Poucas comédias românticas dos anos 2000 envelheceram tão bem quanto “O Amor Não Tira Férias”. Nancy Meyers pega uma ideia extremamente simples, duas mulheres emocionalmente cansadas trocando de casa durante as festas de fim de ano, e transforma isso numa história confortável, espirituosa e bastante sensível sobre solidão adulta. Sua maior qualidade é a maneira cuidadosa com que observa pessoas feridas tentando sobreviver aos próprios sentimentos sem transformar tudo em tragédia.
Iris Simpkins (Kate Winslet) trabalha no Daily Telegraph, em Londres, escrevendo uma coluna sobre casamentos enquanto alimenta uma paixão antiga e desgastante por Jasper Bloom (Rufus Sewell). Ele mantém Iris emocionalmente presa durante anos. Telefona quando quer companhia, promete mais do que entrega e mantém sempre uma porta entreaberta para que ela permaneça disponível. A situação fica insustentável quando Jasper anuncia o noivado durante uma confraternização do jornal. Iris sai da festa humilhada, atravessa ruas congeladas e volta para a pequena casa onde vive sozinha no interior inglês tentando encontrar qualquer distração possível.
Do outro lado do oceano, Amanda Woods (Cameron Diaz) vive uma crise completamente diferente. Dona de uma agência de publicidade especializada em trailers de cinema, ela mantém uma rotina acelerada em Los Angeles e parece controlar tudo ao redor com precisão quase empresarial. Quando descobre a traição do namorado Ethan (Edward Burns), a reação dela não vem através de lágrimas ou grandes cenas dramáticas. Amanda simplesmente perde a paciência. Cameron Diaz interpreta essa rigidez emocional de forma divertida. Amanda fala depressa, organiza a vida inteira em agendas e reage ao sofrimento tentando transformar sentimentos em tarefas administrativas. Funciona por alguns dias. Depois desmorona.
Troca de casas
As duas se conhecem através de um site de troca de residências para férias. Amanda decide viajar para a Inglaterra impulsivamente. Iris aceita passar alguns dias em Los Angeles tentando respirar longe de Jasper. Nancy Meyers constrói essa mudança de cenário com enorme atenção aos espaços. A pequena casa de Iris parece saída de um cartão-postal natalino. A mansão de Amanda, cercada por vidro e tecnologia, transmite conforto absoluto e um silêncio quase artificial. O contraste ajuda a explicar quem são aquelas mulheres antes mesmo que elas falem muito sobre si.
Novos romances
A chegada de Amanda na Inglaterra provoca uma das melhores entradas masculinas das comédias românticas daquela década. Graham (Jude Law), irmão de Iris, aparece bêbado na porta da casa acreditando que a irmã ainda está hospedada ali. O encontro começa torto. Amanda tenta manter distância. Graham insiste em permanecer mais alguns minutos. Jude Law trabalha o personagem com um charme quase irritante de tão eficiente. Ele sorri demais, fala baixo demais e parece sempre confortável em qualquer situação. Só que o roteiro logo revela que Graham também carrega dificuldades pessoais importantes, especialmente ligadas à vida familiar que tenta administrar longe da curiosidade alheia.
Enquanto isso, Iris descobre uma Los Angeles menos glamourosa do que imaginava. Ela ocupa a mansão luxuosa de Amanda, dirige por avenidas enormes e passa boa parte do tempo tentando entender o vazio daquela rotina cercada de conforto. É nesse período que ela conhece Miles (Jack Black), compositor de trilhas sonoras e amigo do ex-namorado de Amanda. Jack Black desacelera completamente sua energia habitual. Em vez do sujeito espalhafatoso de outras comédias, ele interpreta um homem gentil, confuso e emocionalmente disponível. Miles conversa sobre filmes antigos, música e romances fracassados com uma naturalidade rara nesse tipo de produção.
O relacionamento entre Iris e Miles funciona porque Nancy Meyers permite que os dois passem tempo juntos sem pressa. Eles caminham, conversam, assistem a filmes e criam intimidade aos poucos. Iris também desenvolve uma amizade muito bonita com Arthur Abbott (Eli Wallach), um roteirista veterano da velha Hollywood que vive praticamente isolado. Arthur se transforma numa espécie de guia emocional da personagem. Não através de discursos grandiosos, mas por pequenos conselhos dados durante almoços, caminhadas e cerimônias nostálgicas ligadas ao cinema clássico.
Comédia inteligente e boa direção
Existe algo particularmente inteligente na maneira como “O Amor Não Tira Férias” observa relações amorosas depois dos 30 anos. Nancy Meyers não cria protagonistas ingênuas esperando príncipes encantados. Amanda possui dificuldade real em demonstrar vulnerabilidade. Iris aceita migalhas emocionais durante anos porque teme ficar sozinha. Graham esconde partes importantes da própria vida logo no início do romance. Miles também vive preso a um relacionamento antigo que insiste em voltar. Ninguém ali parece emocionalmente resolvido. Talvez por isso o filme continue tão agradável mesmo depois de quase duas décadas.
Os diálogos soam próximos da conversa cotidiana. Há humor em situações pequenas. Amanda tentando se adaptar ao frio inglês. Iris se perdendo nas dimensões da casa luxuosa em Los Angeles. Graham improvisando charme enquanto claramente tenta esconder o cansaço. Miles narrando a própria vida como se estivesse compondo trilhas para um filme antigo. São detalhes simples, mas que mantêm os personagens vivos durante toda a duração.
Nancy Meyers também sabe trabalhar o tempo da narrativa. As cenas respiram. Os encontros duram mais do que o esperado. Os silêncios permanecem em quadro alguns segundos extras. Isso dá ao público a sensação de acompanhar pessoas reais tentando reorganizar a vida sentimental durante um período do ano que costuma intensificar carência, nostalgia e ansiedade.
“O Amor Não Tira Férias” termina deixando uma sensação rara para comédias românticas daquele período. Não existe pressa para convencer o espectador de que tudo virou perfeição absoluta. Os personagens seguem imperfeitos, inseguros e emocionalmente bagunçados em muitos aspectos. Ainda assim, algo mudou. Iris finalmente percebe quanto tempo desperdiçou esperando migalhas de Jasper. Amanda baixa a guarda pela primeira vez em muito tempo. E Graham abre a porta de casa durante a noite de Ano-Novo sem precisar esconder quem realmente é.

