“Primeiro as Damas” começa dentro da Atlas, uma agência de publicidade comandada por homens que se tratam como donos naturais do espaço. Damien Sachs, interpretado por Sacha Baron Cohen, caminha pelos corredores distribuindo comentários inconvenientes, interrompendo colegas e tratando sua assistente Ruby, vivida por Weruche Opia, como alguém encarregado de resolver seus problemas. Damien acredita que herdará a presidência da empresa quando Fred, personagem de Charles Dance, deixar o cargo. Para ele, a vaga já parece garantida antes mesmo da votação dos acionistas.
A situação muda quando investidores pressionam a Atlas a colocar uma mulher em posição de liderança. O argumento não aparece por consciência social, mas porque a empresa passa vergonha diante do mercado. Damien aceita incluir uma executiva na diretoria apenas para aliviar críticas públicas. Ruby então indica Alex, personagem de Rosamund Pike, profissional respeitada e muito mais preparada do que os homens ao redor dela.
O problema é que Damien não quer uma executiva de verdade ao seu lado. Quer apenas uma presença decorativa para reuniões e relatórios internos. Alex percebe isso rapidamente. Em pouco tempo, ela abandona a empresa depois de ouvir comentários humilhantes vindos do próprio Damien. Ele tenta segui-la até a saída para continuar a discussão e acaba desacordado após bater violentamente contra um poste na rua.
O mundo vira outro
Quando acorda, Damien descobre que sua realidade inteira mudou. Mulheres ocupam os cargos de poder, controlam empresas e ditam o comportamento social. Homens, agora, aparecem pressionados pela aparência física, tratados com condescendência e frequentemente ignorados em reuniões profissionais. O roteiro deixa claro desde cedo que Damien não caiu apenas em outro ambiente de trabalho. Ele passou a viver numa estrutura onde tudo aquilo que considerava normal virou motivo de constrangimento.
A Atlas também mudou completamente. Felicity, personagem de Fiona Shaw que antes trabalhava como recepcionista, tornou-se presidente da empresa. Glenda, interpretada por Kathryn Hunter, saiu da função de faxineira para assumir o controle financeiro do grupo. Alex ocupa o centro das decisões e Damien perde espaço, privilégios e autoridade dentro do escritório onde antes se comportava como estrela principal.
Sharrock transforma situações comuns em cenas constrangedoras. Damien passa a ouvir comentários sobre sua aparência física durante reuniões. Garçons ignoram sua presença em restaurantes. Colegas homens tentam agradar executivas influentes usando roupas caras, simpatia forçada e silêncio obediente. Há uma ironia divertida em observar Cohen, conhecido por personagens espalhafatosos, interpretando alguém completamente perdido diante da perda de status.
Rosamund Pike trabalha Alex com frieza elegante. Ela não levanta a voz para humilhar Damien. Não precisa disso. Basta ocupar espaços que antes eram automaticamente masculinos. Pike transforma reuniões simples em cenas tensas apenas com o jeito calculado de olhar para Damien enquanto ele tenta recuperar algum respeito profissional.
A disputa dentro da Atlas
Mesmo humilhado, Damien continua obcecado pela presidência da Atlas. Ele acredita que ainda merece ocupar aquele cargo, mesmo depois de anos tratando funcionários de maneira arrogante. A insistência do personagem acaba funcionando como motor da narrativa. Damien tenta participar de reuniões estratégicas, busca apoio entre acionistas e insiste em disputar influência com Alex, mas agora enfrenta barreiras que antes ignorava quando atingiam outras pessoas.
O filme cresce justamente nesses momentos corporativos. As melhores cenas acontecem dentro de salas de reunião, elevadores e jantares de negócios. Em determinado momento, Felicity convida Damien para seu apartamento de luxo. Ela aparece usando um roupão enquanto mistura sedução e intimidação profissional na mesma conversa. Damien permanece desconfortável o tempo inteiro porque percebe que perdeu o controle daquela interação desde o primeiro minuto.
Existe também uma sequência particularmente engraçada durante um jantar empresarial. Alex e Felicity comem cortes enormes de carne, bebem drinques caros e discutem contratos milionários enquanto Damien tenta parecer sofisticado pedindo uma salada discreta. A cena funciona porque o personagem, antes acostumado a humilhar colegas em ambientes profissionais, passa a experimentar a sensação de invisibilidade social.
Charles Dance também rende boas participações. Acostumado a interpretar figuras autoritárias, surge aqui carregando cafés e aceitando comentários paternalistas feitos por executivas muito mais jovens. O contraste reforça o desconforto da situação sem transformar o filme numa palestra política.
Ideias antigas em embalagem moderna
Apesar da premissa interessante, “Primeiro as Damas” raramente apresenta discussões novas sobre desigualdade de gênero. Muitas situações lembram produções dos anos 1990 e início dos anos 2000, especialmente comédias que já trabalhavam disputas entre homens e mulheres em ambientes profissionais. A diferença aqui aparece no exagero da inversão social e no ambiente corporativo transformado numa arena permanente de humilhação pública.
Ainda assim, Thea Sharrock mantém ritmo leve durante quase toda a projeção. O filme funciona melhor quando observa pequenas situações de constrangimento cotidiano. Damien tentando recuperar respeito numa reunião importante acaba sendo mais interessante do que as tentativas do roteiro de transformar cada cena numa grande reflexão social.
Sacha Baron Cohen segura boa parte da narrativa porque transforma Damien num sujeito irritante e patético ao mesmo tempo. Ele continua arrogante mesmo quando ninguém mais parece disposto a ouvi-lo. Essa insistência dá energia à história. O espectador percebe rapidamente que Damien não perde apenas influência dentro da Atlas. Ele perde a capacidade de circular pelo próprio ambiente onde antes agia como dono absoluto do espaço.
“Primeiro as Damas” talvez não provoque debates profundos nem apresente respostas sofisticadas sobre desigualdade contemporânea, mas consegue construir uma comédia desconfortável sobre poder, vaidade e humilhação corporativa. E faz isso observando um homem que, pela primeira vez, precisa pedir permissão antes de entrar na sala onde acreditava mandar sozinho.

