“Idas e Vindas do Amor” pertence a um tipo muito reconhecível de comédia romântica: aquela que não se organiza em torno de um casal, mas de uma data, uma cidade e um elenco numeroso o suficiente para fazer de cada aparição um pequeno aceno ao público. Garry Marshall filma Los Angeles no Dia dos Namorados como um circuito de afetos em horário de pico, no qual pedidos de casamento, frustrações, encontros, desencontros e pequenas mentiras circulam com pressa. O filme tem fluência, alguns momentos simpáticos e uma superfície agradável. Tem também um problema que aparece cedo e nunca desaparece: há personagens demais para pouco espaço emocional.
A ideia é simples e comercialmente eficiente. Em vez de acompanhar uma história de amor com começo, crise e consequência, o filme monta um painel de relações atravessadas pela pressão de uma data comemorativa. Reed Bennett, vivido por Ashton Kutcher, trabalha em uma floricultura e começa o dia eufórico depois de pedir a namorada em casamento. Ao redor dele, amigos, clientes, colegas, adolescentes, idosos, profissionais da televisão e desconhecidos em trânsito formam uma rede de situações românticas. A estrutura garante movimento constante, mas cobra caro por isso. Quase tudo precisa ser resolvido em traços rápidos, com frases funcionais e viradas que chegam antes de os personagens ganharem alguma espessura.
Amor em vitrine
O principal atrativo de “Idas e Vindas do Amor” está no elenco. Julia Roberts, Anne Hathaway, Jessica Alba, Jessica Biel, Jennifer Garner, Bradley Cooper, Jamie Foxx, Queen Latifah, Patrick Dempsey, Shirley MacLaine, Hector Elizondo e outros nomes conhecidos entram no filme como peças de um mosaico afetivo. A escalação não é apenas um detalhe de mercado; é parte do mecanismo da obra. Marshall conta com o repertório que o público já leva para a sessão. Muitas cenas funcionam menos pelo que constroem ali e mais pelo reconhecimento imediato de rostos, gestos e tipos de carisma.
Esse recurso não deixa de produzir prazer. Anne Hathaway dá vivacidade a uma personagem que poderia se reduzir a uma piada de constrangimento. Jennifer Garner encontra um registro delicado para Julia, equilibrando doçura e vulnerabilidade sem pesar a mão. Ashton Kutcher, no centro mais visível da engrenagem, encarna com naturalidade o sujeito otimista que tenta acreditar no amor como se também vendesse flores para si mesmo. Shirley MacLaine e Hector Elizondo acrescentam uma dimensão de afeto antigo, menos apressado, menos dependente da coreografia social que domina os demais núcleos.
O problema é que o mesmo elenco que seduz também expõe a fragilidade do conjunto. Alguns personagens entram apenas para cumprir uma função no tabuleiro: o cético, a solitária, o apaixonado ingênuo, a mulher dividida, o adolescente ansioso, o profissional que esconde algo, o repórter atrás de uma pauta leve. A variedade sugere amplitude, mas nem sempre produz complexidade. “Idas e Vindas do Amor” quer falar de muitas formas de afeto, porém quase sempre para na ilustração de situações reconhecíveis. O amor aparece como gesto, produto, expectativa, decepção e reconciliação. Raramente aparece como experiência observada com paciência.
A montagem alternada sustenta o ritmo e impede que o filme permaneça por muito tempo em uma trama menos interessante. O salto constante entre núcleos combina com a ideia de uma cidade atravessada por compromissos, telefonemas, entregas, festas e deslocamentos. Ainda assim, essa velocidade limita o alcance dramático das histórias. Quando uma situação começa a ganhar alguma ambiguidade, o filme muda de eixo. Quando um conflito ameaça sair da superfície, uma nova cena reorganiza a atenção. A emoção surge em pequenas doses, mas poucas vezes se acumula.
Sentimento diluído
A direção de Garry Marshall funciona melhor quando aceita a leveza do material. “Idas e Vindas do Amor” não tenta reinventar a comédia romântica nem disfarça sua vocação para o entretenimento confortável. Isso, por si só, não é um defeito. Há filmes convencionais muito precisos, capazes de extrair graça e verdade de fórmulas conhecidas. Aqui, a limitação está na confiança de que a soma de histórias, astros e coincidências bastará para criar envolvimento. Em vários momentos, não basta.
O Dia dos Namorados serve como motor narrativo e como comentário social simples, mas pertinente. A data transforma o amor em obrigação pública. É preciso comprar flores, declarar sentimentos, estar acompanhado, parecer feliz. Quem está sozinho se sente fora de lugar; quem está acompanhado precisa provar que a relação corresponde ao ritual. Essa é a parte mais interessante da premissa. Existe uma tensão produtiva entre o amor como sentimento íntimo e o amor como performance social. O roteiro percebe essa tensão, mas quase nunca a leva longe. Prefere conduzi-la para soluções rápidas, como se toda contradição pudesse caber em um buquê, em uma surpresa ou em uma revelação feita no momento exato.
Visualmente, o filme opera dentro de uma gramática limpa e funcional. A fotografia não busca uma marca autoral forte, e a mise-en-scène privilegia espaços reconhecíveis: floricultura, escola, escritório, restaurante, avião, festa, ruas de Los Angeles. São ambientes de passagem, adequados a personagens que vivem um dia de urgências sentimentais. O desenho de produção reforça a atmosfera de consumo romântico sem transformá-la em comentário mais ácido. Tudo é claro, colorido, organizado para que a circulação das histórias seja acompanhada sem esforço. A forma serve à leveza, mas também confirma a falta de risco.
O roteiro tem bons achados pontuais, sobretudo quando permite que uma cena respire um pouco mais. O humor funciona melhor quando nasce do desconforto social ou da expectativa frustrada, não quando se apoia em tipos fáceis. Já os momentos sentimentais variam bastante. Alguns têm delicadeza; outros parecem apressados, como se o filme precisasse fechar muitas contas emocionais antes dos créditos. Essa pressa enfraquece o impacto das revelações finais e das reconciliações. O espectador entende o desenho, mas nem sempre sente o peso dele.
Há uma diferença importante entre simpatia e permanência. “Idas e Vindas do Amor” é simpático em vários trechos. Não trai sua proposta, não abandona o tom festivo que escolheu, não tenta ser mais severo do que pode. Como sessão descompromissada, oferece rostos conhecidos, situações acessíveis e um ritmo que raramente emperra. Mas a facilidade com que passa também explica a facilidade com que se dissipa. Sua leveza é real; sua superficialidade também.
O mais justo é reconhecer que Marshall organiza um produto comercial com competência parcial, limitado pela própria ambição de agradar a todos. Ao tentar incluir muitas idades, muitos tipos de relação e muitos registros de comédia romântica, “Idas e Vindas do Amor” perde a chance de escolher melhor seus focos. O filme fala sobre amor como quem percorre uma vitrine movimentada: há brilho, variedade e algum encanto imediato, mas pouca coisa permanece tempo suficiente para ser examinada.

