“De Volta à Roma” começa em terreno conhecido: um casal maduro viaja para uma cidade marcada por lembranças, beleza e promessa de reencantamento. A viagem, em tese, serviria para celebrar um aniversário de casamento. Na prática, serve para abrir uma fresta. Roma já foi tantas vezes filmada como cenário de reencontro, desejo e revelação tardia que qualquer novo filme ambientado ali precisa lidar com uma herança pesada de imagens prontas. O longa de Niclas Bendixen nem sempre escapa delas. Há momentos em que parece confiar demais na paisagem, como se a cidade, por si só, desse conta de produzir emoção. Mas o filme melhora bastante quando abandona essa confiança automática e percebe que Roma interessa menos como vitrine do que como desconforto: um lugar onde Gerda não reencontra apenas um antigo amor, mas uma versão de si mesma que o tempo tornou distante.
Gerda e Kristoffer chegam à cidade para comemorar a vida em comum. Para ele, a viagem parece um gesto de afeto, talvez uma tentativa de reafirmar um casamento já incorporado à rotina. Para ela, o retorno ao lugar onde estudou arte no passado desperta algo mais difícil de nomear. O reencontro com Johannes, antigo professor e figura ligada à sua juventude, desorganiza a lógica da viagem. O que parecia ser uma comemoração a dois passa a funcionar como um campo de comparação, constrangimento e desejo. O filme não precisa carregar nas tintas para que a situação incomode. O que pesa é o deslocamento gradual: Kristoffer continua ali, ao lado da esposa, mas começa a ocupar uma posição estranha dentro de uma história que, de algum modo, já existia antes dele.
Roma como espelho
O ponto mais frágil de “De Volta à Roma” está justamente naquilo que primeiro salta aos olhos. A cidade aparece muitas vezes com um simbolismo previsível. Há um modo quase automático de filmar Roma como promessa de vida intensa, como se cada praça, rua ou ruína autorizasse os personagens a desejar mais, sofrer mais, arrepender-se melhor. Bendixen flerta com esse repertório, e algumas passagens soam menos observadas do que organizadas em torno de um imaginário confortável sobre a Itália. Quando a cidade surge apenas como coleção de beleza, gestos expansivos e charme pitoresco, a experiência dos personagens fica menor do que poderia.
Ainda assim, seria um erro reduzir o filme a esse verniz turístico. A melhor leitura de “De Volta à Roma” não está em cobrar uma Roma inédita, mas em perceber como Gerda se projeta sobre ela. A cidade não precisa ser original para funcionar dramaticamente; precisa ser útil ao conflito. Quando o cenário se impõe, o filme perde tensão. Quando a paisagem passa a refletir o desarranjo interno da protagonista, a narrativa ganha outra espessura. Roma deixa de ser uma promessa de juventude recuperada e se torna uma lembrança pouco generosa de que a juventude não volta no mesmo formato. Gerda pode caminhar pelos lugares do passado, mas não pode ocupá-los como antes. Essa fricção é o que há de mais interessante no filme.
Bodil Jørgensen dá à personagem uma mistura bem dosada de vaidade, hesitação e fome de vida. Gerda não é tratada como figura decorativa, nem como personagem madura colocada em cena apenas para provar uma tese edificante sobre o envelhecimento. Ela tem desejo, ressentimento, curiosidade e uma coragem tardia que nem sempre parece admirável. Pode ser injusta com Kristoffer. Pode se deixar conduzir por uma lembrança mais sedutora do que confiável. Pode confundir a intensidade do que viveu com a verdade do que ainda quer. É justamente essa imperfeição que a torna interessante. O filme acerta quando não transforma seu desejo em piada, lição moral ou capricho simpático.
A presença de Johannes funciona menos como promessa romântica do que como gatilho. Ele traz de volta uma Gerda anterior ao casamento, anterior à rotina, anterior à imagem que ela talvez tenha aprendido a desempenhar. O desejo que reaparece não é limpo. Vem acompanhado de culpa, orgulho, constrangimento e fantasia. “De Volta à Roma” se sai melhor quando entende que a nostalgia não é uma forma pura de verdade, mas uma montagem afetiva, quase sempre conveniente. Gerda não busca apenas um homem do passado. Busca a estudante de arte que foi, a mulher que talvez desejasse com menos medo, a possibilidade de ter sido outra sem precisar responder pelo preço dessa outra vida.
O peso do passado
Kristoffer impede que o filme se transforme numa fantasia simples de reencontro amoroso. Sua presença introduz uma questão mais dura: o que acontece quando uma vida construída em comum passa a disputar espaço com uma vida imaginada? O casamento, aqui, não aparece como prisão absoluta nem como abrigo ideal. É hábito, cuidado, irritação, dependência, memória compartilhada. Há afeto, mas também desgaste. Essa ambivalência sustenta o conflito. Kristoffer não é apenas o marido que atrapalha uma aventura sentimental, assim como Johannes não é apenas a encarnação luminosa da juventude perdida. A disputa mais relevante não é entre dois homens. É entre aquilo que Gerda viveu, aquilo que deixou de viver e aquilo que ainda acredita poder reivindicar.
Esse é o ponto em que “De Volta à Roma” se mostra mais adulto do que sua embalagem sugere. O filme poderia escorregar para a ideia confortável de que o passado retorna para corrigir a vida presente. Em alguns momentos, chega perto disso. Mas não se entrega completamente. Há charme na lembrança, claro, mas também há vaidade. Há calor, mas há distorção. O passado, visto de longe, costuma parecer mais nítido do que realmente foi. Bendixen encontra seus melhores momentos quando permite que essa ambiguidade permaneça sem solução imediata. O filme não precisa absolver Gerda nem condená-la. Basta observá-la em sua inquietação.
A direção alterna comédia leve, drama romântico e melancolia conjugal com equilíbrio irregular. Algumas cenas recuam antes que o desconforto produza todo o seu efeito, como se o filme temesse permanecer tempo demais na aspereza da situação. Outras funcionam justamente porque aceitam o mal-estar: a sensação de alguém sobrando numa conversa, a tentativa de preservar a compostura, o embaraço de perceber que o outro está sendo visto de uma forma que já não se controla. A fotografia explora a beleza da cidade, mas a força dramática está nos rostos, nas pausas e nas pequenas mudanças de temperatura entre os personagens. Quando o cenário vira protagonista, o filme se acomoda. Quando observa Gerda e Kristoffer sem pressa, encontra precisão.
“De Volta à Roma” é irregular, mas não descartável. Seus clichês existem e às vezes pesam. A ideia de Roma como lugar onde a vida adormecida desperta novamente é conhecida demais para causar surpresa. A estrutura também segue caminhos familiares do drama romântico tardio. Ainda assim, há algo honesto na maneira como o filme trata o desejo na maturidade. Seus personagens não são símbolos de superação, nem caricaturas sentimentais. São pessoas que ainda querem, ainda se ressentem, ainda fantasiam e ainda machucam. Essa permanência do desejo, com sua beleza e sua inconveniência, impede que o longa seja apenas uma viagem bonita.
O mérito maior de Bendixen está em perceber que um casamento longo não se abala apenas por revelações espetaculares. Ele pode vacilar quando alguém, por alguns dias, volta a se sentir olhado de outro modo. O limite do filme está em nem sempre confiar nessa percepção. Às vezes, prefere o charme fácil da cidade. Mas, quando se concentra em Gerda e no estrago íntimo provocado por sua memória, “De Volta à Roma” encontra uma delicadeza menos óbvia. Não é um grande filme sobre Roma. É um filme mais interessante sobre a impossibilidade de voltar a ser quem se foi ali.

