Em A guerra é divertida, um dos capítulos finais de “A Primeira Vítima” (1975), o australiano Philip Knightley (1929-2016) defende, norteando-se pelo que escutou de oficiais e recrutas que estiveram presentes no campo de batalha, que confrontos bélicos fariam aqueles homens entediados reviverem sua infância. “O Freelancer: O Homem por trás da Foto” é um novo desdobramento de um capítulo tenebroso da História, embora sob ponto de vista inusitado. Filho de refugiados que deixaram o Vietnã após a guerra contra os Estados Unidos, Bao Nguyen tenta desvendar o mistério por trás da imagem que cristalizou junto à opinião pública o absurdo da ofensiva americana-sul-vietnamita no Vietnã do Norte. E mais atrocidades vêm à tona.
Em carne viva
Em 8 de junho de 1972, uma senhora passa por uma estrada no vilarejo de Trang Bang, no Vietnã do Sul levando o neto, um bebê de colo, sem vida depois de ter sido alvejado por bombas de napalm, uma substância altamente inflamável à base de gasolina gelificada. Pouco depois, Kim Phuc vem correndo, à primeira vista sem ferimentos, apesar do choque. Quando a câmera se desloca, porém, veem-se enormes queimaduras em suas costas, de onde a pele desliza e dá lugar a uma área rubra como o fogo, cujo cheiro de queimado provoca náusea. Bárbaro, repulsivo, o episódio é narrado pelo fotógrafo Nick Ut, que fazia a cobertura pela Associated Press e a quem é atribuído o crédito do que a humanidade passou a chamar de O Horror da Guerra ou A Garota do Napalm. Ninguém poderia imaginar que, transcorrido mais de meio século, Ut tivesse de responder por uma das maiores fraudes do fotojornalismo, mais e mais óbvia à medida que a equipe de Gary Knight viaja pelo Sudeste Asiático buscando os personagens que teriam o condão de reparar um erro que custou a fortuna e a paz de um homem. Repórter fotográfico experiente, Knight arranca do ostracismo Nguyen Thanh Nghẹ, atentando para fatos como a posição que Ut e o colega anônimo ocupavam na cena, levantando a hipótese bastante razoável de que o correspondente da AP não disporia de tempo para deslocar-se do ponto em que se encontrava e clicar Phuc — cujo registro levou a tamanha comoção muito por causa da ausência de roupa. Acerca de Tao Thi Kim, a avó do bebê morto e da própria garota do napalm, pouco se conhece.

