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A mão de Ptolomeu põe Alexandre em ordem antes que o exército avance. Ele fala no Egito, um escriba registra, e o rei macedônio surge como alguém já transformado em relato. Em “Alexander Revisited”, versão remontada de “Alexander”, Oliver Stone retorna ao conquistador interpretado por Colin Farrell, com Angelina Jolie como Olímpia, Val Kilmer como Filipe e Jared Leto como Heféstion. A vida que se organiza sobre a mesa é a de um homem que sai da Macedônia, derrota a Pérsia, ocupa palácios, atravessa territórios hostis e leva soldados cada vez mais longe de casa.

A decisão de abrir espaço cedo para a campanha militar dá à versão de 2007 uma entrada mais firme. Gaugamela não aparece só como massa de figurantes e ruído épico. Há terreno, formação, deslocamento, espera, ataque. A falange empurra, a cavalaria procura passagem, Alexandre se coloca no ponto em que uma ordem pode custar a vida de muita gente. A cena tem clareza porque se apoia em uma necessidade simples, vencer antes que a própria máquina de guerra se desfaça.

Depois vêm os retornos à Macedônia. A infância, a mãe, o pai, Aristóteles, o palácio, o cavalo. Stone encaixa melhor esses pedaços do que na versão exibida originalmente, e isso ajuda a entender a pressão que acompanha Alexandre antes da primeira grande vitória. O preço é a insistência. A cada volta, mais uma origem é colocada sobre a mesa. Mais uma explicação cerca o personagem. O filme parece desconfiar da força da marcha e volta ao passado para reforçar o que já estava se formando nos corpos dos soldados e na relação de Alexandre com o comando.

O pátio e o quarto

Bucéfalo entra como uma presença mais útil que muita fala. O cavalo exige aproximação, risco, domínio, e deixa o jovem Alexandre diante de algo que não se conquista com discurso. A montaria, depois associada ao campo de batalha, dá ao rei uma dimensão física que o palácio não oferece. Ali há peso, força, animal, queda possível.

Com Olímpia, o espaço muda. As serpentes não ficam como adereço exótico. Elas ocupam o quarto, aproximam o poder de uma intimidade sufocante e fazem a política passar por dentro da casa antes de chegar à coroa. Angelina Jolie trabalha essa pressão de modo frontal. Sua Olímpia não ronda o filho apenas como lembrança de origem. Ela empurra Alexandre para um destino que parece já estar sendo cobrado dentro da família.

Filipe, vivido por Val Kilmer, torna esse ambiente menos cerimonial. A relação com o filho tem aspereza, disputa, humilhação. O jovem que doma o cavalo e escuta lições míticas cresce entre admiração e choque. Colin Farrell precisa carregar tudo isso depois, já adulto, no campo, na corte, no casamento e diante dos homens que o seguem. Nem sempre consegue. Há energia no ator, mas o papel pede uma autoridade que várias cenas parecem exigir antes que ela apareça. Quando Alexandre precisa convencer soldados exaustos ou sustentar uma ordem em voz alta, a distância entre o homem e a estátua fica exposta.

A voz de Ptolomeu tenta reduzir essa distância. Ela organiza nomes, deslocamentos, campanhas, vínculos. Também interrompe. Há momentos em que a imagem já tem informação suficiente, um salão ocupado, um exército parado, a reação dos macedônios diante dos costumes persas, e a narração volta para fechar a margem. O velho sobrevivente controla o relato, mas sua presença constante tira ar de passagens que poderiam permanecer mais ásperas.

A remontagem ganha corpo nas relações que a versão mais curta havia deixado menos assentadas. Heféstion fica mais próximo de Alexandre, não como simples acompanhante nobre. Bagoas ocupa espaço diante da corte. Roxana surge no casamento como presença perigosa, não como peça diplomática dócil. A lâmina que ela ergue contra Alexandre põe o conflito em escala de quarto, longe da falange, perto do corpo.

Dança diante dos soldados

Quando Bagoas dança, a corte observa. Roxana também. Heféstion também. A sexualidade de Alexandre deixa de parecer apenas um dado sussurrado e passa a circular em público, sob olhares que medem ciúme, posição e lealdade. Stone pesa a mão em alguns desses momentos, como costuma acontecer quando quer transformar cada vínculo em sinal visível. Mesmo assim, a versão de 2007 permite que desejo, casamento e comando dividam o mesmo espaço, sem fingir que a vida íntima de Alexandre corre separada da política da corte.

A campanha indiana leva esse acúmulo para outra temperatura. Os elefantes mudam a cena de batalha. Já não se trata apenas de homens contra homens, linhas contra linhas. A guerra fica maior, mais desordenada, menos controlável. Alexandre é ferido, e a cor se altera de modo brusco, com o vermelho tomando o campo. O avanço militar, que em Gaugamela ainda podia parecer cálculo e impulso, ali encontra carne aberta, animal em pânico, soldado perdido.

O limite aparece antes que o filme pare. Os generais contestam, os homens se cansam, a distância percorrida pesa. Alexandre ainda quer seguir. O exército já não responde ao sonho do comandante com a mesma obediência. Essa tensão bastaria por si. Um rei aponta para frente, seus soldados olham para trás. Stone prolonga a caminhada, talvez porque a própria versão remontada também pareça incapaz de recuar quando já encontrou seu ponto de desgaste.

A duração, por isso, não é só uma informação de catálogo. Ela bate no corpo da crítica que se faz ao filme. Há trechos em que os minutos a mais devolvem sentido a personagens, tornam a campanha mais compreensível e deixam a corte menos esquemática. Em outros, o excesso se soma ao cansaço dos homens em cena. A marcha continua, e a plateia também precisa continuar.

“Alexander Revisited” melhora “Alexander” sem apagar sua desproporção. As batalhas aparecem com contorno mais preciso. Olímpia, Filipe, Heféstion, Bagoas e Roxana deixam marcas mais nítidas ao redor do rei. O choque entre a vontade de Alexandre e o limite dos soldados ganha uma forma mais concreta. Mas Farrell segue menor que certas exigências do papel, Ptolomeu fala demais, e Stone parece sempre disposto a acrescentar mais um bloco antes de aceitar que a campanha já passou do ponto.

No fim que não quer soar como fim, o que resta é menos um épico corrigido do que um corpo remontado com cicatrizes visíveis. A mesa do escriba, o cavalo no pátio, as serpentes no quarto, a lâmina de Roxana, Bagoas diante da corte, os elefantes na Índia. Stone recoloca as peças, aproxima o que antes estava disperso e entrega uma versão mais rica. Também deixa Alexandre marchando por tempo suficiente para que a grandeza venha acompanhada de exaustão.


Filme: Alexander
Diretor: Oliver Stone
Ano: 2004
Gênero: Ação/Biografia/Drama/História
Avaliação: 3/5 1 1
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