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“O Livro de Clarence” nasce de uma inversão simples e produtiva: tirar o épico bíblico do centro da reverência e colocá-lo nas margens da sobrevivência. Em vez de acompanhar Jesus ou seus apóstolos como figuras de devoção direta, o filme de Jeymes Samuel olha para um homem comum, endividado, vaidoso, esperto e sem grandes perspectivas, que tenta se mover em uma Jerusalém atravessada por promessas de salvação e por formas bem materiais de opressão. Clarence, vivido por LaKeith Stanfield, não é santo em formação nem cínico absoluto. É alguém espremido entre dívida, ressentimento, orgulho e desejo de reconhecimento. O interesse do filme está nesse atrito: a fé aparece menos como luz abstrata e mais como força social, moeda simbólica, possibilidade de fraude e, talvez, última saída.

Essa escolha já afasta “O Livro de Clarence” da tradição mais solene do cinema bíblico. Samuel não parece empenhado em reconstruir a Palestina do século 1 como vitrine de fidelidade histórica. Seu filme trabalha em outra chave: a de uma fábula estilizada, às vezes satírica, às vezes melodramática, que aproxima um passado religioso de tensões atuais sem transformar tudo em explicação didática. A pobreza não é enfeite de cenário. A dívida não é apenas gatilho de roteiro. O desejo de ser visto, de escapar da humilhação e de converter algum prestígio em sobrevivência dá ao protagonista uma dimensão reconhecível. Clarence percebe que, num mundo faminto por milagres, até a crença pode ser negociada.

Fé e impostura

O filme é mais forte quando mantém viva essa ambiguidade. Clarence se aproxima do fenômeno messiânico não por iluminação imediata, mas por cálculo, inveja, curiosidade e desespero. Essa combinação impede que o personagem vire caricatura do oportunista engraçado ou do descrente prestes a ser corrigido pela narrativa. LaKeith Stanfield sustenta esse equilíbrio com uma atuação que não força simpatia. Seu Clarence pode ser espirituoso, irritante, patético e vulnerável sem parecer outro personagem a cada mudança de registro. Ele não precisa ser nobre para ser interessante. A pergunta que move o filme não é apenas se ele acredita, mas o que torna alguém disponível à crença: convicção, medo, fracasso, afeto, necessidade de sentido ou falta de alternativa.

Nesse ponto, “O Livro de Clarence” encontra seu terreno mais fértil. A fé não é tratada apenas como doutrina, mas como acontecimento público. Há quem a viva como revelação, quem a explore como espetáculo, quem a tema como ameaça política e quem a observe como chance de ascensão. A presença de Jesus e dos apóstolos funciona como força gravitacional, mas a narrativa se organiza ao redor de quem está fora do círculo sagrado. Isso permite a Samuel tocar numa questão pouco frequente nesse tipo de produção: o que acontece com os anônimos, os pobres, os céticos e os deslocados quando a história oficial começa a ser escrita ao lado deles?

A resposta, porém, nem sempre vem com a mesma firmeza. O filme quer ser comédia, aventura, drama de conversão, sátira religiosa, comentário social e épico revisionista. Em vários momentos, essa mistura dá pulso ao conjunto. Em outros, pesa. Há trechos em que a irreverência sugere uma crítica mais ácida à fabricação de líderes, à exploração da esperança e à teatralidade dos milagres. Depois, a narrativa se aproxima de uma solenidade mais convencional, como se precisasse organizar moralmente aquilo que havia deixado em desordem. A oscilação não arruína o filme, mas reduz sua precisão. A farsa é mais cortante quando não sente necessidade de se justificar.

A ambição do excesso

A direção de Jeymes Samuel tem personalidade, e isso conta muito para a vitalidade do filme. Mesmo quando o roteiro se dispersa, há uma assinatura clara na combinação de música, figurino, desenho de produção e composição visual. A Jerusalém de “O Livro de Clarence” não busca transparência realista; é um espaço reconstruído para o choque entre mito antigo e sensibilidade contemporânea. A escolha pode causar estranhamento, mas faz sentido dentro do projeto. Samuel mexe em imagens cristalizadas do épico bíblico, inclusive no campo da representação. Ver um elenco majoritariamente negro ocupar esse imaginário não é detalhe lateral. É parte do gesto do filme ao perguntar quem costuma receber autorização para habitar narrativas fundadoras.

A música também participa dessa identidade. Não entra apenas como acabamento, mas como uma maneira de afastar a obra do museu. Há uma energia moderna atravessando a encenação, e ela impede que o filme se acomode na reverência de cartão-postal. O problema é que o impulso estilístico, em alguns trechos, parece mais seguro do que a construção dramática. “O Livro de Clarence” tem ideias em abundância, mas nem sempre sabe escolher entre elas. Em vez de aprofundar certos conflitos, prefere empilhar tons. Quando isso acontece, o ritmo vacila e a progressão emocional de Clarence perde um pouco de força.

Ainda assim, seria injusto cobrar do filme a limpeza de uma obra mais comportada. Seus defeitos nascem da mesma fonte de suas virtudes: a ambição. Samuel tenta reabrir um gênero carregado de convenções, aproximando-o da comédia popular, da crítica racial, da parábola moral e da aventura de época. Nem tudo se ajusta. Algumas viradas soam mais enfáticas do que necessárias. A passagem do deboche ao gesto edificante poderia ser menos brusca. Mas há algo raro em um filme que prefere correr o risco do desequilíbrio a repetir a solenidade previsível de tantos épicos religiosos.

A crítica mais dura a “O Livro de Clarence” talvez seja a de que ele nem sempre confia na força de sua própria irreverência. Quando está no terreno da suspeita, da fraude e do desejo humano de participar de algo maior, o filme respira melhor. Quando se aproxima demais de uma mensagem redentora mais organizada, perde parte da aspereza que o tornava singular. Isso não significa que a dimensão espiritual seja um erro. O percurso de Clarence precisa chegar a algum tipo de abalo interno. O problema está menos na redenção em si do que na forma como o filme, às vezes, sublinha aquilo que poderia deixar mais inquieto.

Mesmo com essas reservas, “O Livro de Clarence” permanece mais instigante do que muitos filmes mais bem arrumados. Há nele uma inquietação real sobre crença, poder e pertencimento. Há também uma tentativa de disputar o imaginário bíblico sem tratá-lo como peça intocável. O resultado é irregular, por vezes excessivo, mas dificilmente indiferente. É um filme que tropeça porque tenta atravessar muitos registros ao mesmo tempo. E, quando acerta, encontra uma via própria: transforma a fé em cena pública, a impostura em sintoma social e a redenção em conflito, não em decoração moral.


Filme: O Livro de Clarence
Diretor: Jeymes Samuel
Ano: 2024
Gênero: Comédia/Drama
Avaliação: 3/5 1 1
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