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Não que seja uma regra, mas quando a arte consegue transcender a beleza e trazer algo com que o público se identifique de verdade, passa-se a uma outra dimensão, um lugar onde a estética está sempre a serviço da mudança. Beleza, introspecção e verdade sobram a “Pequena Mamãe”, por meio do qual Céline Sciamma divide com o espectador um pouco de seus vislumbres sobre dor, solidão, morte e amadurecimento, e, o principal, em como tudo isso vai se estreitando e com que propósito. Sciamma encontra no realismo mágico a inspiração para compor uma fábula que observa o relacionamento de uma mãe e sua filha muito antes de seu início concreto, encadeando passado e presente em imagens que contornam o artificialismo e sugerem que essa viagem contracronológica pode se dar com qualquer um — desde que a razão também encerre tamanha nobreza.

A morte é sonho 

Sciamma parece ter se guiado por monumentos da literatura universal como “Odisseia”, do poeta épico grego Homero (928 a.C-898 a.C), e “Alice no País das Maravilhas”, do escritor britânico Lewis Carroll (1832-1898), mas soube como poucos imprimir sua própria assinatura e apresentar uma história para denominar como de sua lavra. Os pequenos supõem que o mundo gira em torno do seu próprio umbigo, e nesse ponto Nelly tem alguma semelhança com a personagem de Carroll, embora talvez dotada de mais personalidade. O universo da criança é pleno de magia, de sonho, mas também dos atritos com a cruel realidade, não de todo danosos. As aventuras de Nelly em sua jornada de mil autodescobertas nunca deixam de ser uma celebração do amor entre mãe e filha — e o gênero aqui deve ser levado em conta. Traumático e definitivo, o rompimento da morte é poderoso o bastante para transportar a menina para o tempo em que sua mãe, Marion, tinha a mesma idade que ela, e só então Nelly consegue alguma pista para entender o motivo da perda, começando por uma doença misteriosa que força a mãe de Marion, sua avó, a usar bengala. Na pele de Nelly, Joséphine Sanz vai muito além de qualquer expectativa, e o mesmo se diga de Gabrielle, sua irmã gêmea, como Marion. Essa volta para casa, de alguém que procura lugar num mundo desde sempre hostil, é penosa, mas urgente em “Pequena Mamãe”. O onirismo de Sciamma é composto de muita poesia, mas também de muita lucidez.


Filme: Pequena Mamãe
Diretor: Céline Sciamma
Ano: 2021
Gênero: Coming-of-age/Drama/Fantasia
Avaliação: 4/5 1 1
Giancarlo Galdino

Depois de sonhos frustrados com uma carreira de correspondente de guerra à Winston Churchill e Ernest Hemingway, Giancarlo Galdino aceitou o limão da vida e por quinze anos trabalhou com o azedume da assessoria de políticos e burocratas em geral. Graduado em jornalismo e com alguns cursos de especialização em cinema na bagagem, desde 1º de junho de 2021, entretanto, consegue valer-se deste espaço para expressar seus conhecimentos sobre filmes, literatura, comportamento e, por que não?, política, tudo mediado por sua grande paixão, a filosofia, a ciência das ciências. Que Deus conserve.

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