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Há um filme mais instigante tentando respirar dentro de “O Cativo”. Ele aparece quando Alejandro Amenábar deixa de lado a obrigação de erguer um drama histórico grandioso e se aproxima daquilo que sua premissa tem de mais fértil: Miguel de Cervantes antes do monumento literário, antes da imagem escolar, antes da consagração. Aqui, ele é um homem ferido, capturado, dependente de um resgate incerto e obrigado a medir palavras, gestos e alianças para continuar vivo. É nesse ponto que o filme encontra sua melhor matéria. Não quando tenta explicar a grandeza futura do autor de “Dom Quixote”, mas quando sugere que a ficção pode nascer como defesa, disfarce e instinto.

A trama começa em 1575, com Cervantes levado como prisioneiro a Argel depois de ser capturado em seu retorno à Espanha. O filme acompanha esse tempo de cativeiro como um espaço de espera e tensão, no qual cada promessa de liberdade convive com a possibilidade da morte. Ferido e sem domínio sobre o próprio destino, Cervantes descobre no relato oral um modo de preservar alguma autoridade sobre si mesmo. Contar histórias, ali, não é uma gentileza de artista nem uma antecipação didática do escritor célebre. É uma forma de negociar presença. Ele fala porque precisa ocupar a sala; inventa porque o mundo imediato lhe oferece pouca margem; transforma a imaginação em recurso num ambiente comandado por hierarquia, medo e suspeita.

Esse é o achado mais consistente de “O Cativo”: perceber que a palavra, em certas circunstâncias, não rompe as grades, mas altera a temperatura do cárcere. Amenábar parece interessado nesse instante anterior ao mito, quando a literatura ainda não virou obra, biblioteca ou patrimônio, mas improviso diante da violência. O filme cresce quando trata a narrativa como gesto concreto, quase corporal. Cada história contada por Cervantes suspende, por alguns minutos, a lógica brutal da prisão. Os homens deixam de ser apenas prisioneiros à espera de dinheiro, punição ou fuga e passam a partilhar uma imagem comum, uma pausa, uma hipótese de vida.

A ficção no cárcere

Julio Peña interpreta Cervantes sem transformá-lo num gênio pronto para ser emoldurado. Essa decisão ajuda muito. Seu personagem tem fragilidade, vaidade, inteligência e um cálculo de sobrevivência que às vezes se confunde com oportunismo. Ele observa o efeito de suas palavras, testa limites, percebe quando deve entreter, comover ou provocar. Há ali um Cervantes ainda em formação, mais vulnerável do que iluminado. O risco, em filmes sobre figuras canônicas, é fazer de cada gesto um anúncio da posteridade, como se todo sofrimento já viesse acompanhado de legenda. “O Cativo” nem sempre escapa dessa armadilha, mas funciona melhor quando permite ao protagonista existir no presente da ação, sem empurrá-lo a todo momento para a vitrine da literatura universal.

A presença de Alessandro Borghi como Hasán Bajá cria outra tensão importante. A relação entre Cervantes e seu captor passa por poder, curiosidade, cálculo e uma atração que o filme prefere deixar em zona ambígua. Esse é um dos aspectos mais delicados da obra. Não se trata de afirmar uma verdade biográfica sobre Cervantes, mas de imaginar uma relação em que fascínio intelectual, ameaça e desejo se contaminam. Quando essa tensão surge em olhares, pausas e negociações silenciosas, ela amplia o campo dramático. Quando o filme se aproxima demais do sublinhado, perde a confiança no que havia construído com mais sutileza.

