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Em “Lembranças de Hollywood”, Meryl Streep interpreta Suzanne Vale, atriz conhecida em Hollywood tanto pelos filmes quanto pelos problemas com drogas e álcool. Depois de passar um período em uma clínica de reabilitação, ela recebe uma exigência pouco confortável da produtora responsável por seu próximo trabalho. Para continuar empregada, precisará morar com a mãe durante algum tempo. A ideia funciona quase como uma vigilância informal. Se Suzanne quiser continuar sendo contratada, terá de provar estabilidade fora da clínica.

O problema é que sua mãe não representa exatamente segurança doméstica. Doris Mann, personagem de Shirley MacLaine, foi uma estrela importante do entretenimento e continua vivendo cercada por festas, bebidas e comentários atravessados. Doris adora atenção, fala alto, interfere em tudo e trata a filha adulta como alguém incapaz de administrar a própria vida. Suzanne chega à casa carregando malas, remédios e uma paciência já bastante castigada. Poucas horas depois, as duas já transformaram o jantar em discussão.

Mike Nichols monta essa convivência sem exagerar nos conflitos. A tensão aparece em detalhes pequenos. Doris entra no quarto sem avisar, comenta relacionamentos antigos da filha diante de convidados e transforma qualquer conversa banal em espetáculo doméstico. Suzanne tenta permanecer sóbria enquanto lida com uma mãe que bebe sem culpa e age como se ainda estivesse diante de plateias e câmeras. Dentro daquela casa, até o silêncio parece cansativo.

A filha famosa da famosa

Existe um ressentimento antigo entre mãe e filha. Suzanne cresceu ouvindo comparações, acompanhando entrevistas e vivendo à sombra da popularidade de Doris. Mesmo adulta e conhecida em Hollywood, ela ainda ocupa a posição de garota problemática da família. Doris corrige histórias, revive episódios constrangedores e faz comentários que misturam carinho com humilhação pública. Em vários momentos, Suzanne parece menos uma atriz reconhecida e mais uma adolescente presa num almoço de domingo interminável.

O roteiro mostra bem quando Suzanne precisa frequentar compromissos profissionais. Reuniões, telefonemas e entrevistas nunca acontecem de forma tranquila. A mãe interrompe conversas, aparece sem aviso ou transforma encontros sociais em apresentações particulares. Há uma cena especialmente desconfortável durante um jantar, quando Doris bebe além da conta e passa a comentar a vida amorosa da filha diante de convidados ligados ao cinema. Suzanne sorri por educação, mas o constrangimento domina a mesa inteira.

A participação de Dennis Quaid ajuda a mostrar outro lado da personagem principal. Jack Faulkner surge como um namorado carismático e pouco confiável, alguém que aparece oferecendo apoio emocional, desaparece sem explicação e retorna quando a situação parece mais leve. Suzanne se aproxima dele porque está cansada da pressão doméstica, mas o relacionamento também carrega insegurança, excesso e instabilidade. Nem fora da casa da mãe ela encontra sossego.

Hollywood observa tudo

Mike Nichols usa os bastidores da indústria do entretenimento de maneira bastante amarga. O cinema e a televisão do filme funcionam quase como espaços de fiscalização permanente. Suzanne não precisa apenas melhorar da dependência química. Ela também deve convencer produtores, empresários e colegas de que voltou a ser uma aposta segura financeiramente. Sua recuperação passa pela imagem pública. Cada atraso, comentário ou comportamento estranho vira assunto entre executivos e jornalistas.

Essa pressão deixa o filme mais interessante porque Suzanne vive cercada por pessoas que parecem preocupadas com ela, mas quase sempre estão pensando em contratos, gravações e dinheiro. A clínica tenta estabilizar sua saúde. O estúdio tenta preservar investimentos. A imprensa acompanha cada recaída com curiosidade quase esportiva. Doris, por outro lado, continua vivendo entre drinques e lembranças da época em que dominava programas de televisão e tapetes vermelhos.

O mais curioso é que Doris também demonstra fragilidade em vários momentos. Shirley MacLaine interpreta a personagem com uma mistura eficiente de arrogância e solidão. Doris gosta de chamar atenção, mas existe tristeza naquela mulher que ainda tenta agir como estrela principal mesmo quando a festa já terminou há bastante tempo. Suzanne percebe isso aos poucos. A convivência continua desgastante, porém deixa de parecer apenas uma guerra doméstica.

Duas mulheres presas ao passado

“Lembranças de Hollywood” não transforma Suzanne numa vítima perfeita nem Doris numa vilã absoluta. As duas erram bastante. Suzanne destruiu parte da própria carreira com vícios e comportamentos autodestrutivos. Doris passou anos ocupando espaço demais na vida da filha. Quando dividem a mesma casa novamente, velhos ressentimentos reaparecem junto de lembranças, mágoas e dependências emocionais nunca resolvidas.

Muitas conversas parecem ataques elegantes disfarçados de carinho familiar. Doris elogia Suzanne e segundos depois diminui suas escolhas pessoais. Suzanne responde com ironias secas e expressões de cansaço que Meryl Streep domina muito bem. Há momentos engraçados, especialmente pela sinceridade absurda de Doris, mas quase sempre existe desconforto junto das risadas.

Mike Nichols também manda bem ao não transformar a recuperação da protagonista em lição edificante. Suzanne melhora aos poucos, tropeça emocionalmente, perde controle em algumas situações e continua tentando preservar trabalho, relacionamentos e dignidade pública. O filme acompanha essa rotina sem pressa e sem transformar sofrimento em espetáculo sentimental.

Quando “Lembranças de Hollywood” se aproxima do encerramento, mãe e filha continuam carregando problemas antigos, mas passam a enxergar uma à outra com menos crueldade. Doris segue ocupando a casa inteira com seu jeito barulhento. Suzanne continua tentando sobreviver num ambiente onde todo erro vira fofoca de estúdio. Ainda assim, as duas conseguem permanecer sentadas à mesma mesa sem transformar cada refeição numa batalha familiar. Em Hollywood, isso já parece um pequeno milagre.


Filme: Lembranças de Hollywood
Diretor: Mike Nichols
Ano: 1990
Gênero: Comédia/Drama
Avaliação: 3.5/5 1 1
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