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“Starman — O Homem das Estrelas”, dirigido por John Carpenter, começa com uma mensagem terrestre lançada ao espaço pela Voyager 2 e uma resposta que os militares recebem como ameaça. A nave é abatida, o visitante cai em Wisconsin e encontra abrigo na casa de Jenny Hayden, interpretada por Karen Allen. Ali, ele assume a aparência de Scott, o marido morto dela. Jeff Bridges interpreta esse ser que precisa chegar ao Arizona em três dias, antes que o corpo copiado deixe de servir. Jenny tem o carro, conhece o terreno e se torna peça obrigatória numa fuga vigiada. Charles Martin Smith aparece como Mark Shermin, cientista que acompanha a operação sem repetir inteiramente a postura de caça adotada por George Fox.

A premissa poderia seguir pelo caminho da explicação alienígena, da tecnologia ou do espetáculo. Carpenter a puxa para o lado oposto. Depois da queda, o problema passa a caber numa casa, num rosto conhecido e numa mulher que precisa reagir ao impossível sem ter tempo para processá-lo. O visitante não escolhe qualquer forma humana. Ele ocupa o corpo de Scott. Essa decisão muda tudo para Jenny, porque o desconhecido não se apresenta apenas como invasor. Ele aparece com a pele, a voz e o peso físico de uma ausência recente.

O rosto do morto

Bridges compõe o visitante como alguém que chegou ao corpo antes de entender sua rotina. A fala sai com atraso, os movimentos parecem aprendidos por observação, a cabeça procura respostas no ambiente antes de reagir. A interpretação não depende de exagero. Ela trabalha na diferença entre parecer Scott e não saber ser Scott. Para Jenny, esse intervalo é o incômodo central. O homem diante dela tem o corpo do marido, mas não possui a memória compartilhada, a intimidade construída, os reflexos de quem viveu com ela.

Essa distância mantém a relação sob controle dramático. Jenny não aceita o visitante por encanto imediato. Primeiro há medo. Depois há cálculo. Ela precisa dirigir, medir riscos, avaliar quando fugir, quando obedecer, quando falar, quando calar. A mudança de posição não acontece porque o perigo desaparece. Acontece porque a estrada impõe problemas sucessivos e porque o visitante, mesmo usando o rosto de Scott, depende dela para sobreviver ao país que acabou de recebê-lo com tiros.

O humor nasce dessa inadequação. O alienígena testa gestos, imita comportamentos e entra em situações sociais sem dominar suas regras. Um erro numa lanchonete, uma reação fora de hora ou uma tentativa de se ajustar ao mundo humano pode aliviar a cena por alguns instantes, mas também pode chamar atenção. A comédia não fica solta. Ela serve ao risco da fuga. Quando o visitante erra, Jenny precisa corrigir, proteger ou sair dali antes que a presença dos dois seja notada.

A rota até Winslow

A viagem de Wisconsin ao Arizona dá ao filme uma estrutura simples e eficiente. O carro aproxima Jenny e o visitante porque reduz o espaço entre eles. A estrada abre o mapa, mas cada parada estreita as alternativas. Postos, motéis e lanchonetes oferecem pausa, comida e abrigo, mas também criam exposição. O prazo de três dias impede dispersão. Não se trata apenas de atravessar o país. O atraso vira ameaça física para o visitante e aumenta a chance de captura.

Carpenter usa a ficção científica sem deixar que ela ocupe todo o quadro. A nave, a mensagem espacial e as esferas do alienígena existem, mas o filme avança por deslocamentos materiais. Alguém precisa dirigir. Alguém precisa esconder a própria estranheza em público. Alguém precisa decidir se continua ajudando quando a polícia e os agentes federais se aproximam. A escala maior fica do lado de fora, no aparato de busca. Dentro do carro, a pergunta é mais direta. Como manter em movimento uma pessoa que não entende bem o mundo em que caiu?

O núcleo oficial funciona melhor quando Mark Shermin entra em atrito com a lógica de eliminação. George Fox reduz o visitante a problema de segurança. Shermin observa, questiona, procura entender. Essa diferença ajuda a quebrar a perseguição automática, embora a parte governamental seja menos rica que o percurso de Jenny. Quando o filme volta para o carro, para as paradas e para o corpo copiado de Scott, recupera o centro. Ali, cada decisão tem consequência imediata.

A direção de Carpenter se mostra mais interessante justamente por aceitar essa redução. A transformação inicial não vale apenas pelo efeito. Ela coloca Jenny diante de uma presença que impede resposta simples. A estrutura de estrada não é cenário decorativo. Ela obriga os personagens a resolverem problemas pequenos que acumulam risco. A atuação de Bridges não serve só para marcar estranhamento. Ela muda o modo como Jenny lê o passageiro. Karen Allen, por sua vez, evita transformar Jenny numa acompanhante passiva. A personagem resiste, recua, calcula e só passa a cooperar quando a convivência lhe dá razões concretas para isso.

“Starman — O Homem das Estrelas” ocupa um lugar particular na filmografia de Carpenter porque troca o confinamento e a ameaça frontal por uma fuga em movimento. O perigo não desaparece. Ele muda de forma. Está no prazo que encurta, na denúncia possível, no gesto mal executado, na parada errada, no rosto de Scott ocupando o banco ao lado. A perseguição oficial tem simplificações, e alguns obstáculos externos parecem existir apenas para empurrar a rota adiante. Mesmo assim, o filme se sustenta quando mantém juntos três elementos muito claros: o corpo copiado, a estrada para Winslow e a necessidade de chegar antes que o tempo acabe.

O romance, quando aparece, não apaga o começo duro da relação. Ele nasce de dependência, convivência e exposição ao risco. Jenny não leva um ideal para o Arizona. Leva alguém que precisa dela para atravessar postos, lanchonetes, motéis e bloqueios. Carpenter entende que a situação já é forte sem precisar ser explicada demais. Uma mulher dirige por estradas americanas ao lado de um estrangeiro que tem o rosto do marido morto. O resto cabe no banco do passageiro e no carro.


Filme: Starman — O Homem das Estrelas
Diretor: John Carpenter
Ano: 1984
Gênero: Ficção Científica
Avaliação: 4/5 1 1
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