Desde a antiguidade, narrativas sobre seres mitológicos e os indivíduos excepcionais que com eles estabelecem alguma conexão caem no gosto do público. Poderes ocultos que desafiam a razão e constituem um atalho do humano para o divino tornam-se uma metáfora acerca da força que paira entre o céu e a terra, revelando grandeza por trás de uma aparente fragilidade. O problema sempre foi discernir o que levaria ao bem dos tantos logros do demônio, e essa singela questão supera o entendimento de muitos, despertando também o interesse de quase todos. Philip Pullman é um obcecado pelos enigmas que pairam entre o céu, a terra e além, e nas mais de quatro centenas de páginas de “Northern Lights” (“auroras do norte”, em tradução livre; 1995) o britânico destrincha algumas das várias nuanças do sobrenatural ao urdir uma fábula sobre maturidade e autorrevelações, tão salvíficas quanto perigosas. Chris Weitz faz de “A Bússola de Ouro” uma versão bastante aplicada do livro de Pullman, apostando em efeitos especiais que hipnotizam a audiência. Exatamente como sói acontecer nesses filmes.
Duplas identidades
Chega um momento na vida em que, se tínhamos alguma ilusão quanto a sermos capazes de liquidar os problemas do mundo, essa quimera de onipotência é soterrada pela inescapável verdade que arrumar nosso próprio quarto já é exaustivo o bastante. O tempo, senhor da razão e de tudo quanto há de ilógico, não para nunca, não admite ser desapontado e, caprichoso, tem as suas vontades e os seus planos para o homem. Nessa quadra da existência é que está Lyra Belacqua, a heroína que se lança rumo a uma dimensão paralela a fim de investigar o que vem acontecendo com crianças que desaparecem num lugar mágico que se assemelha à Inglaterra vitoriana. Tudo leva a crer que um tal Magistério seja o responsável, e o roteiro de Weitz abusa da mitologia grega para fornecer pistas que levem a uma explicação satisfatória. Os daimons, divindades que fazem a ponte entre os deuses e os seres humanos, costumam dar o veredito sobre culpados e inocentes, mas eles também estão confusos, e Lyra e sua habilidade com o aletiômetro, a bússola de ouro do título, podem virar o jogo. Dakota Blue Richards rouba a cena como a candidata a messias, e não é ofensivo dizer que ela e os bichos de computação gráfica são o bastante para segurar quem assiste.