Visualmente, “O Cativo” assume a dimensão de uma produção de época. Figurinos, maquiagem, cabelo, cenários e direção de arte trabalham para dar peso material ao confinamento. O cárcere não é apenas cenário: é um regime de corpos, distâncias e posições. As roupas, os rostos marcados, a composição dos grupos e a separação entre quem manda e quem espera ajudam a criar um mundo de fricção permanente. O cuidado com a reconstituição é evidente e, em muitos momentos, necessário. Um filme sobre prisão, resgate e autoridade precisa tornar visível a assimetria entre os personagens. O problema é que essa materialidade, por vezes, passa a pesar sobre a encenação. A imagem se encanta com a própria gravidade, e o drama fica mais rígido do que deveria.

O peso da reconstituição

Amenábar sempre se interessou por ideias fortes, e “O Cativo” confirma essa marca. O filme não quer apenas reconstituir um episódio da vida de Cervantes; quer pensar como uma imaginação se forma sob pressão. A estrutura de histórias dentro da história reforça essa ambição. Ela permite que o filme escape da repetição do cárcere e mostre a ficção como energia compartilhada, capaz de produzir coesão entre homens esgotados. Mas o mesmo recurso também revela uma fragilidade. Em alguns momentos, a invenção parece menos uma necessidade dramática do que uma explicação da própria tese do filme. A premissa é tão boa que a obra às vezes se apoia nela sem encontrar uma forma igualmente afiada.

Há ainda uma oscilação de registro que impede “O Cativo” de atingir toda a força que poderia ter. O filme quer ser aventura histórica, drama biográfico, relato de prisão, estudo sobre criação artística e releitura afetiva de um episódio do século 16. Nada disso é, por princípio, incompatível. O problema está na passagem entre esses caminhos. Em certas cenas, a aventura pede mais movimento; em outras, a biografia puxa o filme para a solenidade; em outras, a relação entre Cervantes e Hasán Bajá pede risco psicológico e menos explicação. Amenábar tenta abrigar todas essas frentes, mas nem sempre encontra a mesma precisão para cada uma. A duração reforça essa impressão: há trechos de verdadeiro interesse dramático e outros em que a narrativa parece circular em torno de ideias já bastante claras.

Mesmo com essas irregularidades, seria pobre reduzir “O Cativo” a um drama histórico pesado ou convencional. O filme tem uma intuição valiosa: antes de ser patrimônio cultural, a literatura pode ter sido abrigo, disfarce, arma, mentira útil. Essa perspectiva impede que Cervantes seja tratado apenas como nome ilustre. Ele interessa porque está encurralado, porque negocia, porque manipula, porque teme. A arte, aqui, não surge limpa nem nobre desde o início. Nasce misturada ao instinto de continuar vivo. Essa é uma leitura mais produtiva do que a reverência automática ao autor consagrado.

O que falta ao filme é mais confiança em suas zonas de ambiguidade. Quando “O Cativo” deixa que o cárcere fale por silêncios, por hesitações e por pequenas mudanças de poder, ele se aproxima de algo mais singular. Quando observa a palavra circulando entre homens desesperados, entende melhor seu próprio assunto. Quando trata o desejo como força instável, e não como declaração, encontra um caminho menos previsível. Mas, quando insiste em marcar a importância de tudo, torna-se mais pesado. A ambição não é o problema. O problema é a dificuldade de contê-la.

No balanço, “O Cativo” é um filme irregular, mas digno de atenção. Sua força não está exatamente na reconstrução histórica, embora ela seja parte relevante do projeto. Está na pergunta que atravessa o cativeiro: o que resta a um homem sem liberdade quando ele descobre que ainda pode conduzir uma sala pela imaginação? A resposta de Amenábar não vem inteira. Vem atravessada por excesso, solenidade e escolhas por vezes previsíveis. Ainda assim, há inteligência dramática na forma como o filme associa ficção e sobrevivência. “O Cativo” não liberta Cervantes da lenda; em parte, volta a prendê-lo nela. Mas encontra, nesse retorno ao cárcere, uma ideia forte o bastante para sustentar seus melhores momentos.


Filme: O Cativo
Diretor: Alejandro Amenábar
Ano: 2025
Gênero: Drama/História
Avaliação: 3/5 1 1
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