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Filmes que, de uma forma ou de outra, tratam do homem, sua interação com o ambiente e as consequências mais deletérias desse fenômeno já se tornaram o clichê por excelência do cinema hoje. Parece que diretores de todas as colorações ideológicas, que professam fés as mais variadas, com visões de mundo mesmo incoerentes com o ofício de que tiram o sustento são, de quando em quando, acometidos de uma descrença fundamental da vida, que, ao menos naquela quadra de sua história, redunda em trabalhos de teor escatológico em maior ou menor proporção. Esquecido, Stuart Gordon (1947-2020) foi um desses nomes, e “From Beyond” estica o quanto pode a corda da incorreção política e bate firme no comportamento de rebanho, daquele jeitinho que costuma fazer o terror. Vesano, o roteiro de Brian Yuzna e Dennis Paoli dá vida à trama homônima de um mestre, o papa do dito horror cósmico, calcado no medo do que não se conhece nem se pode entender, sentimento que evolui para a conclusão de que o homem é mesmo um grão de pó no universo. 

Origem nobre e controversa

Criador de uma verdadeira mitologia, povoada por criaturas monstruosas e uma perene atmosfera de paranoia, Howard Phillips Lovecraft (1890-1937) teve influência direta sobre Stephen King e Alan Moore, por exemplo. A genialidade de Lovecraft, porém, não foi capaz de imunizá-lo contra a praga do politicamente correto, e a ignorância escalou a tal ponto que chegou-se à necessidade de mudar o troféu do World Fantasy Award, um dos mais prestigiosos da ficção fantástica, que reproduzia seu busto. Grandes escritores, como todos os seres humanos, são produtos de seu tempo; entretanto as abjetas revisões sob o imediatismo do olhar pós-moderno metamorfoseiam a relevância de Lovecraft em preconceito, estranheza, má vontade, e é um fadigoso exercício imaginar se ele manteria uma carreira sem amargar críticas pessoais e ferrenho combate a declarações equivocadas no que toca a assuntos como supremacia branca e a inferioridade de judeus, negros e imigrantes na constituição do povo americano. Gordon deixa tudo isso de lado — até porque nada disso ganhava a devida atenção quarenta anos atrás — e fixa-se no enredo, ilustrado por efeitos especiais que qualquer celular oferece.

Luxo radioso de sensações

A invenção de um certo ressonador, uma máquina que estimula a glândula pineal e possibilita a aproximação e o estudo de moradores de outras dimensões, adivinhem, foge ao controle e vermes gigantescos equipados com uma sequência de dentes pontiagudos também chegam a este plano. Crawford Tillinghast, o candidato lovecraftiano a messias, assiste a morte brutal do doutor Edward Pretorious, o cientista maluco por trás do ressonador, não suporta o trauma e vai parar num hospital psiquiátrico, de onde é resgatado por Katherine McMichaels, uma psiquiatra loira e sensual que, baseada em sua experiência, crê que Tillinghast é a única pessoa com alguma chance de enfrentar os invasores e restituir a paz na Terra, e investe nele, em muitos sentidos. Uma advertência antes dos créditos esclarece sobre cenas de sexo, mas da mesma forma que a tecnologia disponível à época, sabiamente empregada, nenhum millennial ou centennial fica escandalizado com a nudez de Jeffrey Combs e Katherine McMichaels, ostentando peças de couro ao se digladiar com aliens viscosos (!). E Ted Sorel (1936-2010) como o doutor Pretorious, batizado assim em homenagem ao herói de “A Noiva de Frankenstein” (1935), levado à tela por James Whale (1889-1957), é profético ao encarnar um pastiche romântico de Elon Musk ou Sam Altman, esses, sim, muito perigosos. 


Filme: From Beyond
Diretor: Stuart Gordon
Ano: 1986
Gênero: Ficção Científica/Terror
Avaliação: 5/5 1 1
Giancarlo Galdino

Depois de sonhos frustrados com uma carreira de correspondente de guerra à Winston Churchill e Ernest Hemingway, Giancarlo Galdino aceitou o limão da vida e por quinze anos trabalhou com o azedume da assessoria de políticos e burocratas em geral. Graduado em jornalismo e com alguns cursos de especialização em cinema na bagagem, desde 1º de junho de 2021, entretanto, consegue valer-se deste espaço para expressar seus conhecimentos sobre filmes, literatura, comportamento e, por que não?, política, tudo mediado por sua grande paixão, a filosofia, a ciência das ciências. Que Deus conserve.

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