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“Chicago”, dirigido por Rob Marshall, mostra duas mulheres acusadas de assassinato que transformam julgamentos criminais em apresentações públicas enquanto disputam espaço nos jornais, atenção da imprensa e prestígio dentro do próprio sistema judicial. Roxie Hart (Renée Zellweger) vive frustrada com a rotina ao lado do marido Amos Hart (John C. Reilly). Ela sonha em cantar nos palcos da cidade e acredita na promessa de Fred Casely (Dominic West), um homem que afirma possuir contatos capazes de ajudá-la a entrar no mundo artístico. A fantasia dura pouco. Quando Roxie percebe que foi enganada e que Fred nunca teve influência alguma, a discussão termina em assassinato. O problema aparece segundos depois. Sem dinheiro e sem proteção, ela percebe que a prisão pode acaba com qualquer chance de fama.

Na penitenciária feminina de Chicago, Roxie conhece um ambiente onde assassinato e celebridade caminham praticamente lado a lado. A grande estrela daquele lugar é Velma Kelly (Catherine Zeta-Jones), cantora famosa que matou o marido e a irmã depois de descobrir um caso entre os dois. Velma já domina jornalistas, fotógrafos e admiradores. Mesmo presa, continua recebendo atenção que muitas artistas fora da cadeia gostariam de possuir. Roxie observa aquilo surpresa. Em vez de vergonha pública, Velma ganhou entrevistas, capas de jornal e fãs.

Mama Morton (Queen Latifah), responsável por administrar a prisão, também percebe rápido o potencial da recém-chegada. Ela controla as visitas, os favores e contatos internos com habilidade de empresária veterana. Nada circula naquele lugar sem algum tipo de pagamento ou benefício. Roxie aprende cedo que simpatia, lágrimas e manchetes podem valer mais do que inocência.

Billy Flynn assume o caso

Quando Billy Flynn (Richard Gere) aceita defender Roxie, as coisas mudam de rumo. Famoso por transformar acusadas em celebridades populares, ele administra entrevistas e aparições públicas quase como um produtor de teatro. Billy não vende apenas defesa jurídica. Ele vende espetáculo. Cada fala para os jornalistas parece ensaiada diante de um espelho iluminado.

Richard Gere interpreta Billy com ironia elegante e um sorriso permanente de homem acostumado a manipular plateias. Enquanto a polícia tenta organizar o caso, ele cria novas versões da história para despertar pena no público. Roxie passa de mulher violenta para vítima emocional de um relacionamento abusivo. A imprensa compra a narrativa porque ela rende manchetes melhores.

A transformação da personagem também muda a dinâmica dentro da prisão. Velma percebe que perdeu espaço nos jornais para uma novata sem experiência artística. Pela primeira vez, ela surge irritada, insegura e até um pouco desesperada. Catherine Zeta-Jones trabalha essa rivalidade com enorme presença de palco. Velma olha para Roxie com desprezo, mas também com medo. Existe outra mulher ocupando o espaço que antes lhe pertencia.

O filme usa essa disputa para construir boa parte do humor. Roxie começa a agir como celebridade antes mesmo do julgamento acontecer. Dá entrevistas, posa para fotógrafos e distribui autógrafos enquanto continua presa por assassinato. Existe algo de profundamente absurdo nessa situação e “Chicago” aproveita esse absurdo sem perder o ritmo.

Tribunal vira espetáculo

Rob Marshall transforma os tribunais e salas de imprensa em extensões do palco musical. Os números musicais aparecem ligados à imaginação de Roxie e ajudam a revelar como ela enxerga a própria ascensão pública. Quando Billy Flynn manipula jornalistas, por exemplo, a cena vira uma apresentação teatral cheia de coreografias e aplausos imaginários. A música não interrompe a narrativa. Ela ajuda a mostrar vaidade, ambição e fantasia dentro da cabeça dos personagens.

Renée Zellweger segura bem o crescimento de Roxie ao longo da história. No começo, ela parece insegura e perdida naquele universo. Depois passa a gostar da atenção recebida. Quanto mais fotógrafos aparecem, mais ela deseja permanecer no centro das manchetes. Existe até uma certa ingenuidade infantil em seu comportamento. Roxie acredita que fama pode resolver qualquer vazio da própria vida.

Enquanto isso, Amos Hart continua quase invisível para todos ao redor. John C. Reilly transforma o marido traído em uma figura triste e até cômica. Amos tenta defender Roxie, oferece apoio emocional e permanece ao lado dela quando ninguém mais demonstra interesse verdadeiro. O problema é que sua honestidade pouco chama atenção naquele ambiente dominado por escândalo e performance pública.

A cidade consome escândalos

“Chicago” funciona muito porque observa uma cidade fascinada por tragédias transformadas em entretenimento. Jornalistas aguardam novas informações na porta do tribunal quase como fãs esperando artistas saírem de um hotel. Cada assassinato vira assunto do dia até surgir outro caso mais chamativo ocupando espaço nas manchetes.

O filme também mantém um ritmo leve mesmo trabalhando crimes violentos. As músicas surgem com energia contagiante e ajudam a construir uma atmosfera extravagante. Catherine Zeta-Jones domina várias dessas sequências com enorme segurança. Sua Velma Kelly possui arrogância, charme e ressentimento na medida certa. Ela quer recuperar a atenção perdida e luta por isso até os últimos momentos.

Rob Marshall cria um musical cheio de brilho, mas deixa evidente o vazio por trás daquela fama fabricada. Roxie passa boa parte da história acreditando que reconhecimento público finalmente dará sentido à sua vida. Quando percebe que a imprensa começa a procurar novos escândalos, surge a sensação amarga de que celebridade pode desaparecer na mesma velocidade em que surgiu.

“Chicago” termina mantendo o espírito sarcástico que atravessa toda a narrativa. Roxie e Velma dividem o palco depois de passarem pela prisão, pelos jornais e pelo tribunal. As duas finalmente conseguem aquilo que desejavam desde o começo. A plateia aplaude enquanto assassinas viram estrelas de teatro diante de uma cidade completamente fascinada pelo espetáculo.


Filme: Chicago
Diretor: Rob Marshall
Ano: 2002
Gênero: Comédia/Crime
Avaliação: 4/5 1 1
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