagando pela metrópole caótica. “Estorvo”  antecipa boa parte da produção posterior e contemporânea de narrativas que tratam da violência urbana. A perplexidade começa a dominar o universo de Chico, como ele mesmo bem sintetizou numa entrevista de dezembro de 2004:

Eu cada vez mais me abstenho por reconhecimento da minha limitação, da minha ignorância. Aí eu sou realmente modesto. Não sou modesto em relação ao que eu faço como artista. Mas, sobre os rumos ou possibilidades do país, não vejo honestamente que contribuição eu possa dar. O que eu posso fazer é só constatar minhas perplexidades, meus receios diante desse quadro cada vez mais assustador. Como não se vê perspectiva de mudança a curto ou mesmo a médio prazo, a sociedade toda é levada a um certo conformismo, ou mesmo a um cinismo. Na alta classe média, assim como já houve um certo esquerdismo de salão, há hoje um pensamento cada vez mais reacionário, com tintas de racismo e de intolerâncias impressionantes. O medo da violência na classe média se transforma também em repúdio não só ao chamado marginal, mas aos pobres em geral, ao sujeito que tem um carro velho, ao sujeito que é mulato, ao sujeito que está mal vestido. Toda essa indústria da glamourização, de quem pode, de quem ostenta, de quem torra dinheiro -enfim, ser reacionário se tornou de bom tom. As moças bonitas no meu tempo eram de esquerda. Hoje são todas de direita (risos). Boutades às vezes racistas, preconceitos de classe, manifestações de desprezo mesmo pelos mais pobres se tornaram algo muito comum e socialmente valorizado.

O artista Chico Buarque está apenas buscando formas novas de se expressar, no caso as da literatura. Para ele, a canção é um formato que se esgotou. O rap torna-se a novidade que é criada pelos e para os mais pobres. Ele não canta rap, mas está de olho (perplexo) no que ocorre no subúrbio:

Lá não tem claro-escuro
A luz é dura
A chapa é quente
Que futuro tem
Aquela gente toda
Perdido em ti
Eu ando em roda
É pau, é pedra
É fim de linha
É lenha, é fogo, é foda.


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