“Alexandre O Grande” começa em Babilônia, pouco antes da morte de Alexandre. O conquistador macedônio aparece debilitado depois de anos de campanhas militares e deixa um império enorme sem sucessor. Décadas depois, em Alexandria, Ptolomeu (Anthony Hopkins) relembra a história do antigo comandante enquanto dita suas memórias ao escriba Cadmo. O velho general guarda o corpo embalsamado de Alexandre no Egito e tenta impedir que a imagem do antigo rei seja reduzida à figura de um tirano sanguinário.
Essa escolha dá ao filme um tom de lembrança amarga. Ptolomeu fala sobre alguém admirado pelos soldados e temido pelos inimigos, mas também sobre um homem consumido pela própria ambição. Oliver Stone usa esse recurso para alternar diferentes momentos da vida de Alexandre sem transformar a narrativa numa aula de história. Cada memória explica como aquele jovem macedônio saiu de uma pequena corte europeia para ocupar quase todo o mundo.
Ainda na juventude, Alexandre vive cercado por disputas familiares. Felipe da Macedônia (Val Kilmer) governa pela força e acredita que o filho precisa aprender a dominar homens pela guerra. Olímpia (Angelina Jolie), mãe de Alexandre, alimenta no garoto a ideia de que ele possui origem divina. Ela fala sobre deuses, destino e grandeza com tanta convicção que a infância do personagem parece um treinamento psicológico constante. Alexandre cresce convencido de que nasceu para algo monumental.
A guerra como linguagem
Quando Felipe é assassinado, Alexandre assume o trono ainda muito jovem. O novo rei precisa controlar rebeliões gregas e consolidar autoridade antes de avançar contra o Império Persa. Se ele demonstra fraqueza naquele momento, perde exército, território e apoio político ao mesmo tempo.
As batalhas ocupam boa parte do filme e Oliver Stone aposta numa encenação caótica, cheia de poeira, lama, sangue e ordens gritadas em meio à confusão. Em Gaugamela, uma das sequências centrais da produção, Alexandre lidera pessoalmente a cavalaria enquanto tenta atingir Dario III. A câmera acompanha o personagem no meio do tumulto, cercado por homens esmagados por cavalos e lanças atravessando armaduras. Não existe elegância nessa guerra. Apenas desgaste físico e um comandante disposto a arriscar a própria vida para alimentar sua fama.
Colin Farrell interpreta Alexandre com uma energia inquieta. O personagem vive entre discursos idealistas e impulsos autoritários. Em vários momentos, ele fala sobre união entre povos e sobre a criação de uma civilização aberta a diferentes culturas. Só que os próprios soldados começam a demonstrar cansaço depois de anos atravessando desertos, montanhas e cidades destruídas. Quanto mais Alexandre insiste em avançar para o Oriente, maior fica a distância entre ele e seus oficiais macedônios.
Os conflitos dentro do palácio
O filme também dedica bastante tempo às relações pessoais de Alexandre. Heféstion (Jared Leto) surge como amigo inseparável, conselheiro e figura de confiança num ambiente dominado por homens interessados em influência militar. Roxana (Rosario Dawson) entra na história quando Alexandre já controla parte significativa da Ásia e o casamento entre os dois provoca tensão dentro da corte.
Stone trabalha essas relações de maneira intensa, às vezes até exagerada, mas existe um interesse genuíno em mostrar como o poder interfere em vínculos afetivos. Alexandre raramente consegue separar sentimento e autoridade política. Uma conversa íntima pode virar crise militar em poucos minutos. Um casamento interfere em alianças. Uma suspeita destrói amizades antigas. O palácio é como uma continuação do campo de batalha.
Angelina Jolie aparece em cenas curtas, porém marcantes. Sua Olímpia fala baixo, manipula emocionalmente o filho e transforma qualquer encontro familiar num momento constrangedor. Val Kilmer, por outro lado, interpreta Felipe como um rei agressivo, bêbado e orgulhoso das próprias conquistas militares. Quando os dois dividem espaço em cena, Alexandre parece um homem encurralado entre duas formas diferentes de violência.
Existe até certa ironia involuntária em algumas escolhas do longa. Colin Farrell, loiro platinado e sotaque oscilando entre países diferentes, tenta sustentar discursos grandiosos enquanto Anthony Hopkins narra tudo com a paciência de alguém cansado de explicar guerras para burocratas. Em alguns momentos funciona muito bem. Em outros, parece que Stone decidiu transformar cada discussão familiar numa tragédia shakespeariana depois de três taças de vinho.
O peso da conquista
A reta final acompanha a chegada do exército à Índia. Depois de anos lutando longe de casa, os soldados aparecem exaustos, feridos e emocionalmente destruídos. Alexandre continua obcecado pela ideia de alcançar territórios ainda mais distantes, mas o desgaste coletivo começa a romper a relação entre líder e tropas.
Stone mostra um conquistador incapaz de parar. Alexandre já possui riqueza, prestígio e domínio territorial gigantesco, porém continua avançando porque acredita que interromper a campanha seria admitir fragilidade. Essa insistência transforma o personagem numa figura cada vez mais isolada. Os homens próximos permanecem ao redor dele por lealdade, medo ou conveniência política.
“Alexandre O Grande” divide opiniões até hoje porque alterna momentos grandiosos e cenas excessivamente carregadas. Ainda assim, existe força no modo como Oliver Stone trata Alexandre como um homem tomado por paranoia, desejo de glória e necessidade constante de aprovação. Quando Ptolomeu encerra suas lembranças em Alexandria, o antigo rei continua ocupando espaço dentro dos palácios mesmo depois de morto. Seu corpo permanece preservado no Egito enquanto seus aliados seguem disputando a herança deixada pelas guerras.

