Discover

“A Trilha”, dirigido por David Twohy, transforma uma lua de mel em um jogo de suspeitas quando um casal atravessa trilhas isoladas do Havaí enquanto a polícia procura dois assassinos que continuam desaparecidos. Cliff (Steve Zahn) e Cydney (Milla Jovovich) chegam ao arquipélago tentando viver uma experiência aventureira longe dos hotéis tradicionais e dos roteiros turísticos mais conhecidos.

Eles escolhem caminhar por regiões afastadas, carregam mochilas pesadas e seguem rumo a praias escondidas acessíveis apenas por trilhas longas e cansativas. O problema aparece ainda no início do percurso. Durante algumas conversas entre turistas e moradores, começam a circular notícias sobre um casal encontrado morto na ilha. As descrições dos suspeitos são vagas, mas suficientes para provocar desconforto entre todos que cruzam o caminho dos recém-casados.

David Twohy aproveita o isolamento da mata havaiana para criar tensão sem depender de perseguições constantes ou sustos exagerados. Os personagens precisam dividir espaço com desconhecidos durante horas, dormir perto de pessoas que acabaram de conhecer e tomar decisões sem qualquer apoio externo. Em pouco tempo, a caminhada turística perde o ar relaxado e vira uma experiência sufocante. Qualquer silêncio estranho passa a carregar ameaça.

O primeiro encontro estranho acontece quando Cliff e Cydney cruzam o caminho de Kale (Chris Hemsworth) e Cleo (Marley Shelton). O casal aparece discutindo de maneira agressiva no acostamento de uma estrada e pede carona. Cliff tenta agir com simpatia, mas a situação rapidamente fica estranha. Kale alterna momentos de calma com comentários violentos, enquanto Cleo parece irritada o tempo inteiro. A conversa dura poucos minutos, mas deixa um clima pesado suficiente para acompanhar os protagonistas durante boa parte da trilha.

Estranhos no meio da mata

Um pedido de ajuda, uma mochila abandonada ou uma conversa perto da fogueira passam a parecer perigosos porque ninguém sabe quem realmente está falando a verdade. Cliff começa a observar todos ao redor com paranoia crescente. O curioso é que ele também tenta manter a aparência de alguém tranquilo e preparado para proteger Cydney, embora demonstre insegurança em quase todas as decisões importantes.

Steve Zahn trabalha muito bem essa fragilidade do personagem. Cliff quer parecer experiente, aventureiro e confiante, mas frequentemente toma atitudes impulsivas. Em alguns momentos, o próprio nervosismo dele cria situações constrangedoras. Há cenas em que Cliff tenta puxar conversa ou aliviar o clima e acaba deixando tudo ainda mais desconfortável. O personagem vira quase um turista perdido tentando bancar o herói diante de pessoas muito mais preparadas para aquele ambiente.

A entrada de Nick (Timothy Olyphant) e Gina (Kiele Sanchez) altera completamente o clima da história. Diferente dos outros viajantes encontrados pelo caminho, Nick demonstra segurança desde a primeira aparição. Ele conhece atalhos da região, caça animais com facilidade e parece confortável em qualquer situação dentro da mata. Gina acompanha o parceiro com naturalidade e transmite menos desconfiança que ele, embora também mantenha certa distância emocional do restante do grupo.

Cliff enxerga em Nick alguém capaz de ajudar o casal durante o percurso. Cydney, porém, percebe comportamentos estranhos no novo companheiro de viagem. Timothy Olyphant interpreta Nick com um carisma inquietante. O personagem faz piadas em momentos inadequados, conta histórias absurdas e reage de forma imprevisível quando alguém questiona suas atitudes. Ainda assim, ele também demonstra habilidade para resolver problemas reais da caminhada, o que impede Cliff e Cydney de se afastarem dele com facilidade.

A tensão cresce a cada parada

David Twohy mantém o suspense funcionando porque trabalha a desconfiança de maneira constante. A polícia aparece ocasionalmente em estradas e pontos turísticos tentando localizar os suspeitos do assassinato, mas os protagonistas passam a maior parte do tempo isolados da civilização. Sem telefone, internet ou acesso rápido a qualquer ajuda, Cliff e Cydney precisam confiar apenas nas próprias impressões. O problema é que ninguém ali parece completamente confiável.

A fotografia explora muito bem o contraste entre o cenário paradisíaco e a sensação de ameaça. Cachoeiras, montanhas e praias preservadas aparecem o tempo inteiro, mas nunca transmitem tranquilidade completa. A beleza do lugar acaba reforçando o desconforto porque os personagens estão presos num ambiente distante de qualquer proteção. Quanto mais a trilha avança, menor parece a chance de escapar caso alguma coisa dê errado.

Existe também um esforço interessante do roteiro em brincar com a percepção do espectador. David Twohy distribui pistas, conversas suspeitas e pequenos detalhes que fazem todos parecerem possíveis culpados. O filme leva Cliff a observar cada gesto dos outros viajantes enquanto tenta ligar informações espalhadas ao longo do percurso. Uma fala atravessada durante o jantar, um comportamento estranho durante uma pausa ou uma reação exagerada perto da polícia passam a ter peso dentro da história.

“A Trilha” mantém o suspense ligado ao comportamento humano e não apenas à violência. O medo nasce da convivência forçada entre pessoas que mal se conhecem em um lugar isolado, cercado por mata fechada e distante de qualquer socorro. Quando os personagens finalmente percebem o tamanho do perigo ao redor, a viagem romântica já desapareceu completamente e cada passo dentro da floresta passa a carregar risco real.


Filme: A Trilha
Diretor: David Twohy
Ano: 2009
Gênero: Drama/Mistério/Suspense
Avaliação: 3.5/5 1 1
Fernando Machado

Fernando Machado é jornalista e cinéfilo, com atuação voltada para conteúdo otimizado, Google Discover, SEO técnico e performance editorial. Na Cantuária Sites, integra a frente de projetos que cruzam linguagem de alta qualidade com alcance orgânico real.

Leia Também