Quando chegou aos cinemas em 2013, “Oblivion”, dirigido por Joseph Kosinski, chamou atenção por reunir Tom Cruise, Andrea Riseborough e Morgan Freeman em uma ficção científica que mistura ação, mistério e aventura em um planeta Terra praticamente abandonado. Ambientado décadas após uma guerra devastadora contra uma raça alienígena conhecida como Scavs, o longa acompanha um dos últimos trabalhadores humanos ainda em atividade no planeta.
Jack Harper (Tom Cruise) vive acima das nuvens em uma estação tecnológica ao lado de Victoria Olsen (Andrea Riseborough). A dupla integra uma operação responsável pela manutenção de enormes estruturas que extraem energia dos oceanos terrestres. Segundo as informações que receberam, a guerra contra os Scavs terminou há muitos anos. A humanidade venceu o conflito, mas o preço foi alto. O planeta ficou devastado e os sobreviventes migraram para uma colônia localizada em Titã, uma das luas de Saturno.
Enquanto aguarda autorização para deixar definitivamente a Terra, Jack passa os dias patrulhando regiões abandonadas e reparando drones de combate. Essas máquinas são responsáveis por proteger as plataformas energéticas contra possíveis ataques dos poucos Scavs que ainda estariam escondidos entre as ruínas. É uma rotina repetitiva, quase burocrática, que lembra mais o trabalho de um técnico de manutenção do que a vida de um herói de ação.
Algo estranho
Porém, algo parece fora do lugar. Jack sofre com sonhos recorrentes envolvendo uma mulher desconhecida e imagens de uma Nova York que ele jamais deveria conhecer. Sua memória foi parcialmente apagada antes da missão, mas aquelas lembranças insistem em reaparecer. Victoria trata essas experiências como simples resquícios psicológicos. Jack, por outro lado, começa a suspeitar que existe algo importante escondido por trás delas.
A situação piora quando ele presencia a queda de uma nave espacial. O acidente acontece em uma área proibida e leva Jack até um grupo de sobreviventes criogenicamente preservados. Entre eles está Julia Rusakova (Olga Kurylenko), a mesma mulher que aparece em seus sonhos. A partir daquele instante, a realidade cuidadosamente construída ao redor dele começa a apresentar rachaduras cada vez mais difíceis de ignorar.
Julia não possui todas as respostas, mas sua presença levanta perguntas que ninguém parece disposto a esclarecer. Por que Jack a reconhece? Como uma pessoa aparentemente desconhecida pode despertar lembranças tão específicas? E por que os drones reagem de forma tão agressiva ao simples fato de ela estar viva?
Mistério insolúvel
As dúvidas aumentam quando Jack entra em contato com Malcolm Beech (Morgan Freeman), líder de um grupo de resistentes que vive escondido nas ruínas da Terra. Durante anos, Jack acreditou que os sobreviventes eram inimigos perigosos ligados aos Scavs. Malcolm apresenta uma versão completamente diferente dos acontecimentos. Em vez de oferecer soluções fáceis, ele entrega fragmentos de informações que obrigam Jack a revisitar tudo aquilo em que acreditava.
O roteiro de Karl Gajdusek e Michael Arndt constrói esse mistério de maneira eficiente. As revelações surgem aos poucos, sempre associadas a novas perguntas. Existe um esforço constante para fazer o espectador acompanhar o raciocínio do protagonista, compartilhando sua confusão e sua crescente desconfiança diante das versões oficiais dos fatos.
Questões filosóficas
Joseph Kosinski, que já havia demonstrado interesse por narrativas futuristas em “Tron: O Legado”, aposta aqui em uma ficção científica menos preocupada com batalhas incessantes e mais interessada em questões ligadas à memória, identidade e manipulação da informação. O diretor utiliza a imensidão das paisagens destruídas para reforçar a sensação de isolamento que acompanha Jack durante toda a história.
O planeta retratado pelo filme não parece apenas abandonado. Ele transmite a impressão de ter sido esquecido. Estádios vazios, arranha-céus destruídos, bibliotecas em ruínas e monumentos parcialmente soterrados lembram constantemente que existiu uma civilização vibrante antes daquele cenário desolador. Cada nova exploração realizada por Jack revela vestígios desse passado e acrescenta peças importantes ao quebra-cabeça.
Tom Cruise conduz grande parte do filme praticamente sozinho. Jack Harper passa boa parte da narrativa investigando sua própria existência e tentando descobrir em quem pode confiar. O ator equilibra bem a competência técnica do personagem com sua crescente insegurança diante das descobertas que surgem pelo caminho.
Andrea Riseborough entrega uma Victoria marcada pela fidelidade absoluta às regras da missão. Sua relação com Jack ganha peso à medida que os acontecimentos fogem do controle previsto. Já Olga Kurylenko assume um papel fundamental na construção do mistério, enquanto Morgan Freeman aparece como a figura que desafia as verdades estabelecidas desde o início da trama.
Mesmo quando algumas explicações se tornam mais complexas, “Oblivion” mantém o interesse porque sempre retorna ao elemento humano da história. O que está em jogo não é apenas o destino da Terra. É a tentativa de um homem recuperar a própria memória e descobrir quem realmente é.
Mais do que uma aventura espacial repleta de equipamentos futuristas, “Oblivion” funciona como um suspense sobre lembranças perdidas e verdades enterradas. Joseph Kosinski cria um universo visualmente impressionante, mas seu maior acerto está em transformar uma missão de manutenção aparentemente simples em uma investigação que coloca em dúvida cada certeza construída ao longo da vida de seu protagonista. Quando os segredos começam a surgir, Jack percebe que reparar drones talvez fosse a tarefa menos complicada que ele teria de enfrentar naquele planeta.

