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“Você, Eu e Ele” tem, de saída, um conflito melhor do que o filme que se constrói a partir dele. A comédia romântica britânica dirigida por Daisy Aitkens observa um casal de mulheres em um momento de desalinhamento: uma delas quer transformar a relação em família, a outra ainda não sabe se deseja esse mesmo futuro. Não é um impasse pequeno. Por trás da aparente leveza, há uma questão bastante concreta sobre maternidade, desejo, idade, compromisso e negociação afetiva. O filme percebe a força desse material, mas raramente confia nele o bastante.

Olivia e Alex vivem em tempos emocionais diferentes. Olivia, mais velha e estabelecida profissionalmente, encara a maternidade como projeto de vida. Alex, mais jovem e artista, parece menos pronta para acomodar a própria existência em uma forma doméstica tão definida. A diferença entre elas não se resume à idade, nem a um contraste fácil entre maturidade e insegurança. O que as separa é mais profundo: uma expectativa desigual sobre o futuro. Quando uma relação chega a esse ponto, o amor pode continuar existindo, mas já não basta para organizar as decisões.

É aí que “Você, Eu e Ele” encontra sua pergunta mais interessante. O que acontece quando o desejo de uma pessoa passa a ocupar espaço demais dentro do casal? A maternidade, no filme, não é apenas um sonho afetuoso. É um teste de convivência, uma disputa silenciosa sobre quem cede, quem espera, quem decide e quem fica para lidar com as consequências. Em seus melhores momentos, a obra entende que uma crise amorosa nem sempre nasce da falta de sentimento. Às vezes, nasce do excesso de projetos incompatíveis.

O problema é que a direção prefere enquadrar esse conflito em uma engrenagem de farsa romântica. A leveza poderia funcionar se viesse acompanhada de observação mais aguda. A comédia, afinal, não precisa pedir licença para tocar em temas difíceis. Mas “Você, Eu e Ele” frequentemente parece querer retirar peso justamente daquilo que dá interesse à história. O filme avança como se o charme das situações e dos atores pudesse resolver as zonas de desconforto que ele próprio cria. Não pode.

Uma crise a três

A entrada de John, o vizinho que desestabiliza a relação de Olivia e Alex, deveria ampliar as contradições do filme. Em parte, isso acontece. Interpretado por David Tennant, ele traz energia, ruído e uma presença capaz de deslocar a dinâmica entre as protagonistas. O problema está menos na atuação do que na função dramática do personagem. John aparece como peça de perturbação, mas o roteiro muitas vezes o usa para organizar soluções convenientes, não para tornar o conflito mais complexo.

A estrutura de triângulo afetivo empurra “Você, Eu e Ele” para um terreno instável. O filme alterna, sem muita firmeza, entre a comédia de constrangimento, o drama conjugal e a tentativa de recomposição emocional. Há momentos em que essa oscilação sugere vida, porque relações em crise de fato não obedecem a um único tom. Em outros, a mudança soa como ajuste de roteiro. O que deveria nascer da tensão entre os personagens passa a parecer uma sequência de mecanismos narrativos acionados para manter a história em movimento.

Mesmo assim, o elenco impede que a fragilidade se torne desinteresse completo. Lucy Punch dá a Olivia uma dureza atravessada por vulnerabilidade. A personagem poderia virar apenas a mulher controladora que deseja organizar o futuro de todos ao redor, mas a atriz evita essa simplificação. Faye Marsay também encontra nuance em Alex, cuja hesitação não deve ser confundida com simples irresponsabilidade. Há nela uma resistência compreensível, uma dificuldade de entrar no projeto de outra pessoa sem perder a própria medida. Tennant, por sua vez, injeta vivacidade em John, ainda que o papel fique mais preso ao barulho da trama do que a uma construção mais elaborada.

É justamente por haver bons atores em cena que algumas insuficiências ficam mais evidentes. Eles sugerem um filme mais interessante do que o roteiro entrega. A relação entre Olivia e Alex poderia ter sido examinada com mais paciência, menos ansiedade por reviravoltas e mais atenção ao desgaste miúdo da convivência. Em vez disso, “Você, Eu e Ele” se apoia em impulsos, enganos e decisões mal calculadas, tratando como motor de comédia aquilo que, em muitos momentos, pede maior consequência dramática.

Leveza em falso

A direção de Daisy Aitkens é funcional, mas pouco incisiva. O filme tem ritmo acessível, visual claro, situações desenhadas para o humor e uma superfície agradável que combina com a tradição da comédia romântica britânica. Nada disso é defeito automático. O incômodo está na distância entre essa superfície e os conflitos em jogo. Quando a história toca em maternidade, consentimento, confiança e rearranjos familiares, a encenação continua confortável demais, como se evitasse atrito por receio de perder simpatia.

A presença de um casal lésbico no centro de uma comédia romântica popular é um ponto relevante do filme. “Você, Eu e Ele” acerta ao tratar Olivia e Alex como protagonistas de uma crise amorosa comum, sem transformá-las em exceção exótica ou em tese ambulante. Esse acerto, porém, não basta. Representação não substitui construção dramática. O filme se enfraquece quando usa sexualidade, gravidez e família como peças de uma fórmula que deseja acomodar tudo rapidamente, sem permanecer tempo suficiente nas zonas mais incômodas da história.

Há uma diferença importante entre acolhimento e acomodação. O primeiro permite que uma comédia seja generosa com seus personagens sem apagar suas contradições. A segunda tenta resolver o conflito antes que ele ganhe a densidade necessária. “Você, Eu e Ele” oscila entre esses dois movimentos. Quando observa Olivia e Alex tentando habitar a mesma relação a partir de expectativas distintas, encontra um núcleo emocional verdadeiro. Quando se apressa em transformar o impasse em arranjo narrativo, perde precisão.

O tratamento da maternidade expõe bem essa contradição. O filme entende que ter um filho, para Olivia, não é capricho passageiro. Também entende que a resistência de Alex não pode ser lida apenas como medo infantil. Mas, ao reunir esses desejos em uma trama de tom tão variável, a obra reduz a força da negociação entre as duas. A pergunta mais dura, sobre os limites do acordo afetivo, fica cercada por soluções de comédia que não dão conta daquilo que foi colocado em cena.

“Você, Eu e Ele” não é um filme descartável. Tem uma premissa fértil, intérpretes capazes e alguns instantes de observação doméstica que sugerem uma comédia mais adulta. O que lhe falta é coragem de sustentar o desconforto sem recorrer tão depressa à conciliação de fórmula. A obra parece querer ser simpática a todo custo, e essa simpatia cobra um preço alto: enfraquece o drama, simplifica os dilemas e tira do triângulo afetivo a ambiguidade que poderia torná-lo menos previsível.

Fica, ao final, uma sensação de oportunidade parcialmente perdida. “Você, Eu e Ele” quer falar de família fora do desenho convencional, mas se prende a soluções bastante convencionais. Quer rir da bagunça do desejo, mas recua quando essa bagunça exige consequências mais duras. Quer ser leve, e poderia ser. Só que leveza, quando bem usada, não serve para esconder o conflito; serve para revelá-lo por outro ângulo. Aqui, ela muitas vezes funciona como amortecedor. O resultado é uma comédia romântica irregular, sustentada pelo elenco e limitada por um roteiro que prefere suavizar justamente aquilo que tinha de mais interessante.


Filme: Você, Eu e Ele
Diretor: Daisy Aitkens
Ano: 2017
Gênero: Comédia/Romance
Avaliação: 2/5 1 1
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