Crônicas

Mulher sofre

Mulher sofre

Fé, menina. Deus é um poeta. Fez a mulher a partir da costela do homem. O melhor que Ele fazia, em sentido figurado, era deixar transfigurado o tórax masculino. Fica sempre faltando um pedaço. Adultos e meninos devem a sua existência ao domicílio uterino, a despeito da impensável claustrofobia de boiar durante meses dentro de um bolsão líquido nas entranhas maternas.

Enfrente o machismo de cabeça erguida. Ele revela o medo do poder da mulher

Enfrente o machismo de cabeça erguida. Ele revela o medo do poder da mulher

Vou profanar. Neste 45º Dia Internacional da Mulher começarei pelo fim: a história do machismo estrutural brasileiro é a confissão do medo do poder feminino. Por que entreguei logo o desfecho do meu raciocínio? Porque temos pressa. Depois de 45 anos de celebração mundial, o contexto dos direitos deste 8 de março é muito pior do que a situação nos anos 1970, quando a data foi criada.

Secreções, excreções e desatinos de um herói sem nenhum caráter

Secreções, excreções e desatinos de um herói sem nenhum caráter

Era agosto, mês de cachorro doido. A estrangeira Lucia McCartney lia Poemas Escolhidos, de Ferreira Gullar. Era uma mulher apaixonada pela literatura. Formava uma amálgama perfeita com os seus livros. Sentia-se mais feliz na varanda, lendo histórias curtas, histórias de amor, contos de terror e de morte, do que na cozinha, esquentando o ventre no fogão e esfriando-o no tanque.

Um mundo triste como sempre, só que mais simples

Um mundo triste como sempre, só que mais simples

Os joelhos ralados eram curados com um tipo de Mertiolate que arde até hoje. Piolhos eram implacavelmente exterminados, à moda antiga, um a um, à unha e vinagre. Disseminava-se um alerta geral contra tarados e ciganos que roubavam crianças. Ninguém morava em prédios. Brincava-se na rua, na chuva e nunca se teve notícia de alguém que morresse de tosse ou de raio. Toda casa tinha um pomar. Todo pomar tinha crianças.

Os fascistas morrem pela boca

Os fascistas morrem pela boca

Nunca as causas ideológicas foram tão mal interpretadas e mal defendidas quanto nas redes sociais da internet. Deselegância. Agressividade. Impaciência. Falta de empatia. Propagação de notícias falsas. Pode ser que coisas assim expliquem, em certo grau, os meus ímpetos desgraçados, antissociais, de preferir o isolamento, de evitar agrupamentos de pessoas, em especial, aquelas que desenvolveram talento para serem desagradáveis.

WhatsApp clonado

WhatsApp clonado

Nunca achei que teria meu WhatsApp clonado. Eu, no auge da minha arrogância e prepotência (friso: prepotência, e não “potência”) — mestre em Computação, pós-doutor pela Universidade de Harvard, escritor e professor de Inteligência Artificial, e outros blá blá blás — achei que passaria ileso por mais um golpe.

2019: viver foi uma roda gigante

2019: viver foi uma roda gigante

2019 foi trator. Mas também foi bálsamo. Houve ossos estraçalhados pelo caminhão de loucuras que nos amassou sem dó. E houve estrutura recomposta pela imensidão de força que descobrimos possuir. Teve dor no peito, dor da perda, vontade de gritar. E teve mão estendida, pé descalço na areia reencontrando o prumo, desejo de ficar.

O espírito não carrega excesso de bagagem. Tudo o que não servir mais, jogue fora

O espírito não carrega excesso de bagagem. Tudo o que não servir mais, jogue fora

Não sei você, mas tem hora que me sinto meio intoxicada. Abro as gavetas e só vejo bagunça, reparo um trincado feioso no vidro do celular, futrico as maquiagens e descubro que várias já passaram da data de validade. Esbaforida, percebo que o relatório prometido para a sexta passada está atrasado — de novo! — e que a visita ao centro de caridade que me comprometi a fazer acabou ficando para o mês que vem.