Escutei ao podcast “Pico dos Marins: O Caso do Escoteiro Marco Aurélio” no ano passado, por indicação do meu amigo Ton Paulo, editor do Jornal Opção, aqui de Goiânia. Ele havia sido lançado em 2022, mas, como não acompanho podcasts com frequência, não fazia ideia da enorme repercussão que havia alcançado. Nasci anos depois do desaparecimento de Marco Aurélio, vivo muito longe de onde tudo aconteceu e, por isso, desconhecia completamente o caso. Acontece que, por causa do podcast, a história passou a me interessar bastante pelo mistério que carrega e, claro, pela empatia com a família, que transformou a busca pelo menino no motor de sua própria vida. A dedicação deles é profundamente comovente.
Agora, foi lançado o documentário homônimo pela Globoplay, que utiliza trechos dessas entrevistas feitas para o podcast, mas também atualiza o caso com novas informações. Se você ainda não conhece a história, o desaparecimento do escoteiro Marco Aurélio no Pico dos Marins, na Serra da Mantiqueira, é um dos casos policiais mais emblemáticos do Brasil justamente por ser um dos enigmas mais indecifráveis já registrados no país. Além de horripilante imaginar que uma família tenha vivido algo assim, é ainda mais angustiante perceber que os mais de 40 anos que separam os familiares do desaparecimento do menino transcorreram sem qualquer resposta concreta. Não existe absolutamente nenhuma pista definitiva, nenhuma prova de crime e nenhuma explicação convincente para o que teria acontecido.
Entrevistas e depoimentos intrigantes
Grande parte das entrevistas presentes na série foi realizada em 2017, quando o repórter investigativo Marcelo Mesquita procurou a família para falar sobre o caso. Conforme as informações eram revisitadas, outras testemunhas foram entrevistadas ao longo dos anos, numa tentativa de compreender por que nada foi descoberto sobre o que teria acontecido com Marco Aurélio naquele fatídico 8 de junho de 1985, quando ele e um grupo de quatro pessoas, chamado de grupo Olivetano, subiram o Pico dos Marins para uma expedição escoteira.
Muitos mistérios cercam essa história cheia de lacunas, versões contraditórias e insinuações. Os Olivetanos eram formados por quatro adolescentes: Marco Aurélio, Osvaldo, Salvione e Ramatis, acompanhados por um adulto, o chefe dos escoteiros Juan Céspedes. Na primeira noite, eles acamparam em frente à casa do senhor Afonso, um guia que morava ao pé da montanha. Juan afirmou que o guia teria dito que estava ocupado e que não poderia acompanhá-los até o pico. Diante disso, decidiu subir sozinho com os meninos.
Série de problemas e investigações
Durante a subida, o grupo erra a trilha e acaba pegando um caminho que provoca atraso de algumas horas, além de obrigá-los a atravessar trechos mais íngremes e cheios de pedras. Osvaldo machuca a perna e o grupo se vê obrigado a descer antes de alcançar o objetivo. Como Marco Aurélio era considerado o mais experiente em escotagem entre os adolescentes, ele foi escolhido para seguir na frente e marcar o caminho nas pedras para que os demais o acompanhassem enquanto ajudavam Osvaldo. O problema é que, no meio da descida, o grupo perde Marco Aurélio de vista. Apenas quatro pedras aparecem marcadas e os demais decidem continuar descendo, acreditando que o jovem escoteiro tivesse chegado antes para pedir ajuda.
Lá embaixo, porém, não há qualquer sinal de Marco Aurélio. A polícia só é acionada na noite do dia seguinte, assim como a família do garoto. As lacunas passam então a ser preenchidas por histórias que se atravessam, se contradizem e se misturam. Algumas versões acabam desmentidas, outras são reformuladas. Relatos sobre luzes estranhas na montanha, o comportamento agressivo de um dos filhos do senhor Afonso e até suspeitas envolvendo o próprio chefe dos escoteiros surgem ao longo da investigação. Nenhuma teoria, porém, encontra provas suficientes para se sustentar.
As buscas pelo menino
O resgate, formado por cerca de 300 pessoas e estendido por mais de um mês pela Serra da Mantiqueira, não trouxe respostas. Pelo contrário, deixou ainda mais dúvidas. Uma queimada acontece sem motivo aparente. Situações estranhas se acumulam e dificultam a investigação, mas nenhuma pista concreta sobre o paradeiro do menino aparece. Até mesmo um motorista de ônibus afirmou ter visto Marco Aurélio nas proximidades da região dias depois do desaparecimento. Ainda assim, nenhuma solução foi apresentada pelos inúmeros investigadores que passaram pelo caso ao longo das décadas.
Recentemente, um áudio de WhatsApp viralizou e reacendeu o interesse público pelo desaparecimento, levando novas escavações policiais a ocorrerem ao redor e dentro da casa do senhor Afonso. Até pouco tempo atrás, amostras de terra ainda estavam sendo recolhidas em busca de vestígios que pudessem apontar para um possível assassinato de Marco Aurélio. No entanto, nenhuma resposta conclusiva foi encontrada. A cada ano sem solução, o mistério em torno do sumiço de Marco Aurélio parece ainda mais distante de um desfecho.

