“Não se Preocupe Querida” começa vendendo um sonho doméstico que parece ter saído de uma propaganda antiga de televisão. Alice Chambers (Florence Pugh) acorda em uma casa impecável no meio do deserto da Califórnia, prepara o café da manhã para Jack Chambers (Harry Styles) e participa de encontros sociais organizados para as esposas da comunidade de Victory. Enquanto elas cozinham, fazem compras e frequentam festas luxuosas, os homens deixam o bairro todos os dias para trabalhar em um projeto ultrassecreto. Nenhuma mulher pode perguntar o que existe naquele lugar. Nenhuma delas pode atravessar os limites da cidade.
A diretora Olivia Wilde transforma essa rotina aparentemente confortável em um suspense psicológico cada vez mais sufocante. O curioso é que o filme não acelera logo de início. Ele prefere acompanhar pequenos gestos estranhos. Uma vizinha falando algo fora do tom. Um marido interrompendo um assunto de maneira brusca. Uma música que toca vezes demais. Alice percebe essas rachaduras antes de qualquer outra pessoa e Florence Pugh faz isso com enorme precisão. Basta uma mudança no olhar da atriz para a cena ganhar tensão.
Todos parecem enfeitiçados
Jack, por outro lado, vive encantado com a vida em Victory. Harry Styles interpreta o personagem com uma mistura de entusiasmo juvenil e insegurança escondida. Ele ama Alice, demonstra carinho genuíno e tenta manter o casamento funcionando, mas também aceita sem dificuldade as regras impostas pela comunidade. Existe algo quase infantil na maneira como Jack trata aquele lugar. Ele age como alguém que recebeu um prêmio grande demais e tem medo de perdê-lo.
As mulheres da vizinhança também ajudam a criar o desconforto. Bunny (Olivia Wilde), melhor amiga de Alice, passa boa parte do tempo incentivando festas, bebidas e encontros coletivos. Shelley (Gemma Chan), esposa de Frank, mantém uma postura elegante e silenciosa, quase decorativa. Margaret (KiKi Layne), porém, rompe esse equilíbrio quando começa a afirmar que existe algo errado em Victory. Ela diz ter visto coisas perturbadoras perto da sede do projeto secreto e passa a ser tratada pelos moradores como uma mulher emocionalmente instável. A partir daí, Alice deixa de enxergar Margaret como alguém exagerado e começa a observar o bairro de outra maneira.
Paranoia crescente
O filme acompanha essa sensação crescente de paranoia. Alice vê acidentes estranhos. Escuta sons dentro de casa. Observa comportamentos mecânicos nas outras mulheres. Em uma das sequências mais eficientes, ela decide dirigir sozinha até a região proibida no meio do deserto. Olivia Wilde filma a estrada vazia com uma calma desconfortável. Não há perseguições grandiosas nem truques exagerados. O medo nasce da ausência de respostas. Quanto mais Alice tenta descobrir o que existe naquele lugar, mais isolada ela fica dentro da própria comunidade.
Chris Pine aparece pouco durante boa parte do filme, mas domina todas as cenas em que surge. Frank é apresentado como o fundador de Victory e funciona quase como um líder espiritual daquele universo artificial. Ele organiza jantares luxuosos, promove discursos motivacionais e trata os homens da comunidade como discípulos orgulhosos de um clube exclusivo. Pine interpreta o personagem com um sorriso educado que nunca transmite segurança verdadeira. Sempre existe alguma ameaça escondida na maneira como Frank conversa com Alice.
Controle masculino
O roteiro tenta discutir controle masculino, fantasia doméstica e o desejo de transformar mulheres em figuras obedientes dentro de uma realidade idealizada. Em alguns momentos, Olivia Wilde acerta bastante ao aproximar essas questões da vida cotidiana do casal principal. Jack quer preservar a rotina confortável que conquistou. Alice quer recuperar autonomia sobre a própria vida. O casamento dos dois passa a funcionar quase como uma investigação silenciosa dentro da casa. Cada conversa durante o jantar parece esconder alguma informação importante.
Ao mesmo tempo, “Não se Preocupe Querida” sofre com certa irregularidade narrativa. Existem sequências muito fortes e outras que parecem esticadas além do necessário. Algumas revelações chegam antes da hora e diminuem parte do mistério construído no início. Ainda assim, Florence Pugh mantém o filme de pé durante praticamente toda a duração. A atriz transforma Alice em uma personagem fácil de acompanhar porque suas reações nunca parecem artificiais. Ela demonstra medo, raiva e desorientação sem perder humanidade. Mesmo quando o roteiro exagera em certas ideias, Pugh continua fazendo o espectador acreditar naquela mulher presa em um ambiente que lentamente perde o sentido.
A direção de Olivia Wilde também acerta bastante na criação estética de Victory. As casas impecáveis, os carros antigos, os vestidos coloridos e as festas elegantes ajudam a construir um cenário bonito demais para ser verdadeiro. Existe uma ironia interessante nisso tudo. Os homens trabalham em um projeto misterioso que supostamente garante progresso e estabilidade, mas as mulheres vivem confinadas em tarefas domésticas repetitivas. Enquanto eles dirigem até instalações secretas cercadas por montanhas, elas seguem organizando jantares e escolhendo vestidos para festas intermináveis.
Suspense até o final
O suspense cresce porque Alice passa a desconfiar até das pessoas mais próximas. Médicos, vizinhos e amigos tentam convencê-la de que seus questionamentos são sinais de desequilíbrio emocional. A personagem perde espaço dentro da própria casa e começa a viver sob observação constante. Florence Pugh transmite muito bem essa sensação de sufocamento. Em vários momentos, Alice parece a única pessoa lúcida em uma cidade inteira determinada a fingir que nada está acontecendo.
“Não se Preocupe Querida” talvez não consiga resolver todos os temas que apresenta, mas continua interessante porque mantém o foco nas relações humanas dentro daquele ambiente artificial. Olivia Wilde cria um thriller elegante, desconfortável e frequentemente perturbador, apoiado principalmente pela atuação intensa de Florence Pugh. O filme fala sobre controle, desejo e insegurança masculina sem abandonar o suspense que sustenta a investigação de Alice. E quando ela finalmente decide atravessar outra vez a estrada proibida do deserto, Victory já deixou de parecer um paraíso organizado e passou a lembrar uma prisão cuidadosamente decorada.

