Discover

“Tirar o atraso” de um adolescente rico antes da faculdade parece uma ideia absurda desde o primeiro minuto de “Que Horas Eu Te Pego?”, comédia romântica lançada em 2023 e dirigida por Gene Stupnitsky. Ainda assim, o filme encontra uma maneira curiosa de transformar essa ideia constrangedora em uma história surpreendentemente humana sobre fracasso, amadurecimento e solidão. O roteiro dialoga com as pessoas, porque deixa o exagero acontecer sem tentar suavizar tudo o tempo inteiro. E porque Jennifer Lawrence parece completamente disposta a passar vergonha em cena.

Maddie Barker, personagem de Jennifer Lawrence, vive em Montauk, região litorânea de Nova York onde turistas ricos ocupam mansões enormes durante o verão enquanto moradores antigos tentam sobreviver ao aumento dos custos da cidade. Maddie trabalha dirigindo para aplicativos, sai com homens errados e acumula problemas financeiros suficientes para perder a casa onde cresceu. O carro dela é apreendido depois de uma dívida de impostos, o que piora ainda mais a situação porque dirigir era sua principal fonte de renda.

Bico humilhante

É nesse momento que ela encontra um anúncio estranho publicado por um casal desesperado. Allison e Laird Becker, interpretados por Laura Benanti e Matthew Broderick, procuram uma mulher que aceite “namorar” o filho Percy durante o verão. O rapaz tem 19 anos, vai entrar em Princeton em poucos meses e praticamente não possui experiência social. Os pais acreditam que ele vive protegido demais dentro daquela rotina confortável e querem que alguém o faça sair do casulo antes da faculdade.

O pagamento chama atenção imediatamente. Eles oferecem um Buick velho para Maddie. Para ela, aquele carro significa sobrevivência. Significa voltar a trabalhar. Significa ganhar algum tempo antes de perder a casa. Jennifer Lawrence vive essa urgência financeira de um jeito muito realista. Maddie não é vítima delicada. Ela mente, improvisa desculpas ruins, exagera atitudes e frequentemente toma decisões péssimas. Ainda assim, existe sinceridade naquela bagunça emocional.

Totalmente despreparado

Quando Maddie conhece Percy, interpretado por Andrew Barth Feldman, o filme ganha outra energia. Percy não é apenas tímido. Ele age como alguém completamente despreparado para qualquer interação fora do ambiente controlado pelos pais. A primeira tentativa de sedução vira um desastre absoluto. Maddie o aborda num restaurante e Percy acredita que está sendo sequestrado. A situação chama atenção da polícia e cria uma sequência de constrangimento público que já define o tipo de humor que o filme pretende explorar.

Gene Stupnitsky aposta em cenas longas de desconforto social. E dá certo porque Andrew Barth Feldman interpreta Percy sem transformar o personagem numa caricatura irritante. O rapaz parece genuinamente assustado diante de qualquer aproximação física ou emocional. Enquanto Maddie fala demais, invade espaços e tenta acelerar as situações, Percy reage como alguém tentando sobreviver a um ambiente hostil.

Conexão

A famosa sequência da praia resume bem o espírito do longa. Maddie decide levar Percy para nadar à noite. O encontro parece finalmente funcionar até um grupo de adolescentes roubar as roupas deles. Jennifer Lawrence entra numa briga completamente sem roupa para recuperar os pertences enquanto Percy observa tudo em choque absoluto. A cena poderia virar apenas humor apelativo, mas existe um detalhe importante ali. Maddie passa o filme inteiro tentando parecer segura e dominante, mas frequentemente perde o controle das próprias escolhas diante dos outros.

A relação dos dois melhora aos poucos quando o filme desacelera um pouco a sucessão de piadas físicas. Maddie percebe que Percy gosta de tocar piano, odeia festas universitárias e mal consegue conversar olhando nos olhos das pessoas. Percy, por outro lado, começa a enxergar Maddie além daquela fachada agressiva e caótica. Ele percebe a dificuldade financeira dela, a relação complicada com a cidade e a sensação de fracasso que aparece escondida em várias conversas.

O roteiro não transforma Percy num “projeto de transformação”. Allison e Laird tratam o filho quase como um currículo ambulante. Eles acompanham horários, controlam decisões e observam cada avanço social dele como pais desesperados tentando preparar um herdeiro para o mercado. Maddie entra naquele acordo pensando apenas no carro, mas acaba funcionando como a primeira pessoa que fala com Percy sem tratá-lo como criança ou investimento acadêmico.

Comentário social

Existe também um comentário interessante sobre desigualdade social espalhado pelo filme. Montauk aparece dividida entre moradores antigos e milionários que transformaram a cidade em destino turístico de luxo. Maddie pertence ao primeiro grupo. Ela vive cercada de contas atrasadas enquanto serve pessoas muito mais ricas do que ela. Percy cresce protegido justamente por esse dinheiro que deveria facilitar sua vida, mas acaba isolando o garoto do resto do mundo.

Jennifer Lawrence segura praticamente todas as cenas importantes. A atriz trabalha muito bem o humor físico, mas também entrega bem momentos menores. Maddie pode ser impulsiva, inconveniente e até cruel em alguns momentos, porém Lawrence impede que a personagem vire apenas uma coleção de exageros barulhentos. Existe tristeza naquela mulher tentando salvar a própria casa enquanto finge ter tudo sob controle.

“Que Horas Eu Te Pego?” poderia facilmente cair na armadilha da comédia vulgar construída apenas em torno de humilhações sexuais. O filme chega perto disso em alguns momentos, principalmente quando exagera certas situações para arrancar risadas mais fáceis. Mesmo assim, a produção mantém certa honestidade emocional entre Percy e Maddie. Os dois passam boa parte da história tentando representar versões mais confiantes de si mesmos. E os dois falham bastante nesse processo.

Quando Percy começa a agir com mais autonomia e Maddie percebe que talvez tenha ultrapassado alguns limites emocionais naquele acordo estranho, o filme ganha peso suficiente para sustentar os momentos finais sem abandonar o tom leve. Gene Stupnitsky não tenta transformar tudo numa grande lição sentimental. Ele apenas acompanha duas pessoas bastante perdidas durante um verão desconfortável, engraçado e emocionalmente confuso. Para uma comédia que começa com um anúncio absurdo envolvendo um Buick usado e um adolescente introvertido, já é um resultado melhor do que muita gente esperava.


Filme: Que Horas Eu Te Pego?
Diretor: Gene Stupnitsky
Ano: 2023
Gênero: Comédia/Romance
Avaliação: 3.5/5 1 1
Fernando Machado

Fernando Machado é jornalista e cinéfilo, com atuação voltada para conteúdo otimizado, Google Discover, SEO técnico e performance editorial. Na Cantuária Sites, integra a frente de projetos que cruzam linguagem de alta qualidade com alcance orgânico real.

Leia Também