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“Em Seu Lugar” parte de um desenho conhecido: duas irmãs feitas para se chocar, uma convivência cheia de afeto e irritação, uma crise que obriga cada uma a encarar o lugar que ocupa na vida da outra. A premissa poderia render apenas uma comédia dramática de opostos, com conflitos previsíveis e reconciliações programadas. Em parte, é isso mesmo que o filme entrega. Mas Curtis Hanson encontra um caminho mais interessante quando permite que as personagens existam para além da função que a trama lhes atribui. O longa não escapa da fórmula; às vezes, até se acomoda nela. Ainda assim, há nele uma atenção pouco cínica às feridas familiares, ao desconforto com o próprio corpo e à maturidade que chega tarde, quando já se feriu muita gente pelo caminho.

Maggie Feller, vivida por Cameron Diaz, é a irmã impulsiva, instável, sedutora, incapaz de permanecer por muito tempo em um emprego, em uma casa ou em uma versão mais responsável de si mesma. Rose Feller, interpretada por Toni Collette, parece o avesso disso: advogada bem-sucedida, disciplinada, solitária, presa a uma rotina que lhe dá status, mas não exatamente segurança. O contraste é frontal, quase esquemático. Maggie circula como se pudesse improvisar a vida inteira; Rose se fecha como se o controle bastasse para protegê-la. O roteiro de Susannah Grant, adaptado do romance de Jennifer Weiner, nem sempre suaviza essa oposição. O que salva o filme é a percepção de que os rótulos não dão conta das duas.

A relação entre Maggie e Rose funciona porque não depende apenas da diferença de temperamento. As duas se conhecem bem demais. Sabem como cuidar uma da outra, mas também sabem como atacar. Maggie precisa da estabilidade de Rose e, ao mesmo tempo, a trata como sinal de uma vida sem risco. Rose protege Maggie, mas sua proteção vem misturada a julgamento, cansaço e vergonha. O filme é mais vivo quando não tenta escolher uma culpada. Há egoísmo nas duas. Há afeto nas duas. Há, sobretudo, uma intimidade antiga, dessas que tornam cada gesto de descuido mais grave porque vem de alguém que deveria saber melhor.

Irmãs em atrito

Toni Collette dá a Rose uma densidade que impede a personagem de virar apenas a mulher competente e infeliz. Seu desconforto com roupas, desejo e aparência não surge como piada lateral, mas como parte de uma relação difícil com o mundo. Rose ocupa espaços profissionais importantes, sabe se impor, domina códigos sociais, mas parece sempre negociar com uma sensação íntima de inadequação. Collette trabalha essa contradição sem sublinhar demais. Sua Rose pode ser áspera, generosa, ressentida, lúcida e frágil em uma mesma sequência, como acontece com pessoas que aprenderam a sobreviver sem necessariamente se tratar com delicadeza.

Cameron Diaz tem um desafio diferente. Maggie é a personagem que mais corre o risco de virar mecanismo: entra para bagunçar, seduzir, errar, provocar reação. O filme nem sempre escapa dessa armadilha, mas Diaz encontra um modo de deixar a irresponsabilidade menos plana. Maggie irrita, e deve irritar. Sua beleza não a redime, seu charme não apaga o estrago que provoca. Mas há nela uma dificuldade real de se organizar, de se ler, de admitir que a vida adulta não pode ser sempre adiada. Quando “Em Seu Lugar” deixa de usá-la apenas como motor do conflito, a personagem cresce. Não porque se torne exemplar, mas porque passa a parecer menos protegida pela própria pose.

A entrada de Ella Hirsch, a avó interpretada por Shirley MacLaine, muda a temperatura do filme. A narrativa deixa de se concentrar apenas no choque entre as irmãs e abre espaço para uma história familiar mais longa, marcada por ausências, versões incompletas e ressentimentos guardados. MacLaine não transforma Ella em simples instrumento de cura. Sua presença é firme, às vezes seca, e traz ao filme um ritmo menos ansioso. Com ela, “Em Seu Lugar” olha para a velhice, para a convivência em comunidade e para a possibilidade de que uma família também seja formada por lacunas, silêncios e tentativas tardias de aproximação.

Esse deslocamento ajuda a dar sentido ao título original, “In Her Shoes”. A metáfora dos sapatos é evidente, talvez evidente demais: calçar o lugar do outro, descobrir limites alheios, perceber que aparência e identidade não coincidem tão facilmente. O filme não chega a fazer disso um símbolo discreto, mas o motivo funciona porque está ligado à vida concreta das personagens. Sapatos, roupas, corpos e olhares compõem um pequeno repertório de inadequações. Rose não se sente confortável na própria imagem. Maggie usa a aparência como defesa e moeda. Ella observa esse jogo a partir de outra idade, com a experiência de quem sabe que certas feridas mudam de forma, mas não desaparecem por decreto.

Afeto em reparo

A direção de Curtis Hanson é discreta, às vezes até convencional. Ele não tenta enobrecer artificialmente o material nem disfarçar que está trabalhando dentro de um melodrama familiar acessível. Essa contenção ajuda as atrizes. A câmera parece mais interessada em acompanhá-las do que em produzir grandes demonstrações de estilo. Por outro lado, essa mesma sobriedade deixa expostas algumas engrenagens do roteiro. “Em Seu Lugar” é longo, e a duração pesa em trechos nos quais a reconciliação começa a ser preparada antes que o conflito tenha terminado de arder. O filme tem bons momentos de observação, mas também passagens em que explica demais o que já estava claro.

O maior limite está na tendência a arrumar emocionalmente aquilo que parecia mais áspero. O longa toca em inseguranças profundas, mágoas familiares e gestos difíceis de perdoar, mas nem sempre permite que esses elementos mantenham sua força incômoda. Em certas viradas, a harmonia chega com uma limpeza que reduz a complexidade construída antes. Não é uma falha fatal, mas impede que o filme seja mais contundente. “Em Seu Lugar” convence mais quando acompanha as personagens tentando se suportar do que quando sugere que a compreensão basta para reorganizar tudo.

Mesmo com essas concessões, há algo de honesto na maneira como o filme trata um tipo de história frequentemente diminuído como entretenimento menor. Hanson e Grant não reinventam a comédia dramática familiar, mas também não parecem tratá-la com desprezo. O interesse está em levar a sério figuras que poderiam ser simples clichês: a irmã bonita e perdida, a profissional rígida e insegura, a avó que reaparece como elo com uma história mal contada. O resultado é irregular, por vezes sentimental, mas raramente indiferente. Há um cuidado real em mostrar como as pessoas podem amar mal, proteger mal, pedir desculpas tarde e ainda assim tentar algum tipo de reparo.

“Em Seu Lugar” permanece melhor nas fraturas do que nos remendos. Quando observa Maggie e Rose sem pressa de absolvê-las, encontra sua parte mais adulta. Quando se apressa em converter dor em aprendizado, perde parte da ambiguidade que havia conquistado. Ainda assim, sustentado por Toni Collette, Cameron Diaz e Shirley MacLaine, o filme conserva uma humanidade que resiste ao rótulo fácil. É convencional, sim. Também é mais atento do que parece. E é justamente nesse intervalo, entre a fórmula visível e a emoção que escapa dela, que o longa encontra algum peso.


Filme: Em Seu Lugar
Diretor: Curtis Hanson
Ano: 2005
Gênero: Comédia/Drama
Avaliação: 3/5 1 1
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