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Em geral, americanos se saem muito bem quando usam o cinema para expor suas fragilidades. Assuntos espinhosos como as perenes iniquidades do jeito de viver propagado pela nação mais plural da Terra costumam vir à baila com virulência nos filmes, o que nem de longe afasta o público, pelo contrário: quanto mais coragem um diretor usa na elaboração de um argumento ingrato, mais o espectador sente-se compreendido, certo de que suas dores não são só suas, mas do gênero humano. Com “Acorrentados”, Stanley Kramer (1913-2001) dá uma contribuição sólida quanto a se entender uma das chagas mais dolorosas dos Estados Unidos, com um recorte incômodo. Sidney Poitier (1927-2022) talvez tenha sido aquele que com mais elegância personificou em Hollywood a coragem de elaborar uma análise acurada e combativa acerca do preconceito por critérios raciais sem deixar-se prender na rede da vitimização. Junto com Kramer e os roteiristas Harold Jacob Smith (1912-1970) e Nedrick Young (1914-1968), Poitier compõe o anti-herói doce e furioso que tenta aproveitar uma cortesia da sorte, mas vê-se obrigado a lidar com um empecilho incomum, mágoas e autorrevelações. 

Um elo invisível

Uma voz preenche os minutos iniciais do filme. Noah Cullen canta “Long Gone (from Bowlin’ Green)” (1920) como um lamento sobre a tristeza da prisão, feita para homens que passam a vida em busca de uma chance, encontrando apenas riscos e o opróbrio. Ninguém parece ter ânimo para reclamar, ouvindo a canção como uma forma de penitência, até que o guarda ao lado do motorista se aborrece. A ameaça de uma reprimenda mais severa, porém, é interrompida pelo capotamento do furgão em que eles viajam, e depois que o veículo tomba na ribanceira, parece abrir-se-lhe um novo caminho. O problema é que Cullen não está só. Ironicamente, o pulso de John Jackson fora unido ao seu por grilhões e então os dois têm de superar a mútua ojeriza para ganhar a liberdade. Aqui, a marca de Kramer é a simplicidade. O diretor extrai do desempenho de Poitier a substância que faz o enredo cruzar momentos distintos e ir da perseguição frenética à crítica social. Jackson, o imigrante racista de Tony Curtis (1925-2010), destila abjeção em piadas autodepreciativas que, claro, também insultam Cullen. Smith e Young ganharam o Oscar de Melhor Roteiro Original por elas e por todo o resto.


Filme: Acorrentados
Diretor: Stanley Kramer
Ano: 1958
Gênero: Crime/Drama
Avaliação: 4.5/5 1 1
Giancarlo Galdino

Depois de sonhos frustrados com uma carreira de correspondente de guerra à Winston Churchill e Ernest Hemingway, Giancarlo Galdino aceitou o limão da vida e por quinze anos trabalhou com o azedume da assessoria de políticos e burocratas em geral. Graduado em jornalismo e com alguns cursos de especialização em cinema na bagagem, desde 1º de junho de 2021, entretanto, consegue valer-se deste espaço para expressar seus conhecimentos sobre filmes, literatura, comportamento e, por que não?, política, tudo mediado por sua grande paixão, a filosofia, a ciência das ciências. Que Deus conserve.

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