“Alma da Festa” começa com um divórcio que desmonta uma rotina inteira em poucos minutos. Deanna (Melissa McCarthy) leva a filha Maddie (Molly Gordon) até a universidade para o início de mais um semestre quando recebe uma notícia atravessada sem qualquer delicadeza. O marido Dan (Matt Walsh) anuncia que quer se separar. Mais do que isso. Ele revela que já está envolvido com outra mulher e pretende vender a casa onde viveram durante décadas. A conversa é seca, quase burocrática, e deixa claro o tamanho do vazio na vida daquela personagem.
Durante anos, Deanna abandonou a própria formação universitária para cuidar da família. Ela construiu a rotina em torno das necessidades do marido e da filha. Quando o casamento termina, sobra uma mulher sem profissão definida, sem independência financeira e sem muita ideia do que fazer dali para frente. A decisão de voltar para a faculdade é praticamente um impulso de sobrevivência. O detalhe desconfortável é que ela vai estudar exatamente no mesmo campus da filha.
A premissa poderia render apenas uma sequência de piadas fáceis sobre mães constrangedoras invadindo espaços jovens. O roteiro até flerta com isso em alguns momentos. Ainda assim, o filme encontra situações mais interessantes quando percebe que Deanna não quer parecer adolescente outra vez. Ela quer descobrir quem é fora do casamento. Existe diferença entre as duas coisas, e Melissa McCarthy entende bem essa nuance.
A mãe fora de controle
Maddie passa boa parte do filme tentando administrar os danos sociais causados pela presença da mãe na universidade. Ela teme virar alvo de comentários nos dormitórios, nas festas e até nas salas de aula. O constrangimento cresce porque Deanna não chega ao campus discretamente. Ela conversa com desconhecidos, participa de festas universitárias, faz amizade com colegas mais novos e se joga em experiências que ficaram interrompidas décadas antes.
Melissa McCarthy trabalha melhor quando desacelera o exagero. Em vez de transformar Deanna numa caricatura ambulante, a atriz cria uma mulher genuinamente empolgada por descobrir ambientes que nunca frequentou com liberdade. Algumas cenas funcionam justamente por causa desse entusiasmo desajeitado. Em uma festa promovida por fraternidades, por exemplo, Deanna tenta acompanhar estudantes vinte anos mais novos enquanto bebe além da conta e insiste em permanecer no centro das atenções. A sequência é engraçada porque existe tristeza escondida naquele comportamento. Ela não quer apenas se divertir. Quer provar para si mesma que ainda consegue ocupar espaços sem depender de ninguém.
Maddie, por outro lado, reage com irritação crescente. Molly Gordon constrói uma personagem que oscila entre vergonha, proteção e culpa. Em alguns momentos, ela parece cruel com a mãe. Em outros, apenas cansada de dividir todos os ambientes da própria juventude com alguém que insiste em participar de tudo.
Corredores, festas e liberdade
Grande parte da história acontece dentro do campus universitário. Dormitórios, bibliotecas, bares estudantis e festas funcionam quase como um parque de diversões tardio para Deanna. O filme aproveita bem esse ambiente porque existe um choque constante entre gerações. Enquanto os alunos vivem preocupados com relacionamentos passageiros e pequenas disputas sociais, Deanna carrega problemas muito maiores. Ela precisa reconstruir a própria vida depois de décadas vivendo para os outros.
Essa diferença aparece até nos romances. Quando um estudante mais jovem demonstra interesse por Deanna, a relação provoca desconforto em Maddie. A filha vê a situação como mais uma invasão da mãe no território universitário. Já Deanna encara aquilo como uma chance rara de se sentir desejada outra vez depois de um casamento desgastado.
Ben Falcone dirige a história sem muita sofisticação, mas mantém um ritmo leve durante quase todo o tempo. Algumas piadas se alongam além do necessário e certos personagens secundários entram apenas para alimentar situações cômicas passageiras. Ainda assim, o filme acerta ao deixar os conflitos sempre ligados à rotina da protagonista. Tudo gira em torno da tentativa de reconstruir uma identidade perdida dentro do ambiente doméstico.
Uma segunda chance tardia
Existe algo bastante humano em “Alma da Festa” quando a comédia abandona a necessidade de arrancar gargalhadas o tempo inteiro. Os melhores momentos aparecem em cenas pequenas. Deanna estudando até tarde. Deanna tentando entender aplicativos modernos. Deanna percebendo que passou anos anulando desejos pessoais para manter a estabilidade da família.
Matt Walsh interpreta Dan quase como um homem comum incapaz de perceber o tamanho da dependência emocional criada dentro do casamento. Ele não age como grande vilão. Age como alguém acomodado demais para enxergar o impacto das próprias decisões. Isso deixa a história menos artificial e ajuda o filme a manter os pés no chão mesmo durante as situações mais absurdas.
“Alma da Festa” talvez não alcance a força emocional de outras comédias sobre recomeços tardios, mas encontra honestidade em sua protagonista. Melissa McCarthy segura o filme porque Deanna não busca a juventude perdida. Ela procura dignidade, independência e algum controle sobre a própria vida depois de passar décadas vivendo como apoio invisível da família. Quando a personagem atravessa os corredores da universidade sem pedir licença para ninguém, aquela mudança deixa de ser apenas um capricho universitário. Passa a ser uma ocupação de espaço que ela nunca teve coragem de reivindicar antes.

