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Muita coisa já mudou, mas o mundo do espetáculo continua a ser feito de astros que sublimam pequenezas a exemplo de vida pessoal, aspirações secretas e desejos íntimos para que o show não pare nunca e a roda da fortuna siga girando. Kylie Minogue sabe disso, e também por essa razão não derreteu na bruma corrosiva do tempo nem foi atropelada pelo meteoro da fama, como mostra Michael Harte em “Kylie”, a série da Netflix que faz a alegria dos fãs e provoca os detratores da mais célebre nativa de Caulfield South, subúrbio de Melbourne. Há quatro décadas, ninguém fica indiferente à australiana de metro e meio de altura e voz saborosamente roufenha, uma gigante na arte de permanecer sob os holofotes.

Sortuda

Kylie vinha de uma temporada particularmente exitosa em “Neighbours” (1985-2025), a novelinha australiana de 24 milhões de espectadores, quando bateu à porta de Pete Waterman, o todo-poderoso executivo da BBC. Depois de um chá de cadeira de longas horas, Waterman a recebeu, concordou em produzir seus três primeiros álbuns e remixou “The Loco-Motion” (1987), no topo da parada de sucessos no país da caloura. “I Should Be So Lucky” (1987) foi feita a toque de caixa e lançada na rádio sem divulgação prévia, apenas para congestionar as linhas telefônicas da emissora. Todos queriam saber quem era a cantora desconhecida, e ela não levou muito tempo para arrastar multidões, lutando para manter sua vida pessoal longe dos tabloides de fofoca. É claro que não conseguiria.

Venham para o meu mundo

Em alguma medida, os três episódios investem na dicotomia de fama versus privacidade. Harte tira de sua biografada lembranças agridoces sobre os namoros com Jason Donovan, seu par romântico em “Neighbours”, e Michael Hutchence (1960-1997), o vocalista do INXS, e Kylie também não se furta a responder sobre os dois diagnósticos de câncer de mama, em 2005 e 2021. Hábil em dominar a narrativa, ela exalta os fãs gays, “os únicos que ficaram”, lamenta-se por não poder ter filhos e deixa que a irmã, Dannii, opine sobre jornalistas invasivos e maldosos, sobretudo quando a realidade assume tons sombrios, contrários à aura rosicler que Kylie evoca. Que ninguém se engane, contudo: ela é uma diva, mas prefere ser uma bomba-relógio.


Série: Kylie
Diretor: Michael Harte
Ano: 2026
Gênero: Biografia/Documentário
Avaliação: 4.5/5 1 1
Giancarlo Galdino

Depois de sonhos frustrados com uma carreira de correspondente de guerra à Winston Churchill e Ernest Hemingway, Giancarlo Galdino aceitou o limão da vida e por quinze anos trabalhou com o azedume da assessoria de políticos e burocratas em geral. Graduado em jornalismo e com alguns cursos de especialização em cinema na bagagem, desde 1º de junho de 2021, entretanto, consegue valer-se deste espaço para expressar seus conhecimentos sobre filmes, literatura, comportamento e, por que não?, política, tudo mediado por sua grande paixão, a filosofia, a ciência das ciências. Que Deus conserve.

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