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A humanidade tem enfrentado situações que demandam-lhe uma dose generosa de coragem — e às vezes alheamento. Por estarmos sempre cercando-nos de todos os cuidados para que nada fuja ao previsível, no momento em que nos vemos diante de uma grande reviravolta do destino, ainda que tudo possa tornar ao ponto inicial não muito tempo depois, não perder-se de si mesmo acaba sendo um desafio. Tipos cujos coração e mente irmanam-se num processo intrincado e um tanto autodestrutivo, em que o empenho de boa parte de sua energia vai para a procura desesperada por um lugar que sirva-lhes de refúgio para a vida miserável que julgam quase perfeita, ocupam a cultura pop desde sempre. Esse viridário é o Brasil para John W. Creasy, personagem-título de “Homem em Chamas”, nova série da Netflix com aquele gostinho nostálgico que costuma derrubar qualquer um. A adaptação de Kyle Killen e do brasileiro Álvaro Mamute para o romance homônimo publicado em 1980 pelo inglês A.J. Quinnell, pseudônimo de Philip Nicholson (1940-2005) é hábil em reciclar ideias lançadas por Tony Scott (1944-2012) em “Chamas da Vingança” (2004), ao passo que também desenvolve subtramas originais, mais caudalosas, que conduzem a alguma explicação para a anarquia imanente desse anti-herói com muito caráter.

O demônio na garrafa

Creasy, um ex-agente da CIA que não se sabe se enfrenta problemas com as garrafas por ter sido defenestrado do posto ou se perdeu o emprego por permitir que a bebida o tomasse, tem uma dose do Lincoln Rhyme de “O Colecionador de Ossos” (1999), dirigido por Phillip Noyce, do Whisp Whitaker de “O Voo” (2012), levado à tela por Robert Zemeckis, e até, esticando-se um tanto a corda, de Eli, o papel-título do filme dos irmãos Albert e Allen Hughes. Isso não é acaso. Espertamente, Killen evoca Denzel Washington, responsável por dar ao protagonista a natureza instável de um louco, mudando de endereço como se fugisse de seu inimigo figadal, o que é mesmo verdade. Creasy é o grande vilão de sua própria história, mas tem por consolo saber que, por mais absurdo que pareça, pode ser também seu próprio redentor. Ele tem a chance de virar a página ao aceitar fazer parte de uma operação antiterrorista no Rio de Janeiro, convocado por Paul Rayburn, um mercenário do sul dos Estados Unidos radicado no Leblon (que, na verdade, é a Barra da Tijuca). Confuso? Pode ser. 

Explosões e afins

Os diretores dos sete episódios, Vicente Amorim entre eles, recorrem a explosões, lutas, diálogos espirituosos e o rol de clichês de sempre a fim de segurar o público, mas quem garante o espetáculo é mesmo Yahya Abdul-Mateen II. Admirador declarado de Washington, Abdul-Mateen II transita bem entre os diversos núcleos, exibindo desempenho especialmente notável nas cenas com Bobby Cannavale, e ainda melhor junto com Billie Boullet, na pele de Poe, a filha de Rayburn. Para quem gosta de caos com estilo, é um prato cheio.


Série: Homem em Chamas
Diretor: Kyle Killen
Ano: 2026
Gênero: Ação/Suspense
Avaliação: 4/5 1 1
Giancarlo Galdino

Depois de sonhos frustrados com uma carreira de correspondente de guerra à Winston Churchill e Ernest Hemingway, Giancarlo Galdino aceitou o limão da vida e por quinze anos trabalhou com o azedume da assessoria de políticos e burocratas em geral. Graduado em jornalismo e com alguns cursos de especialização em cinema na bagagem, desde 1º de junho de 2021, entretanto, consegue valer-se deste espaço para expressar seus conhecimentos sobre filmes, literatura, comportamento e, por que não?, política, tudo mediado por sua grande paixão, a filosofia, a ciência das ciências. Que Deus conserve.

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