“Só se vive uma vez. Mas se você fizer direito, uma vez é suficiente”. Pouca gente no mundo poderia ter dito essa frase com tal justiça como Gabrielle Chanel (1883-1971), uma predestinada. Órfã de mãe e abandonada pelo pai aos doze anos no orfanato do convento de Aubazine, em Corrèze, sudoeste da França, Gabrielle já tinha o olhar irrequieto e a intuição mediúnica que a fariam subir alto, observando o ambiente em que crescia para desenvolver uma aptidão sem igual para encontrar beleza na desventura. Juntamente com “Jackie” (2017), “Spencer” (2021) e “Maria” (2024), as biografias romanceadas de Jacqueline Kennedy Onassis (1929-1994), Diana de Gales (1961-1997) e Maria Callas (1923-1977), a trilogia de mulheres glamorosas, atormentadas e, sobretudo, autênticas proposta pelo chileno Pablo Larraín, “Coco Antes de Chanel” compõe um manifesto orgânico acerca da posição da mulher na sociedade ao longo do século 20, sem que para isso seja necessário levantar bandeiras. Comportamento que a velha Chanel louvaria.
Novos hábitos
Guiando-se pelos livros da jornalista Edmonde Charles-Roux (1920-2016), a diretora e a corroteirista Camille Fontaine detalham a história de Chanel a partir do convento, mostrando uma garota assustadiça, frágil, ansiosa pela visita do pai que nunca a procurou. Na próxima sequência, Gabrielle é, enfim, Coco, apelido que evocava o número musical levado no bordel onde defendia uns trocados e secava garrafas de champanhe, sem faltar ao trabalho no ateliê de costura na manhã seguinte. Fontaine concentra-se nessa quadra da vida de Chanel, destacando também figuras laterais que vão surgindo e que, para o bem ou para o mal, contribuem para que ela torne-se quem é. Étienne Balsan (1880-1953), o leviano magnata da indústria têxtil interpretado por Benoît Poelvoorde, concorda em hospedá-la em sua quinta em Châteauroux, nos arredores de Paris, mas exige que ela entretenha seus amigos durante os intermináveis convescotes que promovia. É o preço a ser pago por sua grande chance.
Ninguém pode ter tudo
Imbatível, o senso prático de Coco molda seus planos e ela não vê o menor problema nesses acordos tácitos que vai fazendo, até que as coisas deixam de ser só transações comerciais. O inglês Arthur Edward Capel (1881-1919), entra em sua vida meio por acaso e a ainda costureira tem a mínima desconfiança de que Capel, o Boy, será bem mais que um amante endiabrado. Como se pode concluir pelo título, o longa mantém-se na fronteira entre o anonimato e a fama de Chanel, e as cenas com Audrey Tautou e Alessandro Nivola na pele do jogador de polo que ganha o coração da futura papisa atemporal da moda são as melhores. Coco Chanel morreu aos 87 anos, em 10 de janeiro de 1971, a desenhar novos modelos, num domingo, dia de descanso. Só assim para ela parar.

