Há um ponto na alma de todo homem que ninguém consegue alcançar. Lá estão seus medos, suas neuroses mais irracionais, suas opiniões mais impublicáveis, embalados numa bruma claustrofóbica na qual vaidades e outros pecados, miúdos e grandes, nunca vêm à tona. Monstros podem ser muito mais didáticos que séculos de filosofia, mas o que não se entende, pelo menos não com a necessária riqueza de minúcias, é de que forma podemos resistir aos inimigos que nós mesmos alimentamos, cada vez mais ousados e ferozes. A fantasia com criaturas sobrenaturais que deixam seus túmulos quando ninguém vê e zanzam pelas cidades como se ainda estivessem neste plano é um componente da literatura fantástica desde pelo menos a Idade Média, quando difundiram-se os relatos sobre bruxas, vampiros e lobisomens, estes últimos os elementos-chave de “O Lobo de Snow Hollow”. Em tom de sátira, Jim Cummings fala da paranoia que toma conta de uma cidadezinha de Utah, no oeste dos Estados Unidos, quando um hipotético monstro investe contra a população, mulheres sobretudo. Diretor, roteirista e ator principal, Cummings vai desdobrando as muitas camadas de um enredo que aponta numa direção, mas sabe contornar o previsível, algo bem próprio ao terror.
Sob a pele do lobo
O século 21 nasceu sob o signo da promessa. Avanços tecnológicos, globalização, inteligência artificial, integração entre os povos e as culturas e aperfeiçoamento da medicina pressagiavam um tempo de profundas transformações, que brindariam a humanidade com um dia a dia mais prático, relações internacionais serenas, vidas mais longevas e muito mais saudáveis. Entretanto, as duas primeiras décadas deste insano século trataram de colocar abaixo as ilusões, e esfregar-nos na cara que continuamos a nos lançar no abismo da intolerância, do ódio, da desigualdade social, talvez esperando a invasão dos bárbaros. Aos poucos, Snow Hollow vai se tornando uma cidade-fantasma depois de uma sequência de mortes brutais, incluindo degolas e a extirpação de órgãos sexuais. Atento, mas à beira de um colapso nervoso, John Marshall investiga os crimes, deixando-se guiar pela intuição que o aconselha a desprezar a possibilidade de mistérios do outro mundo e ir atrás de um assassino insuspeito, mas bem real, argumento que vira o eixo do longa. Cummings faz de Marshall um anti-herói plural e que junta subtramas e personagens confusos, até chegar ao desfecho, orgânico e arrebatador. Sem grandes pirotecnias ou truques manjados.

