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“Apesar de,” é um documentário que pede cautela. Não por ser frágil, mas porque seu tema abre uma trilha perigosa para respostas prontas: a comoção imediata, a indignação automática, o elogio por antecipação. Diante de um filme centrado na memória de um abuso sexual sofrido na infância, seria fácil tratá-lo apenas como denúncia, peça de conscientização ou relato de sobrevivência. A obra de Beatriz Prates passa por esses territórios, mas cresce quando não se satisfaz com eles. Seu melhor movimento está em compreender que a história de Georgia Bergamin não cabe apenas no que lhe foi feito. Há violência, silêncio e trauma. Mas há também corpo, linguagem, presença e uma tentativa de retomar a própria imagem diante do mundo.

O filme acompanha Georgia, escritora, artista e contorcionista, na elaboração de uma experiência que atravessa a infância e permanece inscrita no corpo adulto. A palavra “acompanha” não é detalhe. “Apesar de,” não se comporta como investigação em busca de revelações, nem tenta organizar a dor em curva dramática. O centro do documentário não é a curiosidade sobre o abuso, mas o modo como uma mulher tenta narrar, performar e compreender aquilo que por muito tempo ficou empurrado para zonas de silêncio. Essa escolha dá ao filme uma base ética importante. Expor uma ferida não basta. É preciso saber de onde olhar, quando se aproximar e quando recuar.

Corpo e Memória

O elemento mais particular de “Apesar de,” está na relação entre trauma e corpo. O contorcionismo de Georgia poderia virar metáfora fácil: o corpo que se dobra, suporta, se adapta, exibe limites quase impossíveis. O risco é grande. Em um filme menos atento, essa imagem funcionaria como atalho visual para explicar a dor. Aqui, nos melhores momentos, o corpo não aparece apenas como ilustração do sofrimento, mas como território em disputa. Ele não só sofreu a violência; ele também se apresenta, treina, cria forma, ocupa a cena e devolve à protagonista algum controle sobre a própria narrativa.

Essa presença física impede que o documentário se acomode no depoimento puro. Georgia não é apenas alguém sentada diante da câmera para contar o que aconteceu. Ela existe em movimento. A contorção, nesse sentido, tem valor cinematográfico quando desloca o filme da lógica verbal para uma dimensão concreta: a memória não está só na fala, mas nos gestos, nas pausas, na maneira como um corpo decide aparecer. O mérito de Beatriz Prates está em permitir que essa presença respire sem transformá-la em ornamento. Ainda assim, a tensão permanece. Quanto mais forte é a imagem do corpo em cena, maior é a responsabilidade de não convertê-la em símbolo fechado demais. “Apesar de,” percebe esse perigo, ainda que, em alguns momentos, chegue perto dele.

O uso de imagens de arquivo, especialmente registros de infância, amplia essa área delicada. Arquivos familiares carregam uma ambiguidade difícil: mostram uma criança antes, durante ou ao redor de acontecimentos que o espectador passa a interpretar a partir da informação do trauma. Uma imagem doméstica nunca é neutra quando vista depois de uma revelação violenta. Pode ganhar peso, tristeza, suspeita. Pode também virar prova emocional fácil. “Apesar de,” encontra força quando o arquivo não é usado para arrancar comoção, mas para expor a distância entre a aparência de normalidade e aquilo que a criança não podia nomear. É nessa diferença que o documentário encontra parte de sua qualidade.

Há, porém, limites na construção. O filme carrega a potência natural de seu testemunho, e essa potência às vezes ameaça resolver tudo sozinha. Quando a história é tão grave, qualquer gesto de encenação parece menor diante dela. É justamente aí que a direção precisa ser observada com rigor. A relevância do tema não dispensa a pergunta sobre montagem, ritmo e elaboração formal. Em alguns momentos, a obra confia mais na urgência do relato do que em uma arquitetura cinematográfica mais trabalhada. Isso não a compromete de modo decisivo, mas impede que seja tratada como realização sem arestas. “Apesar de,” é mais forte pela escuta e pela presença de Georgia do que por uma invenção formal constante.

Além da Denúncia

O melhor do filme está na recusa de reduzir Georgia à condição de vítima. A palavra é necessária em sentido jurídico, social e histórico, mas se torna estreita quando passa a funcionar como identidade única. “Apesar de,” se interessa por uma mulher que pensa sobre o que viveu, trabalha a própria imagem e se coloca diante da câmera sem desaparecer dentro do trauma. Esse é um ponto decisivo. O documentário não suaviza a violência; reconhece sua permanência. Mas tenta impedir que ela seja a única lente possível para olhar sua protagonista.

Também por isso, o filme precisa ser visto para além de sua função social. É evidente que “Apesar de,” participa de debates sobre abuso infantil, silêncio familiar, proteção de crianças e falhas de escuta. Seria absurdo ignorar essa dimensão. Ao mesmo tempo, uma crítica de cinema não pode se contentar em elogiar a pauta. Bons temas não garantem bons filmes. No caso de “Apesar de,” a relevância do assunto encontra sustentação parcial na forma: a articulação entre depoimento, arquivo e performance corporal dá ao documentário um eixo claro e, em seus melhores trechos, uma linguagem própria. O que falta, por vezes, é maior atrito entre esses materiais, uma montagem menos dependente da força imediata do testemunho.

A direção de Beatriz Prates parece apostar mais na confiança do que no controle ostensivo. Essa escolha combina com a natureza do filme. Não se trata de conduzir Georgia a uma conclusão confortável, nem de organizar sua história como arco de superação. Essa palavra, aliás, seria pobre para o que o documentário apresenta. O que existe é sobrevivência em estado menos domesticado, marcada por memória, corpo e elaboração. O filme não precisa prometer cura para ter impacto. Sua honestidade está em reconhecer que certas experiências não se encerram; elas mudam de lugar, de forma, de nome.

A dimensão ética de “Apesar de,” talvez seja seu maior acerto. O filme evita o caminho sensacionalista, não se apoia em detalhes gráficos e entende que o horror de uma violência contra uma criança não precisa ser reforçado pelo excesso. Essa contenção favorece a protagonista e também o espectador. Não suaviza o tema, mas impede que a obra use o sofrimento como espetáculo. Num cenário cultural em que traumas pessoais muitas vezes são convertidos em produto emocional, essa sobriedade tem peso.

Como cinema, “Apesar de,” não está livre de irregularidades. Como gesto de escuta, tem força. A combinação entre corpo, arquivo e palavra nem sempre alcança a mesma intensidade, mas produz uma obra que sabe onde colocar sua atenção. O documentário vale menos por revelar uma história do que por insistir que essa história pertence a alguém que continua criando presença depois dela. É aí que o título encontra seu sentido mais justo: apesar da violência, apesar do silêncio, apesar dos limites da linguagem, há uma mulher em cena. E o filme é melhor quando entende que escutá-la não significa explicá-la por completo.


Filme: Apesar de,
Diretor: Beatriz Prates
Ano: 2024
Gênero: Documentário
Avaliação: 4/5 1 1
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