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Filmes são, em geral, indicadores de precisão quase imbatível quanto a apontar as mudanças pelas quais as sociedades ao redor do mundo anseiam, bem como são capazes de, antes que nos deixemos fazer presas do louvor estúpido por possíveis novos serviços e ideias, elencar uma infinidade de motivos bastante pertinentes (e elementares) quanto à impropriedade e mesmo aos perigos ocultos de tais revoluções. O trabalho remoto e a automação barraram as fronteiras da intimidade. As máquinas fazem questão de lembrar-nos de nossos defeitos e, assim, acabamos de tal modo vexados de nossa pobre humanidade que a encobrimos. Rebecca Eskreis denuncia o engano de se encarar a tecnologia como uma poção mágica para curar as dores do espírito, e a ficção científica entra como parte central de uma necessária glosa à pós-modernidade insana em que nos metemos. “A Vingança não É um Jogo” explora boas possibilidades do argumento, divagando sobre os cérebros eletrônicos que nos rodeiam, tão poderosos que mudar a vida de uma pessoa.

Na alegria e na tristeza 

É cada vez mais difícil tentar prever até onde chegará a inteligência artificial e todas as falsas urgências de que a encarregamos sem trégua. Tanto que não é nenhum absurdo que ansiemos por um milagre onde só existe lógica, necedade cada vez mais comum entre gente de todas as classes sociais, malgrado nas elites o fenômeno tenha minudências invulgarmente patéticas. Nora e o marido, Michael, recebem amigos à beira de uma sedutora piscina no feriado de Primeiro de Maio, e parece que tudo seguirá sem intercorrências. Minutos depois tudo muda, e o roteiro de Seana Kofoed, também uma das produtoras, concentra-se no infortúnio que leva a protagonista a mil questionamentos acerca de tudo quanto escapa ao nosso controle, e um ano mais tarde, Nora e Michael não estão mais juntos. Eskreis assume sua intenção de brincar com clichês do gênero, mirando longas a exemplo de “Ela” (2013), dirigido por Spike Jonze, ou “Ex_Machina: Instinto Artificial” (2014), de Alex Garland, enquanto os personagens de Rebecca Creskoff e Rob Benedict marcam visões opostas diante do luto. A meticulosa interpretação de Creskoff impede que Nora seja a caricatura de uma histérica, até que “A Vingança não É um Jogo” faça justiça ao nome, finalmente.


Filme: A Vingança não É um Jogo
Diretor: Rebecca Eskreis
Ano: 2024
Gênero: Comédia/Mistério/Suspense
Avaliação: 4/5 1 1
Giancarlo Galdino

Depois de sonhos frustrados com uma carreira de correspondente de guerra à Winston Churchill e Ernest Hemingway, Giancarlo Galdino aceitou o limão da vida e por quinze anos trabalhou com o azedume da assessoria de políticos e burocratas em geral. Graduado em jornalismo e com alguns cursos de especialização em cinema na bagagem, desde 1º de junho de 2021, entretanto, consegue valer-se deste espaço para expressar seus conhecimentos sobre filmes, literatura, comportamento e, por que não?, política, tudo mediado por sua grande paixão, a filosofia, a ciência das ciências. Que Deus conserve.

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