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“Não o Tipo da Cinderela”, dirigido por Brian Brough, começa acompanhando a rotina de Indy Porter, uma adolescente que vive com a tia e o tio depois da morte dos pais. Ela frequenta a escola, ajuda nas tarefas da casa e tenta agir da maneira menos incôoda possível dentro daquele ambiente. A impressão inicial é de estabilidade. Existe comida na mesa, regras organizadas e uma estrutura familiar aparentemente comum. Aos poucos, porém, o filme mostra que Indy aprendeu a viver pisando em ovos.

A tia controla horários, amizades e escolhas simples da sobrinha com uma autoridade constante. Pequenos comentários são quase como lembretes diários de que Indy deveria agradecer o tempo inteiro por ainda ter um lugar para morar. O detalhe mais triste é perceber que a jovem incorporou essa culpa à própria personalidade. Ela pede desculpas por coisas banais, hesita antes de responder perguntas simples e demonstra medo até durante conversas corriqueiras dentro da cozinha.

O desgaste aparece em olhares atravessados, críticas mascaradas de conselho e cobranças que transformam qualquer erro em sinal de ingratidão. É um tipo de violência silenciosa que costuma passar despercebida para quem está fora daquela casa.

A chegada de Bryant Bailey

A vida de Indy muda quando Bryant Bailey, interpretado por Tanner Gillman, aparece após um acidente que aproxima os dois. Ela diz que ele não faz seu tipo. Bryant é insistente, fala demais e tem aquela confiança típica de garoto adolescente que acredita conseguir resolver tudo na conversa. Ainda assim, existe algo nele que chama atenção de Indy pela primeira vez em muito tempo. Bryant presta atenção de verdade no que ela fala.

O romance nasce devagar e não tenta transformar os personagens em versões perfeitas de filmes adolescentes tradicionais. Bryant insiste em aparecer quando Indy prefere ficar sozinha, faz comentários inconvenientes e em alguns momentos parece incapaz de perceber o tamanho da dor que ela carrega. Mesmo assim, a convivência entre os dois produz um efeito importante. Indy começa a perceber que determinadas atitudes presentes dentro de casa talvez não sejam normais.

Paris Warner constrói uma protagonista bastante contida. Indy raramente verbaliza tudo o que sente, mas o desconforto aparece em pequenos gestos, nas pausas das frases e na forma cautelosa com que ela ocupa espaços. Tanner Gillman ajuda a equilibrar o filme trazendo uma energia mais leve para as cenas. Bryant tem um jeito estabanado e até engraçado em certos momentos. Há uma sequência em que ele insiste em puxar conversa enquanto Indy claramente deseja desaparecer do planeta, e a situação cria aquele constrangimento adolescente bastante reconhecível para qualquer pessoa que já estudou em escola pequena.

Quando o amor expõe feridas

O filme melhora quando abandona a fantasia romântica e passa a observar a relação de Indy com a família. Quanto mais próxima ela fica de Bryant, mais estranha a convivência dentro de casa se torna. A tia percebe a mudança de comportamento da sobrinha e responde aumentando o controle sobre ela. Conversas viram cobranças. Pedidos simples parecem interrogatórios. Até sair de casa exige justificativa detalhada.

Existe uma sensação constante de que Indy precisa merecer afeto o tempo inteiro. Essa talvez seja a parte mais dolorosa do longa. A personagem não consegue reconhecer o próprio valor porque foi criada ouvindo que sempre dá trabalho, ocupa espaço demais ou deveria ser mais agradecida. O romance entra na história quase como um espelho inesperado. Bryant observa nela qualidades que Indy já nem consegue enxergar sozinha.

Tim Flynn, que interpreta uma figura importante dentro daquele núcleo familiar, representa bem o comportamento passivo de quem presencia situações ruins e prefere manter silêncio para preservar a paz da casa. O personagem raramente interfere de maneira decisiva. Essa omissão deixa Indy ainda mais isolada emocionalmente.

Brian Brough trabalha tudo com uma linguagem acessível e bastante voltada ao público jovem, mas sem transformar a protagonista em heroína perfeita. Indy erra, desconfia das próprias escolhas e demora bastante para reagir. Essa lentidão faz sentido porque o filme compreende que pessoas emocionalmente manipuladas nem sempre conseguem perceber de imediato o ambiente em que vivem.

Uma versão amarga da Cinderela

O título do longa faz referência ao conto da Cinderela, mas “Não o Tipo da Cinderela” troca o glamour dos castelos por corredores de escola, salas apertadas e uma casa onde a personagem principal sente que precisa pedir licença para existir. O sapatinho de cristal dá lugar à autoestima destruída de uma adolescente que tenta descobrir se merece carinho sem precisar pagar por ele diariamente.

O filme segue fórmulas comuns dos romances adolescentes feitos para televisão, principalmente em certas cenas açucaradas entre Indy e Bryant. Ainda assim, existe honestidade na maneira como a história trata abuso emocional dentro da família. Muitas vezes, os momentos mais difíceis do longa surgem em situações pequenas, durante o jantar ou em conversas aparentemente simples que deixam Indy acuada outra vez.

“Não o Tipo da Cinderela” consegue falar sobre afeto, dependência emocional e amadurecimento de maneira sensível. Quando Indy começa a perceber que merece ser tratada com dignidade, até os ambientes mais comuns passam a ter outro peso para ela. A casa continua a mesma. O que muda é o modo como a personagem passa a enxergar aquilo que a machucava em silêncio havia anos.


Filme: Não o Tipo da Cinderela
Diretor: Brian Brough
Ano: 2018
Gênero: Drama/Romance
Avaliação: 3.5/5 1 1
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